Arquivo de junho, 2008

CIDADES

30/06/08

Análise Fator:

Os impactos ambientais causados pelos “lixões” nas cidades são nitidamente um reflexo da falta de um marco legal sobre resíduos sólidos. O Brasil ainda não possui uma lei, de âmbito nacional, que defina sobre a questão dos resíduos.

Na última semana, entrevistamos aqui no Fator News o Deputado Federal Arnaldo Jardim, que coordena o grupo de trabalho que examinará o parecer emitido ao projeto de lei º 203/ 91, que trata sobre os resíduos dos serviços de saúde. Ele faz um resumo da situação.

Por Marcos Redondo, diretor-executivo da Fator Ambiental

 

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26/06/2008

SP tem 78 cidades na mira para interdições de aterros ou lixões

Cleide Carvalho
O Globo

São Paulo – Setenta e oito municípios paulistas correm o risco de ter seus aterros sanitários ou lixões interditados se não cumprirem o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado com o Ministério Público e com a Cetesb, empresa de saneamento básico do estado de São Paulo. O objetivo é fazê-las depositar os resíduos gerados por seus moradores em aterros sanitários com licenciamento ambiental.

Este ano, 70 cidades já foram multadas por não dar ao seu lixo destinação adequada. No último dia 2, foram interditados os aterros dos municípios de Mongaguá, Itanhaém, Itapecerica da Serra e Araras.

Para se ter uma idéia, o lixo produzido em Itanhaém, litoral sul do estado, agora sobe a serra, paga pedágio e é levado de caminhão, diariamente, para um aterro sanitário em Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo.

Cidades como Presidente Prudente, Itapetininga, Jaú e Avaré fazem parte da lista das que começaram a adotar solução para seus resíduos e sair definitivamente da lista de 137 municípios paulistas que ainda não respeitavam as regras básicas de destinação do lixo até o fim de 2007.

O que se pede é pouco: depositar os resíduos em um aterro licenciado, onde é coberto por terra e recebe tratamento adequado para que o chorume da decomposição não contamine o solo e lençóis freáticos.

Segundo relatório divulgado nesta quinta-feira pela Cetesb, a região do estado com maiores problemas é o Vale do Ribeira, onde 80,6% dos municípios ainda recebem a classificação de inadequados. Para se ter uma idéia, só no ano passado cidades turísticas do litoral norte do estado, como São Sebastião, Ilhabela e Caraguatatuba, passaram a enviar seu lixo para aterros licenciados. O município de Ubatuba começa agora a se adequar.

As cidades precisam fazer o básico, que é encaminhar o lixo para aterros licenciados. Não é possível que municípios turísticos negligenciem essa questão. É preciso consciência para que a questão seja tratada de forma séria – afirma Arunto Savastano Neto, gerente de normalização da Diretoria de Controle de Poluição da Cetesb.

De acordo com a Cetesb, o estado de São Paulo produz 28 mil toneladas diárias de lixo urbano, das quais 60,3% são produzidas em apenas nove municípios, todos com mais de 500 mil habitantes. Nas grandes cidades, o lixo é encaminhado para aterros adequados, mas a realidade não é a mesma em todo o estado. A maioria das 645 cidades paulistas utiliza aterros sanitários que são considerados “controlados” na classificação da Cetesb. Ou seja, um meio termo entre o ruim e o adequado.

Em pequenas cidades, a situação chega a ser paliativa. Para que o lixo não acabe em terrenos a céu aberto, a Cetesb criou a figura do “aterro de vala”. Trata-se de um esquema rudimentar: abre-se uma vala em terreno de baixa permeabilidade e, todos os dias, o lixo é ali depositado e coberto por terra. Não há, neste caso, qualquer tipo de recolhimento do chorume ou de tratamento para os gases tóxicos gerados na decomposição. O sistema, autorizado apenas por municípios de até 25 mil habitantes, é adotado hoje por 77 prefeituras.

O inventário da Cetesb leva em conta apenas a situação do aterro sanitário, mas não seu tempo de vida útil. Muitos aterros estão superlotados e prestes a esgotar sua capacidade, como é o caso do aterro de Santo André, no ABC paulista.

Savastano Neto reconhece que a falta de espaço para enterrar o lixo precisa ser enfrentada. A solução, para ele, é a incineração.

Há cada vez menos áreas disponíveis. A solução é o uso de tecnologias de incineração de resíduos que sirva também como geração de energia. Mais cedo ou mais tarde teremos de ter investimentos em incineração – diz ele.

A Cetesb assinou convênio com o governo da Baviera e, de acordo com Savastano Neto, tem hoje condições de licenciar projetos de incineração de lixo. Segundo ele, os equipamentos de incineração podem, em maioria, ser produzidos no país, barateando o custo da tecnologia. A queima do lixo produz vários tipos de gases e a tecnologia disponível na Europa já prevê o tratamento, para que não haja poluição atmosférica. Não há, porém, qualquer projeto deste tipo apresentado.

De acordo com o gerente da Cetesb, é urgente que os municípios ampliem o total de reciclagem de lixo para reduzir a geração de resíduos.

Qualquer produto reciclável é inutilizado se for misturado a restos de comida ou orgânicos. Por isso, a solução é separar o lixo dentro das casas – explica.

A Cetesb estima que a reciclagem poderia reduzir o lixo gerado em cerca de 30% a 35%. Hoje, no entanto, a estimativa mais otimista é que São Paulo consegue reciclar 5% do lixo produzido. Uma lei estadual está em estudo para obrigar os municípios a ampliar a reciclagem, adotando campanhas de educação dos cidadãos e oferecendo coleta seletiva de lixo.

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22/06/2008

Falha em tratamento de esgoto piora Tietê

José Ernesto Credendio e
Conrado Corsalette

Folha de S. Paulo

Apesar dos gastos de R$ 6 bilhões em saneamento, estações liberam nitrogênio e fósforo, prejudiciais à vida aquática

Cetesb aponta deficiência no sistema em expansão pela Sabesp; elementos químicos agravam a situação do rio no interior

A Sabesp despeja no Tietê esgoto tratado na Grande São Paulo por um sistema deficiente -incapaz de tirar elementos químicos que pioram a qualidade do rio no interior paulista. A conclusão está expressa em 11 linhas do relatório de qualidade das águas divulgado há duas semanas pela Cetesb, a agência ambiental paulista, que monitora os rios de São Paulo.

Segundo a Cetesb, o sistema de tratamento implantado, e em expansão, não consegue remover nitrogênio e fósforo, substâncias que fazem proliferar algas e outros organismos que roubam oxigênio da água, afetando a vida aquática.

A Cetesb apontou o problema de deficiência no tratamento do esgoto a partir de testes realizados entre a ponte dos Remédios, a barragem Edgard de Souza e a barragem de Pirapora. Lá, foi constatado que existe uma tendência de aumento das concentrações de nitrogênio e de fósforo.

Além disso, a Cetesb suspeita que a ETE (estação de tratamento) de Barueri, que responde por 70% do esgoto tratado na região metropolitana (referente a 4,5 milhões de pessoas), funciona de forma inadequada. Isso porque melhorou a água coletada para testes antes do ponto em que o esgoto tratado é despejado, o que não ocorreu nos trechos após o local em que esse esgoto chega ao Tietê.

Um indicador de poluição, que mede a necessidade de oxigênio na água, “confirma que não existe uma redução da carga orgânica destinada ao médio Tietê”, segundo a Cetesb.
A pior condição para a vida de peixes no Tietê está em Pirapora do Bom Jesus, cidade a 53 km de São Paulo conhecida pela espuma que costuma cobrir o Tietê e até inundar as ruas.
Para a Cetesb, é necessário discutir a implantação do chamado sistema terciário de tratamento, que consegue eliminar fósforo e nitrogênio.

Hoje, a Sabesp faz um tipo de tratamento mais grosseiro e está investindo R$ 6 bilhões em saneamento em todo o Estado, sem modernizar a tecnologia. “As ações em saneamento continuam pertinentes, porém, podem ser melhoradas para avançarmos na qualidade das águas e na saúde pública”, diz o gerente do departamento de águas superficiais e efluentes líquidos da Cetesb, Eduardo Mazzolenis de Oliveira.

A opinião de que é necessário mudar o sistema é referendada por Plinio Barbosa de Camargo, do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da USP (Universidade de São Paulo), em Piracicaba, especialista em tratamento de efluentes.
Uma pesquisa iniciada há nove anos, após o ponto de esgoto tratado no rio Piracicamirim, em Piracicaba, revelou que a água piora nesse local, efeito semelhante ao do Tietê.
“Hoje, são gastos milhões em sistemas de tratamento que não dão conta, em estações que não vão funcionar”, diz.

Distrito Federal
Em Brasília, cerca de 50% do esgoto coletado é tratado pelo sistema terciário, cuja implantação e operação são bem mais caras, mas mais eficientes.
Segundo Carlos Eduardo Pereira, superintendente de operação do sistema de esgotos da Caesb (a Sabesp local), o processo é necessário porque a região tem rios pouco volumosos e muitos lagos e lagoas. Por causa disso, a poluição despejada em um lago pode permanecer por até dois anos. “Com nossa situação aqui, precisamos tratar o esgoto com a máxima eficiência”, disse.

Segundo ele, o custo de implantação do sistema terciário foi de R$ 60 por habitante. O sistema secundário custa R$ 35, e o primário R$ 20. Já a operação do sistema terciário tem um custo aproximado de R$ 0,80 por m3. Em um sistema primário esse valor não passa de R$ 0,10.

 

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22/06/2008

Sabesp diz que obedece lei ambiental na manutenção do Tietê

da Folha de S.Paulo

A Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) diz que as estações de tratamento secundárias, que despejam fósforo e nitrogênio de volta nos rios, bastam para atender aos padrões de emissão de poluentes determinados pela legislação ambiental.

A empresa de companhia mista, que tem o governo do Estado como maior acionista, afirma que sua prioridade é tentar ampliar ao máximo o tratamento de esgoto –o que seria dificultado caso optasse pela construção de estações terciárias, que reduzem a carga dos dois poluentes na hora de devolver a água para os rios, mas são 60% mais caras.

“O tratamento secundário é um bom processo para reduzir a carga poluidora dos rios. Ele remove de 80% a 90% dos poluentes”, defende Antonio César Costa e Silva, da Diretoria de Tecnologia, Empreendimentos e Meio Ambiente da Sabesp. “É o melhor meio para universalizar o tratamento.”

Atualmente, há 461 estações de tratamento de esgoto no Estado, nenhuma delas terciária. Estão em construção 48 novas estações, que integram o pacote de obras de saneamento que prevê investimento de R$ 6 bilhões nos próximos anos. Mas nenhuma delas dará conta de tratar fósforo e nitrogênio.
Silva sustenta que o aumento dos índices dos dois poluentes no rio Tietê se deve a uma maior quantidade de água tratada pela empresa. O raciocínio é o seguinte: como o tratamento deixa passar o fósforo e o nitrogênio, quanto mais água é tratada, maior é a concentração desses poluentes no ponto dos rios onde ela é despejada.

“A variação de poluentes de um ano para o outro não representa um risco. O importante é a tendência. O Tietê melhorou nos últimos dez anos. O que seguia direto para o rio deixou de ir para o rio.”

O técnico da Sabesp afirma que a empresa poderá construir estações mais modernas a partir de exigências da legislação. “Não há por que tratar mais se o padrão não exige”, diz Silva. “Se a sociedade quiser que se tenha níveis mais elevados de tratamento, vamos ter de analisar e fazer. Uma hora isso virá, mas vale lembrar que a mudança implicará em um aumento de custos.”

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22/06/2008

Qualidade de água tem pior nível desde 2002

da Reportagem Local
Folha de S. Paulo

A qualidade da água testada nos pontos de captação para consumo humano no Estado caiu no ano passado em relação a 2006 e, pelos padrões da Cetesb, foi a pior desde 2002.
A Cetesb realiza testes quase sempre mensais nos pontos em que as empresas de saneamento recolhem a água para tratar e faz uma classificação que varia de péssimo a ótimo.

Além da presença de resíduos de esgoto, a Cetesb avalia a concentração de elementos como mercúrio, cromo e níquel, além da presença das chamadas cianobactérias. A maior quantidade delas foi encontrada na represa Billings, na Grande São Paulo. Esse grupo de bactérias pode produzir toxinas que redundam em tumores e efeitos nocivos em órgãos como rins, baço e coração e o sistema nervoso.

No ano passado, pela classificação da Cetesb, 31% dos pontos de captação estavam na condição ótimo/bom, com 24% de regular e 46% de ruim/péssimo. Em 2006, 55% dos pontos estavam em ótimo/bom.

O gerente do departamento de águas superficiais e efluentes líquidos da Cetesb, Eduardo Mazzolenis de Oliveira, tranqüiliza: não há motivo para suspender a captação em nenhum dos pontos testados. Segundo Oliveira, a queda do padrão se deve à associação de fatores como insuficiência de tratamento de esgoto e manejo inadequado do solo agrícola, agravado pelas chuvas. “É fundamental continuar ampliando o saneamento no Estado, particularmente o tratamento dos esgotos, e a remoção de carga orgânica”, afirma.
Na opinião de Antonio César Costa e Silva, técnico da Sabesp, a situação preocupa. Mas ele não está pessimista. “Na Grande São Paulo as represas permaneceram estáveis. No Alto Tietê não teve alteração onde a Sabesp capta a água. Isso não afetou nosso custo de tratamento”, afirma.

De toda água retirada pela Sabesp desses pontos avaliados pela Cetesb -68,7 mil litros por segundo-, 40 mil estão na classificação ótimo/bom, o que inclui o maior ponto de captação, a represa do Juqueri, em Mairiporã (Grande São Paulo).

Outro grande manancial da região metropolitana, a represa de Guarapiranga, que fornece 13,9 mil litros por segundo, está na faixa ruim da classificação.

 

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22/06/2008

Rios de Ribeirão recebem 50% de esgoto “in natura”

da Folha de S.Paulo

A falta de tratamento do esgoto compromete a qualidade dos rios da região de Ribeirão Preto. As cidades que compõem as sete bacias hidrográficas que passam pela região tratam apenas metade do esgoto. O restante é jogado “in natura” (sem tratamento) nos rios.

É o que revela o relatório da Cetesb (Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental) sobre a qualidade das águas no Estado de São Paulo, divulgado na semana passada.

