Arquivo de junho, 2008

Menos publicidade e mais informação

27/06/08

Pesquisa aponta que os relatórios de sustentabilidade agregam valor à marca

Gazeta Mercantil
Da Redação

Nove em cada dez entrevistados pela Global Reporting Initiative (GRI), e as consultorias KPMG e SustainAbility, durante a pesquisa “Count me in: The readers’ take on sustainability reporting”, acham que os relatórios de sustentabilidade impactam positivamente a percepção dos leitores em relação à companhia e adicionam valor à marca. No entanto, esses documentos devem servir menos como uma ferramenta de marketing e mais como fonte de informação, segundo os leitores ouvidos para o estudo, divulgado há duas semanas, na última Conferência Global da GRI, em Amsterdã.

“Cada vez mais as empresas vão reportar não só aquilo que fazem de positivo, mas também os seus desafios. Do contrário, a impressão que se tem é que a companhia está tentando passar uma imagem de que é perfeita, o que gera desconfiança nos leitores de que ela não está informando tudo o que deveria”, afirma Glaucia Terreo, representante da GRI no Brasil.
Segundo ela, durante o evento realizado na Holanda, houve quem propusesse, ironicamente, a formação de um ranking de relatórios com mais fotos de crianças. A provocação teve a função de levar as empresas a pensar seus relatórios de forma mais estratégica, como uma ferramenta de gestão das práticas socioambientais e não um livro auto-elogioso de feitos e realizações para a humanidade.
Para que isso aconteça na prática -sugerem os especialistas – deve-se promover um equilíbrio de informações (positivas e negativas), a averiguação externa – não só dos balanços financeiros, mas também socioambientais – e a realização de painéis com stakeholders. Essas recomendações, propagadas pela GRI desde 2006, com a divulgação das diretrizes G3 para elaboração de relatórios de sustentabilidade, já podem ser observadas nas últimas edições de relatórios corporativos.
De acordo com a representante da GRI no Brasil, a postura de transparência, caracterizada, por exemplo, pela aproximação com os públicos de interesse, longe de representar um risco de superexposição da empresa contribui para a solução de alguns dos seus dilemas. “O relatório de sustentabilidade proporciona outros pontos de vista sobre os diferentes indicadores. Ao comunicar não só realizações, mas também os problemas, a empresa deixa a porta aberta para o diálogo com diferentes partes interessadas. A partir desse engajamento, ela passa a gerenciar melhor os riscos e tem a oportunidade de buscar soluções junto aos públicos impactados direta ou indiretamente pelos seus negócios”, explica Terreo.
Averiguação externa
Prática usada com freqüência nos balanços financeiros, os processos de auditoria de organizações terceirizadas também começam a ser adotados para os indicadores socioambientais. Trata-se de uma oportunidade para a empresa aprimorar seus controles e conferir maior credibilidade às informações divulgadas.

“Esse tipo de abordagem vai se intensificar por exigência das partes interessadas, na medida em que, cada vez mais, elas desejarão tomar decisões com base nas informações divulgadas nos relatórios de sustentabilidade pelas empresas”, afirma Luzia Hirata, consultora da Sustain Capital.

Além da isenção conferida ao trabalho por uma auditoria externa, a análise de materialidade para definição das informações que merecem, de fato, constar no relatório e o equilíbrio de questões positivas e negativas requerem métodos próprios, especialmente, quando se trata de aspectos socioambientais.

Segundo Luzia, o relatório acaba sendo, em muitas empresas, uma peça de comunicação, preenchida por fotos e histórias bonitas. “As companhias que ainda priorizam essas informações ao invés daquelas que de fato interessam seus públicos, não o fazem por má fé. Mas por desconhecem o jeito certo. Elas precisam ter maturidade para apresentar seus controles a uma organização terceira e, a partir daí, iniciar o estudo dos temas que serão abordados no relatório. Isso varia muito de empresa para empresa”, ressalta a especialista.

A Petrobras, cujo relatório de sustentabilidade de 2006 foi eleito como o melhor nas categorias “Stakeholders” e “Sociedade Civil” no GRI Readers’ Choice Awards, conta, desde 2003, com averiguação externa dos balanços financeiros e socioambientais. “O relatório não representa apenas uma prestação de contas à sociedade, mas sim uma ferramenta de gestão interna na empresa. A análise crítica dos aspectos positivos e negativos permite a identificação de pontos de melhoria e onde podemos avançar em relação ao negócio”, afirma Ana Paula Grether, coordenadora do Balanço Social e Ambiental da Petrobras.

A auditoria externa rendeu à Petrobras a avaliação A+ da GRI. O mesmo ocorreu com a Natura, cujo último relatório foi submetido à avaliação da consultoria norueguesa DNV (Det Norske Veritas). “Desde 2003, procurávamos uma empresa que pudesse fazer, ao mesmo tempo, a auditoria dos dados financeiros e socioambientais. Essa oportunidade surgiu quando a DNV, que já havia trabalhado na realização do inventário de emissões da Natura, qualificou-se para certificar o relatório de sustentabilidade”, explica Rodoldo Gutilla, diretor de Assuntos Corporativos e Relações Governamentais da Natura.

Participação dos stakeholders

A realização de painéis com stakeholders é uma das exigências para relatórios elaborados segundo o modelo G3. As companhias já não podem mais ignorar os sinais dados pelos diversos públicos com os quais se relaciona em assuntos que podem afetar diretamente os negócios.

Nesses painéis, especialistas, clientes, fornecedores, representantes da comunidade, entre outras partes interessadas, são convidados pelas empresas a examinar aspectos de suas políticas, ações e performance.

O engajamento com as partes interessadas consiste, segundo os analistas da GRI, em fator determinante não só para a reputação, mas também para a gestão de riscos. Em 2007, o Banco Real fez uma série de entrevistas com stakeholders visando identificar os principais temas que deveriam ser abordados no relatório anual. “Esse rico diálogo gerou várias oportunidades de melhoria não só nos conteúdos e na forma do relatório, mas também quanto à nossa estratégia e posicionamento”, afirma Fernando Byington Egydio Martins, diretor-executivo de Estratégia da Marca e Comunicação Corporativa do Banco Real.
O mesmo ocorreu com a Suzano Holding, que em 2006 passou a adotar as diretrizes da GRI. Para realização dos painéis com stakeholders, a empresa contou com o apoio da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável – FBDS.

