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11/07/2008
Falta energia ou falta visão?
Washington Novaes
O Estado de S. Paulo
O tema das barragens e usinas hidrelétricas volta a ocupar espaço abundante no noticiário, por muitas razões: 1) Por ser essa uma fonte renovável e menos poluente de energia, num momento de crise, e que abre a possibilidade de reduzir, com seu uso, as emissões de gases que intensificam o efeito estufa e acentuam mudanças climáticas; 2) pelo ângulo oposto, por estar o Brasil levando adiante vários projetos nessa área, quando alguns estudos mostram a possibilidade de, com conservação e eficiência energética, até reduzir consideravelmente nosso consumo de energia, além de poder recorrer muito mais do que o faz a outras fontes menos problemáticas (eólica, solar, de marés, biocombustíveis, principalmente); 3) porque a construção de hidrelétricas sem preocupação de implantar eclusas que permitam a navegação dificulta depois o aproveitamento desse meio de transporte (onde seja viável e sem custos excessivos); 4) porque grande parte da energia gerada se destina à produção de eletrointensivos (alumínio e ferro-gusa, principalmente), com altos subsídios, que impõem a toda a sociedade (que paga os subsídios) pesados sacrifícios, enquanto beneficiam principalmente consumidores dos países industrializados, grandes importadores desses produtos; 5) porque a interrupção do fluxo de rios e o alto armazenamento de águas suscitam outras preocupações aos estudiosos da área.
Pode-se começar pelo fim. O relatório Planeta Vivo 2006 e outros documentos da ONU dizem que a alteração e retenção do fluxo hidrológico no mundo para uso industrial, abastecimento doméstico, irrigação e produção de energia já fragmentam mais de metade dos maiores sistemas fluviais do mundo e 83% do seu fluxo anual (52% de forma moderada, 31% gravemente). A quantidade de água armazenada em reservatórios ou barragens já é, no mínimo, três vezes maior que a contida nos rios. Só barragens com mais de 15 metros de altura são 45 mil no mundo, segundo a Comissão Mundial de Barragens. São muitas as conseqüências: inundação de áreas importantes, perda de biodiversidade, desalojamento de populações, aumento da evaporação, acumulação de sedimentos (e geração de gases), entre outras.
Muitos países dizem não ter alternativas imediatas, como a China, diante do aumento da demanda por energia. Mas certamente não é o caso brasileiro. Já foram mais de uma vez citados neste espaço estudos da Unicamp e da Coppe (UFRJ) que mostram ser possível, a custos muito menores que no aumento da produção, reduzir em até 30% o consumo atual de energia, com programas de conservação e eficiência; e ganhar mais 20% com repotenciação de usinas antigas e redução de perdas nas linhas de transmissão (hoje em 15%). Mas ninguém ouve a área federal de energia discutir esse tema com a sociedade. Ao contrário, os responsáveis pelo setor só se preocupam em anunciar novas, caras e questionáveis unidades geradoras, na Amazônia, na polêmica área nuclear e em outros lugares problemáticos – Estreito (TO), Vale do Ribeira (SP) e Salto (SC), entre outros.
E tudo isso acontece em meio a graves discussões. Ora porque se muda o local de implantação de uma usina no Madeira e não se considera necessário novo estudo de impacto, ora porque já se anuncia para o ano que vem outra usina, no Rio Xingu, palco de conflitos sérios. Num momento, porque se condena o “esquecimento” de prever eclusas nas hidrelétricas do Rio Madeira – o que pode interromper a navegação; em outro, porque se condena à inundação um patrimônio paisagístico e cultural da humanidade, reconhecido pela Unesco, como é o caso de uma usina no Vale do Ribeira, onde podem sobrevir também problemas para remanescentes da mata atlântica, mangues, cavernas, restingas, quilombos, índios, caiçaras.
Estranho que pareça, não se discute um fenômeno cada vez mais freqüente, que é o rompimento de barragens. Só este ano isso já ocorreu no Rio Corrente (GO), em São Gonçalo (PB), inundando a cidade de São Vicente do Seridó; dois anos antes foi em Camará, onde o rompimento deixou 4 mil pessoas ao desabrigo. É evidente que se impõe uma revisão de métodos, inclusive por causa de alterações nos formatos de chuvas, com precipitações mais intensas em curto espaço de tempo.
É um problema que remete a recente estudo do Banco Mundial (28/3), em que está enfatizada a “baixa qualidade dos termos de referência e estudos de impacto ambiental” de projetos na área hidrelétrica. Por isso mesmo, e porque acha “razoáveis” os prazos concedidos pelo Ibama nos licenciamentos, não sugere o banco mudanças radicais nos processos e naqueles prazos – bem ao contrário do que pregam o ministro do Meio Ambiente e o presidente do Ibama.