Na bacia hidrográfica do rio Pardo, que inclui Ribeirão, por exemplo, onde 52% do esgoto é tratado, a quantidade de coliformes (que inclui todos os tipos, inclusive fecais) está acima do estabelecido como ideal por resolução do Conama (Comitê Nacional do Meio Ambiente). Isso ocorre em quase todas as outras cidades.

Hoje, Ribeirão tem 80% de esgoto tratado, de acordo com o prefeito Welson Gasparini (PSDB) – no ano passado, quando o relatório foi feito, eram 70%. “Estamos investindo em cinco frentes de trabalho e trataremos tudo até o fim do ano”, disse o prefeito.

Apesar de receber muito esgoto in natura, a qualidade das águas ainda é considerada boa pela Cetesb. A agência ressalta, no entanto, que é preciso investir em saneamento.

A pior situação é a da bacia do Turvo-Grande, que passa na região pelas cidades de Cajobi, Olímpia, Monte Alto e Monte Azul Paulista. O tratamento médio nesta bacia é de 30%.

Em segundo lugar no ranking das piores está a bacia do Tietê-Jacaré, que passa por Araraquara e São Carlos e recebe 65% de esgoto sem tratamento.

 

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21/06/2008

Acidente ambiental deixa 150 mil sem água em SP

Online Terra

Cerca de 150 mil moradores de São José do Rio Preto – uma das maiores cidades do interior de São Paulo – vão passar o fim de semana convivendo com racionamento e cortes no abastecimento de água, devido a um acidente ambiental que contaminou com óleo diesel uma das represas da cidade.

O acidente foi provocado por um caminhão com dois tanques de combustível, que capotou várias vezes na rodovia Washington Luís (SP-310) na noite de ontem.

A região central da cidade e cerca de dez bairros das proximidades serão prejudicados. O corte vai deixar de levar cerca de 18 milhões de litros de água por hora para as casas atingidas pelo racionamento.

Com o acidente, 22 mil l de óleo diesel foram parar nas canaletas de água pluvial e, em seguida, no córrego Aterradinho, que deságua na Represa 1, uma das três que abastecem a população.

O motorista do caminhão, José Antônio de Carvalho, 51 anos, ficou preso nas ferragens. O resgate, feito por Bombeiros, demorou cerca de 40 minutos.

O risco de explosão e de incêndio levou a Polícia Rodoviária a fechar a pista por mais duas horas. Retirado, Carvalho foi levado ao hospital, mas não resistiu aos ferimentos e morreu.

Um grupo de emergência formado por técnicos da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cesteb), Bombeiros e Defesa Civil montou barreiras de contenção com sacos de areia e montes de terra para evitar que o óleo fosse levado à represa de abastecimento.

Apesar da ação, parte do óleo contaminou as águas da represa, o que levou o Serviço Municipal Autônomo de Água e Esgoto (Semae) a desligar a captação para a Estação de Tratamento e anunciar o racionamento. O superintendente do Semae, Nicanor Batista Júnior, disse que o corte deverá durar pelo menos até segunda-feira, quando novos exames serão feitos para indicar o grau de contaminação das águas.

“A contaminação da represa, por enquanto, acreditamos que foi superficial e por isso decidimos cortar o abastecimento por precaução, pois ainda não sabemos de quanto foi essa contaminação”, disse.

No entanto, segundo ele, a preocupação é com a possibilidade de chuvas, que podem levar o óleo para dentro da represa e aumentar a contaminação. “Se chover, as barreiras de contenção não vão suportar e o óleo que está nas margens e vegetação do córrego vai parar na represa. Se isso ocorrer, o racionamento deve ser ampliado por uma semana”, comentou.

Para se prevenir, os técnicos instalaram contenção de espuma sobre as águas da represa para absorver o óleo que entrou e o que pode entrar na represa levado pelas chuvas.

 

 

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21/06/2008

Gestão Deficiente

Editorial
Folha de S. Paulo

A ADMINISTRAÇÃO das empresas de saneamento segue, com raras exceções, colecionando fracassos. Isso vem afastando investimentos no setor, que deveria ser uma das prioridades do Programa de Aceleração do Investimento (PAC).

De acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (Snis), a receita das operadoras estaduais de água e esgoto subiu 32,5% entre 2004 e 2006, graças a reajustes nas tarifas dos serviços (13,5% em média) e à redução da inadimplência (de 12,9% em 2004 para 9,7% em 2006). Como, no entanto, as despesas cresceram 22,6%, a maioria das companhias (65%) continuou a acumular prejuízos.

Uma resposta simplista a esse quadro adverso seria promover a elevação das tarifas. Tal tarefa, contudo, esbarraria nos limites de renda de boa parte da população. Além disso, seria questionável transferir aos usuários todo o ônus pela recuperação das finanças das empresas, uma vez que há evidentes falhas de gestão.

O estoque de endividamento dessas empresas é muito alto. Também são grandes o desperdício de recursos, as deficiências nos sistemas de cobrança e de medição de consumo. A perda de água pela rede, por exemplo, tem sido estimada em 50%.
Ganhos de eficiência podem trazer resultados surpreendentes. A Casan (SC), por exemplo, alavancou suas receitas por meio da restauração de hidrômetros defeituosos. Já a Caesb, do Distrito Federal, fez um esforço para reequilibrar seu orçamento e em seguida pôde utilizar o aumento de receita, propiciado pelo reajuste de tarifas, para expandir a rede de atendimento.

A retomada dos investimentos demanda, portanto, uma melhora na gestão dessas empresas. Isso lhes permitiria inclusive tomar novos créditos para investir-e há recursos disponíveis, por exemplo, no FGTS. Tal diagnóstico é compartilhado pelo Ministério das Cidades. Resta traduzi-lo em ações.

AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL

30/06/08

26/06/2008

Chega de lendas!

Demétrio Magnoli
O Estado de S. Paulo

‘A Amazônia não é apenas uma coleção de árvores; existe ali um grupo de pessoas.’ A palavra de Roberto Mangabeira Unger não vale nada, como se sabe, mas a sua constatação, expressa no lançamento do Plano Amazônia Sustentável, contém a chave para a superação de um impasse político de relevância histórica. O ministro está dizendo que é hora de fechar um ciclo e fazer a crítica da crítica da geopolítica amazônica conduzida pela ditadura militar.

Um anúncio do governo federal, assinado pela Sudam e divulgado em 1970, destacava sobre o mapa do Brasil a área da Amazônia Legal, toda preenchida por figuras de implantações industriais, agropecuárias e energéticas. A peça publicitária conclamava, sem rodeios: ‘Chega de lendas. Vamos faturar!’ A Amazônia, tal como vista pela ditadura, era uma fronteira estratégica a ser conquistada e uma fronteira de recursos a ser dilapidada.

No ciclo seguinte, aberto com a redemocratização, o Estado terceirizou o planejamento amazônico para as ONGs e uma narrativa preservacionista tomou o lugar da especulação incentivada. A dupla fronteira da geopolítica militar foi substituída pela visão romântica de um santuário sitiado. Uma fábrica de lendas entrou em funcionamento, gerando mitos que sabotam a coerência das políticas públicas para a região. O mito nuclear diz que a Amazônia é uma paisagem natural: coleções de árvores e coleções de povos originais organizados em torno de modos de vida tradicionais. A narrativa desempenha funções vitais para a economia das próprias ONGs, mas tem repercussões devastadoras para a população amazônica.

Há um mês, curiosamente em meio à polêmica sobre a reserva Raposa Serra do Sol, a Funai deu ampla publicidade à foto aérea de um grupo de índios isolados que vivem no Acre, na faixa de fronteira com o Peru. A imagem de índios seminus apontando arcos e flechas para a aeronave que os fotografava coagula o imaginário sobre a Amazônia fabricado pelo preservacionismo. O seu simbolismo esmaece a visão da Amazônia realmente existente, habitada por 20 milhões de brasileiros.

Chega de lendas. A Amazônia é moderna: nela estão Belém e Manaus, duas das três únicas metrópoles dinâmicas situadas na faixa equatorial do planeta. A Amazônia não é um paraíso isolado: o mercado mundial a incorporou ao sistema de intercâmbios globais desde o início de seu povoamento efetivo, com o ciclo da borracha, no anoitecer do século 19. A Amazônia não é tradicional: ela foi ocupada pelo deslocamento de povoadores do Nordeste e do Centro-Sul em duas ondas recentes, entre 1880 e 1920 e de 1950 em diante. A Amazônia não é, a não ser marginalmente, a morada dos ‘povos da floresta’: suas populações refletem o desenraizamento cultural dos pioneiros e as extensas mestiçagens entre esses pioneiros e deles com os povos autóctones. A Amazônia não é rural, mas urbana: nos seus cenários de igarapés engolfados pelas cidades, onde águas de esgoto correm por dentro das casas, entrelaçam-se os temas do meio ambiente e da saúde pública.

A mitologia preservacionista, pintada para a guerra atrás da divisa do ‘desenvolvimento sustentável’, sabota tanto o desenvolvimento quanto a preservação. A rejeição popular a um paradigma de negação do desenvolvimento empurrou os eleitores para os braços de caciques deploráveis como Jader Barbalho, do Pará, o gerente oculto da Sudam, e Gilberto Mestrinho, do Amazonas, o paladino da motosserra. Abandonados por um Estado que decidiu não enxergá-los, os pobres da Amazônia se entregam, para sobreviver, à dilapidação dos recursos naturais. Um levantamento realizado pelo Imazon a partir de imagens orbitais estimou que existem mais de 95 mil quilômetros de estradas clandestinas apenas entre o sul do Acre e o sul do Pará, em áreas geralmente exteriores ao ‘arco da devastação’. Ocultas sob as copas das árvores, essas extensões das estradas oficiais são utilizadas para a extração ilegal de madeira. A grilagem de terras e a garimpagem se difundem pelas mesmas trilhas.

Coleções de árvores, coleções de ‘povos tradicionais’. Numa lógica paralela à do preservacionismo, as ONGs multiculturalistas investem na celebração de etnicidades essenciais e convertem a política indígena num jogo de poder. Nesse diapasão, índios aculturados são convertidos em nações originais, com ‘representantes’ junto às instituições internacionais, e no Amazonas agentes públicos forçam caboclos a rasgar suas carteiras de identidade e se redefinir oficialmente como índios, sob pena de perderem suas terras de trabalho.

Agora, sob a inspiração do Mapa da Distribuição da População Negra, um artefato de falsificação estatística produzido pela secretaria da segregação racial (Seppir) por meio da junção burocrática de ‘pretos’ e ‘pardos’, declarou-se a negritude da Amazônia. A iniciativa é um primeiro passo para cancelar a história da região e dividir os caboclos, cafuzos e mulatos em ‘negros’ e ‘brancos’. Em nome da doutrina da raça ou do imperativo da criação de currais eleitorais, soterra-se o conceito de que a Amazônia é habitada por cidadãos brasileiros iguais em direitos.

A geógrafa Bertha Becker, uma das formuladoras do Plano Amazônia Sustentável, propõe uma revolução científica e tecnológica para a Amazônia, a fim de inverter a equação que iguala desenvolvimento a dilapidação de recursos naturais. Desafiando os dogmas sagrados do preservacionismo, cita como paralelos a moderna indústria alcooleira e a revolução agrícola no cerrado. Mas, sobretudo, ela sugere que um novo ciclo de desenvolvimento regional depende da recuperação da capacidade do Estado de agir como poder público, isto é, de estabelecer as regras do jogo de modo claro e universal. Isto, por sua vez, exige fidelidade ao princípio da nação única, vilipendiado todos os dias pelo governo. Eis o dilema que ameaça o Plano Amazônia Sustentável.

Demétrio Magnoli é sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP.

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27/08/2008

Amazônia: 14% da região é uma ‘terra de ninguém’

Veja Online

Uma área que corresponde a 14% da Amazônia Legal pode ser considerada “terra de ninguém”: o governo não sabe quem tem a posse das áreas e nem o que está sendo feito ali. A conclusão é de um estudo feito pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), órgão do próprio governo. De acordo com reportagem publicada nesta sexta-feira pelo jornal Folha de S. Paulo, a pesquisa, recém-concluída, mostra que a área de posse desconhecida na floresta totaliza 710.200 quilômetros quadrados.

A soma dessas terras com status indefinido equivale a duas vezes a extensão territorial da Alemanha, ou ainda à soma dos territórios de São Paulo, o Rio Grande do Sul e o Paraná. Os 710.200 quilômetros quadrados correspondem ainda a 65% da porção que está sob responsabilidade única do Incra. O governo não sabe se as terras — áreas públicas da União — estão ocupadas por grileiros ou posseiros. Não sabe também qual é a situação delas: se são usadas para plantio ou se são devastadas, por exemplo.

O estado campeão de terrenos de status indefinido é o Pará, que tem 288.600 quilômetros quadrados de áreas com situação fundiária nebulosa. Isso equivale a quase um quarto do território total do estado. Amazonas tem 141.800 quilômetros quadrados nessa situação, e Rondônia, 89.300 quilômetros quadrados. Esse último estado é o que tem maior proporção de áreas desconhecidas: 37% do total do território. Roraima tem 29% de sua área em situação indefinida; no Amapá, isso ocorre em 25% do território.

Com base no estudo, o governo quer regularizar a situação dessas áreas, expulsando grileiros, colocando a documentação em dia e, mais importante, decidindo o que será feito nessas áreas — se passam a formar reserva ambiental ou tornam-se assentamentos, por exemplo. A meta anunciada pelo Incra é fazer esse trabalho em pelo menos 200.000 quilômetros quadrados ainda em 2008. O relatório será apresentado oficialmente na semana que vem pelo ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel.

Conforme o presidente do Incra, Rolf Hackbart, o objetivo do órgão é criar um plano para solucionar o problema nos próximos cinco ou seis anos. ” O momento exige que a gente faça mais e mais rápido”, reconhece ele em entrevista à Folha. Hackbart avisa, porém, que a meta não será cumprida “com o Incra como está hoje”. “É preciso mais servidores e mais equipamentos, além das parcerias com militares e com os institutos de terra dos estados. Não queremos mais grilagem, e sim terra legal na Amazônia.”

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27/06/2008

Exército tenta regularizar 3.000 posses na Amazônia

da Folha Online

Em mais uma tentativa de regularização fundiária da Amazônia, o governo promoverá a “varredura” de uma área de 30 mil quilômetros quadrados, equivalente a 20 vezes a cidade de São Paulo, informa nesta sexta-feira reportagem de Marta Salomon, publicada pela Folha (íntegra disponível para assinantes do UOL e do jornal).

