Marina se demite

Análise Fator:

“Na economia do século 21 os ativos ambientais e sociais são tão importantes quanto os ativos financeiros. A sociedade brasileira quer desenvolvimento sem a destruição do meio ambiente, por isso é preciso mudar o modelo de desenvolvimento do país”. Este é o pensamento da ex-Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, sobre sustentabilidade.
Após mais de cinco anos à frente da pasta, Marina pede demissão alegando falta de condições para dar continuidade à agenda ambiental brasileira e volta ao Senado da República.
O Brasil pode vivenciar esta semana o quanto a agenda ambiental é estratégica para o país. A saída da Ministra teve repercussão no mundo inteiro.
Apesar de grandes avanços à frente do Ministério do Meio Ambiente, como a criação de mais de quase 24 milhões de hectares de novas áreas de conservação, Marina Silva foi duramente criticada por não conseguir dar agilidade aos processos de licenciamento ambiental das grandes obras de infra-estrutura.
Com a agenda de seu ministério focada na preservação de nossas florestas, pouco se avançou na integração efetiva com o desenvolvimento industrial.
Certamente este é o grande desafio do próximo ministro, Carlos Minc.

Por Marcos Redondo, diretor executivo da Fator Ambiental.

 

http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u401427.shtml
  13/05/2008

Ministra Marina Silva entrega pedido de demissão a Lula

Marta Salomon

da Folha de S.Paulo, em Brasília

A ministra Marina Silva (Meio Ambiente) entregou nesta terça-feira o seu pedido de demissão ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A integrantes de sua equipe, que ela reuniu hoje de manhã, a ministra disse que não existe a possibilidade de recuar e permanecer no cargo, que ocupa desde o primeiro dia do primeiro mandato de Lula.

Marina vinha entrando em conflitos com outros ministérios, como a Casa Civil e a Agricultura, em casos e questões que opõem proteção ambiental a interesses econômicos.

Pedido de demissão A ministra pediu a um interlocutor que encaminhasse a carta de demissão para Lula na hora do almoço. Na mesma hora, segundo apurou a Folha, Marina reunia sua equipe para informar que não havia mais condições de permanecer no cargo.

Marina avaliou que não há apoio do presidente Lula. O principal motivo para o descontentamento de Marina eram as medidas de combate ao desmatamento, principalmente na Amazônia.

Desentendimentos O mal-estar entre Marina Silva e Dilma Rousseff (Casa Civil) começou em julho do ano passado, por conta das negociações em torno do edital para as concessões do leilão das usinas de Santo Antônio e Jirau, no rio Madeira (RO).

O impasse teve início com a cobrança do presidente Lula por mais agilidade nas licenças ambientais concedidas pelo Ministério do Ambiente. Após desentendimentos, o Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis) concedeu licença prévia para as hidrelétricas serem construídas, mas estabeleceu uma série de regras.

Para Dilma, o argumento era econômico e técnico: as usinas produzirão 6.450 MW –a maior obra de energia do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Marina argumentava, por outro lado, que as hidrelétricas só podem sair do papel se ficasse constatado que não iriam trazer prejuízos ambientais à região.

Com o ministro Reinhold Stephanes (Agricultura), o desentendimento girava em torno do plantio de cana. Para Marina, Stephanes incentiva o plantio de cana em áreas degradadas da Amazônia, do Pantanal e da mata atlântica.

Em entrevista à Folha, Stephanes afirmou que “foi mal interpretado”, quando citou Roraima como uma possibilidade de plantio de cana. Nessa área a que ele se referia, segundo o próprio ministro, haveria apenas savana. “Há milhares de anos.”

“Deram uma interpretação diferente. Falei em incentivar plantio em áreas e pastagens degradadas, não no bioma”, disse.

Servidores

Marina também enfrentou problemas com os servidores do Ibama, insatisfeitos com a divisão do órgão e com a criação do Instituto Chico Mendes.

