Análise Fator:
A indústria e os varejistas já identificaram (e quantificaram) a demanda dos consumidores por produtos sustentáveis, que não agridem o meio ambiente. Rapidamente esta oportunidade de negócios de sustentabilidade, abraçada pelos grandes varejistas, conforme mostra a seqüência de matérias abaixo, resultará numa onda sustentável por toda a cadeia de suprimentos do setor.
Sucesso para as empresas que possuem este diferencial competitivo, por já estarem preparadas para atender esta demanda.
Com relação ao mercado de créditos de carbono, o seu futuro depende ainda muito do que será ratificado no final de 2009, em Compenhagem, e principalmente da participação dos EUA. Alguns analistas acreditam que o “carbono” pode ultrapassar todas as outras commodities tradicionais.
Por Marcos Redondo, diretor-executivo da Fator Ambiental
Leia na fonte
27/06/2008
Carrinhos de compras ficam mais verdes
Rosangela Capozoli
Valor Econômico
Sergio Zacchi
Jacques Gelman: “Empresas tomam consciência de que trabalhos as tornarão mais eficientes e competitivas”
Lojas verdes ou ecoeficientes. Pouco importa a definição. O fato é que o tema sustentabilidade passou a ser um dos pontos fortes nas negociações entre indústria e varejo. A Fundação Getúlio Vargas (FGV), que já premiava as empresas pela responsabilidade social, ampliou o leque e, em 2008, pela primeira vez, passará a chamar o evento de Prêmio de Responsabilidade Social e Sustentabilidade no Varejo. “Expandimos o programa e neste ano faremos o primeiro fórum sobre varejo e consumo sustentável”, adianta Jacques Gelman, coordenador do Programa de Responsabilidade Social e Sustentabilidade no Varejo da FGV. Os trabalhos começaram em junho e quatro reuniões já estão agendadas para tratar do tema ao longo do segundo semestre.
“As empresas estão tomando consciência que todo trabalho focado na melhoria do meio ambiente as tornarão mais eficientes e competitivas”, reforça. Mas essa conscientização não se dará da noite para o dia. A sustentabilidade é formada por um tripé que abrange aspectos econômicos, sociais e ambientais. “É um projeto cultural de longo prazo, em todo o mundo, mas as grandes empresas já podem desenvolver ações de curto prazo. Se houver pressão por parte do consumidor as indústrias agirão com maior rapidez e farão um alinhamento estratégico que resulte em competitividade.”
Hélio Mattar, diretor presidente do Instituto Akatu, concorda e entende também que se trata de um processo que será feito passo a passo. “Troca de embalagens, redução no consumo de energia, água e emissão de CO2 serão as primeiras etapas a serem cumpridas”, diz. Hoje, segundo o coordenador da FGV, apesar de o setor varejista representar uma fatia muita expressiva da economia, ainda é pequena a quantidade de empresas “com clara conscientização de seu papel como agente de mudança”.
Essa exigência já começou, ainda de maneira tímida, nas grandes redes supermercadistas e, em menor proporção, nas de pequeno porte. O Grupo Pão de Açúcar, por exemplo, investe R$ 7,5 milhões no primeiro supermercado verde da América Latina, inaugurado este mês. A construção da loja em Indaiatuba (SP), obedece aos moldes Leed (Leadership in Energy and Environmental Design), que tem por objetivo a diminuição do impacto socioambiental das edificações. O sistema de ar condicionado permite redução de 10% no consumo de energia por ano em relação a uma loja comum, segundo João Edson Gravata, diretor de operações do grupo. “Serão 120 mil KW a menos”, garante. Gravata explica que 100% dessa energia provêm de fontes renováveis, o que representa queda de 34 mil toneladas/ano de CO2, o equivalente a mais de 190 mil árvores reflorestadas. Ainda pelas suas contas, a queda na utilização da água ficará ao redor de 40%, o que significará 2,5 milhões de litros por ano.
“As negociações com os fornecedores por uma busca maior de entrega de produtos sustentáveis já começou”, informa. A água mineral carbono neutro foi um dos primeiros produtos sustentáveis desenvolvidos para o novo ponto de venda. Dentro do “laboratório” do Pão de Açúcar os lançamentos já estão saindo do forno. “São cinco tipos diferentes de pães”, diz. Da lista de mais de 20 mil itens comercializados nesse supermercado, quase 800 deles são de produtos sustentáveis, de acordo com Gravata. “São produtos que vão desde linha de limpeza até perfumaria”, exemplifica. José Roberto Tambasco, vice-presidente comercial de operações do grupo, acrescenta que “informações, instalações, operação, produtos e completos processos de reciclagem e aproveitamento de resíduos são algumas das ferramentas escolhidas para envolvermos fornecedores e consumidores acerca de conceitos e práticas de consumo sustentável”.
Pelo menos por enquanto, comprar produtos sustentáveis terá um custo maior para o bolso do consumidor. “A loja de Indaiatuba terá um faturamento maior que as demais por conta de uma oferta maior de produtos sustentáveis”, afirma Gravata.
A diretora de assuntos corporativos do Grupo Carrefour no Brasil Renata Moura acredita que a demanda por produtos sustentáveis barrará a diferenciação de preços. “Dentro da linha marcas próprias já conseguimos oferecer produtos sustentáveis com preços até 20% inferiores aos demais”, afirma. Segundo a diretora, as negociações com os fabricantes estão avançando cada vez mais. “Alguns fornecedores estão mais abertos para inovar, mas toda a indústria está se movimentando porque há uma demanda pelos produtos sustentáveis”, explica. Pelos seus cálculos, em 2007, o Carrefour economizou entre 5% e 10% de energia através da utilização renovável e cerca de 2,5 milhões de litros de água deixaram de ser gastos.
