Da perspectiva do lucro, esta é a melhor fase da indústria do petróleo. Mas o lucro não mostra a história toda.
Os ganhos recordes obtidos pelas petrolíferas mascaram um período de profunda mudança e instabilidade no setor energético. A Exxon Mobil Corp., do ramo entre as não-estatais, divulgou ontem um lucro de US$ 10,89 bilhões no primeiro trimestre, 17% superior ao do mesmo período no ano passado. É o segundo maior lucro já registrado por uma empresa americana, atrás apenas do da própria Exxon no último trimestre do ano passado.
No entanto, esse lucro foi considerado uma decepção em Wall Street. As ações da Exxon caíram 3,73%, ontem, na Bolsa de Nova York, e fecharam a US$ 89,70. O grosso do lucro veio da alta do petróleo, que bateu novos recordes no começo deste ano. Mas a receita decepcionou porque a produção de petróleo da Exxon foi 9,9% menor que a de um ano antes.

Henry Hubble, diretor de relações com o investidor da Exxon, admitiu que o trimestre foi uma caso raro de não cumprimento de previsões para a gigante do petróleo, cujos lucros ficaram cerca de US$ 600 milhões abaixo do que os analistas esperavam.
Embora não seja visível facilmente nos enormes lucros divulgados esta semana, a transformação está agitando a indústria, mudando as regras para as petrolíferas mundiais. A demanda por petróleo não está reagindo aos preços altos como os economistas esperavam, e ainda cresce com força na maior parte do mundo, apesar de o preço estar chegando perto dos US$ 120 por barril. Os produtores de petróleo estão agindo de formas inesperadas, segurando a produção em vez de abrir a torneira. Ontem, o petróleo caiu 0,8% na Bolsa Mercantil de Nova York, para US$ 112,52 o barril – um preço ainda alto, mas o mais baixo desde 14 de abril.
A preocupação com o aquecimento do planeta está provocando a mais extensa mudança de regras ambientais em uma geração, o que torna difícil investir a longo prazo porque não se sabe qual será a futura forma dessas regras. Até questões geopolíticas são diferentes do que eram há cinco anos porque China, Índia, Rússia e Brasil emergiram como forças poderosas no mercado mundial de combustíveis, quando mal eram notados alguns anos atrás.
Talvez o que seja mais inquietante para executivos do petróleo é que a velha ordem do setor está sob ataque, já que a commodity não é mais vista como um combustível abundante e dominante como era no passado.
“É uma época de grandes desafios, principalmente porque os últimos anos foram muito bons”, diz Frank Verrastro, diretor do programa de combustíveis do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, um grupo de estudos de Washington.
Ken Cohen, diretor de relações externas da Exxon, diz que mudar é o status quo da Exxon. “Não quero usar o termo ‘faz parte do negócio’ mas, de fato, nosso negócio está sempre mudando”, diz ele.
No começo da semana, porém, o alto escalão da Exxon teve sua ação cobrada publicamente por membros da família Rockefeller, descendentes do fundador da Standard Oil, John D. Rockeffeler. A família deu uma entrevista coletiva para falar da preocupação de que o presidente da Exxon, Rex Tillerson, não tenha a visão necessária para guiar a empresa para o futuro. A família apóia a indicação de um presidente independente do conselho, deixando Tillerson como diretor-presidente para administrar as operações cotidianas da companhia. E os Rockefellers fizeram coro com um clamor para que as petrolíferas invistam mais no desenvolvimento de fontes alternativas de energia.
A Exxon e outras empresas do setor têm resistido a aprofundar-se em alternativas para o petróleo. A maior parte dos mais de US$ 25 bilhões de investimento da Exxon é canalizado para a produção de petróleo, gás natural, químicos e gasolina. Diretores da empresa dizem estar investindo em pesquisa para desenvolver tecnologias que tragam uma nova geração de combustíveis renováveis, porque não acham que a atual geração seja viável. Ontem, a Shell disse que estava abandonando um projeto para construir a maior fazenda eólica do mundo, poucos dias depois de divulgar lucros recordes.
Infelizmente, as grandes petrolíferas têm tido uma visão muito curta focada unicamente em oportunidades de lucro no curto prazo”, disse Alan Nogee, diretor do Programa de Energia Limpa da União de Cientistas Preocupados. “Alternativas de combustíveis renováveis são cada vez mais eficientes em termos de custo e lucrativas e vão se tornar muito mais à medida que o mundo responde à ameaça e ao desafio do aquecimento global.”
Por outro lado, o setor continua sob pressão para manter os gastos sob controle e retornar mais dinheiro aos acionistas. Quarta-feira, a Exxon anunciou que vai aumentar seu dividendo trimestral em 14%. Um analista do J.P. Morgan, Michael LaMotte, não se impressionou. “Bom, mas não bom o bastante”, escreveu num relatório. “Embora seja o maior aumento em quase 30 anos, estamos decepcionados porque o conselho não fez mais” para aumentar os retornos a investidores.
Por: Russell Gold e Donna Kardos, The Wall Street Journal
Fonte: Valor Econômico
02/05/2008
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