Para protestar contra a criação do órgão, os servidores do Ibama fizeram uma greve, que foi criticada publicamente pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

 

http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u401682.shtml 14/05/2008 – 10h35

Bancada ruralista festeja saída de Marina do cargo

da Folha de S.Paulo, em Brasília
da Agência Folha, em Cuiabá

Adversários de Marina Silva em questões como o uso de transgênicos e pecuária extensiva, integrantes da bancada ruralista no Congresso criticaram a atuação da ministra no Meio Ambiente. Mas ela também recebeu elogios no Senado de governistas e da oposição.

Vice-presidente da CNA (Confederação Nacional de Agricultura) e produtora agrícola, a senadora Kátia Abreu (DEM-TO) reconheceu a importância política de Marina, mas criticou sua atitude ideológica frente à pasta.

“Sem demagogia, eu tenho admiração pela história e a vida da ministra. Só que ela tem um componente ideológico fortíssimo que atrapalha o Brasil a crescer”, afirmou ela. “Quando se exagera no protecionismo você incentiva o crime. Quanto mais punitivo, mais você empurra a pessoa para o crime.”

Ronaldo Caiado (DEM-GO), um dos líderes da bancada ruralista na Câmara, lembrou que Marina dificultou os avanços na área tecnológica. “Os problemas que ela criou o próprio governo é que tem de explicar.”

Caiado, contudo, disse que preferiria “não crucificá-la”. “Afinal, ela não tomou as decisões sozinha. Sempre teve o apoio do presidente”, disse. “Até tenho muito respeito por ela. É uma das poucas pessoas no governo que têm posição.”

O presidente da Comissão de Agricultura da Câmara, Onyx Lorenzoni (DEM-RS), afirmou que a gestão da ministra representou um atraso para o país e que ela demorou para deixar o cargo. “A saída dela pode fazer com que o bom senso seja retomado nas questões ambientais. Havia uma carga ideológica muito forte, um preconceito contra o agronegócio.” “Ela atrasou muito o Brasil com a irracionalidade no trato de questões como os transgênicos.”

Para o deputado Marcos Montes (DEM-MG), Marina “tem uma atitude extremamente pontuada na defesa do meio ambiente, mas desconectada do processo produtivo do mundo inteiro”. “Acho que ela exagerou nas medidas que tomou. A saída foi muito boa, Lula marcou mais um gol.”

Elogios No Senado, porém, integrantes da oposição e do governo lamentaram a saída da ministra. “É uma perda muito grande. O governo precisa escolher muito bem quem vai substituí-la para não colocar em jogo a soberania da Amazônia”, disse o líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM).

“É lamentável, porque ela é uma voz muito forte nos fóruns internacionais”, disse o líder do PSB, Renato Casagrande (ES).

A líder do PT, Ideli Salvatti (SC), afirmou que ela será recebida de “braços abertos”, mas disse “estar chateada” com a saída de Sibá Machado (PT), suplente de Marina no Senado.

“A senadora é hoje patrimônio da história do Acre e sai de cabeça erguida”, disse o senador petista Tião Viana (AC).

Segundo a assessoria do Ministério da Agricultura, o ministro Reinhold Stephanes “lamentou” a decisão de Marina. “Stephanes fez questão de destacar o bom relacionamento mantido entre ambos e reconheceu o papel significativo de Marina Silva na defesa das causas ambientais do país.”

Produtores O presidente da Famato (que representa agricultores e pecuaristas de MT), Rui Ottoni Prado, disse esperar que “seja indicado alguém com capacidade de discutir questão ambiental e desenvolvimento econômico de forma integrada”.

O presidente da Associação dos Produtores de Soja de MT, Gláuber Silveira, chamou a saída de “providencial”. “Ela vinha prejudicando a imagem do Brasil no exterior, ao divulgar dados errados sobre o desmatamento.” O presidente do Sindicato das Indústrias Madeireiras do Norte, José Eduardo Pinto, disse que a notícia traz “esperança”. O governador Blairo Maggi (PR-MT), que defendeu o desmatamento legalizado para enfrentar a crise global de alimentos, não quis se pronunciar.