Segundo Simone Soares, gerente de comunicação corporativa e gestão da marca Suzano Holding, o próximo desafio da empresa é aprofundar o diálogo com as partes interessadas por meio de novos canais de comunicação e assim tornar os relatórios cada vez mais objetivos. “Na última edição, mantivemos uma versão completa na internet com todos os indicadores e links que proporcionam o aprofundamento de alguns temas. Pretendemos ampliar a comunicação no meio virtual, abrindo cada vez mais espaço para participação dos diferentes públicos”, afirma Simone Soares.

Novos formatos

Em busca de criar um espaço de comunicação com stakeholders em tempo real, a Natura anunciou durante a Conferência Global da GRI que pretende lançar um portal colaborativo na Internet para comunicar seus compromissos, ações e práticas sustentáveis.

Batizado de Wikiporting, em referência ao famoso Wikipédia, o novo formato de relatório será produzido com a colaboração de funcionários, acionistas, fornecedores, clientes, parceiros e até investidores que poderão mandar suas informações, sugestões, críticas e questionamentos pela internet.

A iniciativa do portal colaborativo faz parte do “Projeto Web 2.0″ que está sendo desenvolvido internamente pela Natura. “A previsão é que até o final do ano já tenham sido aprendidas algumas lições para que em meados de fevereiro e março, quando a empresa divulga seus balanços, haja pelo menos um piloto desse novo formato colaborativo”, afirma Gutilla.

O Banco Real, por sua vez, lançou uma iniciativa semelhante de portal colaborativo, denominado “Experiência Real”, em que funcionários, clientes, fornecedores e todos aqueles que têm alguma história relacionada ao banco possam compartilhar suas experiências. “O intuito dessa iniciativa é dar mais um passo à frente no sentido de ser transparente e abrir espaço para que todos os interlocutores participem à sua maneira da constante construção e reconstrução da identidade da empresa”, afirma Martins.
Para Glaucia Terreo iniciativas como essas são positivas, mas não atingem todos os públicos com os quais a empresa se relaciona. Por isso não podem substituir a abordagem convencional baseada no diálogo direto com as comunidades, por exemplo.

Gutilla defende que uma ferramenta não substitui a outra. “O wiki não necessariamente eliminará os outros formatos. Para alguns públicos a web 2.0 será a ferramenta mais adequada, mas não atingirá toda a população. Essa realidade exige que as empresas façam uso de várias ferramentas de comunicação”, conclui Gutilla.

 

O FUTURO DOS RELATÓRIOS DE SUSTENTABILIDADE, SEGUNDO OS LEITORES

 

Stakeholders integrados  Relatórios baseados no continuo diálogo com as diferentes partes interessadas alinhado a estratégia do negócio. 
Inovação voltada para a sustentabilidade  Demonstração de como os processos e produtos têm sido usados para responder às demandas de sustentabilidade.  
 Leitores cada vez mais ativos  Leitores usando relatórios corporativos para a tomada de decisão.  
Credibilidade Adaptação a padrões internacionalmente aceitos, processos de averiguação mais relevantes para possibilitar a comparação entre os relatórios.
Fim dos balanços socioambientais Informações referentes às práticas de sustentabilidade totalmente integradas aos relatórios anuais e outras formas de comunicação corporativa.
Acessibilidade Informações disponíveis em diferentes formatos: versões impressas, em PDF e visualização web.

 

Fonte: “Count me in: The readers’ take on sustainability reporting”, pesquisa realizada pela Global Reporting Initiative (GRI), consultorias KPMG e SustainAbility

 

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Especial Infra-estrutura

25/06/08

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23/06/2008

Decreto de Lula eliminará restrição a portos privados

Daniel Rittner, De Brasília
Valor Econômico

Decreto que o presidente Lula deve assinar nos próximos dias vai acabar com uma restrição que tem travado investimentos privados no setor portuário. A medida autorizará a abertura de terminais privados para movimentar cargas de terceiros, sem limites percentuais, em regime de concessão.

Os projetos terão necessariamente de passar por licitação pública, contrariando o desejo de parte dos empresários, mas o vencedor da concorrência ficará desobrigado de provar que existe carga própria suficiente para justificar o investimento. Essa restrição, hoje imposta pela resolução nº 517 da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), estaria impedindo investimentos de pelo menos US$ 5 bilhões.

A primeira versão do texto do decreto já está no Palácio do Planalto. O ministro-chefe da Secretaria Especial de Portos (SEP), Pedro Brito, disse ao Valor que o aperfeiçoamento do marco regulatório do setor – sem mudança na Lei dos Portos – vai “retirar as pendências hoje existentes e dar clareza aos negócios”.

Os empresários interessados em investir nos terminais privados terão de se submeter a duas exigências: a instalação deverá constar de um plano de outorgas ainda a ser definido e a concessão será feita mediante licitação pública. Em agosto, uma portaria da SEP trará normas mais específicas e a modelagem de concessão do setor. Até o fim do ano, será anunciado o plano de outorgas – uma espécie de mapa das necessidades portuárias e das oportunidades de investimento. Mas, antes mesmo da divulgação do plano, os empresários poderão apresentar seus próprios projetos ao governo, que avaliará a possibilidade de fazer a licitação. É o caso, por exemplo, do empresário Eike Batista, que esteve na semana passada com Brito e com a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, para discutir o assunto.

Os terminais privados que movimentarão carga exclusiva ou majoritariamente de terceiros serão construídos em sistema semelhante ao adotado no setor elétrico. As empresas poderão entregar ao governo projetos para explorar uma possível zona portuária, como Furnas e Odebrecht fizeram no caso do rio Madeira. Isso, porém, não significa autorização imediata para construir esses terminais. Eles terão de ser licitados e o idealizador do projeto não vencerá, necessariamente, a disputa.