A rede Wal-Mart já é um exemplo vivo nesse cenário. Após sete meses de vida, o Wal-Mart Supercenter Granja Viana, que exigiu investimentos de R$ 45 milhões, já contabiliza ganhos. “A diminuição no consumo de energia é de 17% se comparada a uma loja padrão e a economia com a água é de aproximadamente 12%”, conta Ciro Schmeil, vice-presidente de desenvolvimento, que prefere a definição de loja ecoeficiente. Isso significa menos 72 mil KW/hora por mês e uma redução mensal de 200 mil litros de água. Dos 60 mil itens vendidos na loja, 3,5 mil já são produtos sustentáveis. “Ainda estamos em uma fase de conscientização da clientela”, comenta Schmeil.
A intenção do Wal-Mart é abrir mais três lojas ecoeficientes nas cidades de São Paulo, Salvador e Rio de Janeiro até o final de 2009. O Grupo Pão de Açúcar estreará a sua segunda loja verde em meados do mesmo ano.
O Supermercado Vip fica no Tatuapé, zona leste de São Paulo. Apesar de ter apenas uma loja, há mais de 15 anos, seus donos passaram a dar prioridade à questão da sustentabilidade há três meses. Reaproveitar a água da chuva foi uma das iniciativas encontradas. “Desde março usamos água da chuva para lavagem da loja e descarga dos banheiros”, conta Vera Lúcia Galluccio, gerente administrativa. O Vip também colocou à disposição de seus consumidores coletores de lixo reciclável. “Todos os dias um caminhão passa para recolher o lixo do dia anterior e dá a ele um destino correto”, afirma. O óleo de cozinha usado também tem um lugar reservado no lixo do Vip. A última novidade foi o lançamento de sacola plástica que suporta seis quilos de compra e que poderá ser utilizada várias vezes.
“A abertura de capital do setor de shoppings centers em 2007 está impulsionando os empresários a ficarem atentos à questão da sustentabilidade”, emenda Luciana Lana, gerente de marketing da Associação Brasileira dos Shoppings Centers (Abrasce). A entidade conta com 195 associados dos 367 shoppings existentes no país. “O tema ainda é embrionário e muito complexo, mas o setor está avançando nessa questão”, reconhece.
Leia na fonte
27/06/2008
A ordem é reduzir tudo o que é possível no pacote
Marleine Cohen
Valor Econômico
A proposta de adequar as embalagens aos novos ditames ecológicos conquista um número crescente de adeptos. Vidro, alumínio, plástico ou papelão, a ordem é reduzir peso, espessura e tamanho – comprimir, aparar, condensar, apertar, isto é, adequar o design à necessidade de poupar o meio ambiente.
Esta é uma tendência internacional e o Brasil, segundo Luciana Pellegrino, diretora-executiva da Associação Brasileira de Embalagem (Abre), não fica atrás. “Desde 2002 se estuda a otimização das embalagens no país, de maneira a harmonizar a redução do desperdício e a efetiva proteção e aproveitamento do produto, mas as técnicas empregadas e os ganhos ambientais decorrentes são restritos aos experts; não chegam ao conhecimento público.” Uma simples caixa de bombons de 400 g perdeu, entre 1992 e 2007, 18,7% do seu peso, passando de 36,9 g para 30,0 g, segundo a Abre.
O papel é o material reciclado por excelência no Brasil: 77,3% do papelão ondulado produzido em 2007 foi reaproveitado. Atualmente, atende prioritariamente as indústrias de embalagens, em especial as de alimentos, que, em 2006, consumiram 35,39% das aparas disponíveis. O papel ondulado é também a embalagem que mais utiliza material reciclado no Brasil: 65% dos papéis usados na fabricação de caixas de papelão ondulado são produzidos com fibras recicladas, segundo dados da Associação Brasileira do Papelão Ondulado.
Da mesma forma, o mercado de reciclagem de alumínio registrou aumento de eficiência na utilização do metal entre os anos 70 e o momento atual, segundo o Compromisso Empresarial com a Reciclagem (Cempre). Naquela época, um quilo de alumínio permitia a fabricação de 49 latinhas. Hoje, produzem-se 74 unidades com a mesma quantidade de matéria-prima – uma economia anual de bauxita de 700 mil toneladas e de energia elétrica de 1.976 GWh (ou 0,5% do consumo total do Brasil), mediante taxa de reciclagem de 94,4%, muito à frente de países como o Japão (90,9%) ou EUA (51,6%).
Já no setor de plástico, onde a taxa de reciclagem nacional de PET supera a dos países mais ricos – 51,3% no Brasil em comparação a 38,6% na Europa e 23,5% nos EUA em 2006 -, registra-se uma verdadeira queda-de-braço contra aquele que representa um dos maiores vilões ambientais da atualidade: o polietileno.
Assim, a gigante Unilever, detentora da marca Seda Xampu, não poupou esforços para encontrar uma solução técnica que permitisse excluir a “orelha” de sustentação e fixação da tampa do frasco que acondiciona o produto, sem prejuízo da qualidade e segurança da embalagem. Resultado: uma economia de 0,5 g de polietileno e uma embalagem nova com 26,5 g.
________________________________________
As novas apresentações exigem investimentos em pesquisa e adequação de toda a cadeia produtiva
________________________________________
Em busca de maior sustentabilidade, a Coca-Cola tem igualmente reduzido o peso das suas embalagens PET para refrigerantes ao longo dos últimos 20 anos. Segundo seu diretor de Meio Ambiente, José Mauro de Moraes, “a embalagem de dois litros baixou de 59 g para 48 g, 17% menos. Quanto à de 600 ml, vai cair de 28 g para 22 g, uma diminuição de 21%”.
O plástico foi alvo de preocupações também na Natura. Usadas como material de apoio, as sacolas das consultoras continham polietileno 50% virgem e 50% reciclado pré-consumo. Em 2002, um estudo comparativo provou que o kit, composto de 30 unidades, era o item de maior impacto ambiental da empresa. Foi substituído por sacolas de papel 100% reciclado (75% de aparas pré consumo e 25% de aparas pós consumo adquiridas de cooperativas de catadores).
Outra inovação para substituir o emprego do plástico na indústria e comércio partiu da Apotek, que lançou uma embalagem plástica biodegradável especialmente dirigida para o setor farmacêutico. Produzidos com um aditivo especial (o PDQ-H), os potes plásticos se degradam em cerca de um ano.
