AMAZÔNIA
13 de Julho de 2008
No Amazonas, barcos movidos a luz solar em teste
Primeiras 22 embarcações nacionais, operadas por hotéis, começam a ser avaliadas no segundo semestre
Liège Albuquerque
Hotéis que ficam próximos aos rios amazônicos começarão a testar, a partir do segundo semestre, os primeiros 22 barcos movidos a energia solar produzidos no Brasil.
O catamarã (embarcação com dois cascos paralelos) é movido por placas solares instaladas no teto que desenvolvem força eletromotriz por meio da ação da luz.
As placas dão energia ao motor, aos instrumentos de navegação por satélite e à bateria usada para navegação noturna ou sob tempo nublado e chuvoso.
A bateria terá autonomia para 24 horas. ”Para prevenção de qualquer pane no sistema de alimentação de luz solar, há um depósito com álcool para o motor sobressalente”, diz o empresário Fernando Antônio Afonso Garcia, responsável pelo projeto.
O barco, adaptado especialmente para a região amazônica, tem 6 metros de comprimento, 2,8 metros de largura e alcança até 25 quilômetros por hora.
Um protótipo foi lançado em março. Fabricado com cascos de alumínio, ele pesa 250 quilos e foi projetado para transportar quatro passageiros. Sob o convés, uma tela de aço inoxidável com buracos redondos deixam o passageiro em contato mais próximo com o rio.
Os modelos que serão produzidos até o final do ano transportarão oito passageiros, suportando peso de até 500 quilos.
ENCOMENDAS
Os 22 barcos encomendados até agora são todos para hotéis de selva de Manaus e arredores.
Em novembro, a versão mais moderna e comercializável do protótipo vai fazer uma viagem de mil quilômetros pelo Rio Amazonas, de Santa Isabel do Rio Negro (a cerca de 840 quilômetros de Manaus) até a Ilha de Parintins. ”O recorde de um barco solar australiano é uma viagem de 120 quilômetros”, afirma Garcia.
Será uma semana de viagem, com paradas à noite para dormir em comunidades às margens do rio.
SOL É DE GRAÇA
O preço do barco ainda não foi divulgado. ”Não será mais barato do que um similar a diesel, mas a economia é gritante. Sol é de graça, enquanto um litro de diesel hoje custa em média R$ 2,15. Para navegar oito horas, o que dura a bateria de um barco, o dono já economizaria cerca de R$ 500”, diz Garcia.
Quando lançou o protótipo, várias empresas fizeram a proposta para produzir o barco, segundo o empresário. Ganhou uma companhia amazonense.
Os motores, porém, estão sendo fabricados por uma empresa paranaense. Já as placas solares, a alma do projeto, serão produzidas pela empresa do próprio Garcia, que fabrica estações para tratamento de esgoto.
15 julho de 2008
Dados do Inpe mostram queda no desmate, diz Minc
Mas ministro ressalta que números continuam altos; divulgação do boletim atrasou para checagem extra
Herton Escobar e Tatiana Fávaro
O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, disse que os números de desmatamento na Amazônia referentes a maio apresentam queda “modesta”, mas ainda são altos. Os dados serão divulgados hoje pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) com base no Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter). “Há uma queda modesta em relação ao mês anterior e ao mesmo mês do ano passado”, adiantou Minc ontem, ao participar da 60ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Campinas.
E completou: “Isso não é motivo de alegria para nós, porque o desmatamento ainda está muito grande. Estamos com melhor expectativa para o próximo Deter, pois entrou em vigor em 1º de julho o corte de crédito para quem estiver ilegal do ponto de vista fundiário ambiental. Mas é bom deixar claro que a medida não afrouxa nossa disposição de combater sem tréguas o desmatamento e o crime ambiental.”