Segundo a reportagem, Tropas do Exército serão deslocadas para o Pará a partir do dia 6. Três dias depois, começa o trabalho de campo na região da BR-163, conhecida pelo alto índice de violência e grilagem de terras públicas.

A Folha informa que a operação, em parceria com o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), custará R$ 9 milhões. O objetivo é regularizar 3.000 posses nas proximidades de uma das obras mais importantes do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) na região Norte.
 

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27/06/2008

Governo publica normas para concessão florestal

João Domingos, BRASÍLIA
O Estado de São Paulo

Florestas públicas destinadas à concessão privada para exploração sustentável não poderão ultrapassar divisas estaduais nem abranger mais do que um ecossistema, determina instrução normativa do ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, publicada ontem no Diário Oficial da União.

As licenças terão de ser pedidas ao Serviço Florestal Brasileiro e ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama). A concessão faz parte do plano estratégico de preservação da floresta amazônica. Já estão em fase de licitação três áreas em Rondônia, pertencentes à Floresta Nacional (Flona) do Jamari.

A Flona tem 220 mil hectares – 96 mil em licitação. Quem vencer terá 40 anos para retirar madeiras nobres e praticar atividades extrativistas no local, desde que de forma sustentável.

Pela instrução, sempre que a floresta destinar-se à prática de manejo florestal madeireiro com intensidade de corte superior a 30 metros cúbicos (por volta de cinco toras grossas de árvore) por hectare, será necessário que se faça estudos e relatórios de impacto ambiental (EIA/Rima).

Minc também anunciou ontem assinatura de acordo com o BNDES para o financiamento de pequenos e médios pecuaristas da Amazônia que fornecem matéria-prima para grandes frigoríficos. Os créditos serão subsidiados para que possam financiar projetos de modernização e regularização da produção. Os pecuaristas, claro, terão de provar que criam o gado em áreas legais
 

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27/06/2008

Amazônia: depredação ou exploração racional

É preciso constituir uma grande empresa pública, a Amazoniabras, para garantir a intervenção do Estado na floresta e seu uso racional

Artigo – Helio Jaguaribe
Folha de S. Paulo

A AMAZÔNIA é uma região abandonada, entregue a um predatório e primitivo extrativismo da floresta tropical. Gera menos de 10% do PIB anual, quando representa cerca de 60% de nosso território. Sua população (cerca de 23 milhões) constitui menos de 13% da população brasileira. Trata-se, por outro lado, de uma imensa parcela do território nacional, em que operam, sem nenhum controle, inúmeras ONGs estrangeiras, quase todas a serviço de objetivos pouco compatíveis com os interesses nacionais.

A atual situação da Amazônia exige, imperativa e urgentemente, uma ativa intervenção do Estado. O que está em jogo não é apenas a necessidade de dar um tratamento racional à exploração de seus recursos, mas, com não menor relevância, a necessidade de preservar os interesses nacionais naquela imensa região.

A primitiva economia extrativa da Amazônia consiste em ciclos de grande expansão, decorrente da depredação de uma determinada área florestal, a que se segue a estagnação da região desmatada. Dentro de um par de decênios, continuando as coisas como estão, a Amazônia será reduzida a uma rala savana e a um semideserto ou será submetida ao controle de empreendimentos estrangeiros.

Uma região da imensidão amazônica, com sua igualmente imensa floresta tropical, não pode ser entregue a formas predatórias e primitivas de exploração, nem sujeita a descontrolada presença estrangeira, mas tampouco pode ser conservada -o que não tenderá a ocorrer- como um inalterável santuário ecológico.

A Amazônia requer uma ativa interveniência do Estado. Não apenas, nem principalmente, por meio de normas regulatórias que, ademais de não serem produtivas, são completamente ineficazes, pela incapacidade de seu consistente monitoramento. A indispensável e urgente intervenção do Estado na Amazônia deve ter caráter operacional.
Trata-se, em primeiro lugar, de complementar os dados já disponíveis com um completo levantamento geoeconômico da região. E trata-se, adicional e principalmente, de constituir uma grande empresa pública, a Empresa Brasileira da Amazônia -Amazoniabras-, para promover a exploração racional, eqüitativa e ecologicamente responsável desse grande tesouro vegetal e mineral. Algo à semelhança do que foi -e continua sendo- a Petrobras para o petróleo.

Dadas a variedade e a complexidade das questões em jogo, a Amazoniabras não deve, nem poderia, ter caráter monopolista. É preciso ter uma grande companhia pública, com recursos proporcionais à tarefa que lhe deve incumbir, que empreenda, em ampla escala, a utilização racional da floresta, preservando apropriadas áreas da mata e empreendendo, em outras, um conveniente reflorestamento. Uma empresa que otimize o uso racional e sustentável dos recursos da região.

Importa, a partir de um amplo esforço de prospeção, proceder a uma moderna exploração dos minerais da região e implantar, em locais apropriados, indústrias para a racional exploração dessas riquezas.

Em não mais de um decênio se multiplicaria, por um altíssimo coeficiente, o PIB amazônico, em condições não mais predatórias, e sim em termos de uma utilização sustentável de seus recursos.

A atuação de uma Amazoniabras, ademais da riqueza que diretamente produza -que tenderá a ser significativa-, conduzirá, concomitantemente, à preservação ecológica daquela região e à atração de uma iniciativa privada complementar operando, monitoradamente, em termos de sustentabilidade.

O dilema com que o Brasil se defronta na Amazônia é extremamente claro: continuada devastação predatória da floresta e sua degradação, além de perigosa intervenção estrangeira completamente fora de controle, ou utilização racional da riqueza vegetal e mineral da região, mediante a atuação, não monopolística, de uma grande empresa pública.

Hélio Jaguaribe, 85, sociólogo, é decano emérito do Instituto de Estudos Políticos e Sociais (RJ), membro da Academia Brasileira de Letras e autor de, entre outras obras, “Um Estudo Crítico da História”.
 

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24/06/2008

Desmatamento na Amazônia deve atingir 14 mil km2

Folha de S. Paulo

Ministro do Meio Ambiente afirma que já apreendeu 12,6 mil cabeças de gado criadas ilegalmente em Rondônia e no Pará

Joel Silva

O ministro Carlos Minc, do Meio Ambiente, durante sabatina na tarde de ontem no Teatro Folha

Rompendo a tendência de queda dos últimos anos, o desmatamento na Amazônia avançou em 2007 e 2008 e deve atingir 14 mil quilômetros quadrados. A estimativa é do ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc. “Está acima do ano passado, mas abaixo da média histórica”, disse ele, em sabatina da Folha, ao citar os 11,2 mil quilômetros quadrados de 2006-2007. Minc respondeu a perguntas dos editores de Ciência, Claudio Angelo, e Dinheiro, Sérgio Malbergier, dos repórteres Marta Salomon e Ricardo Bonalume Neto e da platéia que assistiu ao evento.

Desmatamento

“O único compromisso é baixar o desmatamento abaixo da média. Mesmo que aumente agora, e acho que vai aumentar. Pegando os números do Deter, que vêm aumentando, fazendo a correlação com o Prodes, que é o desmatamento real, então acho muito difícil este ano fechar menos que 14 mil ou 15 mil quilômetros quadrados. Ainda assim vai estar abaixo da média histórica dos últimos anos. Se não fizemos nada, pode chegar a 20 mil quilômetros quadrados. Várias das medidas terão efeito em médio prazo.

Os próximos meses serão os piores por causa da estiagem. Se pega a série histórica, sempre os piores meses são junho, julho, agosto e setembro. O que quero dizer é, se os números já estavam ruim até maio, a tendência é piorar. Combinamos com o Tarso Genro [ministro da Justiça] para acelerarmos a terceira fase do Arco de Fogo.

O presidente Lula vai assinar decreto criando “Guarda Parque”. Cada Estado vai dar 25 bombeiros, para cuidar das unidades de conservação. E os batalhões florestais vão dar 120 guardas para participarem com o Ibama de atividades preventivas. Já falei com os 16 governadores, que toparam, inclusive o Blairo Maggi [Mato Grosso].”

 Desmatamento na Amazônia

Extrativismo
“Conseguimos garantir preços mínimos para os produtos extrativistas, que era uma demanda de mais de 15 anos. Tem preço para feijão, soja e milho, mas não tem para castanha, borracha, guaraná, babaçu. E isso é a chance de eles se capitalizarem e não ficarem num miserê absoluto. A gente fala “os extrativistas”, mas não têm carteira assinada, décimo terceiro… É uma miséria. Conseguimos aumentar de R$ 50 milhões para R$ 130 milhões os recursos para estruturar produção e comercialização de atividades extrativistas.”

Fundo amazônia
“Espero que tenhamos US$ 900 milhões, sendo que a primeira contribuição vai ser da Noruega, de US$ 100 milhões. Esse cheque chega em setembro aqui pelas mãos do primeiro-ministro. Lula deu 60 dias para o grupo de trabalho formatar o Fundo Amazônia. Ele quase não assinava isso, porque achava que algum país poderia dar R$ 10 milhões e achar que é dono. Expliquei que esse fundo é muito mais autônomo e soberano do que o plano do G-7. Os recursos serão administrados pelo BNDES. Serão pessoas do governo federal, da comunidade científica, das ONGs e dos governos da Amazônia.”

Boi pirata
“Assunto que me levou a várias críticas e gozações, que, como sou uma pessoa de bom humor, levei na maior. Pirata não é o boi, é o dono do boi, a pessoa que usa uma área preservada, uma reserva, não paga pela terra, não paga imposto, não paga nada. Ganha dinheiro criando boi em área devastada ou em área protegida.
Vamos fazer este mês leilão de gado. Nós apreendemos 3.100 cabeças de gado na Terra do Meio, no Pará, e anteontem, 9.500 cabeças de gado em Rondônia. Vão virar churrasco ecológico do Fome Zero.”

Fiscalização
“Assinamos com a Abiose, que é a associação dos exportadores de óleo vegetal, portanto, a cabeça do agronegócio. Eles representam 92% de todo o beneficiamento e exportação da soja. Assinamos a prorrogação da moratória da soja. Nas próximas semanas, vamos fazer acordos semelhantes com a Imex, exportadores de madeira, e com os grandes frigoríficos, para que controlem suas cadeias produtivas. Eles têm sido notificados a fornecer em 60 dias uma lista de fornecedores. Quem precisa de carimbo para colocar produto na Europa não vai querer queimar seu filme.”

Agronegócio
“Acho injusto demonizar o agronegócio. Nessas negociações, eu, ministro, me comprometi a traçar uma linha divisória de quem está na legalidade fundiária e ambiental -e esses apoios terão crédito, estímulo e reconhecimento- e quem está na ilegalidade, transformando a floresta em pasto, carvão e grão -esses vão ter a mão pesada da lei de crimes ambientais.”

Blairo Maggi
“Recebi o governador Blairo Maggi no ministério, tratei muito bem, combinei com ele coisas para impedir incêndios, prometi ajuda para o zoneamento, um debate civilizado como tem que ter instâncias federativas. Um ministro não pode apertar o gatilho contra um governador. Não me arrependo das críticas iniciais que fiz contra ele. Foi um meio de marcar posições. Dei-lhe um cafezinho sem estriquinina. Ele pediu aceleramento do zoneamento e que não estigmatizasse os produtores. Ele acha o Arco de Fogo truculento e pediu uma trégua, mas isso eu não podia fazer, senão eu é que seria preso por prevaricação.”

Uso da floresta
“Acho que manter a floresta em pé tem várias questões. Primeira é o extrativismo. Uma outra questão é a alternativa, porque fazer gado extensivo na Amazônia com um boi por hectare é a coisa mais improdutiva que existe. Não é o xiismo ecológico versus o desenvolvimento econômico.

É uma preocupação de sermos protagonistas em matéria de pesquisa, bionegócio, bioindústria, que é a fronteira do futuro, versus práticas antieconômicas e predatórias que custam mais do que acrescentam.”

Angra 3
“Sou um crítico do uso da energia nuclear no Brasil. Acho uma energia cara, que não resolveu a questão dos resíduos e muito concentrada regionalmente. A ministra Marina votou contra na Comissão Nacional de Política Energética e perdeu. Eu votaria igual.

O Ministério Público colocou exigências, mas o processo de licenciamento seguiu e está perto de ser concluído. Não vejo como deter isso, mas já coloquei a questão para o Ibama, que foi nomeado por mim. Vamos impor uma série de questões, como o controle externo da radioatividade. Não é a Eletronuclear que tem que fiscalizar, mas uma universidade.”

Licenciamento
“Uma das razões que me levaram a ser chamado para o Ministério do Meio Ambiente foi meu desempenho no licenciamento ambiental no Rio. Porque nós lá demos licenças rápidas e com rigor.

No caso do Complexo Petroquímico do Rio, a Petrobras achava que ia pegar a licença em um ano e dois meses. Pegou em seis meses. Foi o licenciamento mais rigoroso do país. Terão que plantar 6 milhões de árvores, não poderão jogar nada de efluente na baía da Guanabara e terão que instalar um denitrificador, que reduz 90% das emissões de óxido nitroso.

Já falei com o ministro Edson Lobão (Minas e Energia) e a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) que a gente não vai conceder algumas licenças, e as que vamos liberar vão custar pelo menos algumas reservas.”

Corrupção
“Eu me acostumei a conviver com a biodiversidade. Tive que conviver com muitos deputados na Assembléia Legislativa do Rio, que não é bem o jardim zoológico do Paraíso. Sem vender minha alma ao diabo, consegui aprovar 25 leis. Tinha que negociar, abrir mão de alguns pontos. Todas as leis aprovadas foram modificadas, mas mantiveram o objetivo principal. Depois aprendi que, mais difícil do que aprovar a lei, é fazer com que seja cumprida.”

Picanha
“Eu vou dizer uma coisa. Tenho alimentação bem equilibrada. Como mais peixe, ave. Aqui, hoje, comi várias saladas. Mas algumas vezes, uma fatia [de picanha] mal passada e sem gordura… Coloco debaixo de um monte de folhas de salada, para ninguém ver. O que quero dizer é que o gado e os grãos podem ser cultivados de forma mais intensiva nas áreas onde já há produção. Se hoje botam um boi por hectare, podemos botar 20 por hectare.”

Ministro do Meio Ambiente Carlos Minc

Colete
“Uso colete por causa do calor do Rio. É mais prático. Tenho 42 coletes. Agora já não tiro mais, porque tem gente que me vê sem colete e não me reconhece. Acham que é um primo ou um irmão.”