Talvez fosse adequado olhar o que acontece em outras partes – como nos EUA, que já removeram 467 barragens, principalmente na Califórnia (48) e no Wisconsin (47); ou na Alemanha e na Hungria, onde estão em pleno andamento os planos de “renaturalização” dos rios, com a remoção de barragens, canalizações, etc., para que sejam restauradas as antigas planícies de inundação natural, removidas populações ribeirinhas e se evitem conseqüências desastrosas de enchentes. Ou ainda para várias partes da Europa, da Austrália, da Nova Zelândia, da Espanha, de Portugal, onde se investe pesadamente em energia eólica e solar – ao contrário do que fazemos aqui, onde o minguado programa de energias alternativas (Proinfa) se arrasta há anos, da mesma forma que os programas de eficiência energética (Procel).
É preciso repetir e repetir: entre 1973 e 1988, após o segundo choque do petróleo, durante 15 anos não aumentou em um só kilowatt o consumo de energia nos EUA, graças a programas de eficiência – e sem prejudicar o crescimento do PIB, que foi de quase 40% nesse período.
Eficiência não impede desenvolvimento. Ao contrário, ajuda, liberando recursos.
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10/07/2008
Lula vai decidir só no próximo ano sobre exploração de petróleo no pré-sal
Raymundo Costa e Claudia Safatle
Valor Econômico
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva adiou para 2009 a decisão sobre a exploração das jazidas de petróleo descobertas na camada pré-sal. Em linguagem leiga, o que Lula quer primeiro saber é se o que a Petrobras descobriu foram “vários lagos ou um mar contínuo de petróleo”, antes de tomar a decisão, segundo contou um ministro ao Valor. Já se tem como certo que o pré-sal encerra uma megajazida. O que o governo quer conferir agora é se na realidade trata-se de uma “hipermegajazida”, ou o “mar de petróleo”, como é chamado no Palácio do Planalto.
O governo ainda não tem uma opinião consensual sobre o assunto. O ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, defendeu a criação de uma nova empresa estatal que seria dona das reservas, ditaria o ritmo de produção e supervisionaria a exploração dos novos campos, com capital integral da União. Já o presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli, advoga que a exploração fique a cargo da estatal que fez o investimento, pesquisou e identificou as jazidas a partir de uma teoria desenvolvida pelo corpo técnico da empresa. A ministra chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, analisa as várias opções que estão sendo discutidas, mas ainda não se decidiu por nenhuma delas.
Além das propostas de Lobão e Gabrielli, está sendo considerada, também, a possibilidade do aumento da participação da União na Petrobras. Essa não seria uma operação simples, mas o governo acredita ser viável fazer um aporte de capital para elevar a participação da União, o que implicaria reduzir proporcionalmente a participação dos acionistas minoritários. Outra alternativa é a de prestação de serviços por empresas privadas. No Palácio do Planalto, a hipótese que parece causar menos entusiasmo é deixar a exploração do pré-sal para a Petrobras. Na realidade, até agora ninguém defendeu a passagem das jazidas simplesmente para a Petrobras.
Opinião que mais importa, Lula, sempre que é questionado sobre o assunto, limita-se a responder: “O petróleo é da União e deve servir ao país.” Nesse sentido, todo o debate sobre a distribuição dos royalties decorrentes da exploração dessa nova jazida, converge, no governo, para a criação de um fundo destinado a investir em educação.
Lula quer decidir o assunto no próximo ano, antes da campanha sucessória, mas é possível que tenha de esperar até 2010, a depender das pesquisas complementares que estão sendo feitas pela Petrobras para ter a certeza sobre a existência de vários grandes lagos ou um mar de petróleo no pré-sal, uma área que se estende do litoral do Espírito Santo até os limites de Santa Catarina. Se houver “o mar”, que é a melhor hipótese, inclusive os custos de exploração serão menores, quando os campos estiverem em operação.
A segurança de que já dispõe de uma megajazida na área do pré-sal decorre da primeira fase do trabalho de pesquisa da Petrobras. Inicialmente, a estatal operou com cinco sondas, em regiões diversas. Em todas encontrou petróleo leve, de alta qualidade e grande quantidade de gás. A dúvida é se são vários grandes lagos intermitentes ou um mar contínuo de óleo.
É essa certeza que levou o governo a discutir a forma de exploração das jazidas. “O risco de perfurar no pré-sal é zero”, disse um ministro diretamente envolvido nas discussões. A Petrobras investiu US$ 2 bilhões na pesquisa do pré-sal. A “primeira sonda”, como se refere o ministro, custou US$ 280 milhões. Hoje, a perfuração caiu para a faixa de US$ 40 milhões.
