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ENTREVISTA EXCLUSIVA :

Teddy Lalande, da Dixie Toga, fala sobre os projetos de sustentabilidade da empresa.

Fator: Qual o conceito utilizado pela Dixie para a gestão dos seus resíduos industriais?

Teddy Lalande – A Dixie Toga é um das maiores fabricantes de embalagens da América Latina. Atende principalmente os mercados de alimentos, higiene pessoal e limpeza, bebidas, tabaco, farmacêutico e cosmético, e fornece para diversas empresas do Brasil e do exterior. Faz parte da Bemis Company Inc e possui 10 unidades fabris no Brasil e na Argentina. Para a gestão dos seus resíduos industriais, segue os princípios de responsabilidade e de melhoria continua. A produção de embalagens gera quantidades significativas de resíduos que são chamados de aparas de produção. Uma forma simples de gestão seria destinar estas aparas, não-perigosas e inertes, para aterros controlados. Mas a DT não se limita a atender os requisitos legais ou a seguir um sistema de gestão que evite passivos. Vai além. Trata os resíduos como co-produtos e trabalha para que sejam reaproveitados como matéria-prima em outras indústrias. Sempre na busca de formas de reaproveitamento mais nobres, participou do desenvolvimento de técnicas inovadoras. Também, os departamentos de marketing, comerciais e de desenvolvimento de produto consideram a questão da reciclabilidade das embalagens já “na fonte”, com base em dados técnicos. Hoje, a DT acumulou bons conhecimentos quanto à reciclagem dos diversos tipos de embalagem. Mais de 95% das suas aparas são reaproveitadas e já foi estabelecido um objetivo de médio prazo: “aterro zero”.

Fator: Na sua opinião, quais são os desafios e as oportunidades da indústria com relação ao meio ambiente?

Teddy Lalande – As pressões e exigências ambientais da sociedade para a indústria estão crescendo. Este crescimento está relacionado a temas como o aquecimento global ou a crise do petróleo, que, aliás, são assuntos ligados. Frente a esta situação, a melhor estratégia é provavelmente tentar transformar os desafios ou as ameaças em oportunidades, de forma proativa. Para isso, é preciso desenvolver e colocar em prática uma visão de longo prazo. Este critério de longo prazo é bastante importante, até para manter a competitividade. Primeiro, porque é inerente ao conceito de sustentabilidade. Segundo, porque os projetos de ecoeficiência em geral costumam apresentar tempos de retorno considerados longos nos padrões industriais ou porque tendem a exigir investimentos pesados. Assim, nos processos de decisão, é importante tentar integrar aspectos como o futuro aumento do custo da energia ou de recursos não-renováveis como o petróleo, ou ainda o aparecimento de novas exigências legais como por exemplo para as emissões atmosféricas. Paralelamente, uma melhor avaliação dos ganhos intangíveis seria necessária, como aqueles relacionados à percepção dos clientes, ou ao bem-estar e à motivação dos funcionários. E mudanças internas na indústria podem demorar não somente por questões técnicas e administrativas, mas também por causa dos tempos de mudança dos paradigmas culturais, comportamentais.

Fator: Diversas pesquisas realizadas, a mais recente do Ibope Mídia, revelam que a maior parte dos consumidores está disposta a pagar mais por um produto que seja ambientalmente correto. Como a Dixie pretende se posicionar no mercado com relação a isso e como é possível agregar valor ambiental aos produtos da empresa?

Teddy Lalande – Várias pesquisas, como do Insituto Akatu, mostraram também recentemente que ainda há uma grande discrepância entre a preocupação do consumidor com a responsabilidade socioambiental das empresas e a inclusão prática desta preocupação nas suas decisões de compra. Os estudos mostram também que esta discrepância é particularmente acentuada no Brasil. A DT é uma empresa B2B, não atua diretamente com o consumidor final. Assim, trabalha em conjunto com seus clientes industriais para integrar as questões ambientais no desenvolvimento das embalagens. É essencial que este trabalho seja desenvolvido e comunicado de forma tecnicamente correta, para garantir ao consumidor final que a empresa, além de ser uma organização consciente e responsável, trata o assunto de forma transparente visando efetivamente minimizar os impactos ambientais.

Fator: Quais as principais ações de sustentabilidade praticadas pela Dixie?