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23/06/2008

Governo vai licitar portos sem restrições à operação privada

Daniel Rittner, De Brasília
Valor Econômico

Ruy Baron/Valor

Pedro Brito, da secretaria de Portos: objetivo é dar clareza aos negócios

Pedro Brito, da secretaria de Portos: objetivo é dar clareza aos negócios

O governo dará mais liberdade à iniciativa privada para investir na construção e operação dos portos. Por meio de decreto presidencial, deverá autorizar a abertura de terminais privados para movimentar cargas de terceiros, sem limites percentuais, em regime de concessão. Os projetos terão necessariamente que passar por licitação pública, contrariando o desejo de parte dos empresários, mas o vencedor da concorrência ficará desobrigado de provar que existe carga própria em quantidade suficiente para justificar o investimento.

Essa é uma restrição imposta atualmente pela resolução 517 da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) que, segundo entidades empresariais, tem travado investimentos privados de pelo menos US$ 5 bilhões. A solução virá por um decreto, em fase final de preparação. A primeira versão do texto está pronta no Palácio do Planalto, deverá ser anunciado nas próximas semanas e busca resolver uma polêmica que já chegou ao Supremo Tribunal Federal.

O ministro-chefe da Secretaria Especial de Portos (SEP), Pedro Brito, afirmou ao Valor que o aperfeiçoamento do marco regulatório do setor – sem mudança na Lei dos Portos (8.630/93) – visa “retirar as pendências hoje existentes e dar clareza aos negócios”. “Até para que o investidor possa avaliar, a partir das regras do jogo, se vale a pena entrar no negócio ou não”, assinalou Brito.

Conforme adiantou o ministro, não haverá mais restrições para a movimentação privada de cargas de terceiros, mas os empresários interessados em investir nesse tipo de terminal portuário deverão cumprir duas exigências: a instalação deverá constar de um plano de outorgas ainda a ser definido e a concessão será dada mediante licitação pública.

Em agosto, segundo ele, uma portaria da SEP trará normas mais específicas e a modelagem de concessão do setor. Mais adiante, provavelmente até o fim do ano, será anunciado o plano de outorgas – uma espécie de mapa das necessidades portuárias e das oportunidades de investimento. Mas o ministro esclareceu que, antes mesmo da divulgação do plano, empresários poderão apresentar seus projetos ao governo, que avaliará a possibilidade de fazer a licitação.

“Não vamos esperar o plano de outorgas para dar largada ao processo, o que significaria engessar o mercado”, observou Brito. “Se alguém tem um projeto portuário, ele pode ser apresentado e avaliado dentro das condições econômicas existentes, mesmo não estando no plano. Aí nós estudaremos a possibilidade de fazer licitação pública”, afirmou.

É uma referência indireta aos projetos do empresário Eike Batista em Peruíbe (SP) e da Embraport em Santos. Eike esteve na semana passada com Brito e com a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, para discutir o assunto. “O nosso alinhamento [dentro do governo] é total”, afirmou Brito.

Para explicar como funcionará o sistema de concessão dos terminais privados que movimentarão cargas exclusiva ou majoritariamente de terceiros, Brito traça um paralelo com as regras do setor elétrico. Da mesma forma que Furnas e Odebrecht viram potencial hidrelétrico e estudaram as condições de erguer usinas no rio Madeira, empresas poderão entregar ao governo projetos para explorar uma possível zona portuária. Como ocorreu no Madeira, isso não significa autorização imediata para construir os projetos. Eles terão que estar em conformidade com a política pública e serão licitados. Não necessariamente o idealizador do projeto vencerá a disputa.

“Pelo fato de você ter um terreno ao lado de um rio que tenha queda d’água, isso não lhe dá o direito de construir uma usina hidrelétrica. Você tem que passar por um processo de licitação, dentro de um plano de outorgas”, comparou o ministro. “A mesma coisa acontece com as instalações portuárias. O fato de alguém ter uma terra ao lado do mar não lhe dá o direito de construir um porto como quiser. Ele tem que seguir um plano de outorgas e ganhar uma licitação.”

Para o ministro, as mudanças vão derrubar entraves à maior participação da iniciativa privada. “O governo precisa dos investimentos privados e quer estimulá-los”, frisou. Ele rejeita, entretanto, a idéia de que isso seja uma espécie de privatização dos portos. “Só se fosse uma abertura com decisões exclusivamente privadas, sem qualquer interferência do governo e transferindo toda a gestão dos portos para o setor privado, o que não existe em lugar nenhum do mundo, com exceção de Hong Kong.”

Brito faz questão de ressaltar que o setor não vai mal e a exploração de terminais privados para cargas de terceiros é o único ponto ainda sem definição. Em 2002, o fluxo total do comércio exterior brasileiro era de US$ 107 bilhões e o número de contêineres movimentados atingiu 1,3 milhão de TEUs (referência do setor). Em 2007, o comércio exterior somou US$ 281 bilhões e o número de contêineres foi para 6,6 milhões. A produtividade também subiu – de 11 movimentos (carga e descarga de contêineres) para 50 movimentos por hora. “Os portos estão dando conta do recado”, afirmou Brito.

A Lei dos Portos definiu duas modalidades para a exploração de instalações portuárias por empresas privadas: os terminais de uso público, explorados mediante contratos de concessão para prestação de serviços a terceiros, e os terminais de uso privativo, para movimentação de carga própria. Nessa categoria criou-se uma subdivisão, com a figura dos terminais de uso privativo misto, que podem movimentar cargas próprias e de terceiros. Em 2005, a resolução 517 da Antaq estabeleceu condições para a outorga de autorizações aos terminais de uso privativo misto. A norma prevê que a empresa interessada nesse tipo de terminal deve provar que a carga própria justifica o investimento.

“Qualquer empreendedor que peça autorização de um terminal privativo para operar sua carga será imediatamente atendido”, comentou Brito. “O que não cabe é alguém querer, com um processo simplificado, abrir um complexo portuário, com terminais de granéis, de contêineres e cargas gerais como se fosse uma autoridade portuária privada, organizando 3 mil metros de cais e 40 berços”, completou o ministro. Mas ele frisou: o governo está disposto a abrir o setor e os investimentos serão bem-vindos, desde que estejam numa localização definida como importante pelo poder público e ganhem uma licitação para fazer as instalações.