Lula está convencido que o sucesso da empreitada da Petrobras é resultado da decisão política do governo federal de investir na pesquisa de petróleo, atividade que havia sido negligenciada pelo governo tucano nos dois mandatos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. O PSDB teria concluído que não havia condições políticas para privatizar a Petrobras, mas, em compensação, descurou na gerência da empresa. Atualmente, o sentimento entre os funcionários da empresa seria de euforia, em razão dos seus sucessos. Lula costuma dizer que “a Petrobrás é uma outra nação. Felizmente é uma nação amiga.”
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10/07/2008
Tractebel fecha compra de PCHs por R$ 314 milhões
Maurício Capela
Valor Econômico
Carol Carquejeiro
Manoel Torres, presidente do grupo, busca maior presença em fonte renovável
Gerar energia a partir de fontes renováveis entrou definitivamente no radar da Tractebel. Controlada pela multinacional franco-belga Suez, a companhia deu mais um passo nessa direção ao adquirir ontem suas primeiras Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) no país. E a investida nessa área promete se acentuar, já que a empresa estuda também construir um parque eólico no país. Hoje, em energia renovável, a Tractebel possui só uma usina de co-geração em Lages (SC), que tem uma capacidade instalada de 28 megawatts (MW).
O parque eólico ainda é alvo de estudos por parte da Tractebel, que é a maior geradora privada do Brasil. Mas há uma boa possibilidade de a empresa adquirir uma usina de até 30 MW.
Para fincar o pé em PCH, a companhia vai desembolsar quase R$ 314 milhões. Desse total, R$ 203,9 milhões serão usados na aquisição das Sociedades de Propósitos Específicos (SPEs) que controlam os dois empreendimentos, enquanto que os R$ 110,06 milhões restantes corresponderão ao endividamento líquido dessas SPEs.
O endividamento, explica Manoel Zaroni Torres, presidente da Tractebel, não causa preocupação alguma. Com prazo de vencimento que varia entre 2017 e 2019, a dívida líquida foi tomada junto ao Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal. E serviu para que as SPEs colocassem os projetos em funcionamento. Zaroni Torres explica ainda que estuda liquidar a dívida, mas a decisão ainda não está tomada.
Juntas, as duas PCHs têm uma capacidade instalada de 50,3 MW. E estão em operação desde 2007, sendo que sua energia assegurada está vendida ao Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa) até 2027.
“As duas PCHs estão localizadas no Estado do Mato Grosso, sendo que uma tem capacidade de 26,6 MW e outra tem 23,7 MW”, detalha Zaroni Torres. Com as duas, a capacidade instalada da Tractebel pulará de 6,094 mil MW para 6,144 mil MW.
O presidente da Tractebel explica que o objetivo da aquisição é aumentar sua capacidade geradora do país e reforçar sua posição nas fontes renováveis. Além disso, admite que as duas PCHs certamente terão sinergias operacionais e de manutenção com a hidrelétrica Ponte de Pedra. Instalada entre os estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, a usina tem capacidade instalada de 176,1 MW.
Além da compra dessas duas PCHs e da iniciativa em eólica, a Tractebel ainda terá grandes projetos para acrescentar ao seu parque gerador. Isso, porque a Suez está construindo as hidrelétricas de Estreito e São Salvador, além de ter sido a líder no consórcio vencedor do leilão da segunda hidrelétrica do rio Madeira, a usina de Jirau.
A julgar pelo tamanho das usinas, a capacidade geradora da Tractebel deverá subir substancialmente. Só a hidrelétrica de Jirau tem cerca de 3,3 mil MW, sendo que a participação da Suez no consórcio vencedor é de 50,1%.
Por ora, o ganhador de Jirau tem corrido contra o tempo para entregar toda a documentação necessária para as entidades do governo federal, já que o consórcio pretende mudar o local de construção da usina em nove quilômetros. Ao invés de erguê-la na cachoeira de Jirau, a idéia é construí-la na cachoeira de Caldeirão do Inferno.
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03/07/2008
Copersucar exportará álcool para o Japão
Mônica Scaramuzzo
Valor Econômico
SÃO PAULO – A Copersucar, a maior cooperativa de açúcar e álcool do mundo, assinou ontem um acordo comercial com a companhia japonesa JBSL (Japan Biofuels Supply LLP), que representa dez distribuidoras de combustíveis do Japão, para exportar 200 milhões de litros de álcool carburante (anidro) por ano. O contrato de exportação – assinado no momento em que o ministro da economia japonês Akira Amari visitava o Brasil – é de quatro anos e poderá ser renovado. A receita com os embarques anuais deve somar cerca de US$ 100 milhões, considerando as cotações atuais do combustível.