Embalagens menores barateiam custos de produção e de transporte. Ainda assim, com as novas embalagens, é consenso entre os empresários haver apenas ganho ambiental por ora, já que as despesas com tecnologia e principalmente matéria-prima aumentam ano a ano. “Ao contrário do que se imagina, as novas apresentações exigem investimentos em pesquisa e processos de adequação de toda a cadeia produtiva, além de testes de segurança e laudos de certificação”, esclarece a diretora da Abre.
Para Fábio Mestriner, professor-coordenador do Núcleo de Estudos da Embalagem da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), todos estes esforços institucionais não são, todavia, necessariamente entendidos pelo público, nem revertem em aumento nas vendas.
Destacando que “o consumidor tem simpatia pela defesa do meio ambiente”, Mestriner argumenta que existem estudos que comprovam que “não se compra ou se deixa de comprar por causa do apelo ecológico, embora o mercado esteja sintonizado com a causa ambiental”. Ele defende uma comunicação mais clara: “Com exceção do refil, que representa economia de plástico de 80% em relação ao frasco convencional, quem compra não sabe que está levando uma embalagem ecológica”.
Leia na fonte
27/06/2008
Operação Limpa
Célia Rosemblum e Marília de Camargo Cesar
Valor Econômico
Mapa das pegadas
Seis grandes empresas e quatro entidades ambientais estão debruçadas sobre uma questão estratégica na era do aquecimento global: quanto um produto emite em gases estufa ao longo de todo o seu ciclo de vida? Henkel, dm-drogerie markt, FRoSTA, Tchibo, T-Home e TetraPack querem encontrar uma fórmula para medir, de modo confiável, a pegada de carbono dos itens que levam aos consumidores. A partir do estudo de casos específicos, a idéia é estabelecer uma metodologia padronizada que no futuro possa servir como indicador da relevância de impacto para o clima de um item ou evento específico. A tarefa, primeira do gênero na Alemanha, é desenvolvida em parceria com organizações ambientais como WWF, Öko-Institut, PIK e Thema1.
Rótulos de carbono
A iniciativa, em uma segunda etapa, pretende envolver os consumidores na batalha contra o aquecimento global com uma estratégia específica de comunicação. “Existem muitos rótulos no mercado, mas não achamos que essa seja a abordagem adequada”, diz Uwe Bergmann, responsável pela gestão mundial de sustentabilidade da Henkel. A empresa alemã, que há cerca de 20 anos estuda os impactos ambientais de seus produtos, da concepção ao descarte, com a avaliação do ciclo de vida, acha fundamental determinar quanto carbono é emitido ao longo da cadeia de valor. “A idéia-chave é ajudar o consumidor a fazer a escolha certa”, diz Bergmann. E também haverá parâmetros confiáveis para se fixar metas para redução dos gases que causam efeito-estufa.
Mate no papel
AP Photo
A Rei do Mate, franquia com 246 lojas em 15 Estados, vai substituir a partir de julho os copos de plásticos por copos de papel. A rede consome 1 milhão de unidades por mês nas vendas de chás misturados com leite ou frutas. Embora os copos de papel custem cerca de 20% a mais do que os de plásticos, os gastos se justificam, afirma Antonio Carlos Nasraui, diretor comercial e de marketing: o público da rede, jovem na maioria, se preocupa com a preservação do meio ambiente.
Abaixo o copinho
“Quantos recursos não foram mobilizados só para trazer esse copo d’água até aqui?”, reclamou Ricardo Young, presidente do Instituto Ethos, na sede do Banco Real, em São Paulo, duas semanas atrás. Na abertura de um curso sobre sustentabilidade, Young usou um copo de água mineral para exemplificar um tipo de produto com características ambientalmente insustentáveis. “Estamos entrando em um novo processo civilizatório, um novo conceito de como a sociedade deve funcionar.”. Ele acredita que as indústrias precisam debater em toda a cadeia produtiva a questão do descarte.
Viva a torneira
Ricardo Young acha que o Tap Project, que estimula o consumo de água da torneira em restaurantes de Nova York, é um bom exemplo de cidadania. O projeto promovido pela Unicef já inspirou iniciativas semelhantes no Canadá e na Inglaterra. Clientes de restaurantes cadastrados são incentivados a tomar água de torneira e a doar US$ 1 por garrafa de água mineral que deixa de ser consumida.
Questão de economia
Em São Paulo, uma campanha desse tipo poderia pegar, avalia a gerente de controle de qualidade da Sabesp, Érika Martins de Andrade. “Nossa água da Sabesp é boa e segura para se beber”, garante. A propaganda contrária ao consumo de água de torneira, diz, prejudica a população de baixa renda. Uma garrafinha de 500 mil custa R$ 1,50; mil litros da água pública saem por R$ 0,42.
Pedalando sem parar
Com 1,8 milhão de habitantes e uma frota de 1,1 milhão de automóveis, Curitiba concentra 120 quilômetros de ciclovias. Deste total, 81 quilômetros são compartilhados com os pedestres e 39 quilômetros são exclusivos para quem pedala. Atualmente, 5% dos curitibanos utilizam a bicicleta como meio de transporte. Em Paris, cidade que ganhou destaque nos últimos tempos por conta do aluguel de bicicletas, a taxa é de 1,5%.
O Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba está desenvolvendo o Plano Diretor Cicloviário, cujo objetivo é melhorar a circulação na área central e dos bairros, com ampliação da rede. Segundo Celia Regina Bim, supervisora de planejamento do órgão, há cerca de 30 quilômetros de ciclovias a serem implantadas ou em estudo. Também está em estudo a implantação de bicicletários no centro da cidade. A idéia é criar 275 vagas em 25 pontos.
Leia na fonte
27/06/2008
O aquecimento global modifica as rotinas do império do varejo
Célia Rosemblum
Valor Econômico
Tudo no Wal-Mart, a maior varejista do mundo, é superlativo. São 7343 lojas , cerca de 2 milhões de funcionários e US$ 374 bilhões de faturamento no ano passado. As metas de sustentabilidade seguem o figurino extra-extra-grande. A rede pretende ser 100% abastecida por energia renovável, almeja ter zero de desperdício e vender produtos que preservem recursos naturais e meio ambiente.