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23/06/2008

Mudanças dividem empresários e podem parar na Justiça

Francisco Góes, Do Rio
Valor Econômico

A proposta do governo de exigir licitação para que novos terminais portuários privativos possam movimentar carga de terceiros divide o empresariado e pode terminar em discussão nos tribunais. Os terminais de contêineres arrendados à iniciativa privada nos anos 90 e que operam como prestadores de serviços públicos são favoráveis à licitação. Empresas que investem ou têm projetos para construir terminais para movimentar carga própria e de terceiros em terrenos privados fora dos portos discordam.

“Vai dar guerra jurídica”, prevê Nelson Carlini, representante no Brasil da entidade que reúne as empresas de navegação estrangeiras, o Centronave. Os armadores têm interesse crescente em investimentos portuários no país. Na visão de Carlini, o governo não pode forçar licitação para construir terminais portuários em áreas privadas. Hoje os terminais privativos para movimentação de cargas próprias e de terceiros que estão surgindo fora dos chamados portos organizados situam-se em terrenos particulares cujos donos conseguiram ou ainda pretendem pedir autorizações do governo para desenvolver os projetos.

Há dúvidas, portanto, se o decreto presidencial com a nova política portuária conseguirá pôr um ponto final no impasse estabelecido entre as empresas que defendem a possibilidade de investir em terminais privativos, sem licitação, e o grupo que considera ilegal este tipo de projeto. De um lado estão grandes grupos como a LLX, de Eike Batista, Embraport, do grupo Coimex, e o porto de Itapoá (SC), projeto do grupo Batisttella e da Aliança, da alemã Hamburg Süd. De outro, estão 13 empresas reunidas na Associação Brasileira dos Terminais de Contêineres de Uso Público (Abratec).

Richard Klein, vice-presidente do conselho de administração da Santos Brasil, empresa associada à Abratec, disse que a entidade não é contra novos investimentos: “Eike (Batista) é bem-vindo ao setor portuário. Ele será um grande ofertante e vai levantar os valores das licitações (dos terminais portuários a serem licitados)”, disse Klein. Para ele, o que não pode é querer explorar porto fora do marco regulatório vigente: “É como se eu quisesse explorar petróleo sem passar pelos leilões da ANP e sem pagar royalties”, comparou Klein.

Segundo ele, a Abratec seria favorável à incorporação dos terminais de uso privativo misto, que movimentam carga própria e de terceiros, ao marco regulatório em vigor. Klein diz que as autorizações concedidas a estes terminais determinam que eles têm de movimentar carga de terceiros de forma complementar. Isso não estaria ocorrendo, diz ele.

Na visão do executivo, os terminais que têm autorizações concedidas (Portonave e Itapoá, em Santa Catarina, e a Embraport, em Santos) poderão ser levados a negociar com o governo uma mudança de regime jurídico, do privado para o público, mediante um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) ou via licitação de suas áreas. Outro caminho seria cumprir com o marco legal e movimentar prioritariamente carga própria. Carlini, do Centronave, rebate a proposta de Klein: “É kafkiano. Tudo por medo da concorrência.”

Wilen Manteli, presidente da Associação Brasileira dos Terminais Portuários (ABTP), entende que existem muitas dúvidas que só serão esclarecidas com a divulgação da redação final do decreto. Manteli avalia que licitar novos terminais dentro das áreas organizadas dos portos está de acordo com o marco regulatório. E acrescenta que já existe uma figura jurídica criada pelo governo para permitir a instalação de novas áreas portuárias fora dos portos públicos. Trata-se da instalação portuária pública de pequeno porte, cuja outorga é dada a Estados e municípios que podem repassá-la ao setor privado via licitação. O problema neste caso é o termo “pequeno” já que a briga hoje centra-se em projetos de grandes dimensões e investimentos milionários.

Uma fonte do setor que preferiu não se identificar entende que o decreto presidencial deverá incluir outros temas que também são alvo de disputa empresarial. É o caso da adequação dos berços para atracação de navios nos terminais em operação. Ocorre que os navios estão cada vez maiores enquanto os berços dos portos brasileiros ficaram do mesmo tamanho.

A fonte disse ainda que a Secretaria Especial de Portos (SEP) deve encomendar estudo a uma consultora para ter informações sobre demanda e capacidade de novos portos no Brasil. Com base nestes dados, o governo indicaria onde o país mais precisa de portos para então licitar as áreas. Um projeto antigo do qual muito se fala é Barnabé-Bagres, que duplicaria o porto de Santos. O governo quer ter os estudos de Barnabé-Bagres prontos este ano e licitar os primeiros empreendimentos no local em 2009. No setor privado, inclusive entre investidores, há quem não acredite na realização do projeto.

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19/06/2008

Modelo portuário é desafio para governo

Francisco Góes
Valor Econômico

O rio Itajaí-Açu, palavra indígena cujo significado pode ser rio grande que corre sobre as pedras, divide Itajaí e Navegantes, em Santa Catarina. A construção no local de um porto privativo deflagrou o maior conflito desde a privatização dos terminais de contêineres no país, nos anos 90.

A polêmica refere-se à possibilidade de empresas investirem em terminais privativos, sem licitação, para movimentar carga própria e de terceiros. Uma linha de pensamento considera que, ao fazê-lo, as empresas estariam ferindo a Constituição. O tema conflagrou a classe empresarial, foi parar no Supremo Tribunal Federal (STF) e criou incertezas para futuros investimentos em portos no Brasil.

O conflito regulatório subiu de tom no momento em que o governo prepara decreto que definirá a nova política portuária do país. E coincide com o desenvolvimento de sete projetos de terminais portuários privativos que pretendem movimentar carga própria e de terceiros e cujos investimentos previstos somam US$ 5 bilhões.