Teddy Lalande – Em relação à gestão ambiental interna, a DT trabalha para melhorar equipamentos, processos e comportamentos. As ações abrangem os temas clássicos como o consumo de água, o lançamento de efluentes, o consumo de energia, a geração de resíduos ou o desperdício. Em relação ao produto em si, podemos citar o exemplo da certificação FSC (Forest Stewardship Council). A DT está produzindo embalagens de cartão com a certificação FSC, garantindo que a matéria-prima utilizada é oriunda de bom manejo florestal, tanto ambiental como social. Além disso, já implantou e continua desenvolvendo diversos projetos para redução do consumo de material por unidade de produto em vários tipos de tecnologia, para rígidos, flexíveis ou cartonados. Falando de responsabilidade social, a DT apóia e desenvolve vários programas de inclusão social, como o incentivo à leitura, por meio de patrocínio e doação de livros infantis, a realização de peças teatrais para crianças carentes, a realização de oficinas culturais para moradores de rua com o objetivo de ensinar um ofício a eles, o Museu de Arte Jovem DT, um projeto de inclusão social por meio da arte, o Recicle por Uma Vida Melhor, um programa de coleta seletiva que visa além de conscientizar os funcionários e comunidade sobre a importância da coleta seletiva, utilizar a verba adquirida com a venda deste material para construção de obras para comunidades carentes, entre outros. Segue também as práticas de boa governança corporativa da Sarbanes-Oxley.

Fator: Qual a posição da Dixie com relação à Política Nacional de Resíduos Sólidos, que tramita no Congresso Nacional?

Teddy Lalande – Esta PNRS está tramitando há mais de 15 anos e ainda não saiu do papel. Quando sancionada, sua aplicação prática dependerá ainda de regulamentações que ainda provavelmente demorarão anos para serem aprovadas. Uma boa gestão dos resíduos traz benefícios ambientais, sociais e econômicos. O caso da PNRS é um exemplo típico de que simplesmente não dá para esperar o governo brasileiro definir o rumo. Tem que haver pro atividade.

Fator: Como grandes clientes impactam na sustentabilidade da Dixie? E como a Dixie impacta na sustentabilidade de seus fornecedores?

Teddy Lalande – A DT tem por principais clientes grandes empresas de produção de bens de consumo. São principalmente multinacionais ou empresas brasileiras de grande porte dos mercados de alimentos, higiene pessoal e limpeza, bebidas, tabaco, farmacêutico ou cosmético. Estas empresas recebem pressões diretas dos consumidores finais ou pelo intermediário das empresas de distribuição. Assim, estão geralmente desenvolvendo e consolidando suas agendas de sustentabilidade na qual a questão das embalagens deve ser inserida. A DT está muito atenta às necessidades dos seus clientes e ao mesmo tempo se dedica fortemente em desenvolvimento, pesquisa e inovação. Isso permite propor novas soluções em embalagem e antecipar necessidades específicas, possibilitando produtos e serviços inteligentes e mais atraentes para o consumidor. Quanto aos fornecedores, a DT exige antes de tudo que sigam toda legislação aplicável. Muitos fornecedores de matéria-prima são grandes empresas com políticas de sustentabilidade bastante consolidadas, como no caso do setor de papel e celulose. Nestes casos, canais para troca de boas práticas são estabelecidos, como por exemplo, programas internos: TPM (Total Performance Management) e MCM (Manufatura de Classe Mundial). Sempre que possível, a DT incentiva seus fornecedores a melhorar suas práticas e a desenvolver projetos de ecoeficiência, no chamado processo de green supply chain. Privilegia também o estabelecimento de contratos, o que favorece parcerias de médio ou longo prazo e facilita projetos de melhoria continua.

Fator: Existe alguma pressão externa pela sustentabilidade industrial no Brasil, perceptível nas operações de comércio exterior da Dixie?

Teddy Lalande – Na cena internacional é hoje sem dúvida a União Européia que mostra o exemplo, define o rumo e lidera os progressos na área ambiental. Algumas legislações européias obrigaram recentemente vários setores industriais a operar mudanças significativas, como as diretivas Reach (registration, evaluation and authorization of chemicals) e ROhs (restriction on hazardous substances) ou a revisão de diretivas sobre a gestão de resíduos. Podemos citar também as normas ISO da serie 14000 que podem ter implicações importantes no comércio internacional. Várias destas normas podem afetar o setor de embalagem, como a ISO/TR 14062 que visa a integração dos aspectos ambientais no desenvolvimento dos produtos, as normas da serie 14040 sobre análise de ciclo de vida ou da serie 14020 sobre rotulagem ambiental. A tendência é que as exigências internacionais ou as exigências nacionais de outros países em relação às questões ambientais passam a afetar cada vez mais os negócios de exportação, inclusive na área de embalagem. Na semana passada, para o processo de exportação de um dos seus produtos na Europa, um cliente solicitou um documento referente à reciclabilidade da embalagem. Tendo antecipado este tipo de solicitação, a DT pôde tomar providencias imediatas para providenciar um laudo de reciclabilidade completo.

Teddy Luc François Lalande é coordenador corporativo de meio ambiente da Dixie Toga no Brasil.