SUSTENTABILIDADE E NEGÓCIOS

30/06/08

Análise Fator:

A indústria e os varejistas já identificaram (e quantificaram) a demanda dos consumidores por produtos sustentáveis, que não agridem o meio ambiente. Rapidamente esta oportunidade de negócios de sustentabilidade, abraçada pelos grandes varejistas, conforme mostra a seqüência de matérias abaixo, resultará numa onda sustentável por toda a cadeia de suprimentos do setor.

Sucesso para as empresas que possuem este diferencial competitivo, por já estarem preparadas para atender esta demanda.

Com relação ao mercado de créditos de carbono, o seu futuro depende ainda muito do que será ratificado no final de 2009, em Compenhagem, e principalmente da participação dos EUA. Alguns analistas acreditam que o “carbono” pode ultrapassar todas as outras commodities tradicionais.

Por Marcos Redondo, diretor-executivo da Fator Ambiental

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27/06/2008

Carrinhos de compras ficam mais verdes

Rosangela Capozoli
Valor Econômico

Sergio Zacchi

Jacques Gelman: “Empresas tomam consciência de que trabalhos as tornarão mais eficientes e competitivas”

Lojas verdes ou ecoeficientes. Pouco importa a definição. O fato é que o tema sustentabilidade passou a ser um dos pontos fortes nas negociações entre indústria e varejo. A Fundação Getúlio Vargas (FGV), que já premiava as empresas pela responsabilidade social, ampliou o leque e, em 2008, pela primeira vez, passará a chamar o evento de Prêmio de Responsabilidade Social e Sustentabilidade no Varejo. “Expandimos o programa e neste ano faremos o primeiro fórum sobre varejo e consumo sustentável”, adianta Jacques Gelman, coordenador do Programa de Responsabilidade Social e Sustentabilidade no Varejo da FGV. Os trabalhos começaram em junho e quatro reuniões já estão agendadas para tratar do tema ao longo do segundo semestre.

“As empresas estão tomando consciência que todo trabalho focado na melhoria do meio ambiente as tornarão mais eficientes e competitivas”, reforça. Mas essa conscientização não se dará da noite para o dia. A sustentabilidade é formada por um tripé que abrange aspectos econômicos, sociais e ambientais. “É um projeto cultural de longo prazo, em todo o mundo, mas as grandes empresas já podem desenvolver ações de curto prazo. Se houver pressão por parte do consumidor as indústrias agirão com maior rapidez e farão um alinhamento estratégico que resulte em competitividade.”

Hélio Mattar, diretor presidente do Instituto Akatu, concorda e entende também que se trata de um processo que será feito passo a passo. “Troca de embalagens, redução no consumo de energia, água e emissão de CO2 serão as primeiras etapas a serem cumpridas”, diz. Hoje, segundo o coordenador da FGV, apesar de o setor varejista representar uma fatia muita expressiva da economia, ainda é pequena a quantidade de empresas “com clara conscientização de seu papel como agente de mudança”.

Essa exigência já começou, ainda de maneira tímida, nas grandes redes supermercadistas e, em menor proporção, nas de pequeno porte. O Grupo Pão de Açúcar, por exemplo, investe R$ 7,5 milhões no primeiro supermercado verde da América Latina, inaugurado este mês. A construção da loja em Indaiatuba (SP), obedece aos moldes Leed (Leadership in Energy and Environmental Design), que tem por objetivo a diminuição do impacto socioambiental das edificações. O sistema de ar condicionado permite redução de 10% no consumo de energia por ano em relação a uma loja comum, segundo João Edson Gravata, diretor de operações do grupo. “Serão 120 mil KW a menos”, garante. Gravata explica que 100% dessa energia provêm de fontes renováveis, o que representa queda de 34 mil toneladas/ano de CO2, o equivalente a mais de 190 mil árvores reflorestadas. Ainda pelas suas contas, a queda na utilização da água ficará ao redor de 40%, o que significará 2,5 milhões de litros por ano.

“As negociações com os fornecedores por uma busca maior de entrega de produtos sustentáveis já começou”, informa. A água mineral carbono neutro foi um dos primeiros produtos sustentáveis desenvolvidos para o novo ponto de venda. Dentro do “laboratório” do Pão de Açúcar os lançamentos já estão saindo do forno. “São cinco tipos diferentes de pães”, diz. Da lista de mais de 20 mil itens comercializados nesse supermercado, quase 800 deles são de produtos sustentáveis, de acordo com Gravata. “São produtos que vão desde linha de limpeza até perfumaria”, exemplifica. José Roberto Tambasco, vice-presidente comercial de operações do grupo, acrescenta que “informações, instalações, operação, produtos e completos processos de reciclagem e aproveitamento de resíduos são algumas das ferramentas escolhidas para envolvermos fornecedores e consumidores acerca de conceitos e práticas de consumo sustentável”.

Pelo menos por enquanto, comprar produtos sustentáveis terá um custo maior para o bolso do consumidor. “A loja de Indaiatuba terá um faturamento maior que as demais por conta de uma oferta maior de produtos sustentáveis”, afirma Gravata.

A diretora de assuntos corporativos do Grupo Carrefour no Brasil Renata Moura acredita que a demanda por produtos sustentáveis barrará a diferenciação de preços. “Dentro da linha marcas próprias já conseguimos oferecer produtos sustentáveis com preços até 20% inferiores aos demais”, afirma. Segundo a diretora, as negociações com os fabricantes estão avançando cada vez mais. “Alguns fornecedores estão mais abertos para inovar, mas toda a indústria está se movimentando porque há uma demanda pelos produtos sustentáveis”, explica. Pelos seus cálculos, em 2007, o Carrefour economizou entre 5% e 10% de energia através da utilização renovável e cerca de 2,5 milhões de litros de água deixaram de ser gastos.

A rede Wal-Mart já é um exemplo vivo nesse cenário. Após sete meses de vida, o Wal-Mart Supercenter Granja Viana, que exigiu investimentos de R$ 45 milhões, já contabiliza ganhos. “A diminuição no consumo de energia é de 17% se comparada a uma loja padrão e a economia com a água é de aproximadamente 12%”, conta Ciro Schmeil, vice-presidente de desenvolvimento, que prefere a definição de loja ecoeficiente. Isso significa menos 72 mil KW/hora por mês e uma redução mensal de 200 mil litros de água. Dos 60 mil itens vendidos na loja, 3,5 mil já são produtos sustentáveis. “Ainda estamos em uma fase de conscientização da clientela”, comenta Schmeil.

A intenção do Wal-Mart é abrir mais três lojas ecoeficientes nas cidades de São Paulo, Salvador e Rio de Janeiro até o final de 2009. O Grupo Pão de Açúcar estreará a sua segunda loja verde em meados do mesmo ano.

O Supermercado Vip fica no Tatuapé, zona leste de São Paulo. Apesar de ter apenas uma loja, há mais de 15 anos, seus donos passaram a dar prioridade à questão da sustentabilidade há três meses. Reaproveitar a água da chuva foi uma das iniciativas encontradas. “Desde março usamos água da chuva para lavagem da loja e descarga dos banheiros”, conta Vera Lúcia Galluccio, gerente administrativa. O Vip também colocou à disposição de seus consumidores coletores de lixo reciclável. “Todos os dias um caminhão passa para recolher o lixo do dia anterior e dá a ele um destino correto”, afirma. O óleo de cozinha usado também tem um lugar reservado no lixo do Vip. A última novidade foi o lançamento de sacola plástica que suporta seis quilos de compra e que poderá ser utilizada várias vezes.

“A abertura de capital do setor de shoppings centers em 2007 está impulsionando os empresários a ficarem atentos à questão da sustentabilidade”, emenda Luciana Lana, gerente de marketing da Associação Brasileira dos Shoppings Centers (Abrasce). A entidade conta com 195 associados dos 367 shoppings existentes no país. “O tema ainda é embrionário e muito complexo, mas o setor está avançando nessa questão”, reconhece.

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27/06/2008

A ordem é reduzir tudo o que é possível no pacote

Marleine Cohen
Valor Econômico

A proposta de adequar as embalagens aos novos ditames ecológicos conquista um número crescente de adeptos. Vidro, alumínio, plástico ou papelão, a ordem é reduzir peso, espessura e tamanho – comprimir, aparar, condensar, apertar, isto é, adequar o design à necessidade de poupar o meio ambiente.

Esta é uma tendência internacional e o Brasil, segundo Luciana Pellegrino, diretora-executiva da Associação Brasileira de Embalagem (Abre), não fica atrás. “Desde 2002 se estuda a otimização das embalagens no país, de maneira a harmonizar a redução do desperdício e a efetiva proteção e aproveitamento do produto, mas as técnicas empregadas e os ganhos ambientais decorrentes são restritos aos experts; não chegam ao conhecimento público.” Uma simples caixa de bombons de 400 g perdeu, entre 1992 e 2007, 18,7% do seu peso, passando de 36,9 g para 30,0 g, segundo a Abre.

O papel é o material reciclado por excelência no Brasil: 77,3% do papelão ondulado produzido em 2007 foi reaproveitado. Atualmente, atende prioritariamente as indústrias de embalagens, em especial as de alimentos, que, em 2006, consumiram 35,39% das aparas disponíveis. O papel ondulado é também a embalagem que mais utiliza material reciclado no Brasil: 65% dos papéis usados na fabricação de caixas de papelão ondulado são produzidos com fibras recicladas, segundo dados da Associação Brasileira do Papelão Ondulado.

Da mesma forma, o mercado de reciclagem de alumínio registrou aumento de eficiência na utilização do metal entre os anos 70 e o momento atual, segundo o Compromisso Empresarial com a Reciclagem (Cempre). Naquela época, um quilo de alumínio permitia a fabricação de 49 latinhas. Hoje, produzem-se 74 unidades com a mesma quantidade de matéria-prima – uma economia anual de bauxita de 700 mil toneladas e de energia elétrica de 1.976 GWh (ou 0,5% do consumo total do Brasil), mediante taxa de reciclagem de 94,4%, muito à frente de países como o Japão (90,9%) ou EUA (51,6%).

Já no setor de plástico, onde a taxa de reciclagem nacional de PET supera a dos países mais ricos – 51,3% no Brasil em comparação a 38,6% na Europa e 23,5% nos EUA em 2006 -, registra-se uma verdadeira queda-de-braço contra aquele que representa um dos maiores vilões ambientais da atualidade: o polietileno.

Assim, a gigante Unilever, detentora da marca Seda Xampu, não poupou esforços para encontrar uma solução técnica que permitisse excluir a “orelha” de sustentação e fixação da tampa do frasco que acondiciona o produto, sem prejuízo da qualidade e segurança da embalagem. Resultado: uma economia de 0,5 g de polietileno e uma embalagem nova com 26,5 g.

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As novas apresentações exigem investimentos em pesquisa e adequação de toda a cadeia produtiva
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Em busca de maior sustentabilidade, a Coca-Cola tem igualmente reduzido o peso das suas embalagens PET para refrigerantes ao longo dos últimos 20 anos. Segundo seu diretor de Meio Ambiente, José Mauro de Moraes, “a embalagem de dois litros baixou de 59 g para 48 g, 17% menos. Quanto à de 600 ml, vai cair de 28 g para 22 g, uma diminuição de 21%”.

O plástico foi alvo de preocupações também na Natura. Usadas como material de apoio, as sacolas das consultoras continham polietileno 50% virgem e 50% reciclado pré-consumo. Em 2002, um estudo comparativo provou que o kit, composto de 30 unidades, era o item de maior impacto ambiental da empresa. Foi substituído por sacolas de papel 100% reciclado (75% de aparas pré consumo e 25% de aparas pós consumo adquiridas de cooperativas de catadores).

Outra inovação para substituir o emprego do plástico na indústria e comércio partiu da Apotek, que lançou uma embalagem plástica biodegradável especialmente dirigida para o setor farmacêutico. Produzidos com um aditivo especial (o PDQ-H), os potes plásticos se degradam em cerca de um ano.

Embalagens menores barateiam custos de produção e de transporte. Ainda assim, com as novas embalagens, é consenso entre os empresários haver apenas ganho ambiental por ora, já que as despesas com tecnologia e principalmente matéria-prima aumentam ano a ano. “Ao contrário do que se imagina, as novas apresentações exigem investimentos em pesquisa e processos de adequação de toda a cadeia produtiva, além de testes de segurança e laudos de certificação”, esclarece a diretora da Abre.

Para Fábio Mestriner, professor-coordenador do Núcleo de Estudos da Embalagem da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), todos estes esforços institucionais não são, todavia, necessariamente entendidos pelo público, nem revertem em aumento nas vendas.

Destacando que “o consumidor tem simpatia pela defesa do meio ambiente”, Mestriner argumenta que existem estudos que comprovam que “não se compra ou se deixa de comprar por causa do apelo ecológico, embora o mercado esteja sintonizado com a causa ambiental”. Ele defende uma comunicação mais clara: “Com exceção do refil, que representa economia de plástico de 80% em relação ao frasco convencional, quem compra não sabe que está levando uma embalagem ecológica”.

 


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27/06/2008

Operação Limpa

Célia Rosemblum e Marília de Camargo Cesar
Valor Econômico

Mapa das pegadas

 

Seis grandes empresas e quatro entidades ambientais estão debruçadas sobre uma questão estratégica na era do aquecimento global: quanto um produto emite em gases estufa ao longo de todo o seu ciclo de vida? Henkel, dm-drogerie markt, FRoSTA, Tchibo, T-Home e TetraPack querem encontrar uma fórmula para medir, de modo confiável, a pegada de carbono dos itens que levam aos consumidores. A partir do estudo de casos específicos, a idéia é estabelecer uma metodologia padronizada que no futuro possa servir como indicador da relevância de impacto para o clima de um item ou evento específico. A tarefa, primeira do gênero na Alemanha, é desenvolvida em parceria com organizações ambientais como WWF, Öko-Institut, PIK e Thema1.

Rótulos de carbono

A iniciativa, em uma segunda etapa, pretende envolver os consumidores na batalha contra o aquecimento global com uma estratégia específica de comunicação. “Existem muitos rótulos no mercado, mas não achamos que essa seja a abordagem adequada”, diz Uwe Bergmann, responsável pela gestão mundial de sustentabilidade da Henkel. A empresa alemã, que há cerca de 20 anos estuda os impactos ambientais de seus produtos, da concepção ao descarte, com a avaliação do ciclo de vida, acha fundamental determinar quanto carbono é emitido ao longo da cadeia de valor. “A idéia-chave é ajudar o consumidor a fazer a escolha certa”, diz Bergmann. E também haverá parâmetros confiáveis para se fixar metas para redução dos gases que causam efeito-estufa.