A ordem é trabalhar com afinco para responder às demandas que ganham força com o acirramento das discussões em torno do aquecimento global e da escassez de recursos naturais. Mas é um esforço recente. Por um bom período o Wal-Mart apenas comemorou os bons resultados e seu crescimento. “Mas enquanto isso o mundo mudou”, constatou o CEO Lee Scott na reunião anual de acionistas, realizada no início do mês em Fayetteville, no Arkansas. “As expectativas em relação a nós – e a outras corporações em geral – mudaram. E nós fomos pegos de calças-curtas.”
Scott está empenhado em não repetir a quebra de um dos dez mandamentos para o sucesso do negócio ditados pelo cultuado fundador da companhia, Sam Walton. “Não se pode apenas fazer as coisas que um dia deram certo. Tudo a seu redor está sempre em mudança. Para ter sucesso é preciso estar à frente dessas mudanças.”
A aposta é uma “abordagem 360 graus da sustentabilidade”, segundo define o CEO. Em quase todos os flancos vulneráveis a críticas, e em uma companhia gigante eles são muitos, existem iniciativas em curso. Assolada por uma enxurrada de processos trabalhistas que iam da discriminação sexual ao não pagamento de horas-extras compulsórias nos últimos anos, a empresa contabiliza este ano oito prêmios como melhor empregador, no molde quase ideal da diversidade: pessoas com deficiência, mulheres, multiculturalidade, etnias.
Um dos alvos preferenciais dos ataques de entidades e sindicatos, a incipiente assistência à saúde dos funcionários, perdeu força. A varejista assegura que hoje 92,7% de seus “associados” (a forma como prefere chamar os trabalhadores) têm algum tipo de cobertura “pelo Wal-Mart ou por outra fonte”.
Conhecida pela contundência nas negociações com os fornecedores que permitem manter viva a alma de uma rede de descontos, os preços baixos, a empresa agora vê as comunidades próximas às suas lojas como potenciais parceiras de negócios. O vice-presidente da área de alimentos, Jack Sinclair, considera o abastecimento local como um “novo foco”. Na Guatemala, um trabalho desse tipo é realizado com 22 agricultores que fornecem para algumas das 145 lojas que a rede tem no país. Na Costa Rica, plantadores de café quase arruinados hoje cultivam verduras hidropônicas vendidas no Wal-Mart e comemoram bons resultados.
A opção por reforçar a relação com os fornecedores locais coleciona vantagens: a marca ganha pontos na comunidade, a economia local se movimenta, os gastos com transporte são reduzidos (e as emissões de gases de efeito-estufa idem) e os consumidores encontram produtos mais frescos.
Materiais, processos e tecnologias estão em teste. A rede estabeleceu nos Estados Unidos duas lojas-piloto para suas experiências onde o principal mote é reduzir – o consumo de energia e recursos naturais, a quantidade de matéria-prima utilizada na obra – e substituir materiais renováveis usados para a construção e manutenção do prédio quando for o caso.
Na loja-piloto de McKinney, no Texas, um sistema de energia eólica complementa o suprimento da loja e responde por 5% do total consumido. A parede externa da área de refrigeração de alimentos, banhada por muito sol no período da tarde, foi tratada com uma tinta cerâmica que reduz a necessidade de esfriar o ambiente interno.
Painéis solares distribuídos pela fachada fornecem energia, ainda que de forma mais modesta que o equipamento movido a vento. Uma série de clarabóias diminui a necessidade de iluminação interna, já menos intensa que nas outras lojas da rede. Sensores controlam o acendimento de luzes até nas portas das geladeiras que expõem os produtos. As lâmpadas são do tipo T5, que requer a metade da energia consumida pelas demais para a mesma luminosidade.
Os dutos de ar condicionado correm a meia altura dos 8,5 metros de pé direito. Assim, explica o subgerente Clay Gregson, “a parte em que consumidores buscam as mercadorias fica em uma temperatura agradável e o espaço até o teto, que não abriga produtos ou pessoas não requer cuidados”.
Na loja há reaproveitamento de água, torneiras aeradas, urinóis que dispensam descargas, experiências para transformar o óleo de cozinha usado em energia, testes com diferentes tipos de cimento que permitam a absorção e coleta de água da chuva. No jardim, 70 mil sensores detectam a necessidade de água nas raízes das plantas e acionam um sistema de irrigação subterrâneo abastecido por água de chuva captada no local. Resultados? “Em média um hipermercado gasta de US$ 88 mil a US$ 90 mil com serviços como água e luz”, diz Gregson. “Aqui a conta está em torno de US$ 46 mil.”
Nas gôndolas, a ofensiva verde começa a se traduzir em embalagens mais racionais e produtos mais amigáveis ao ambiente. As lojas de atacado Sam’s Club agora vendem toda uma linha de limpeza verde, que inclui detergente concentrado. “A embalagem é menor e a água não fica viajando pelo país”, diz a executiva da área Jill Turner Mitcheal.
Produtos orgânicos a preços acessíveis, como o brasileiro Café Bom Dia, de Varginha (MG), negociados de acordo com as regras do comércio justo e vendido a US$ 2 menos que um similar no Starbucks também começam a ganhar volume nos expositores.
Embalagens com menos plástico, mais materiais recicláveis, que ocupam menos espaços no caminhão estão em desenvolvimento com diferentes fornecedores. Algumas tentam evitar o desperdício de alimentos, juntando vários pacotes individuais. Mas aí, gastam, por exemplo, mais plásticos. “Às vezes é difícil conciliar as propostas”, explica Todd Matherly, diretor da área de mercadorias.