Os novos projetos portuários encontram-se em diferentes fases (estudos, construção e operação). Juntos, eles teriam condições de ampliar a capacidade de movimentação de contêineres em 4,8 milhões de unidades por ano, segundo estimativa da Associação Brasileira da Infra-Estrutura e Indústrias de Base (Abdib). O volume é semelhante ao fluxo de contêineres que passará pelos portos no país em 2008, previsto em 4,7 milhões de unidades.

Entre os novos projetos, estão o terminal portuário da Embraport, do grupo Coimex, em Santos, com investimentos de US$ 500 milhões, e o porto Brasil, de Eike Batista, em Peruíbe (SP), orçado em US$ 1,9 bilhão. O primeiro dos projetos a entrar em operação foi o da empresa Portonave, na margem esquerda do rio Itajaí-Açu, em Navegantes, município com cerca de 50 mil habitantes ao Norte de Florianópolis.

A Portonave está na origem do conflito com os terminais de contêineres arrendados à iniciativa privada e que estão reunidos na Associação Brasileira dos Terminais de Contêineres de Uso Público (Abratec). A entidade é a autora da proposta de Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) no STF contra atos praticados pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq). A medida considera que a Antaq não observou limites constitucionais para permitir a instalação de terminais de uso privativo misto como o da Portonave. Outros projetos foram questionados.

No questionamento ao Supremo, a Portonave é citada como um terminal “ilegítimo” que não teria carga própria que lhe permitisse também movimentar produtos para terceiros, conforme determina a lei. A Portonave, controlada por Triunfo Participações e Investimentos (TPI) e pelo fundo de investimentos Backmoon, com sede no Panamá, rebate o argumento.

“Não temos receio (da ADPF) porque o país precisa de infra-estrutura e a iniciativa privada não pode viver de monopólio”, diz Carlo Bottarelli, presidente do conselho de administração da Portonave. Ele refere-se aos 13 terminais da Abratec. O projeto da Portonave, em funcionamento desde outubro, recebeu investimentos de R$ 423,2 milhões.

O decreto com a nova política portuária, que pode resolver o atual conflito, deverá estar pronto até o fim deste mês, disse ao Valor o ministro Pedro Brito, da Secretaria Especial de Portos (SEP). “O decreto terá que redefinir normas de acordo com a lei dos portos”, disse Brito. E completou: “O investidor precisa de marco regulatório que defina a regra do jogo.” Brito afirma que o conflito em curso se restringe ao segmento de contêineres e que os investimentos portuários continuam a ser realizados. Mas há preocupação no meio empresarial de que a briga comprometa avanços que foram garantidos em lei.

O contencioso atual não foi previsto pela lei dos portos (8.630/93). A lei definiu duas modalidades para exploração de instalações portuárias por empresas privadas: os terminais de uso público, explorados mediante contratos de concessão para prestação de serviços a terceiros, e os terminais de uso privativo, para movimentação de carga própria. Nesta categoria criou-se uma subdivisão com a figura dos terminais de uso privativo misto, que podem movimentar cargas próprias e de terceiros.

Em 2005, a Antaq editou a resolução 517 que define condições para a outorga de autorizações aos terminais de uso privativo misto. A norma prevê que a empresa interessada na autorização do terminal privativo deve provar que a carga própria justifica o investimento. A norma é um dos pontos centrais no conflito que põe, de um lado, a Abratec e, de outro, grandes empresas que têm projetos portuários e companhias estrangeiras de navegação favoráveis à construção de novos terminais de contêineres sem licitação.

Na ADPF ao Supremo, a Abratec pede a concessão de liminar para que não se altere a resolução 517/05 no ponto referente à carga própria. Ela pretende, assim, que o terminal privativo tenha carga própria “suficiente” para garantir o retorno do investimento. Empresas que conseguiram autorizações da Antaq para instalar terminais privativos, como a Portonave, são contrários à norma.

Há quem entenda que a discussão atual, embora não iniba o investidor financeiro que procura boas oportunidades de investimento em infra-estrutura, pode atrasar o desenvolvimento de novos projetos portuários porque os financiadores tendem a fazer uma análise mais cuidadosa. Fontes do setor apostam que, mais cedo ou mais tarde, o conflito será resolvido, enquanto isso, a demanda por movimentação de cargas aumenta e exige investimentos adicionais.

“Quem sofre é o exportador e o importador, que vê os custos aumentarem em função da ineficiência portuária”, diz um interlocutor que pediu para não se identificar. Em 2007, as importações de produtos manufaturados, transportados preferencialmente em contêineres, cresceram 24% em volume na comparação com 2006. Os terminais de contêineres arrendados investiram US$ 1 bilhão entre 1995 e 2007. Os recursos permitiram expandir em 130% a movimentação de contêineres no país entre 1997 e 2008. O crescimento médio no período foi de 10,8% ao ano.

Os investimentos foram usados para reconstruir a infra-estrutura herdada do Estado, melhorar a produtividade e reduzir os custos de movimentação de contêineres, mas os clientes querem mais. Nelson Carlini, que representa as empresas de navegação estrangeiras, diz que a ocupação nos terminais de contêineres em operação no setor, de Salvador em direção ao Sul do país, é muita alta, o que reduz as “janelas” de entrada nos portos e aumenta a espera dos navios. Os armadores estrangeiros são favoráveis à criação de novas áreas para contêineres sem licitação. “Como exigir licitação pública em terras privadas fora das áreas organizadas dos portos?”, diz Carlini.

Sérgio Salomão, presidente-executivo da Abratec, afirma que os terminais de contêineres ligados à entidade investirão US$ 300 milhões em expansão da capacidade entre 2008 e 2010 para atender o crescimento da demanda. “A manutenção do marco regulatório é fundamental para manter o fluxo de investimentos para os portos”, diz Richard Klein, vice-presidente do conselho de administração da Santos Brasil, o principal terminal de contêineres do país, no porto de Santos.

Klein diz que três empresas com terminais de contêineres em operação – Santos Brasil, Wilson, Sons e Log-in – captaram R$ 2,5 bilhões em ofertas públicas para sustentar programas de expansão. Só a Santos Brasil, que movimentou cerca de 850 mil contêineres em 2007, aumentará a capacidade para 2 milhões de unidades por ano em 2015.