O boletim do Deter está quatro semanas atrasado, por causa de uma checagem extra de imagens que será rotina daqui para frente. Depois da polêmica criada pelo governador de Mato Grosso, Blairo Maggi (PR), que contestou os dados do Inpe e chegou a chamar o instituto de “mentiroso”, o Ministério da Ciência e Tecnologia pediu para que os boletins do Deter fossem mais apurados, como forma de blindar o sistema contra contestações políticas.
A partir de agora, as imagens do Deter (diárias, porém de baixa resolução) serão confirmadas com imagens do sistema Prodes (de melhor resolução) e por inspeções de campo, o que significa que os boletins ficarão mais precisos, porém levarão mais tempo para ficar prontos – 30 dias, em vez de 15. Em vez de uma única estimativa total de desmatamento, os dados agora serão divididos em áreas de corte raso (onde a floresta foi completamente cortada), degradação florestal e “duvidosas” (onde não for possível fazer confirmação). “Queremos produzir o melhor dado possível, é nossa obsessão”, disse Gilberto Câmara, diretor do Inpe. “Isso é importante para diminuir uma certa tensão dos governadores que reclamavam que esses dados vinham de forma agregada, ou seja, se somavam num mesmo número coisas muito diferentes”, explicou Minc.
Para evitar ainda qualquer tipo de influência política, os boletins passarão a ser divulgados diretamente pelo Inpe, em São José dos Campos, e não mais em Brasília. Apenas o Ibama continuará a receber, a cada 15 dias, os dados brutos do Deter, que são utilizados para orientar a fiscalização de campo.
O ministro também anunciou que vai participar pessoalmente, no fim deste mês, de operações de grande porte com o Exército Brasileiro na Amazônia e repetiu que o governo pretende oferecer R$ 136 milhões para apoio ao extrativismo e R$ 1 bilhão para recomposição de reservas legais.
15 de Julho de 2008
ONU faz alerta para a venda ilegal de madeira
Jamil Chade
A ONU aperta o cerco contra a exportação ilegal de madeira da Amazônia e aponta que a moratória imposta pelo Ibama não está funcionando. A Convenção sobre o Comércio de Espécies Ameaçadas (Cites, na sigla em inglês ) vai propor um debate sobre a exportação de mogno da região. “Ninguém sabe exatamente hoje quanto é exportado nem se as vendas saem de áreas certificadas”, disse o porta-voz do grupo, Juan Carlos Vazques.
O principal foco da reunião que começou ontem é a exportação de mogno do Peru. Mas a situação é preocupante em toda a região. Segundo a entidade, a moratória imposta pelo Brasil na exportação da madeira está sendo violada graças a autorizações da Justiça. Problemas registrados em outros países da região apontam que o sistema não estaria funcionando.
“O atual sistema de verificação da origem da madeira é insuficiente”, afirmou a entidade em comunicado divulgado ontem em Genebra. Outro problema é o tráfico de madeira nas fronteiras da região. O Cites recebeu indicações de que haveria um esquema levando o mogno do Brasil ao Peru e, de lá, aos principais mercados mundiais como se fosse madeira peruana. “Desde que a moratória foi imposta no Brasil, vemos que empresas do setor se mudaram para o Peru, afetando até mesmo tribos indígenas”, contou o porta-voz.
A ONU sugere o congelamento das exportações de mogno do Peru para evitar o desmatamento das terras do país pelas empresas que antes estavam no Brasil e também para atacar o contrabando nas fronteiras do Amazonas. Cada metro cúbico de mogno está avaliado em mais de US$ 1,8 mil no mercado internacional.
Economia do conhecimento natural
Data: 15/07/2008
O ESTADO DE S. PAULO – SP
Antonio Marcio Buainaim*
A imagem do Brasil no exterior associada à desigualdade social, violência urbana, corrupção, desmatamento da Amazônia e trabalho escravo vem ganhando contornos mais positivos, tanto em reportagens de imprensa e declarações de autoridades da ONU como no reconhecimento dos progressos institucionais alcançados na última década.