Leia na fonte
27/06/2008
AES assume AgCert e amplia seu portfólio de carbono
Bettina Barros
Valor Econômico
A AES Corporation, empresa global de energia que no Brasil é controladora da Eletropaulo, acaba de fincar o pé no mercado de créditos de carbono voltado para a suinocultura. A empresa assumiu na semana passada o controle da irlandesa AgCert, recentemente às voltas com problemas financeiros.
A AgCert torna-se agora subsidiária e importante ferramenta de atuação da AES na área ambiental, na qual a empresa já aposta muitas de suas fichas. Há três anos, a AES iniciou um braço para soluções climáticas que prevê investimentos em projetos em países em desenvolvimento para a redução de 34 milhões de toneladas por ano de gases de efeito estufa até 2012.
“A redução de carbono é uma das nossas prioridades”, afirmou Didier Rotseart, vice-presidente da divisão de Soluções Climáticas da AES e agora novo CEO da AgCert. “Nossa ambição é sermos líderes no mercado de carbono. Mas não queremos ser só traders. Queremos gerenciar e implementar diretamente os projetos”, acrescentou.
Com a transferência de controle, a AES herda da AgCert cerca de 80 projetos em granjas com suínos no Brasil e México, que respondem juntos por cerca de 1,4 milhão de toneladas de carbono por ano. Esse volume será somado ao pipeline da AES de 19 milhões de toneladas por ano e a outros 9 milhões de toneladas por ano já contratados.
Em entrevista por telefone ao Valor da sede da AES, em Arlington, Virgínia, Rotseart afirmou que a incorporação da AgCert é resultado de um “entendimento” com os credores, intermediado por autoridades irlandesas num processo chamado de “examinership”, para evitar a liquidação de empresas naquele país. “Houve uma reestruturação financeira e comercial, administrada pela Alta Corte da Irlanda. A AES não colocou dinheiro. Apenas convertemos a dívida em 100% do capital”, disse ele. “Não mudará a estrutura comercial ou o relacionamento com os clientes”.
O executivo não revelou os detalhes que culminaram com a incorporação nem de que forma os credores da AgCert – na maioria empresas do setor elétrico – teriam sido recompensados. “Tudo foi resolvido, não há mais credores ou dívida a ser paga”, frisou o CEO, que não quis detalhar a afirmação.
Listada em Londres até o início deste ano, a AgCert informou à bolsa em dezembro de 2007 que não teria disponíveis os cerca de 7,2 milhões de créditos de carbono vendidos no mercado com prazo de entrega neste ano. A empresa tem apenas 1,2 milhão de créditos já emitidos pelo Conselho Executivo da ONU, que rege esse mercado.
Os projetos de suinocultura estão inseridos no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), previsto no Protocolo de Kyoto, pelo qual países ricos compram créditos de projetos limpos em países em desenvolvimento para compensar suas próprias emissões. Cada tonelada de gás-estufa que deixa de ser jogada na atmosfera equivale a um crédito comercializado no mercado internacional.
Na suinocultura, os créditos são gerados com a queima do metano emitido pelos dejetos dos animais.
O fator detonador da crise teria sido a alteração na metodologia da ONU para a contagem do volume de gases efetivamente queimado – que corresponde aos créditos. “Houve intervenções na metodologia que reduziram o volume da produção de CO2 entregue. Mas outras pessoas envolvidas nessa atividade, no Brasil e no mundo, também sofreram”, diz Rotseart.
Agora, diz o executivo, é olhar para frente. O controle da empresa irlandesa dá mais fôlego ao braço ambiental da AES e está alinhado com a estratégia global da empresa de crescimento no setor de carbono. “A AgCert reforçará a atuação da AES no setor”, diz Rotseart. “Ao mesmo tempo, a chegada [da AES, com receita de US$ 13,6 bilhões em 2007] dá estabilidade, agrega experiências e reduz as limitações da própria AgCert”.
E poderá até mesmo resultar em novas frentes de ação. Além dos cerca de 370 clientes (granjas) no Brasil, Rotseart vê oportunidades de desenvolvimento de projetos aptos a gerar créditos nos aterros sanitários e efluentes industriais. “É um país importante para nós”.
Poucas semanas antes da consolidação do controle da AgCert, a AES Corporation já havia adquirido um projeto de energia gerado por um aterro sanitário em Nejapa, El Salvador, capaz de gerar 400 mil toneladas por ano de créditos de carbono ao longo de 20 anos.
Nos anos 80, iniciou ações voluntárias para combater o aquecimento ao financiar o plantio de 50 milhões de árvores na América Latina. No Brasil iniciou o projeto de reflorestamento de matas ciliares e de reservatórios de água que geram energia da AES Tietê, em SP.
Leia na fonte
27/06/2008
Vale traça plano para mudanças climáticas
Denise Juliani
Gazeta Mercantil
São Paulo, 27 de Junho de 2008 – O conselho de administração da Companhia Vale do Rio Doce (Vale) aprovou ontem um plano estratégico que definirá sua atuação de longo prazo diante das mudanças climáticas. O plano, batizado de Programa Carbono Vale é resultado de meses de discussões internas e ainda terá de ser examinado pela diretoria executiva da companhia. Em linhas gerais, busca avaliar os riscos e as oportunidades associadas às mudanças climáticas.
Embora a atividade de mineração não seja considerada uma grande emissora de gases de efeito estufa (GEE), como o carbono, a Vale já divulga sua política para as mudanças climáticas por meio do questionário do Carbon Disclosure Project (CDP) – iniciativa de investidores globais de longo prazo que realiza uma ampla pesquisa sobre a atuação das companhias em todos os continentes em relação às mudanças climáticas.
O inventário de emissões da Vale no ano passado chegou a 15 milhões de toneladas, isso já incluindo as emissões da canadense Inco, adquirida em 2006. Para Flavio Montenegro, gerente-geral de relações institucionais e mudanças climáticas da Vale, investidores e empresas estão hoje mais conscientes da importância estratégica que as mudanças climáticas representam no longo prazo.
Para Montenegro, o relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), divulgado no início do ano passado em Paris, foi um divisor de águas. “O documento trouxe um nível de certeza muito maior do que os anteriores sobre as mudanças climáticas e contribuiu para que as empresas percebessem que esta é uma questão estratégica”, disse, durante evento sobre o mercado de carbono promovido ontem pelo Ibmec São Paulo.