Na ADPF proposta ao Supremo, a Abratec argumenta que o objetivo da medida é impedir que os terminais de uso privativo misto se transformem em terminais de uso público não sujeitos as mesmas obrigações e controles do regime público. Para os opositores da Abratec, ao invés de impedir que novos agentes entrem no mercado, a entidade deveria negociar com o governo melhorias nas condições de operação de seus associados. A discussão sobre os terminais privativos e carga própria ainda deve ser aprofundada e ter novos desdobramentos.

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23/06/2008

ALL negocia expansão com Constran

Francisco Góes, De Mata de São João (BA)
Colaboraram Vera Saavedra Durão, do Rio, e André Vieira, de São Paulo
Valor Econômico

A América Latina Logística (ALL) está em negociações adiantadas com um consórcio formado pela Constran e dois fundos de investimento voltados à infra-estrutura para a construção de 262 quilômetros na malha da antiga Ferronorte, concessão que passou ao controle da ALL na compra da Brasil Ferrovias, concluída há dois anos.

A obra é estimada em R$ 710 milhões. O consórcio já apresentou proposta para construir o trecho, que vai se estender de Alto Araguaia até Rondonópolis, no Mato Grosso. O projeto irá criar um corredor ferroviário com 1,4 mil quilômetros de extensão para o escoamento da soja do Centro-Oeste até o porto de Santos (SP).

O presidente da ALL, Bernardo Hess, disse na sexta-feira, sem citar nomes, que, na verdade, há dois grupos interessados na construção. “Estamos avançados e devemos ter novidades em breve”, limitou-se a dizer Hess após falar na reunião anual dos conselheiros da Previ, o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, na Costa do Sauípe, município de Mata de São João (BA).

Uma fonte do setor interpretou a declaração de Hess de que ainda há dois grupos na disputa pela obra da Ferronorte como “estratégia de negociação”, uma vez que o contrato com a Constran e os fundos não foi assinado. Não se pode descartar, no entanto, segundo a fonte, que a ALL desconsidere proposta de outros investidores.

Expansão da Ferronorte

O diretor financeiro e de novos negócios da Constran, Adriano Stringher, confirmou a oferta para a construção do trecho ferroviário e disse que a construtora está em fase final de negociação com os fundos para a definição das participações da sociedade de propósito específico (SPE) que pretende executar a obra. “A decisão sairá em semanas. Não devemos ter o controle, que será dividido com os fundos”, acrescentou o executivo.

A expectativa da ALL é colocar em operação o trecho Alto Araguaia-Rondonópolis até 2011, se iniciada em 2009. “Há potencial para transporte de cargas agrícolas além de combustível e produtos frigorificados”, afirmou Hess.

Hoje, a ferrovia se estende por 512 quilômetros entre Aparecida do Taboado, na divisa do Mato Grosso do Sul com São Paulo, até Alto Araguaia (MT). Parte da produção agrícola do Mato Grosso segue via caminhão até o terminal de Alto Araguaia, onde há estrutura de armazenagem. São cerca de 7 milhões de toneladas anuais de grãos que chegam por caminhão. No local, a produção agrícola é embarcada nos trens da Ferronorte, que seguem, via Ferroban (outra concessão da ALL), em direção ao porto de Santos, onde a empresa tem participação no Terminal de Granéis do Guarujá (TGG).

Caso se confirme, o contrato será o maior da Constran nos últimos cinco anos – a construtora divide com a Odebrecht as obras do Rodoanel paulista (R$ 500 milhões); constrói um ramal do metrô de São Paulo (R$ 100 milhões), além de dois trechos da ferrovia Norte-Sul (R$ 430 milhões).

A construtora foi fundada por Olacyr de Moraes, ex-rei da soja, que planejou a Ferronorte nos anos 80 e iniciou sua construção em 1992. Segundo interlocutores, o fundo Infra Brasil, cujo gestor é o ABN Amro, e o fundo de investimentos formado por recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) devem se juntar a Constran no projeto de expansão da Ferronorte.

O modelo de construção prevê que o consórcio faz a obra e recebe o pagamento em contrato de longo prazo (25 anos), de acordo com um volume variável de transporte da ferrovia. Dos R$ 710 milhões estimados para o projeto, o BNDES deve financiar 80% e a Constran e os fundos de investimento, 20%.

As fontes disseram que o BNDES (sócio da ALL via BNDESPAR), apóia a expansão da Ferronorte. Mas a instituição de fomento só deverá receber o projeto depois que a ALL feche o acordo com Constran e os fundos. Os fundos precisarão aprovar o projeto em seus respectivos comitês de investimento. O BNDES deverá financiar o empreendimento via project finance, modalidade pela qual o banco corre parte dos riscos.

O Valor apurou com o banco que no momento só estão ocorrendo conversas sobre o projeto. Mas, por se tratar de um projeto do PAC, o BNDES tem interesse, podendo financiar até 85% do valor da obra.

O custo total da obra ainda precisará ser confirmado por estudos mais detalhados do projeto. Segundo uma fonte, a ALL poderia tocar outros projetos com investimentos da ordem de R$ 700 milhões. Mas como a Ferronorte é uma concessão, válida por 90 anos a contar de 1989, a ALL é obrigada a fazer a obra sob risco de ter de devolvê-la ao Estado. Trata-se de uma concessão não onerosa, que não exige pagamento de arrendamento ao governo, por ter sido construída com capitais privados.

Além da autorização do projeto pela ANTT, a agência do setor, o consórcio precisará da aprovação de licença ambiental. “Dos quase 270 quilômetros, 200 quilômetros já possuem licença prévia, que precisa apenas ser renovada”, disse o diretor da Constran. Ele não vê ameaças por parte de ambientalistas: “Essa é uma região onde a soja já está consolidada.”

Cidades

25/06/08

Análise Fator:

O Planejamento do uso e ocupação do solo urbano, a cargo dos municípios e o controle da poluição, no caso de São Paulo, da Cetesb, se encontram numa agenda comum: a Revitalização das Áreas Degradadas.