Mate no papel

AP Photo

A Rei do Mate, franquia com 246 lojas em 15 Estados, vai substituir a partir de julho os copos de plásticos por copos de papel. A rede consome 1 milhão de unidades por mês nas vendas de chás misturados com leite ou frutas. Embora os copos de papel custem cerca de 20% a mais do que os de plásticos, os gastos se justificam, afirma Antonio Carlos Nasraui, diretor comercial e de marketing: o público da rede, jovem na maioria, se preocupa com a preservação do meio ambiente.

Abaixo o copinho

“Quantos recursos não foram mobilizados só para trazer esse copo d’água até aqui?”, reclamou Ricardo Young, presidente do Instituto Ethos, na sede do Banco Real, em São Paulo, duas semanas atrás. Na abertura de um curso sobre sustentabilidade, Young usou um copo de água mineral para exemplificar um tipo de produto com características ambientalmente insustentáveis. “Estamos entrando em um novo processo civilizatório, um novo conceito de como a sociedade deve funcionar.”. Ele acredita que as indústrias precisam debater em toda a cadeia produtiva a questão do descarte.

Viva a torneira

Ricardo Young acha que o Tap Project, que estimula o consumo de água da torneira em restaurantes de Nova York, é um bom exemplo de cidadania. O projeto promovido pela Unicef já inspirou iniciativas semelhantes no Canadá e na Inglaterra. Clientes de restaurantes cadastrados são incentivados a tomar água de torneira e a doar US$ 1 por garrafa de água mineral que deixa de ser consumida.

Questão de economia

Em São Paulo, uma campanha desse tipo poderia pegar, avalia a gerente de controle de qualidade da Sabesp, Érika Martins de Andrade. “Nossa água da Sabesp é boa e segura para se beber”, garante. A propaganda contrária ao consumo de água de torneira, diz, prejudica a população de baixa renda. Uma garrafinha de 500 mil custa R$ 1,50; mil litros da água pública saem por R$ 0,42.

Pedalando sem parar

 

Com 1,8 milhão de habitantes e uma frota de 1,1 milhão de automóveis, Curitiba concentra 120 quilômetros de ciclovias. Deste total, 81 quilômetros são compartilhados com os pedestres e 39 quilômetros são exclusivos para quem pedala. Atualmente, 5% dos curitibanos utilizam a bicicleta como meio de transporte. Em Paris, cidade que ganhou destaque nos últimos tempos por conta do aluguel de bicicletas, a taxa é de 1,5%.

O Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba está desenvolvendo o Plano Diretor Cicloviário, cujo objetivo é melhorar a circulação na área central e dos bairros, com ampliação da rede. Segundo Celia Regina Bim, supervisora de planejamento do órgão, há cerca de 30 quilômetros de ciclovias a serem implantadas ou em estudo. Também está em estudo a implantação de bicicletários no centro da cidade. A idéia é criar 275 vagas em 25 pontos.

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27/06/2008

O aquecimento global modifica as rotinas do império do varejo

Célia Rosemblum
Valor Econômico

Tudo no Wal-Mart, a maior varejista do mundo, é superlativo. São 7343 lojas , cerca de 2 milhões de funcionários e US$ 374 bilhões de faturamento no ano passado. As metas de sustentabilidade seguem o figurino extra-extra-grande. A rede pretende ser 100% abastecida por energia renovável, almeja ter zero de desperdício e vender produtos que preservem recursos naturais e meio ambiente.
 

 

Poder de multiplicação do Wal-MartA ordem é trabalhar com afinco para responder às demandas que ganham força com o acirramento das discussões em torno do aquecimento global e da escassez de recursos naturais. Mas é um esforço recente. Por um bom período o Wal-Mart apenas comemorou os bons resultados e seu crescimento. “Mas enquanto isso o mundo mudou”, constatou o CEO Lee Scott na reunião anual de acionistas, realizada no início do mês em Fayetteville, no Arkansas. “As expectativas em relação a nós – e a outras corporações em geral – mudaram. E nós fomos pegos de calças-curtas.”

Scott está empenhado em não repetir a quebra de um dos dez mandamentos para o sucesso do negócio ditados pelo cultuado fundador da companhia, Sam Walton. “Não se pode apenas fazer as coisas que um dia deram certo. Tudo a seu redor está sempre em mudança. Para ter sucesso é preciso estar à frente dessas mudanças.”

A aposta é uma “abordagem 360 graus da sustentabilidade”, segundo define o CEO. Em quase todos os flancos vulneráveis a críticas, e em uma companhia gigante eles são muitos, existem iniciativas em curso. Assolada por uma enxurrada de processos trabalhistas que iam da discriminação sexual ao não pagamento de horas-extras compulsórias nos últimos anos, a empresa contabiliza este ano oito prêmios como melhor empregador, no molde quase ideal da diversidade: pessoas com deficiência, mulheres, multiculturalidade, etnias.

Um dos alvos preferenciais dos ataques de entidades e sindicatos, a incipiente assistência à saúde dos funcionários, perdeu força. A varejista assegura que hoje 92,7% de seus “associados” (a forma como prefere chamar os trabalhadores) têm algum tipo de cobertura “pelo Wal-Mart ou por outra fonte”.

Conhecida pela contundência nas negociações com os fornecedores que permitem manter viva a alma de uma rede de descontos, os preços baixos, a empresa agora vê as comunidades próximas às suas lojas como potenciais parceiras de negócios. O vice-presidente da área de alimentos, Jack Sinclair, considera o abastecimento local como um “novo foco”. Na Guatemala, um trabalho desse tipo é realizado com 22 agricultores que fornecem para algumas das 145 lojas que a rede tem no país. Na Costa Rica, plantadores de café quase arruinados hoje cultivam verduras hidropônicas vendidas no Wal-Mart e comemoram bons resultados.

A opção por reforçar a relação com os fornecedores locais coleciona vantagens: a marca ganha pontos na comunidade, a economia local se movimenta, os gastos com transporte são reduzidos (e as emissões de gases de efeito-estufa idem) e os consumidores encontram produtos mais frescos.

Materiais, processos e tecnologias estão em teste. A rede estabeleceu nos Estados Unidos duas lojas-piloto para suas experiências onde o principal mote é reduzir – o consumo de energia e recursos naturais, a quantidade de matéria-prima utilizada na obra – e substituir materiais renováveis usados para a construção e manutenção do prédio quando for o caso.

Na loja-piloto de McKinney, no Texas, um sistema de energia eólica complementa o suprimento da loja e responde por 5% do total consumido. A parede externa da área de refrigeração de alimentos, banhada por muito sol no período da tarde, foi tratada com uma tinta cerâmica que reduz a necessidade de esfriar o ambiente interno.

Painéis solares distribuídos pela fachada fornecem energia, ainda que de forma mais modesta que o equipamento movido a vento. Uma série de clarabóias diminui a necessidade de iluminação interna, já menos intensa que nas outras lojas da rede. Sensores controlam o acendimento de luzes até nas portas das geladeiras que expõem os produtos. As lâmpadas são do tipo T5, que requer a metade da energia consumida pelas demais para a mesma luminosidade.

Os dutos de ar condicionado correm a meia altura dos 8,5 metros de pé direito. Assim, explica o subgerente Clay Gregson, “a parte em que consumidores buscam as mercadorias fica em uma temperatura agradável e o espaço até o teto, que não abriga produtos ou pessoas não requer cuidados”.

Na loja há reaproveitamento de água, torneiras aeradas, urinóis que dispensam descargas, experiências para transformar o óleo de cozinha usado em energia, testes com diferentes tipos de cimento que permitam a absorção e coleta de água da chuva. No jardim, 70 mil sensores detectam a necessidade de água nas raízes das plantas e acionam um sistema de irrigação subterrâneo abastecido por água de chuva captada no local. Resultados? “Em média um hipermercado gasta de US$ 88 mil a US$ 90 mil com serviços como água e luz”, diz Gregson. “Aqui a conta está em torno de US$ 46 mil.”

Nas gôndolas, a ofensiva verde começa a se traduzir em embalagens mais racionais e produtos mais amigáveis ao ambiente. As lojas de atacado Sam’s Club agora vendem toda uma linha de limpeza verde, que inclui detergente concentrado. “A embalagem é menor e a água não fica viajando pelo país”, diz a executiva da área Jill Turner Mitcheal.

Produtos orgânicos a preços acessíveis, como o brasileiro Café Bom Dia, de Varginha (MG), negociados de acordo com as regras do comércio justo e vendido a US$ 2 menos que um similar no Starbucks também começam a ganhar volume nos expositores.

Embalagens com menos plástico, mais materiais recicláveis, que ocupam menos espaços no caminhão estão em desenvolvimento com diferentes fornecedores. Algumas tentam evitar o desperdício de alimentos, juntando vários pacotes individuais. Mas aí, gastam, por exemplo, mais plásticos. “Às vezes é difícil conciliar as propostas”, explica Todd Matherly, diretor da área de mercadorias.

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27/06/2008

AES assume AgCert e amplia seu portfólio de carbono

Bettina Barros
Valor Econômico

A AES Corporation, empresa global de energia que no Brasil é controladora da Eletropaulo, acaba de fincar o pé no mercado de créditos de carbono voltado para a suinocultura. A empresa assumiu na semana passada o controle da irlandesa AgCert, recentemente às voltas com problemas financeiros.

A AgCert torna-se agora subsidiária e importante ferramenta de atuação da AES na área ambiental, na qual a empresa já aposta muitas de suas fichas. Há três anos, a AES iniciou um braço para soluções climáticas que prevê investimentos em projetos em países em desenvolvimento para a redução de 34 milhões de toneladas por ano de gases de efeito estufa até 2012.

“A redução de carbono é uma das nossas prioridades”, afirmou Didier Rotseart, vice-presidente da divisão de Soluções Climáticas da AES e agora novo CEO da AgCert. “Nossa ambição é sermos líderes no mercado de carbono. Mas não queremos ser só traders. Queremos gerenciar e implementar diretamente os projetos”, acrescentou.

Com a transferência de controle, a AES herda da AgCert cerca de 80 projetos em granjas com suínos no Brasil e México, que respondem juntos por cerca de 1,4 milhão de toneladas de carbono por ano. Esse volume será somado ao pipeline da AES de 19 milhões de toneladas por ano e a outros 9 milhões de toneladas por ano já contratados.

Em entrevista por telefone ao Valor da sede da AES, em Arlington, Virgínia, Rotseart afirmou que a incorporação da AgCert é resultado de um “entendimento” com os credores, intermediado por autoridades irlandesas num processo chamado de “examinership”, para evitar a liquidação de empresas naquele país. “Houve uma reestruturação financeira e comercial, administrada pela Alta Corte da Irlanda. A AES não colocou dinheiro. Apenas convertemos a dívida em 100% do capital”, disse ele. “Não mudará a estrutura comercial ou o relacionamento com os clientes”.

O executivo não revelou os detalhes que culminaram com a incorporação nem de que forma os credores da AgCert – na maioria empresas do setor elétrico – teriam sido recompensados. “Tudo foi resolvido, não há mais credores ou dívida a ser paga”, frisou o CEO, que não quis detalhar a afirmação.

Listada em Londres até o início deste ano, a AgCert informou à bolsa em dezembro de 2007 que não teria disponíveis os cerca de 7,2 milhões de créditos de carbono vendidos no mercado com prazo de entrega neste ano. A empresa tem apenas 1,2 milhão de créditos já emitidos pelo Conselho Executivo da ONU, que rege esse mercado.

Os projetos de suinocultura estão inseridos no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), previsto no Protocolo de Kyoto, pelo qual países ricos compram créditos de projetos limpos em países em desenvolvimento para compensar suas próprias emissões. Cada tonelada de gás-estufa que deixa de ser jogada na atmosfera equivale a um crédito comercializado no mercado internacional.

Na suinocultura, os créditos são gerados com a queima do metano emitido pelos dejetos dos animais.

O fator detonador da crise teria sido a alteração na metodologia da ONU para a contagem do volume de gases efetivamente queimado – que corresponde aos créditos. “Houve intervenções na metodologia que reduziram o volume da produção de CO2 entregue. Mas outras pessoas envolvidas nessa atividade, no Brasil e no mundo, também sofreram”, diz Rotseart.

Agora, diz o executivo, é olhar para frente. O controle da empresa irlandesa dá mais fôlego ao braço ambiental da AES e está alinhado com a estratégia global da empresa de crescimento no setor de carbono. “A AgCert reforçará a atuação da AES no setor”, diz Rotseart. “Ao mesmo tempo, a chegada [da AES, com receita de US$ 13,6 bilhões em 2007] dá estabilidade, agrega experiências e reduz as limitações da própria AgCert”.

E poderá até mesmo resultar em novas frentes de ação. Além dos cerca de 370 clientes (granjas) no Brasil, Rotseart vê oportunidades de desenvolvimento de projetos aptos a gerar créditos nos aterros sanitários e efluentes industriais. “É um país importante para nós”.

Poucas semanas antes da consolidação do controle da AgCert, a AES Corporation já havia adquirido um projeto de energia gerado por um aterro sanitário em Nejapa, El Salvador, capaz de gerar 400 mil toneladas por ano de créditos de carbono ao longo de 20 anos.

Nos anos 80, iniciou ações voluntárias para combater o aquecimento ao financiar o plantio de 50 milhões de árvores na América Latina. No Brasil iniciou o projeto de reflorestamento de matas ciliares e de reservatórios de água que geram energia da AES Tietê, em SP.

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27/06/2008

Vale traça plano para mudanças climáticas

Denise Juliani
Gazeta Mercantil

São Paulo, 27 de Junho de 2008 – O conselho de administração da Companhia Vale do Rio Doce (Vale) aprovou ontem um plano estratégico que definirá sua atuação de longo prazo diante das mudanças climáticas. O plano, batizado de Programa Carbono Vale é resultado de meses de discussões internas e ainda terá de ser examinado pela diretoria executiva da companhia. Em linhas gerais, busca avaliar os riscos e as oportunidades associadas às mudanças climáticas.

Embora a atividade de mineração não seja considerada uma grande emissora de gases de efeito estufa (GEE), como o carbono, a Vale já divulga sua política para as mudanças climáticas por meio do questionário do Carbon Disclosure Project (CDP) – iniciativa de investidores globais de longo prazo que realiza uma ampla pesquisa sobre a atuação das companhias em todos os continentes em relação às mudanças climáticas.

