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“A gestão de áreas contaminadas é fundamental para o município”

Nestor Kenji Yoshikawa, responsável pelo Laboratório de Resíduos e Áreas Contaminadas do IPT
São Paulo, 4 de julho de 2011- Leia abaixo uma entrevista com Nestor Kenji Yoshikawa, responsável pelo Laboratório de Resíduos e Áreas Contaminadas do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas). Ele falou sobre aspectos técnicos da remediação de áreas degradadas, a importância de políticas públicas para o setor, além de mais detalhes da atuação do IPT.
De acordo com a prefeitura, a cidade de São Paulo conta com 203 áreas contaminadas, especialmente nos bairros da Mooca e Santo Amaro. Quais são os principais desafios técnicos para a remediação delas?
. A maioria das áreas relacionadas encontra-se em locais com densa ocupação nos entornos, o que implica em dificuldades para escavação, coleta de amostras para verificação e implantação de sistemas de tratamento ou remoção, sem demolir edificações e obras de infraestrutura. Os trabalhos de investigação detalhada, bem como a execução da remediação, necessitam de estudos visando causar o menor impacto à vizinhança. Para isso é necessário compatibilizar diferentes técnicas de remediação para cada área, de modo a não provocar riscos à comunidade.
Na sua opinião, qual a importância da gestão das áreas degradadas para o desenvolvimento econômico, social e ambiental sustentável da cidade de São Paulo?
A gestão de áreas degradadas ambientalmente, e neste caso em tela, áreas contaminadas, é fundamental para o município porque são considerados os riscos à saúde da população no tocante à toxicidade; a manutenção das condições de potabilidade da água subterrânea e dos corpos de água em geral, e as diretrizes para o reaproveitamento de áreas para uso, ocupação e valorização imobiliária, visando buscar subsídios importantes ao planejamento ambiental do município para o plano diretor municipal.
O Sr. acredita que falta um plano de gerenciamento ambiental para as áreas contaminadas de São Paulo? De que maneiras o IPT pode colaborar com a administração pública para criar um ambiente mais favorável a este desenvolvimento?
Em seu escopo de trabalho, o IPT possui uma larga experiência na elaboração de planejamento e diagnóstico ambiental visando estratégias para planos diretores municipais – ou seja, avaliar o meio físico (solo/água subterrânea) para gerar cartas temáticas com as variáveis ambientais que são utilizadas como base para a gestão de áreas vulneráveis. Isso permite que entidades públicas e a comunidade em geral deem início aos estudos visando o diagnóstico das áreas degradadas.
No caso de São Paulo, a revitalização de áreas urbanas consolidadas, com infraestrutura de saneamento, energia e transportes já implantada, aliviaria a pressão imobiliária sobre áreas de mananciais e de proteção ambiental, como por exemplo a Serra da Cantareira. Uma área central contaminada, após passar por um processo de remediação, pode servir para quais tipos de uso?
Entende-se que a revitalização das áreas na Grande São Paulo traria benefícios para a cidade, pois os terrenos estão muito valorizados, sendo interessante elaborar o plano de uso e ocupação visando o desenvolvimento econômico e social. A área revitalizada, em princípio, pode ter uma utilização sem restrições, desde que o processo de remediação garanta uma qualidade ambiental em acordo com a legislação, sem riscos à saúde humana, devidamente analisada e autorizada pelo órgão ambiental – já em áreas de disposição de rejeitos (lixo, por exemplo), o seu uso é restrito.
Qual é a sua opinião sobre o FEPRAC (Fundo Estadual de Prevenção e Remediação de Áreas Contaminadas), que foi recentemente regulamentado pela CETESB? Qual a colaboração do IPT em iniciativas da CETESB de revitalização de áreas degradadas?
A iniciativa foi fundamental para dar início aos estudos e ações efetivas para sanar problemas gerados pelas áreas contaminadas a fundo perdido. Igualmente aos brownfields na Europa e Estados Unidos, em áreas com grandes dificuldades para acionar os responsáveis, o poder público promove a intervenção visando sanar problemas como a saúde da coletividade. O IPT atua com o objetivo de desenvolver métodos de análise de contaminantes, bem como pesquisas em técnicas de remediação. Como órgão ambiental, a CETESB fiscaliza e tem o papel de disseminar a prática da gestão de áreas contaminadas, desenvolvendo procedimentos para tal. O IPT, a CETESB e outros órgãos ambientais, empresas públicas e privadas, possuem uma rede para estudar, discutir e trocar experiências sobre o tema: trata-se da ReLASC Brasil, Rede Latino Americana de Prevenção e Gestão de Sítios Contaminados.
O IPT desenvolve estudos buscando soluções inovadoras para projetos de remediação de áreas contaminadas, inclusive em casos complexos. Como estas novas alternativas tecnológicas desenvolvidas pelo IPT são divulgadas? Quais seriam os exemplos mais importantes da atuação do IPT nesta área?
Os estudos dos IPT são divulgados por meio de artigos técnicos em revistas, eventos técnicos e em teses acadêmicas dos seus bolsistas. Temos como exemplos mais relevantes o projeto de pesquisa para validação de tecnologias de remediação de contaminação de áreas por organoclorados (agrotóxicos) e tecnologias de investigação para compostos derivados de petróleo.
Como o IPT combina análises de avaliação de riscos à saúde humana com a modelagem numérica de aquíferos para a tomada de decisões em projetos de remediação? Quais são os modelos numéricos normalmente utilizados?
A análise de risco à saúde humana e a modelagem numérica de aquíferos são etapas necessárias para o projeto de remediação. Cada etapa pode gerar pesquisas específicas dependendo da complexidade do terreno, hidrologia/hidrogeologia e características do contaminante. Os modelos numéricos são baseados na simulação da condição real do comportamento do aquífero subterrâneo e sua mobilidade, por meio de softwares computacionais como os programas Modflow e GMS (Groundwater modeling solution).
O senhor acredita que a CETESB deveria tornar obrigatório o uso modelos numéricos nos projetos de remediação de áreas contaminadas? Por quê?
Os modelos numéricos são ferramentas que puderam ser utilizadas com o advento dos computadores. Ao longo do tempo estes se tornaram mais acessíveis e os programas mais amigáveis, permitindo a disseminação da técnica. Os modelos auxiliam e facilitam a análise, mas isso não implica a obrigação de sua utilização.