  

16/05/2008

Demissão de ministra ecoa na imprensa internacional

Daniela Chiareti

Valor Econômico, São Paulo

O ministério das Relações Exteriores terá trabalho. Ontem de manhã, antes que a ex-ministra Marina Silva fizesse o balanço de sua gestão e desse o motivo salomônico de ter abandonado a pasta – ponderando não ter mais eco Planalto preferindo “deixar o filho vivo no colo de outra” -, o britânico “The Independent” cravava em editorial que é preciso salvar os “pulmões do planeta”, que se deve pagar por isto e que “esta parte do Brasil (a Amazônia) é muito importante para ser deixada aos brasileiros”. O Príncipe Charles deu entrevista à BBC com discurso mais moderno. Pediu o fim do desmatamento das florestas tropicais e falou que funcionam como “ar condicionado do mundo”.

A demissão da ministra ecoou na imprensa internacional. “The New York Times” disse que a Amazônia está vulnerável depois da renúncia. O “El País” afirmou “Lula dá as costas à maior defensora da Amazônia”. Foi notícia na mídia alemã, nos jornais franceses, nos argentinos, no “El Mercúrio” chileno. Ambientalistas no Brasil contavam que nunca haviam dado tanta entrevista para jornalistas estrangeiros. Na coletiva em Brasília, Marina, elegante, não comentou a repercussão mundo afora. Ainda deu uma canja – afirmou, publicamente, seu apoio aos biocombustíveis. “São uma grande oportunidade social e ambiental”.

A resposta ao ex-chefe e companheiro Lula veio com luva de pelica. No dia anterior, o presidente assegurou a continuidade da política ambiental “porque não é política de ministro, é política de Estado”. Marina fez uma pequena alteração. “É política de governo, não política de Ministério”. Na filigrama, a ex-ministra reforçava o que perseguiu desde o início da gestão – a transversalidade da agenda ambiental entre os Ministérios – e que nunca conseguiu.

Marina Silva desfilou suas vitórias rumo aos desenvolvimento sustentável do país. Antes da polêmica, o lago de Santo Antônio e Jirau teria sido “oito vezes maior”. Listou o projeto de desenvolvimento sustentável da BR-163 como um trunfo, o que é verdade. Meses depois do mero anúncio da pavimentação da estrada, o desmatamento explodiu nas bordas. O projeto foi discutido e desenhado por comunidades e ONGs. Só falta a sua implementação, disse Marina. Falta a infra de saúde, educação e outras pontas deixadas por outras pastas.

É verdade que na sua gestão foram criados milhões de hectares de unidades de conservação, muito mais que em qualquer outro lugar do mundo. Marina lembrou a cifra, mas disse que no último ano a demarcação reduziu o ritmo. O que ela não disse é que na Casa Civil há uns 15 casos de parques e reservas que não vão para frente.

Marina falou pelas entrelinhas. Ao mencionar o “penhor florestal” se referia a um mecanismo de vanguarda, que sinaliza dar valor de verdade à floresta em pé. Está na medida provisória da renegociação da dívida rural. Quem quiser reflorestar terras degradadas ou tiver um plano de manejo, poderá dar a floresta como garantia. O pacote é inacreditável: juros de 4%, carência de 12 anos e prazo, 20 anos.

Marina Silva disse que o tempo mostrará se sua gestão teve mais vitórias ou derrotas. Se a MP sair como foi acordada entre técnicos do Serviço Florestal e da Embrapa, numa parceria inédita conhecida no MMA como Romeu e Julieta (pelos Montecchio e Capuleto, as famílias que se odiavam), a ex-ministra terá conseguido o que sempre quis – dar valor à floresta. Resta saber se a política ambiental, realmente, não mudará.

 

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