O inventário de emissões da Vale no ano passado chegou a 15 milhões de toneladas, isso já incluindo as emissões da canadense Inco, adquirida em 2006. Para Flavio Montenegro, gerente-geral de relações institucionais e mudanças climáticas da Vale, investidores e empresas estão hoje mais conscientes da importância estratégica que as mudanças climáticas representam no longo prazo.

Para Montenegro, o relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), divulgado no início do ano passado em Paris, foi um divisor de águas. “O documento trouxe um nível de certeza muito maior do que os anteriores sobre as mudanças climáticas e contribuiu para que as empresas percebessem que esta é uma questão estratégica”, disse, durante evento sobre o mercado de carbono promovido ontem pelo Ibmec São Paulo.

No caso da Vale, diz, não vemos impacto no curto prazo, mas a companhia olha seu fluxo de caixa em uma perspectiva de 30, 40, 50 anos e faz todo o sentido começar a se preparar já para eventos que não impactam sua atuação no momento. “Os investidores de longo prazo também começam a premiar as empresas que demonstram maior preocupação com a sustentabilidade.”

Segundo ele, a 13Conferência das Partes sobre o Clima (COP-13) da ONU, realizada em Bali, na Indonésia, em dezembro do ano passado, trouxe novas questões relativas aos riscos e oportunidades das mudanças climáticas a serem consideradas pelas empresas.

No campo dos riscos, destaca-se uma forte tendência de imposição de metas de redução das emissões pelos países em desenvolvimento, bem como uma possível inclusão de metas regionais e setoriais. A imposição de regras de mercado mais rigorosas e a criação de barreiras não tarifárias para produtos e atividades fortemente emissoras de carbono é outro risco potencial.

Entre as oportunidades de negócios está a possibilidade de remuneração de floresta em pé, um assunto que já foi tabu nas discussões internacionais – deixado de lado na formulação do Protocolo de Kyoto, em 1998, por exemplo – mas que hoje já é visto com naturalidade e até mesmo alguns negócios começam a ser alinhavados, completa Marco Antonio Fujihara, sócio do Instituto Totum e da Sustaincapital, gestora especializada em investimentos com enfoque em sustentabilidade e que dá consultoria para a Vale.

A Vale está em uma situação bastante peculiar. Embora seja uma empresa brasileira, possui unidades em países do anexo 1 – os chamados desenvolvidos, que têm metas de redução de emissões de carbono. Por enquanto, a empresa não tem obrigação de reduzir suas emissões naquelas regiões, conta Montenegro. Na França, por exemplo, a atividade de mineração não é enquadrada como setor crítico e está livre do cumprimento de metas. As outras unidades externas em países desenvolvidos da Vale estão no Canadá e na Austrália, que ainda não definiram suas políticas neste campo, pois ratificaram o Protocolo de Kyoto mais recentemente.

Essas iniciativas têm um caráter estratégico para a companhia, pois no longo prazo, a atenção à sustentabilidade tem impacto na percepção de custo do capital que o mercado tem da empresa, ou seja, quanto mais investe em sustentabilidade, menor o risco e o custo de captação também cai. Não é à toa que os investidores estão cada vez mais em busca de informações sobre a atuação sustentável das companhias.

 

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24/06/2008

País deve exportar mais etanol, prevêem usineiros

Wellington Bahnemann
O Estado de S. Paulo

A União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) revisou para cima sua projeção de exportação do etanol brasileiro na safra 2008/2009, por conta da alta do preço do milho que elevou o custo de produção do biocombustível no mercado americano.

“Já trabalhamos que o volume a ser exportado nesta safra fique em torno de 4,5 bilhões de litros a 5 bilhões de litros”, disse o presidente da entidade, Marcos Jank, em entrevista ao ?Estado?. Antes, a expectativa da Unica era de que as exportações brasileiras somariam 3,9 bilhões de litros.

A mais recente alta do preço do milho decorre da crise de produção enfrentada pelos produtores americanos do Meio-Oeste, que estão sendo afetados pela cheia do Rio Mississippi.

Com o aumento do nível do rio, áreas de produção de milho em Estados como Iowa e Illinois estão sendo alagadas. “Com isso, o milho está custando US$ 8,00 o bushel (25,4 quilos)”, afirmou Jank.

O aumento da matéria-prima já tem levado, até mesmo, algumas empresas americanas a paralisarem a produção de etanol, o que abre oportunidade para os produtores brasileiros suprirem essa lacuna no mercado dos EUA.

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24/06/2008

‘Etanol do Brasil não desmata’

Secretário da Convenção da ONU para Mudanças Climáticas pede pressa na redução de emissões de CO2

Jamil Chade
O Estado de S. Paulo

O secretário-executivo da Convenção da ONU para Mudanças Climáticas, Yvo de Boer, afirmou ontem que o etanol brasileiro “não gera desmatamento” e criticou os biocombustíveis de outras fontes. Embora admitindo que “o pessoal do petróleo não gosta desse debate (do etanol)”, diplomaticamente ele negou que a solução das emissões de CO2 tenha de passar pela substituição de combustíveis. “O que precisamos é que todos se sentem à mesa para discutir. A solução para a questão climática não será a de escolher entre um ou outro combustível. O que queremos é reduzir as emissões. Esse é o objetivo.”

De Boer lidera os esforços das Nações Unidas para conseguir que, até o final de 2009, um acordo internacional estabeleça regras para reduzir as emissões de dióxido de carbono, principal gás causador do efeito estufa.

Em suas contas, o mundo precisará de investimentos de até US$ 300 bilhões para reduzir as emissões, até 2030, aos níveis de 1990. É “pouco”, só 1,5% dos US$ 20 trilhões necessários em investimento no setor de energia, no mesmo período, para suprir a demanda global.

Debate sofisticado
Para o representante da ONU, o debate sobre o futuro do etanol precisa ser mais sofisticado. “Não há um só etanol. O que existe no Brasil não desmata e é sustentável”, afirmou. Em sua avaliação, é justamente o critério de sustentabilidade que vai determinar se o etanol poderá ou não fazer parte de uma solução climática global.

“O biocombustível de óleo de palma desmata. Há também o etanol de milho, que está gerando a alta nos preços dos alimentos”, alertou. “Portanto, sei que o etanol será ainda um tema polêmico nas negociações do clima.”

Fracasso de kyoto
De Boer admite que, apesar de todos os esforços, as emissões continuaram aumentando e o Protocolo de Kyoto teve um impacto reduzido. “Os últimos dados que temos apontam que 2005 registrou um pico nas emissões.”

Eleições nos eua
Um grave obstáculo para alterar esse histórico de debates infindáveis – e resultados práticos medíocres – é a mudança de governo nos Estados Unidos no início de 2009. “Temos menos de um ano e meio para elaborar um dos tratados mais difíceis que já vimos”, afirmou De Boer. “O tempo não está a nosso favor e os países ainda adiaram para 2009 a negociação de algumas questões mais centrais, diante da troca no governo americano. Pontos como o estabelecimento de metas somente serão tratados em 2009″, lamentou.

Ele teme que, esperando que o novo governo norte-americano assuma plenamente, as primeiras reuniões negociadoras na ONU fiquem apenas para maio de 2009. E não disfarça que, sem os americanos, não haverá um acordo possível.

Modelo econômico
Para completar o cenário pouco otimista, De Boer alerta que a alta nos preços do petróleo não reduziu de forma dramática sua demanda. “Isso é um sintoma de que a natureza do crescimento é intensa em emissões de CO2. E isso não é bom”, disse. “O padrão de desenvolvimento econômico vai contra o que precisa ser feito no ambiente.”

Segundo De Boer, também as economias emergentes terão de aceitar cortes de emissões. Mas admite que um envolvimento dos emergentes somente será possível se houver assistência técnica e financeira dos governos ricos. “A queixa principal hoje dos países emergentes é de que essa ajuda não se concretizou”, afirmou.

A preservação da Amazônia é, também, elemento importante nas negociações. De Boer, porém, se recusou a dar sua opinião sobre a saída da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, do governo brasileiro.

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24/06/2008

Novas tensões globais

Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo

Questões relacionadas com as mudanças de clima ainda são tratadas no Brasil como temas de meio ambiente. A realidade é que os efeitos das mudanças climáticas começam a repercutir fortemente na geoeconomia e na geopolítica mundial e terão grande impacto sobre a política internacional e sobre muitos aspectos sociais e populacionais. Mais cedo do que se pensa, as conseqüências do aquecimento serão encaradas como questão de segurança nacional.

O risco de um cenário de tensões crescentes, em diferentes regiões do mundo, pode ser explicado, em especial, por três elementos:

A emergência da China com poucos recursos agrícolas, minerais e energéticos para atender a suas crescentes necessidades de gás, de petróleo, da quase totalidade dos minerais, de madeira e de produtos agrícolas e alimentícios.

Países com instituições fracas ou com governos autoritários (Congo Brazzaville, Libéria, Serra Leoa, Sudão, Iraque, Irã e por exemplo) estão se beneficiando de um crescente fluxo de investimentos e da venda de seus recursos naturais (sobretudo minérios, petróleo e gás) a preços cada vez mais altos, o que poderá aumentar a instabilidade global.

O aumento das tensões em razão dos múltiplos efeitos da mudança de clima global sobre a disponibilidade de recursos naturais e produtos alimentícios.

É evidente que não se deve exagerar o risco real, a curto prazo, de conflitos para assegurar os recursos naturais indispensáveis à sobrevivência de grandes massas populacionais. Não se podem, no entanto, ignorar o problema e sua importância, já que a escassez desses produtos sempre interage com outros fatores, como a ecologia, a política, a economia e elementos institucionais.

O impacto maior até aqui tem sido causado, entre outros fatores, pela alta dos preços dos recursos energéticos e dos minerais, pela crescente escassez de água e pelo aparecimento do fenômeno de deslocamento populacional.

As conseqüências da mudança de clima, nos próximos anos, poderão ter um efeito cumulativo sobre os já graves problemas de escassez de alimentos. Distúrbios em vários países relacionados com o aumento dos preços dos alimentos são um terrível prenúncio do que poderá ocorrer no futuro.

Estudos recentes, realizados pelo Centro de Análise Naval dos EUA (A ameaça da mudança do clima e segurança nacional) e pelo Serviço de Monitoramento das Geleiras no Mundo, da Universidade de Zurique, analisam os riscos que as rápidas mudanças climáticas, devidas ao aquecimento global, colocam para a estabilidade internacional e para a segurança nacional de todos os países.

A falta d’água ou seu excesso (tanto pelo aumento do nível do mar quanto pela escassez derivada do derretimento das geleiras), a queda da produção agrícola e o potencial impacto sobre a produção de alimentos, o uso dos recursos naturais, a utilização do petróleo e do gás como armas políticas e a disseminação das pandemias (ameaça de doenças com extensão global) são algumas das áreas que poderão ser fontes de tensão ou de conflitos no médio e no longo prazos.

A maior parte das geleiras que alimentam rios e reservatórios de água está se desfazendo de forma acelerada, podendo acarretar no futuro o desaparecimento de rios, com efeitos sobre o fornecimento de água potável e a utilização da sua força em hidrelétricas.

A fonte de alguns dos maiores rios asiáticos, como o Indo, o Ganges, o Mekong, Yang-Tsé e o Rio Amarelo são as camadas de gelo do Himalaia. Se essas geleiras continuarem a derreter, o fornecimento de água de grande parte da Ásia, tão densamente povoada, vai se reduzir drasticamente. O mesmo ocorre com os países andinos que recebem água das Cordilheiras dos Andes, como é o caso do Peru e da Bolívia.

O aumento do nível do mar, em conseqüência do degelo na região ártica, como mostra recente relatório do Centro de Informação sobre Neve e Gelo da Universidade do Colorado, pode causar o declínio das florestas, além de afetar cidades costeiras, países e ilhas oceânicas. Estes fatos podem acarretar movimentação populacional (como foi o caso do Furacão Katrina, em New Orleans, e do tsunami, na Indonésia), criando problemas econômicos e sociais de grande magnitude.

Regiões que já sofrem escassez de água, como Kuwait, Jordânia, Israel, Ruanda, Somália e Argélia, podem ser confrontadas com a necessidade de buscá-la de qualquer maneira, na medida em que as mudanças no clima agravem a situação. Provocada pelo aquecimento global, a desertificação de áreas hoje produtoras de alimentos (o Brasil poderá ser um desses países afetados) e o aparecimento de novas regiões de produção agrícola (como a Sibéria) hão de alterar a geopolítica da agricultura mundial.

Em relatório de 2005, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estudou o efeito das mudanças globais de clima sobre a saúde. A OMS chama a atenção para o risco potencial da disseminação de doenças derivadas das alterações climáticas, com efeitos importantes sobre as condições sanitárias em importantes concentrações populacionais. Trata-se de prever quando, como e onde deverão ocorrer os maiores impactos. O referido relatório levanta uma série de preocupações sobre a disseminação de doenças como a dengue, a malária e a salmonela.

O debate sobre o papel da competição pelos recursos naturais nas relações internacionais ainda passa ao largo de nossas preocupações, pela posição privilegiada que desfruta o Brasil. Nem por isso deve ser dada menor importância ao problema, uma vez que poderá afetar-nos diretamente. A repercussão no exterior da devastação da floresta amazônica e os problemas energéticos que estão ocorrendo hoje na América do Sul sugerem a necessidade de nos posicionarmos para encarar essa nova realidade.

Rubens Barbosa, consultor de negócios, é presidente do Conselho de Comércio Exterior da Fiesp

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24/06/2008

Bancos discutem critérios socioambientais do crédito

André Palhano
Folha de S.Paulo

A partir da próxima terça-feira, dia 1º de julho, entra em vigor uma resolução do Banco Central que determina aos bancos públicos e privados restringirem a concessão de crédito rural apenas a produtores que estejam devidamente regularizados com os órgãos de fiscalização.

Ainda que restrito à Amazônia Legal e de eficácia questionável, o documento deu fôlego a um debate que vem sendo travado há algum tempo no sistema financeiro no Brasil e no exterior: até que ponto os bancos são responsáveis pela avaliação dos riscos socioambientais de seus tomadores de crédito?

“Há pessoas que acreditam que os bancos são totalmente responsáveis pela avaliação socioambiental de seus clientes. Outras, que os bancos não têm responsabilidade alguma, pois isso caberia ao Estado. A resposta correta deve estar em algum lugar no meio do caminho”, diz Christopher Wells, principal executivo da força-tarefa para América Latina da Unep-FI, braço do Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas para o setor financeiro).