No caso da Vale, diz, não vemos impacto no curto prazo, mas a companhia olha seu fluxo de caixa em uma perspectiva de 30, 40, 50 anos e faz todo o sentido começar a se preparar já para eventos que não impactam sua atuação no momento. “Os investidores de longo prazo também começam a premiar as empresas que demonstram maior preocupação com a sustentabilidade.”
Segundo ele, a 13Conferência das Partes sobre o Clima (COP-13) da ONU, realizada em Bali, na Indonésia, em dezembro do ano passado, trouxe novas questões relativas aos riscos e oportunidades das mudanças climáticas a serem consideradas pelas empresas.
No campo dos riscos, destaca-se uma forte tendência de imposição de metas de redução das emissões pelos países em desenvolvimento, bem como uma possível inclusão de metas regionais e setoriais. A imposição de regras de mercado mais rigorosas e a criação de barreiras não tarifárias para produtos e atividades fortemente emissoras de carbono é outro risco potencial.
Entre as oportunidades de negócios está a possibilidade de remuneração de floresta em pé, um assunto que já foi tabu nas discussões internacionais – deixado de lado na formulação do Protocolo de Kyoto, em 1998, por exemplo – mas que hoje já é visto com naturalidade e até mesmo alguns negócios começam a ser alinhavados, completa Marco Antonio Fujihara, sócio do Instituto Totum e da Sustaincapital, gestora especializada em investimentos com enfoque em sustentabilidade e que dá consultoria para a Vale.
A Vale está em uma situação bastante peculiar. Embora seja uma empresa brasileira, possui unidades em países do anexo 1 – os chamados desenvolvidos, que têm metas de redução de emissões de carbono. Por enquanto, a empresa não tem obrigação de reduzir suas emissões naquelas regiões, conta Montenegro. Na França, por exemplo, a atividade de mineração não é enquadrada como setor crítico e está livre do cumprimento de metas. As outras unidades externas em países desenvolvidos da Vale estão no Canadá e na Austrália, que ainda não definiram suas políticas neste campo, pois ratificaram o Protocolo de Kyoto mais recentemente.
Essas iniciativas têm um caráter estratégico para a companhia, pois no longo prazo, a atenção à sustentabilidade tem impacto na percepção de custo do capital que o mercado tem da empresa, ou seja, quanto mais investe em sustentabilidade, menor o risco e o custo de captação também cai. Não é à toa que os investidores estão cada vez mais em busca de informações sobre a atuação sustentável das companhias.
Leia na fonte
24/06/2008
País deve exportar mais etanol, prevêem usineiros
Wellington Bahnemann
O Estado de S. Paulo
A União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) revisou para cima sua projeção de exportação do etanol brasileiro na safra 2008/2009, por conta da alta do preço do milho que elevou o custo de produção do biocombustível no mercado americano.
“Já trabalhamos que o volume a ser exportado nesta safra fique em torno de 4,5 bilhões de litros a 5 bilhões de litros”, disse o presidente da entidade, Marcos Jank, em entrevista ao ?Estado?. Antes, a expectativa da Unica era de que as exportações brasileiras somariam 3,9 bilhões de litros.
A mais recente alta do preço do milho decorre da crise de produção enfrentada pelos produtores americanos do Meio-Oeste, que estão sendo afetados pela cheia do Rio Mississippi.
Com o aumento do nível do rio, áreas de produção de milho em Estados como Iowa e Illinois estão sendo alagadas. “Com isso, o milho está custando US$ 8,00 o bushel (25,4 quilos)”, afirmou Jank.
O aumento da matéria-prima já tem levado, até mesmo, algumas empresas americanas a paralisarem a produção de etanol, o que abre oportunidade para os produtores brasileiros suprirem essa lacuna no mercado dos EUA.
Leia na fonte
24/06/2008
‘Etanol do Brasil não desmata’
Secretário da Convenção da ONU para Mudanças Climáticas pede pressa na redução de emissões de CO2
Jamil Chade
O Estado de S. Paulo
O secretário-executivo da Convenção da ONU para Mudanças Climáticas, Yvo de Boer, afirmou ontem que o etanol brasileiro “não gera desmatamento” e criticou os biocombustíveis de outras fontes. Embora admitindo que “o pessoal do petróleo não gosta desse debate (do etanol)”, diplomaticamente ele negou que a solução das emissões de CO2 tenha de passar pela substituição de combustíveis. “O que precisamos é que todos se sentem à mesa para discutir. A solução para a questão climática não será a de escolher entre um ou outro combustível. O que queremos é reduzir as emissões. Esse é o objetivo.”
De Boer lidera os esforços das Nações Unidas para conseguir que, até o final de 2009, um acordo internacional estabeleça regras para reduzir as emissões de dióxido de carbono, principal gás causador do efeito estufa.
Em suas contas, o mundo precisará de investimentos de até US$ 300 bilhões para reduzir as emissões, até 2030, aos níveis de 1990. É “pouco”, só 1,5% dos US$ 20 trilhões necessários em investimento no setor de energia, no mesmo período, para suprir a demanda global.
Debate sofisticado
Para o representante da ONU, o debate sobre o futuro do etanol precisa ser mais sofisticado. “Não há um só etanol. O que existe no Brasil não desmata e é sustentável”, afirmou. Em sua avaliação, é justamente o critério de sustentabilidade que vai determinar se o etanol poderá ou não fazer parte de uma solução climática global.
“O biocombustível de óleo de palma desmata. Há também o etanol de milho, que está gerando a alta nos preços dos alimentos”, alertou. “Portanto, sei que o etanol será ainda um tema polêmico nas negociações do clima.”
Fracasso de kyoto
De Boer admite que, apesar de todos os esforços, as emissões continuaram aumentando e o Protocolo de Kyoto teve um impacto reduzido. “Os últimos dados que temos apontam que 2005 registrou um pico nas emissões.”