É hora de aproveitar o grande momento do mercado imobiliário e a demanda por novas áreas de investimento, e fazer a coisa certa: revitalizar áreas contaminadas, principalmente em antigas áreas industriais urbanas que sejam de interesse da expansão imobiliária e dentro do plano estratégico de uso e ocupação do solo. Foi por este caminho encontrado que grandes cidades na Europa e EUA transformaram seus passivos urbanos em riqueza (Negócios em Áreas Degradadas – Gazeta Mercantil).

Além de eliminar a exposição da população a riscos

Por Marcos Redondo, diretor-executivo da Fator Ambiental

 

 

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15/06/2008

Contaminação de áreas cresce 25% em um ano e bate recorde

SP tem 2.272 terrenos poluídos, segundo a Cetesb; postos de gasolina são principais vilões

Marcela Spinosa
O Estado de São Paulo

O solo de grandes parcelas de São Paulo virou um poço de substâncias químicas nocivas à saúde e ao meio ambiente. A lista de áreas contaminadas por infiltração de produtos químicos no Estado cresceu 25% em um ano e bateu recorde: são 2.272 localidades, em 2007, ante 1.822, em 2006. O índice é nove vezes maior do que há cinco anos, quando a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) divulgou os primeiros dados, com 255 áreas. Os vilões da contaminação são postos de gasolina (77%), indústria (14%) e comércio (5%).

O crescimento é expressivo, mas ainda não dá a dimensão do problema. “O número ainda vai evoluir bastante, por causa do aumento da fiscalização”, diz o gerente de Planejamento de Ações Especiais da Cetesb, Elton Gloeden. “Para as pessoas é muito importante a identificação dessas áreas, para evitar que ocorram ocupações em locais com o solo contaminado. Não sabendo disso, ocupa-se o lugar e pode-se ficar exposto.”

No ranking das localidades com maior número de áreas tóxicas, a capital aparece em segundo lugar, com 743 dos 2.272 pontos. Ela só perde para o interior, com 786. Para a Cetesb, a descoberta de novas áreas é resultado do aumento na fiscalização e do aperto nas regras de licenciamento ambiental para postos de gasolina, indústrias, empresas de tratamento e descarte de resíduos, além do crescimento no atendimento de emergências químicas. Por isso, cada vez que um relatório do órgão é divulgado, os números aumentam.

Os postos de gasolina são os maiores responsáveis por esse crescimento. O mau armazenamento do combustível causou danos ambientais em 621 das 743 áreas listadas pela Cetesb na capital. No Estado, contaminaram 1.745 dos 2.272 terrenos. Foi com a aplicação da Resolução 273/2000 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que fornece licença ambiental para postos, os obriga a fazer um estudo do subsolo e do lençol freático para descobrir se a atividade trouxe prejuízos, que se conheceu a situação crítica das áreas ocupadas por eles.

DESRESPEITO
A falta de conhecimento de procedimentos seguros de manejo de substâncias perigosas e o desrespeito a essas normas são a origem do problema, segundo a Cetesb. Outro motivo são acidentes ou vazamentos na produção, no armazenamento e no transporte dos produtos. Com isso, substâncias tóxicas e inflamáveis, como solvente, combustível, hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (PAHs) e metais vazam, ultrapassam os limites do imóvel, encharcam o subsolo e se misturam aos lençóis freáticos. O PAH, por exemplo, é um produto potencialmente cancerígeno. “A água subterrânea abastece os rios. Em um lugar distante, alguém pode fazer um poço achando que a água está limpa e, na verdade, pode estar contaminada”, explica o professor do Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) José Luiz Negrão Mucci.

A fórmula explosiva encontrada no solo causa problemas a saúde humana, animal e ambiental. E também rende danos ao patrimônio, como a desvalorização da propriedade. Só na capital, a Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Solo Contaminado (Vigisolo) do governo federal mapeou, até 2005, 157 locais com população vivendo em áreas com solo contaminado. O número é o maior do País, que tem pelo menos 15.237áreas nessa situação. “A discrepância com relação a São Paulo existe porque a Cetesb faz um levantamento específico para identificar áreas contaminadas. Outro motivo é que a descoberta das áreas realizada em parceria com municípios está sendo aprimorada”, explica o diretor da Vigisolo, Guilherme Franco Netto.

Tornar o solo “sadio” novamente é, segundo Netto, um procedimento caro e demorado. O índice de remediação, como é chamada a limpeza da área contaminada realizado pela Cetesb, demonstra a dificuldade. Das 884 áreas com medidas de descontaminação adotadas, apenas 94 foram concluídas. Existem ainda outras 146 áreas com proposta de limpeza e 1.148 sem estudo de remediação. O proprietário do terreno é o responsável pela “limpeza”.

A Cetesb estabeleceu um prazo de até cinco anos para esse trabalho. “No processo de remediação pode ficar uma pequena amostra da substância, mas ela não causará danos a saúde e ao meio ambiente”, diz o gerente da Cetesb.

 

 

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20/06/2008

Como cidades norte-americanas estão buscando reduzir suas emissões

ISA, Fernanda Blauth e Luciana Ferrara

 

Cidades norte-americanas buscam reduzir emissões

Na palestra “Como o Planejamento Urbano Pode Ajudar a Minimizar os Efeitos do Aquecimento Global nas Cidades” especialistas dos EUA relatam políticas e campanhas em curso no país que incentivam o uso de energias alternativas, do transporte público e o aumento de áreas verdes nas grandes cidades, entre outras iniciativas de redução de emissões de gases de efeito estufa.

A palestra “Como o Planejamento Urbano Pode Ajudar a Minimizar os Efeitos do Aquecimento Global nas Cidades”, realizada no Instituto de Arquitetos do Brasil em São Paulo, na quarta-feira 18, reuniu um grande número de estudantes de arquitetura, urbanistas e outros interessados. Organizado pela Escola da Cidade, Movimento Nossa São Paulo, Instituto Socioambiental (ISA) e Consulado dos Estados Unidos em São Paulo, o evento trouxe para São Paulo a arquiteta Carla Chifos, professora da Escola de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Cincinnati, no estado de Ohio, que fez uma exposição sobre “Cidades Verdes, Não Poluídas e Não Aquecidas: A Nova Agenda para o Planejamento Urbano” e Glen Brand, diretor da Campanha “Cool Cities” da ONG Sierra Club, que expôs as ações que a campanha desenvolve nas cidades norte-americanas.