O debate tomou forma em 2002, quando o IFC (International Finance Corporation), braço financeiro do Banco Mundial, e um grupo de bancos privados lançaram os Princípios do Equador, que originalmente reuniam um conjunto de critérios de avaliação socioambiental que passariam a ser exigidos na concessão de créditos para empresas e projetos de infra-estrutura a partir de determinado valor. O objetivo: evitar o financiamento de empresas e obras potencialmente desastrosas para a sociedade e o ambiente.

O tema da sustentabilidade cresceu. E diversos bancos passaram a incorporar princípios semelhantes em suas operações cotidianas de crédito, criando áreas específicas ou em parcerias com ONGs (organizações não-governamentais) e consultorias para avaliar os riscos socioambientais de seus clientes.

É uma avaliação interessante para as instituições financeiras, na medida em que o risco de inadimplência de uma empresa potencialmente sujeita a multas ambientais e trabalhistas, ou a acidentes, é consideravelmente maior.

Discussão avançada
Mais recentemente, a utilização maciça da sustentabilidade como estratégia de negócios e de marketing por parte dos bancos agregou um novo fator de risco relacionado ao tema: o de imagem. “A responsabilidade que um banco tem de avaliar os riscos socioambientais de seus clientes se torna maior quando esse assunto é utilizado em seu posicionamento estratégico. Quanto maior esse uso, maior o telhado de vidro”, afirma Gustavo Pimentel, gerente do Programa Eco-Finanças, da organização Amigos da Terra -Amazônia Brasileira.

Segundo os especialistas, o Brasil é um dos países mais avançados na discussão sobre critérios e responsabilidades socioambientais relacionados ao crédito bancário. O que pode ser explicado, em boa parte, pelos conhecidos problemas da fiscalização do setor público, entre eles o de falta de pessoal, de recursos e a corrupção.

Em outras palavras, uma empresa pode estar em dia com os órgãos de fiscalização trabalhista e ambiental e, ao mesmo tempo, representar enormes riscos de inadimplência, de garantias e de imagem para as instituições financeiras.

Essa realidade acabou funcionando como um verdadeiro acelerador do tema socioambiental nas áreas de crédito das instituições financeiras locais. “Em alguns países, estar em dia com os órgãos de fiscalização já basta para que os bancos tenham segurança nesse quesito ao emprestar os recursos. No Brasil, os problemas que temos nessa área são justamente a causa desse debate no sistema financeiro”, diz Wells.

Formação especial
Quase todos os bancos de maior porte já possuem ou estão estruturando áreas específicas de avaliação de critérios sociais e ambientais no segmento de pessoas jurídicas. Nelas, a formação dos funcionários foge do padrão da indústria financeira: são geólogos, biólogos, cientistas sociais e técnicos ambientais, entre outros, que realizam o trabalho.

O que a resolução do BC trouxe de novo foi regulamentar um assunto que os bancos preferem relacionar às suas próprias decisões e práticas na área socioambiental. E cujos limites ainda não parecem muito claros sequer para os bancos.

“Há um grande debate no setor financeiro, que é justamente se a responsabilidade socioambiental dos bancos tem ou não limites. A única coisa que se sabe até agora é que, em um cenário de evolução do tema da sustentabilidade, esses limites serão cada vez mais estendidos”, diz Sônia Favaretto, diretora de responsabilidade social da Federação Brasileira de Bancos.

Outro dilema enfrentado pelos bancos é a concorrência. Afinal, um banco pode se recusar a conceder crédito para um cliente, seguindo critérios socioambientais, e esse mesmo cliente conseguir o crédito em outro banco.

“Isso é uma coisa que acontece, ainda que seja cada vez menos comum. É por isso que precisamos de políticas setoriais, coordenadas, pois é do interesse de todos ter um bom radar para detectar clientes que representem riscos socioambientais”, diz Wells.

O retrato dos novos consumidores brasileiros

27/06/08

O Brasil passa por uma transformação sem precedentes no perfil de seus consumidores — são eles que ditarão as regras de um mercado próximo de chegar a 1 trilhão de dólares por ano

 Por Fabiane Stefano, Larissa Santana e Marcelo Onaga

EXAME - Com 190 milhões de habitantes espalhados no quinto maior território do planeta, o Brasil é saudado em seu hino como um “gigante pela própria natureza”. Depois de uma longa e tenebrosa hibernação, parece que o gigante começou a se mexer — e, quando um país desse tamanho resolve sair do lugar, a repercussão costuma ser mundial. É o que se vê atualmente. Crescimento econômico acima de 4% ao ano, multiplicação de empregos, acesso ao crédito e elevação da renda estão reproduzindo no país um fenômeno típico de sociedades avançadas: a criação de um mercado consumidor de massa, forte e cada vez mais complexo. Milhões de brasileiros têm aproveitado o bom momento da economia para experimentar, pela primeira vez, as delícias do consumo — e legiões de outros esperam, ansiosos, a sua vez chegar. De acordo com um estudo feito com exclusividade para EXAME pelas consultorias Bain & Company, de estratégia empresarial, e Euromonitor, de pesquisa e inteligência de mercado, o consumo anual no Brasil deve crescer de 780 bilhões de dólares em 2007 para 1 trilhão em 2012. Com esse aumento — de 220 bilhões de dólares –, o mercado brasileiro será o terceiro entre os que mais contribuirão para o crescimento do consumo no mundo nos próximos cinco anos, um adicional calculado em 3,5 trilhões de dólares. Segundo os especialistas da Bain e da Euromonitor, apenas Estados Unidos e China darão contribuições maiores. “O Brasil passa por um momento raro, com forte crescimento da classe média, e esse movimento deve se intensificar nos próximos anos”, diz o americano John Naisbitt, pesquisador de tendências de consumo e autor do livro Megatrends. “É natural que uma população mais madura e com mais renda passe a ter acesso a mais e melhores bens e serviços.”

O lado mais visível da transformação em curso é a recente escalada de uma massa de pessoas para classes superiores de consumo. A maior variação deu-se na faixa intermediária, a chamada classe C, com renda mensal entre 1 062 e 2 017 reais. De acordo com pesquisa realizada pelo instituto Ipsos para a financeira Cetelem, em apenas dois anos, de 2005 a 2007, um contingente de 23,5 milhões de pessoas passou a fazer parte desse estrato. Com esse deslocamento, a classe C tornou-se a maior em número absoluto de pessoas na pirâmide social brasileira, superando os 86 milhões do ano passado. Somada aos 28 milhões que formam as classes A e B, isso significa que já são 114 milhões os brasileiros que podem ser considerados consumidores. Outro estudo, da consultoria Value Partners, estima que, numa hipótese conservadora, o número de consumidores no país aumentará pelo menos 7,5 milhões até 2010. A ascensão de milhões de pessoas à classe C não é um fenômeno que se esgota em si mesmo. Mais pessoas consumindo na base significa que quem produz e vende — normalmente aqueles que estão no topo da pirâmide social — também tem mais chance de enriquecer. Essa progressão da renda é o único lado bom de eventos que viraram notícia nos últimos tempos — como o caos nos aeroportos ou o virtual estrangulamento no trânsito de metrópoles como São Paulo. A frota de veículos no país aumenta 2,5 milhões por ano. E as viagens aéreas deixaram de ser artigo de luxo, premissa que anos atrás levou à criação da Gol e que hoje atrai novos nomes para o país, como a americana JetBlue. “Nos próximos cinco a sete anos o mercado brasileiro vai dobrar de tamanho”, afirma David Barioni, presidente da TAM. Se Barioni estiver certo, o número de passageiros nesse período passará de 50 milhões para 100 milhões por ano. Segundo projeções da operadora de telefonia Vivo, até 2012 o número de celulares no país superará 200 milhões. Até lá, em média, cada brasileiro terá seu telefone móvel. Cifras de crescimento dessa magnitude são inimagináveis em mercados maduros, mas fazem parte do dia-a-dia dos negócios em países emergentes mais pujantes, como a China.

A estabilidade econômica mantida até agora é um dos pilares do atual vigor do mercado brasileiro. Preservá-la é condição para que as coisas continuem assim. O outro pilar, menos perceptível, é a transformação benigna da demografia do país. O Brasil vive hoje uma transição que a grande maioria dos países desenvolvidos já atravessou, resultado de mudanças que começaram a ocorrer seis décadas atrás. Nos anos 50, a população brasileira apresentava elevadas taxas de crescimento, fruto da combinação de uma natalidade alta com a redução da mortalidade infantil. A população crescia à média de 3% ao ano — taxa que, nas décadas seguintes, caiu até o 1,4% atual. Se o ritmo de crescimento populacional daqueles anos fosse mantido por todo o período, em vez de 190 milhões de habitantes o Brasil contaria hoje com quase 270 milhões — adicional equivalente a uma Alemanha ou duas Argentinas. Com a tendência de queda da fecundidade, o Brasil deverá alcançar o máximo de 264 milhões de habitantes em 2062 e daí em diante a população entrará em declínio.

Um país em transformação

AO MESMO TEMPO, A EXPECTATIVA DE VIDA NO PAIS cresceu da média de 51 anos em 1950 para quase 73 atualmente. Nesse ritmo de avanço, em 2050, ao nascer, os brasileiros terão uma esperança de vida de 81 anos — mesma taxa hoje verificada entre os japoneses, o povo com a maior longevidade do mundo. A contínua queda da taxa de nascimentos e o aumento da expectativa de vida têm ampliado o peso dos adultos na população, criando um fenômeno demográfico favorável à economia do país: os brasileiros na faixa de idade mais ativa — entre 15 e 64 anos — já são dois terços da população total, uma proporção inédita na história. Até 2040, haverá acréscimo de 30 milhões de pessoas nessa faixa de idade produtiva. Conhecido como bônus demográfico, o fenômeno ocorre porque a força de trabalho cresce num ritmo maior do que a população que depende dela — ou seja, crianças e idosos. Com menos dependentes, sobrarão mais recursos para que as famílias aumentem o nível de consumo e de investimento. “Essa situação favorece negócios dos mais diferentes setores”, diz o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, do IBGE. “O país e as empresas não podem desperdiçar este momento.”

Tendência 1: o avanço das mulheres no mercado

Ana Paula de Campos, de 38 anos, e Mozart Galindo, de 43, começarão a encaixotar suas coisas nos próximos dias. Em maio, o casal e os três filhos – Dante, de 6 anos, e os gêmeos Tito e João, de 9 – vão se mudar para um apartamento recém-construído de mais de 1 milhão de reais. O pagamento, assim como todas as contas da casa, será dividido pelo casal.”Não trabalhar é algo impensável para mim”, diz a professora universitária. O avanço das mulheres no mercado de trabalho cresce ano após ano e está criando novos padrões de consumo e comportamento.A perspectiva de venda dos produtos dedicados ao público feminino é grande.

A presença delas no mundo do trabalho é cada vez maior…

População feminina total no país

(em milhões)

1980

61

2005

95

2020

112

Participação das mulheres na população economicamente ativa

(em %)

1999

41,4%

2006

43,8%

2010

45%

A população feminina economicamente ativa cresceu 3,2% ao ano em média de 2001 a 2006, enquanto a masculina cresceu apenas 1,7%

De 2000 a 2006, a renda per capita disponível das mulheres cresceu 7,3%, enquanto a dos homens aumentou apenas 2,6%

As mulheres já são chefes de família em 31% dos domicílios do país – em 1991, a proporção era de 18%. São as proprietárias de 38% dos imóveis de 2 e 3 dormitórios no país – a proporção era de menos de 5% há dez anos

…e vários mercados devem crescer como resposta a isso

Sopas

(em milhões de dólares)

2007

194

2012

325

Crescimento 68%

Protetores solares

(em milhões de dólares)

2007

500

2012

746

Crescimento 49%

Eletrodomésticos

(em bilhões de dólares)

2007

5,8

2012

7,9

Crescimento 36%

Tinturas para cabelo

(em bilhões de dólares)

2007

1,6

2012

2,1

Crescimento 31%

Produtos para bebê

(em bilhões de dólares)

2007

1,3

2012

1,7

Crescimento 31%

Conta corrente em banco

(em milhões de contas)

2006

103

2012

150

Crescimento 46%

Fontes: IBGE, Euromonitor, Tecnisa, Febraban e Profuturo/FIA

A transição demográfica deixará uma série de implicações para o futuro dos negócios. A mais importante talvez seja o envelhecimento da população. Hoje, há no país 19 milhões de pessoas com idade acima de 60 anos. Mas, em 2020, o grupo de idosos já será de quase 30 milhões. E, olhando mais à frente ainda, em 2050, haverá um contingente de 64 milhões de brasileiros na terceira idade. Desse total, 160 000 serão centenários. “São pessoas que terão tempo e renda para gastar”, diz Ana Maria Camarano, pes quisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. “Por isso, a demanda por serviços nas áreas de lazer e turismo para a terceira idade será enorme.” A massa de rendimentos dos idosos já é relevante: foi de 16 bilhões de reais mensais em 2006, de acordo com análises do demógrafo José Ribeiro Soares Guimarães sobre dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), realizada em 2006.

Tendência 2: mais casais sem filhos

Há cada vez mais casais que decidem não ter filhos ou postergam a paternidade para aproveitar a vida sem preocupações com gastos. O casal de empresários Flávio e Juliana Agapito, de 29 anos, é um exemplo disso. Juntos há cinco anos, eles não pretendem ter herdeiros nos próximos três.”Ainda queremos viajar e comprar as coisas que gostamos”, diz Flávio. Donos de uma confecção de moda esportiva, os dois moram num apartamento próprio, mas estão construindo uma casa ampla, com piscina e espaço para receber os amigos, num condomínio de alto padrão na Grande São Paulo. Já começam a comprar móveis e pensam em adquirir um televisor de LCD de 50 polegadas.

Com mais casais sem filhos…

Casais sem filhos

(número de domicílios,
em milhões)

1996

5,2

2006

8,6

2016

16

…melhora a perspectiva de venda de uma série de produtos específicos

Comércio eletrônico

(em bilhões
de reais)

2007

6,4

2010

15,7

Crescimento 145%

Crédito para pessoa física

(em bilhões
de reais)

2007

250

2012

400

Crescimento 60%

Refeições prontas

(milhões de dólares)

2007

580

2012

942

Crescimento 62%

Móveis e decoração

(em bilhões
de dólares)

2007

17,5

2012

21,6

Crescimento 23%

Fontes: IBGE, Euromonitor, e-bit e Partner Conhecimento

Isso não tem passado despercebido às empresas, que começam a desenvolver produtos para esse público. A Natura já está testando em seus laboratórios cremes voltados para mulheres de 80 anos. A experiência é resultado das incursões da empresa no mercado internacional. Ao observar os hábitos de consumidores nos países da Europa e no Japão, seus executivos perceberam a importância desse mercado. “Poderemos antecipar tendências que já ocorreram lá fora”, diz Joel Ponte, diretor de marketing de inovação da Natura. A LG está trazendo para o Brasil os produtos focados na terceira idade que desenvolve na Coréia. Celulares com teclas maiores já são oferecidos no mercado nacional. A última novidade, ainda não disponível aqui, são aparelhos que, além de ser telefones, são capazes de tirar a pressão arterial ou medir o nível de glicose do usuário. “É algo que devemos lançar em 2010″, diz Eduardo Toni, diretor de marketing da LG.