Eleições nos eua
Um grave obstáculo para alterar esse histórico de debates infindáveis – e resultados práticos medíocres – é a mudança de governo nos Estados Unidos no início de 2009. “Temos menos de um ano e meio para elaborar um dos tratados mais difíceis que já vimos”, afirmou De Boer. “O tempo não está a nosso favor e os países ainda adiaram para 2009 a negociação de algumas questões mais centrais, diante da troca no governo americano. Pontos como o estabelecimento de metas somente serão tratados em 2009″, lamentou.
Ele teme que, esperando que o novo governo norte-americano assuma plenamente, as primeiras reuniões negociadoras na ONU fiquem apenas para maio de 2009. E não disfarça que, sem os americanos, não haverá um acordo possível.
Modelo econômico
Para completar o cenário pouco otimista, De Boer alerta que a alta nos preços do petróleo não reduziu de forma dramática sua demanda. “Isso é um sintoma de que a natureza do crescimento é intensa em emissões de CO2. E isso não é bom”, disse. “O padrão de desenvolvimento econômico vai contra o que precisa ser feito no ambiente.”
Segundo De Boer, também as economias emergentes terão de aceitar cortes de emissões. Mas admite que um envolvimento dos emergentes somente será possível se houver assistência técnica e financeira dos governos ricos. “A queixa principal hoje dos países emergentes é de que essa ajuda não se concretizou”, afirmou.
A preservação da Amazônia é, também, elemento importante nas negociações. De Boer, porém, se recusou a dar sua opinião sobre a saída da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, do governo brasileiro.
Leia na fonte
24/06/2008
Novas tensões globais
Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo
Questões relacionadas com as mudanças de clima ainda são tratadas no Brasil como temas de meio ambiente. A realidade é que os efeitos das mudanças climáticas começam a repercutir fortemente na geoeconomia e na geopolítica mundial e terão grande impacto sobre a política internacional e sobre muitos aspectos sociais e populacionais. Mais cedo do que se pensa, as conseqüências do aquecimento serão encaradas como questão de segurança nacional.
O risco de um cenário de tensões crescentes, em diferentes regiões do mundo, pode ser explicado, em especial, por três elementos:
A emergência da China com poucos recursos agrícolas, minerais e energéticos para atender a suas crescentes necessidades de gás, de petróleo, da quase totalidade dos minerais, de madeira e de produtos agrícolas e alimentícios.
Países com instituições fracas ou com governos autoritários (Congo Brazzaville, Libéria, Serra Leoa, Sudão, Iraque, Irã e por exemplo) estão se beneficiando de um crescente fluxo de investimentos e da venda de seus recursos naturais (sobretudo minérios, petróleo e gás) a preços cada vez mais altos, o que poderá aumentar a instabilidade global.
O aumento das tensões em razão dos múltiplos efeitos da mudança de clima global sobre a disponibilidade de recursos naturais e produtos alimentícios.
É evidente que não se deve exagerar o risco real, a curto prazo, de conflitos para assegurar os recursos naturais indispensáveis à sobrevivência de grandes massas populacionais. Não se podem, no entanto, ignorar o problema e sua importância, já que a escassez desses produtos sempre interage com outros fatores, como a ecologia, a política, a economia e elementos institucionais.
O impacto maior até aqui tem sido causado, entre outros fatores, pela alta dos preços dos recursos energéticos e dos minerais, pela crescente escassez de água e pelo aparecimento do fenômeno de deslocamento populacional.
As conseqüências da mudança de clima, nos próximos anos, poderão ter um efeito cumulativo sobre os já graves problemas de escassez de alimentos. Distúrbios em vários países relacionados com o aumento dos preços dos alimentos são um terrível prenúncio do que poderá ocorrer no futuro.
Estudos recentes, realizados pelo Centro de Análise Naval dos EUA (A ameaça da mudança do clima e segurança nacional) e pelo Serviço de Monitoramento das Geleiras no Mundo, da Universidade de Zurique, analisam os riscos que as rápidas mudanças climáticas, devidas ao aquecimento global, colocam para a estabilidade internacional e para a segurança nacional de todos os países.
A falta d’água ou seu excesso (tanto pelo aumento do nível do mar quanto pela escassez derivada do derretimento das geleiras), a queda da produção agrícola e o potencial impacto sobre a produção de alimentos, o uso dos recursos naturais, a utilização do petróleo e do gás como armas políticas e a disseminação das pandemias (ameaça de doenças com extensão global) são algumas das áreas que poderão ser fontes de tensão ou de conflitos no médio e no longo prazos.
A maior parte das geleiras que alimentam rios e reservatórios de água está se desfazendo de forma acelerada, podendo acarretar no futuro o desaparecimento de rios, com efeitos sobre o fornecimento de água potável e a utilização da sua força em hidrelétricas.
A fonte de alguns dos maiores rios asiáticos, como o Indo, o Ganges, o Mekong, Yang-Tsé e o Rio Amarelo são as camadas de gelo do Himalaia. Se essas geleiras continuarem a derreter, o fornecimento de água de grande parte da Ásia, tão densamente povoada, vai se reduzir drasticamente. O mesmo ocorre com os países andinos que recebem água das Cordilheiras dos Andes, como é o caso do Peru e da Bolívia.
O aumento do nível do mar, em conseqüência do degelo na região ártica, como mostra recente relatório do Centro de Informação sobre Neve e Gelo da Universidade do Colorado, pode causar o declínio das florestas, além de afetar cidades costeiras, países e ilhas oceânicas. Estes fatos podem acarretar movimentação populacional (como foi o caso do Furacão Katrina, em New Orleans, e do tsunami, na Indonésia), criando problemas econômicos e sociais de grande magnitude.
Regiões que já sofrem escassez de água, como Kuwait, Jordânia, Israel, Ruanda, Somália e Argélia, podem ser confrontadas com a necessidade de buscá-la de qualquer maneira, na medida em que as mudanças no clima agravem a situação. Provocada pelo aquecimento global, a desertificação de áreas hoje produtoras de alimentos (o Brasil poderá ser um desses países afetados) e o aparecimento de novas regiões de produção agrícola (como a Sibéria) hão de alterar a geopolítica da agricultura mundial.