O documento Brazil: the natural knowledge economy, preparado pela Demos, conceituada ONG inglesa (www.demos.co.uk), com a colaboração do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, CGEE (www.cgee.org.br), divulgado em Londres no dia 8 de julho, apresenta uma visão otimista do sistema brasileiro de Ciência e Inovação (C&I) e de sua capacidade para impulsionar o desenvolvimento. Parte do projeto “Atlas de Idéias”, que vem mapeando a nova geografia da C&I no mundo, o estudo destaca que o sistema brasileiro se alicerça, em grande medida, sobre a base dos recursos e ativos naturais e ambientais do País. Não se trata, como ainda pensam muitos influentes “desenvolvimentistas”, de uma debilidade ou sinal de atraso. “O Brasil desafia a visão linear de que a exploração de vantagens comparativas baseadas nos recursos naturais indica um estágio de desenvolvimento imaturo, que será superado para expandir a fronteira tecnológica.” No caso brasileiro, a tecnologia e a inovação explicam as vantagens adquiridas na exploração dos recursos naturais: “do óleo à energia hidrelétrica, dos biocombustíveis à agricultura, do progressivo domínio da biodiversidade à compreensão e consciência do papel da Amazônia na mudança climática global, o sistema de inovação brasileiro encontra seu melhor desempenho quando aplica a engenhosidade do seu povo à exploração dos ativos da natureza” (tradução livre).
O estudo aponta as principais forças e debilidades do sistema brasileiro de C&I. Entre as forças se destacam a estabilidade econômica e política do País; base crescente de conhecimento e de capital humano (o País é o 15º no mundo em publicação científica e o número de estudantes de mestrado e doutorado dobrou em 20 anos); bom suporte financeiro e regulatório à C&I, base para superar a ainda deficiente articulação entre setor produtivo e academia; adequação institucional e atitude de autonomia na questão da propriedade intelectual, que permite ao País desfrutar das vantagens do sistema global e ao mesmo tempo desafiar restrições associadas ao domínio do conhecimento; riqueza de capital ambiental, que vale a pena ser protegido e valorizado economicamente por meio da C&I; cultura que favorece a criatividade, adaptação, absorção de idéias e estilos de vida e facilita a colaboração científica; e a importância dos “heróis locais”, como Petrobrás, Vale, Gerdau, Embraer, Embrapa, várias universidades e instituições de pesquisa, exemplos de sucesso que influenciam positivamente todo o sistema.
As debilidades apontadas não são novidades. As desigualdades sociais e regionais se refletem na C&I: a USP sozinha responde por quase um quarto das publicações científicas do País; a conhecida baixa taxa de conversão do conhecimento em inovação, que requer estímulos mais efetivos ao setor privado, particularmente nas regiões menos desenvolvidas e nas pequenas e médias empresas; sistema excessivamente voltado para dentro e fracos incentivos para atrair pesquisa e desenvolvimento das multinacionais; carga tributária elevada que coloca o Brasil em forte desvantagem em relação aos competidores diretos; os ativos ambientais que ainda representam uma restrição pela dificuldade em transformá-los em fontes sustentáveis de renda; sistema educacional deficiente em qualidade, quantidade e orientação; fracasso em atrair, reter e estimular talentos científicos e mão-de-obra qualificada.
A base para utilizar a C&I como alavanca do desenvolvimento futuro está plantada, mas os desafios não são pequenos, as alternativas não são neutras nem isentas de conflitos. Como conciliar, de imediato, opções como estimular o desenvolvimento e proteger e postergar a exploração de recursos naturais? Promover a excelência no sistema de C&I e corrigir a iniqüidade social e desigualdade regional? São opções da sociedade, necessariamente mediadas pelo sistema político institucional, que não tem sido capaz de tomar e viabilizar decisões politicamente complexas e conflitivas, optando sempre pelo caminho mais fácil da acomodação. É aí que reside a maior fragilidade para o futuro do País.
*Antônio Márcio Buainain é professor do Instituto de
Economia da Unicamp. E-mail: buainain@eco.unicamp.br