A força da terceira idade como consumidora já é bem real para empresas como a CVC, maior operadora de turismo do Brasil. No ano passado, 40% do 1,5 milhão de consumidores que procuraram a agência para viajar pelo país ou para o exterior tinham mais de 50 anos. Nos cruzeiros marítimos, com roteiros que passam de 18 dias, a faixa etária média é acima dos 60 anos. “Em nossa primeira viagem longa de navio, em 2002, me assustei com o número de passageiros mais velhos”, diz Guilherme Paulus, dono da CVC. Desde então, a tripulação dos navios tem sido preparada para lidar com esse público, com orientações que vão desde como administrar injeções de insulina em passageiros diabéticos até nunca se esquecer de oferecer um cobertor extra nos dias frios. A expectativa é que a CVC transporte pelo menos 1,4 milhão de passageiros com mais de 50 anos em 2011. A base desse prognóstico é a expectativa de que os idosos do futuro, além de mais numerosos devido ao aumento da esperança de vida, tenham mais dinheiro. “Quem adquire hoje uma previdência privada deverá se aposentar com uma renda média bem maior”, diz Patrick Larragoiti, presidente da seguradora SulAmérica.

Tendência 3: cresce o número de pessoas morando sozinhas

Há quatro anos, o carioca André Mariani passou a morar sozinho num apartamento no bairro da Gávea. Um dos primeiros entre os amigos a se tornar independente, o consultor de tecnologia da informação, de 28 anos, decorou o apartamento num estilo high tech. Já está em seu terceiro automóvel, um Peugeot 206 SW. Mariani costuma gastar metade do salário de 5 000 reais com as despesas da casa. O restante ele dedica ao lazer e a investimentos financeiros. Mariani é um exemplo do potencial do mercado de pessoas que moram sozinhas – ávidas por tecnologia, conforto e praticidade.

O avanço no número de pessoas sós…

Mais pessoas moram sozinhas

(em milhões)(1)

1996

3,2

2006

6

2016

12

O consumo das pessoas que moram sozinhas vem crescendo em média 6% ao ano. Elas são responsáveis por 40% do aumento das vendas de produtos práticos e em porções individuais

…cria uma série de oportunidades de consumo

Conexões de banda larga

(em milhões
de conexões)

2007

8

2012

30(2)

Crescimento 275%

Aparelhos portáteis de música

(em milhões
de dólares)

2007

99

2012

203

Crescimento 105%

 

 

Suplementos alimentares

(em milhões
de dólares)

2007

319

2012

632

Crescimento 98%

Telefones celulares

(em bilhões
de dólares)

2007

3,2

2012

5,4

Crescimento 69%

Cerveja

(em bilhões
de dólares)

2007

4,4

2012

6,8

Crescimento 55%

Produtos eletrônicos para carros

(em milhões
de dólares)

2007

311

2012

467

Crescimento 50%

(1) Número de domicílios com uma só pessoa (2) Considerando potencial da tecnologia 3G de celular Fontes: IBGE, Euromonitor, grupo Pão de Açúcar e Ethevaldo Siqueira

Não será apenas o avanço etário no Brasil que representará novos desafios às empresas. Novos arranjos sociais e familiares vão lentamente determinando mudanças no comportamento dos consumidores. Uma categoria que se tornou obsessão nos departamentos de marketing de muitas empresas é a dos casais sem filhos. Nos Estados Unidos, esses casais são chamados de dinks — abreviatura de double income, no kids (“dupla renda, sem filhos”). Nesse grupo estão incluídos os jovens que protelam a chegada dos herdeiros, pessoas de meia-idade que já criaram os filhos, os parceiros gays e os casais que não podem ou não querem se tornar pais. A percepção sobre os dinks é que eles consomem mais porque somam dois salários no orçamento doméstico e não têm gastos com dependentes. Portanto, é uma turma que gasta mais com bens de consumo e lazer. No Brasil, a Pnad de 2006 identificou 8,6 milhões de residências de casais sem filhos — o que representa um aumento de 60% sobre o número de 1996. “Essa parcela da população deve dobrar na próxima década”, diz Diniz, do IBGE. No mesmo foco estão os que vivem sozinhos. Assim como os dinks, eles têm uma renda que não precisa ser dividida. “No mercado imobiliário, os solteiros e os sem-filhos já representam 27% das vendas de imóveis novos”, diz Paulo Secches, diretor da empresa de pesquisa TNS InterScience. “Esses dois grupos têm perfis muito parecidos de consumo.”

O mercado imobiliário é o grande campo de experimentação dessas novas configurações familiares. A construtora paulista Tecnisa entregará em maio um edifício residencial no bairro da Pompéia, na zona oeste de São Paulo, com um espaço dedicado exclusivamente a animais de estimação. O que motivou a inclusão da área na planta do prédio foi a estimativa de que no país haja mais de 60 milhões de cães e gatos domésticos. Na cidade de São Paulo, 65% dos moradores de prédios possuem algum animal de estimação. “Muitos casais estão preferindo arrumar um bichinho a ter um filho”, diz Romeo Busarello, diretor de marketing da Tecnisa. O perfil dos compradores do novo edifício, com apartamentos que custam 350 000 reais, é considerado um microuniverso de tendências mais gerais que proliferam nas metrópoles. Entre os moradores, que têm idade média próxima dos 35 anos, 45% são casais sem filhos, 42% são solteiros, 8% são idosos e apenas 5% são famílias com filhos. Esse perfil não se encontra apenas nas classes A e B — embora seja entre os com maior renda que essas tendências se materializam mais rápido. Nos empreendimentos da construtora Goldfarb, voltados prioritariamente para a classe C, os jovens casais sem filhos são 80% dos compradores.

Tendência 4: mais consumidores de meia-idade

O médico pediatra Arthur Azevedo, de 56 anos, é um exemplo de consumidor que quer viver mais e melhor. Durante 30 anos, Azevedo cumpriu uma rotina com jornadas de 12 horas no consultório. Em 2000, ele deixou a medicina praticamente de lado e se dedica a seu maior prazer, que também virou profissão: o vinho. “Comecei fazendo cursos, virei professor e hoje minha vida gira em torno do vinho”, diz ele. Além de beber bons vinhos, que consomem 2 000 reais de seu orçamento mensal, Azevedo aproveita a vida viajando com a mulher. Assim como ele, uma legião de cinqüentões está adotando hábitos mais saudáveis e dedicando mais tempo ao lazer.

O número de pessoas com mais de 50 está em alta…

Os novos consumidores de meia-idade

(em milhões)(1)

1980

6,8

2005

12,6

2020

18

Eles são mais ricos: essa faixa etária corresponde a 43% da classe de renda mais alta (acima de dez salários mínimos). No total da população, são 23%

São também mais empreendedores: entre os maiores de 50 anos, 33% trabalham por conta própria. No conjunto da população, a proporção é de 19%

…abrindo espaço para uma série de bens mais sofisticados

Viagens aéreas

(em milhões
de viagens)

2007

50

2012

100

Crescimento 100%

Vinhos

(em bilhões
de dólares)

2007

1,9

2012

2,5

Crescimento 32%

Produtos de beleza masculinos

(em bilhões
de dólares)

2007

1,6

2012

1,9

Crescimento 19%

(1) Homens com idade entre 45 e 59 anos
Fontes: IBGE, Euromonitor,Value Partners,TAM e Talent/Indicator GfK

O VAREJO É UM DOS SETORES MAIS SENSIVEIS às mudanças no perfil do consumidor. É onde se percebe mais rapidamente as transformações na renda e no comportamento de compra. Os supermercados, por exemplo, estão tendo de se reinventar para atender um novo mercado. O grupo Pão de Açúcar lançou no ano passado a bandeira Extra Fácil, para lojas com área de no máximo 200 metros quadrados. A nova rede já conta com 19 unidades, de início na capital paulista, e até o final deste ano deve ganhar outras 80, algumas delas em outras cidades grandes do país. A nova marca do grupo é um misto de padaria e loja de conveniência, instalado em áreas de passagem (próximas, por exemplo, às estações do metrô) e nos bairros de renda mais alta. “Notamos que os solteiros e os sem-filhos não costumam ir a um grande supermercado”, diz Sylvia Leão, diretora da Extra Fácil. Boa parte dos 3 000 itens oferecidos nas lojas é vendida nas menores porções disponíveis pelos fabricantes. Pode parecer um mer cado pequeno, mas não é. De acordo com a empresa de pesquisa Nielsen, os supermercados com até quatro guichês movimentam 50 bilhões de reais por ano no Brasil e representam o segmento que mais cresce no setor. O Carrefour testa em Porto Alegre o mesmo estilo de loja, sob a marca Carrefour Express. Os dois varejistas não estão inventando a roda. Na França, o Casino (acionista do Pão de Açúcar) tem 6 000 lojas com a marca Petit Casino.

Tendência 5: uma vida mais longa e melhor

Número de idosos(1) no país

(em milhões
de pessoas)

1980

7,2

2006

19,1

2020

29,3

2050

64

Rendimento dos idosos

(em bilhões
de reais)

2006

16

2020

25

A CVC estima que o total de clientes com mais de 50 anos de seus pacotes de viagens passará de 600 000 atualmente para pelo menos 1,4 milhão em 2011

Dos passageiros de cruzeiros marítimos, 60% são pessoas com mais de 60 anos

A Fiat calcula que hoje 12% dos compradores de seus carros têm mais de 50 anos. Em 2028, eles serão 20%

Embora os idosos e os solitários despertem o interesse das empresas, nada é mais urgente do que satisfazer uma categoria especial — e numerosa — de consumidores: as mulheres. Elas são 96 milhões no Brasil. De acordo com dados do IBGE, as mulheres com mais de 16 anos de idade tiveram rendimento mensal de 34 bilhões de reais em 2006. O montante representa 70% do que os homens ganhavam no mesmo ano. Hoje, a participação feminina na população economicamente ativa brasileira é 44%. As mulheres também são as responsáveis financeiras por 31% dos domicílios brasileiros, ante 19% em 1991. O inegável avanço na estrutura econômica das mulheres só reforça um componente social e comportamental: as decisões de compra nas famílias estão cada vez mais nas mãos delas. E entender o que as mulheres querem virou prioridade dentro das empresas. A montadora Renault mantém um grupo de estudos de mercado voltado apenas para o perfil de consumo feminino — elas respondem por 52% das vendas da marca francesa. A montadora acaba de inaugurar um centro de design instalado na região dos Jardins, área nobre de São Paulo, onde está concentrada a maioria das lojas de luxo da cidade. Isso porque, segundo pesquisas, a escolha das mulheres é fortemente influenciada pelo design dos produtos. Com o estúdio nos Jardins, a montadora pretende captar as tendências de moda, decoração e comportamento que podem ser traduzidas para o universo automotivo. “Nosso presidente mundial, Carlos Ghosn, definiu que as mulheres são um mercado estratégico no Brasil”, diz Jérôme Stoll, presidente da Renault no país.

No setor imobiliário, a evolução das mulheres como consumidoras tem tradução em números. Há dez anos, 5% dos apartamentos de dois ou três dormitórios estavam no nome delas. Hoje são 38%. Para conquistar esse mercado em ascensão, a construtora Tecnisa pesquisou os gostos femininos e se adaptou a eles. Desde 2005, a empresa possui um programa de relacionamento com os clientes que envolve o envio de mimos em uma caixa. “Mulheres adoram caixas”, diz Carlos Alberto Julio, presidente da empresa. Uma semana após fechar um negócio, a Tecnisa manda à casa de seus novos clientes, por exemplo, uma caixa com duas taças e uma garrafa de champanhe. “Cada vez mais, vemos as mulheres tomando as decisões de consumo em vários setores”, diz Franck Rosez, diretor de marketing da financeira Cetelem. “Descobrimos que isso se dá até em produtos voltados para os homens.” Foi o que pôde ser constatado na análise do banco de dados dos cartões de crédito de um dos clientes da financeira, a Camisaria Colombo, rede de moda masculina com 128 lojas em 17 estados. “Dos 300 000 nomes cadastrados com nosso cartão, 30% são mulheres”, afirma Álvaro Jabour, dono da rede. “Elas são clientes assíduas, com renda própria para comprar roupas para marido e filhos.” A descoberta fez com que a empresa abandonasse uma antiga tradição de ter apenas vendedores homens. Hoje, metade de seus atendentes nas lojas são mulheres.

Captar os humores do mercado será cada vez mais importante daqui em diante — tudo indica que o país vive os primeiros contornos de uma mudança radical na economia. A teoria econômica ensina que o tamanho dos mercados importa, pois só a escala permite oportunidades de segmentação e sofisticação. A emergência de milhões de consumidores à classe C abre espaço para crescimento de padrão chinês em inúmeros segmentos, mas a mudança vai muito além desse fato. Paralelamente, os segmentos mais abastados da classe C estão migrando para a B — e o mesmo ocorre da B para a A. Ou seja, oportunidades de negócios vão surgir dos mercados populares aos artigos de alto luxo. Vai se dar bem quem souber entender o que quer, afinal, seu consumidor. Recentemente, a TAM detectou, com base em pesquisas, a necessidade de um programa de bandas tarifárias para oferecer produtos que se encaixem às necessidades e possibilidades de diferentes clientes. “Há desde passagens mais baratas, para quem não faz questão de acumular milhas, de levar muita bagagem ou de flexibilidade para mudar horários, até mais caras, para o consumidor de altíssimo padrão, que quer o conforto da primeira classe para ir a Paris”, diz Barioni. Ou seja, não dá para cobrar muito de quem quer viajar barato — mas não dá para oferecer um serviço muito simples a quem quer conforto. Na nova etapa de pujança do mercado brasileiro, decifrar o que quer o novo consumidor brasileiro virou questão de sobrevivência.

 

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