Enquanto cidades dos EUA buscam reduzir suas emissões, São Paulo desestimula o uso de bicicletas como alternativa de transporte.

Para Carla Chifos, a questão do aquecimento global e das mudanças climáticas são urgentes em todo o mundo e as cidades, importantes fontes de emissão de gases de efeito estufa, são palcos fundamentais para ações que combatam o problema. Os sistemas de aquecimento e resfriamento de edifícios, o crescimento urbano disperso, no qual os locais de moradia e trabalho são cada vez mais distantes – o que estimula o uso do automóvel -, combinados com o padrão de uso do solo monofuncional – que não otimiza o uso das redes de infra-estrutura – são os principais motivos para as crescentes emissões nas cidades da maior potência econômica do planeta. Por isso, Carla considera necessárias ações para mitigar e adaptar as cidades às metas de redução de emissão de gases (estabelecidos a partir do protocolo de Quioto, tratado não assinado pelos EUA), o que coloca novos paradigmas para o planejamento urbano, para a arquitetura e implica em uma mudança de comportamento por parte dos habitantes das grandes cidades, ao mesmo tempo que promoveriam uma melhora geral de qualidade de vida urbana.

A especialista apresentou os exemplos das cidades de Cincinnati e Nova Iorque. Em Cincinnati, Carla Chifos participou da elaboração de um plano feito em cada um dos bairros da cidade, com a participação voluntária de grupos organizados em equipes para tratar de temas como resíduos sólidos, transporte, segurança e uso do solo. O resultado foi o estabelecimento de ações e a definição da quantidade de emissão de gases que seriam reduzidos e os respectivos custos. O plano participativo envolveu vários atores, de cidadãos à especialistas e representantes municipais. A meta da cidade é reduzir em 10% a emissão de gases em 4 anos (2008-2012) com base nos índices do ano de 2000.

Em Nova Iorque, a maior e mais densa cidade do país, o desafio de acordo com Carla Chifos foi tornar a cidade mais “verde” sem frear seu crescimento, aumentando o número de parques e demais áreas verdes, melhorando a rede de transporte público, implementando programas de incentivo para viagens a pé, otimizando infra-estruturas envelhecidas e planejando as áreas de risco. Além disso, a palestrante citou como exemplos para redução de emissão de gases de efeito estufa o uso de energias limpas e a construção de edifícios verdes (que otimizam o uso da energia solar, e utilizam o aquecimento e a iluminação natural com tecnologias alternativas). Foram criados certificações e incentivos como forma de estimular os edifícios que reduzem o uso de energia, sistemas de transporte multimodais e sustentáveis, ampliação significativa de áreas verdes – com plantações de árvores programadas conforme as estatísticas de crescimento populacional -, mudanças de zoneamento permitindo o uso misto e o adensamento do uso do solo, concentrando atividades em grandes edifícios, com áreas verdes entre eles – tudo isso para otimizar o uso de energia e contrapor o padrão de crescimento espraiado das cidades norte-americanos.

Glen Brand, por sua vez, apresentou a campanha “Cool Cities”, da Sierra Club, considerada a maior ONG conservacionista norte-americana. A campanha busca soluções para minimizar o aquecimento global e tem como base um contrato, assinado por vários prefeitos, no qual os gestores se comprometem a implementar ações para a redução de emissão de gases de efeito estufa em 80% até 2050. Cerca de 80 cidades já assinaram o documento. Entretanto, além de planos e da assinatura do contrato, segundo Brand, é necessário implementar as ações e monitorá-las freqüentemente. O ativista salientou também que a campanha da Sierra Club visa incentivar novas tecnologias que garantam o uso de energia limpa no mercado, e que a simples substituição de lâmpadas para modelos mais econômicos pode significar uma grande redução dos custos. Outro incentivo citado por ele foi o da redução nos impostos para quem substituir seus carros por modelos menores, mais eficientes e econômicos.

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Valor Ambiental Agregado

25/06/08

Análise Fator:

Esta semana verificamos mais dois bons exemplos de como a gestão de sustentabilidade nas empresas: com o foco no negócio, pode trazer bons resultados. Vejam as notícias da Arcelor e da Caloi. É o que chamamos de “valor ambiental agregado”. Os consumidores no Brasil começam a manifestar a possibilidade de pagar mais por um produto sócio-ambientalmente correto. Na Europa isso já ocorre a mais tempo.

A Gestão da Sustentabilidade é mais do que definir ações de extensão social, reciclagem, cultura (não que todas essas iniciativas não sejam importantes), mas sustentabilidade está na essência do negócio e não nos periféricos. Essa é a diferença entre sustentabilidade e filantropia. A agenda de Sustentabilidade vem de cima, lá dos acionistas. Resultam em ações de posicionamento de mercado, pesquisa e desenvolvimento de produtos. Ser sustentável é ganhar dinheiro de forma ética, hoje e no futuro.

Por outro lado, ainda existem alguns setores na contramão desta tendência. E o cerco está apertando contra estes produtos. Vejam a moratória da soja e agora também do gado.

Por Marcos Redondo, diretor-executivo da Fator Ambiental

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23/06/2008

ArcelorMittal Tubarão terá o seu ‘calcário alternativo’

Patrick Cruz, De São Paulo
Valor Econômico

Fabio Vicentini/Valor

Pesquisas para uso nas lavouras de café estão em andamento, diz Botelho

Pesquisas para uso nas lavouras de café estão em andamento, diz Botelho

A siderúrgica ArcelorMittal Tubarão prepara-se para estrear no mercado de insumos agrícolas. A empresa vai destinar parte de um resíduo da produção de aço, conhecido como escória de aciaria, para a produção de um insumo que, no campo, é utilizado para a correção da acidez do solo. (mais…)