Em relatório de 2005, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estudou o efeito das mudanças globais de clima sobre a saúde. A OMS chama a atenção para o risco potencial da disseminação de doenças derivadas das alterações climáticas, com efeitos importantes sobre as condições sanitárias em importantes concentrações populacionais. Trata-se de prever quando, como e onde deverão ocorrer os maiores impactos. O referido relatório levanta uma série de preocupações sobre a disseminação de doenças como a dengue, a malária e a salmonela.
O debate sobre o papel da competição pelos recursos naturais nas relações internacionais ainda passa ao largo de nossas preocupações, pela posição privilegiada que desfruta o Brasil. Nem por isso deve ser dada menor importância ao problema, uma vez que poderá afetar-nos diretamente. A repercussão no exterior da devastação da floresta amazônica e os problemas energéticos que estão ocorrendo hoje na América do Sul sugerem a necessidade de nos posicionarmos para encarar essa nova realidade.
Rubens Barbosa, consultor de negócios, é presidente do Conselho de Comércio Exterior da Fiesp
Leia na fonte
24/06/2008
Bancos discutem critérios socioambientais do crédito
André Palhano
Folha de S.Paulo
A partir da próxima terça-feira, dia 1º de julho, entra em vigor uma resolução do Banco Central que determina aos bancos públicos e privados restringirem a concessão de crédito rural apenas a produtores que estejam devidamente regularizados com os órgãos de fiscalização.
Ainda que restrito à Amazônia Legal e de eficácia questionável, o documento deu fôlego a um debate que vem sendo travado há algum tempo no sistema financeiro no Brasil e no exterior: até que ponto os bancos são responsáveis pela avaliação dos riscos socioambientais de seus tomadores de crédito?
“Há pessoas que acreditam que os bancos são totalmente responsáveis pela avaliação socioambiental de seus clientes. Outras, que os bancos não têm responsabilidade alguma, pois isso caberia ao Estado. A resposta correta deve estar em algum lugar no meio do caminho”, diz Christopher Wells, principal executivo da força-tarefa para América Latina da Unep-FI, braço do Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas para o setor financeiro).
O debate tomou forma em 2002, quando o IFC (International Finance Corporation), braço financeiro do Banco Mundial, e um grupo de bancos privados lançaram os Princípios do Equador, que originalmente reuniam um conjunto de critérios de avaliação socioambiental que passariam a ser exigidos na concessão de créditos para empresas e projetos de infra-estrutura a partir de determinado valor. O objetivo: evitar o financiamento de empresas e obras potencialmente desastrosas para a sociedade e o ambiente.
O tema da sustentabilidade cresceu. E diversos bancos passaram a incorporar princípios semelhantes em suas operações cotidianas de crédito, criando áreas específicas ou em parcerias com ONGs (organizações não-governamentais) e consultorias para avaliar os riscos socioambientais de seus clientes.
É uma avaliação interessante para as instituições financeiras, na medida em que o risco de inadimplência de uma empresa potencialmente sujeita a multas ambientais e trabalhistas, ou a acidentes, é consideravelmente maior.
Discussão avançada
Mais recentemente, a utilização maciça da sustentabilidade como estratégia de negócios e de marketing por parte dos bancos agregou um novo fator de risco relacionado ao tema: o de imagem. “A responsabilidade que um banco tem de avaliar os riscos socioambientais de seus clientes se torna maior quando esse assunto é utilizado em seu posicionamento estratégico. Quanto maior esse uso, maior o telhado de vidro”, afirma Gustavo Pimentel, gerente do Programa Eco-Finanças, da organização Amigos da Terra -Amazônia Brasileira.
Segundo os especialistas, o Brasil é um dos países mais avançados na discussão sobre critérios e responsabilidades socioambientais relacionados ao crédito bancário. O que pode ser explicado, em boa parte, pelos conhecidos problemas da fiscalização do setor público, entre eles o de falta de pessoal, de recursos e a corrupção.
Em outras palavras, uma empresa pode estar em dia com os órgãos de fiscalização trabalhista e ambiental e, ao mesmo tempo, representar enormes riscos de inadimplência, de garantias e de imagem para as instituições financeiras.
Essa realidade acabou funcionando como um verdadeiro acelerador do tema socioambiental nas áreas de crédito das instituições financeiras locais. “Em alguns países, estar em dia com os órgãos de fiscalização já basta para que os bancos tenham segurança nesse quesito ao emprestar os recursos. No Brasil, os problemas que temos nessa área são justamente a causa desse debate no sistema financeiro”, diz Wells.
Formação especial
Quase todos os bancos de maior porte já possuem ou estão estruturando áreas específicas de avaliação de critérios sociais e ambientais no segmento de pessoas jurídicas. Nelas, a formação dos funcionários foge do padrão da indústria financeira: são geólogos, biólogos, cientistas sociais e técnicos ambientais, entre outros, que realizam o trabalho.
O que a resolução do BC trouxe de novo foi regulamentar um assunto que os bancos preferem relacionar às suas próprias decisões e práticas na área socioambiental. E cujos limites ainda não parecem muito claros sequer para os bancos.
“Há um grande debate no setor financeiro, que é justamente se a responsabilidade socioambiental dos bancos tem ou não limites. A única coisa que se sabe até agora é que, em um cenário de evolução do tema da sustentabilidade, esses limites serão cada vez mais estendidos”, diz Sônia Favaretto, diretora de responsabilidade social da Federação Brasileira de Bancos.
Outro dilema enfrentado pelos bancos é a concorrência. Afinal, um banco pode se recusar a conceder crédito para um cliente, seguindo critérios socioambientais, e esse mesmo cliente conseguir o crédito em outro banco.
“Isso é uma coisa que acontece, ainda que seja cada vez menos comum. É por isso que precisamos de políticas setoriais, coordenadas, pois é do interesse de todos ter um bom radar para detectar clientes que representem riscos socioambientais”, diz Wells.