Pelo acordo fechado com a companhia japonesa, a Copersucar exportará 200 milhões de litros de álcool anidro para a Lyondell, uma das maiores companhias petrolíferas dos EUA. Em Houston (Texas), o álcool brasileiro será utilizado na composição do ETBE (éter etílico terc-butílico), um aditivo que contém etanol misturado com derivados de petróleo. Após a industrialização, o ETBE será misturado à gasolina no Japão. ” Nosso contrato prevê fornecimento exclusivo de álcool para que a Lyondell faça a mistura na gasolina ” , afirmou Hermelindo Ruete de Oliveira, presidente da Copersucar.
A mistura do ETBE é uma das alternativas que o Japão estuda para misturar à gasolina. Nesse sentido, a Petrobras também tem acordo com a japonesa Mitsui para produzir álcool no Brasil em parceria com usinas locais para levar o combustível ao Japão. A estatal já exportou álcool carburante para o país, mas em pequena escala, como teste. Ontem, a Petrobras informou que deverá fazer parceria com uma usina de Itarumã (GO) para iniciar a produção de etanol para vender ao mercado japonês.
O Japão consome 60 bilhões de litros de gasolina por ano. E o governo daquele país já estuda, há alguns anos, a mistura de 3% de álcool na gasolina, o que geraria uma demanda de 1,8 bilhão de litros anuais. No futuro, pretende elevar a mistura para 10%, o que criaria uma demanda maior, de 6 bilhões de litros/ano. Atualmente, o Japão importa cerca de 200 milhões de litros de álcool, mas a maior parte é destinada para as indústrias químicas, de bebidas e farmacêuticas.
No domingo, o diretor de recursos naturais e política energética do Ministério da Economia japonês, Hiraku Tomofumi, antecipou que importadores japoneses iriam firmar acordo com exportadores brasileiros para a compra de etanol.
Segundo Ruete, no contrato firmado com a JBSL há cláusulas de sustentabilidade, no qual a Copersucar se compromete a não produzir álcool em áreas de riscos ambientais e fora do bioma amazônico, sem a contratação de mão-de-obra infantil. Esse tipo de cláusula tem ganhado força no Brasil, por conta das exigências internacionais.
Em fevereiro passado, a Copersucar fechou contrato de entrega de álcool industrial, com preços indexados ao petróleo, com a multinacional Solvay do Brasil. Esse contrato, firmado por 10 anos, prevê a entrega de 150 milhões de litros por ano.
Como não há um índice para o preço internacional do álcool, os contratos de exportação têm como referência as cotações do produto no mercado físico, com base nos preços nos EUA e no Brasil, os dois principais players globais.
Nesta safra, a 2008/09, a Copersucar deverá exportar 1,05 bilhão de litros. Se confirmadas as estimativas, será um crescimento de 38% em relação ao ciclo 2007/08.
Embalado pelo mercado crescente de etanol no exterior, o faturamento da Copersucar para 2008/09 deverá ficar em R$ 5,5 bilhões, aumento de 22% sobre a safra anterior, se confirmadas as expectativas. Fundada em 1959, a cooperativa tem 33 unidades de açúcar e álcool e deve processar nesta safra 70 milhões de toneladas de cana, 7,5% mais que em 2007/08. A produção de álcool está estimada em 3,7 bilhões de litros, alta de 14%, e a de açúcar em 3,9 milhões de toneladas, incremento de 10%.
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11/07/2008
Uruguai adere ao álcool combustível
Mônica Scaramuzzo
Valor Econômico
Foi um verdadeiro choque. Em 1950, quando a seleção uruguaia bateu o Brasil por 2 a 1 em pleno Maracanã, ninguém imaginava que o pequeno país sul-americano levantaria a taça Jules Rimet, sagrando-se campeão mundial. A verdade é que o Uruguai nunca aceitou o papel de coadjuvante, mesmo encravado entre o Brasil e a Argentina, dois protagonistas no mercado agrícola internacional.
E lá vem o Uruguai surpreender de novo. Fortemente dependente do petróleo, o país colhe este ano sua primeira safra de cana para a produção de álcool combustível, sem qualquer ajuda do Brasil, seu parceiro no Mercosul com maior expertise no assunto. Ainda que os volumes de produção sejam baixos, cerca de 15 milhões de litros, o programa criado pelo governo uruguaio dá mostras de que está no caminho certo. Centenas de agricultores da região norte do país, que viviam de agricultura de subsistência, foram incluídos no projeto sucroalcooleiro do país.
Em entrevista ao Valor, Gerardo Gadea, vice-ministro de Indústria, Comércio e Energia do Uruguai, conta que o programa do álcool tem gerado novas oportunidades ao setor agrícola do país. E o maior impulso foi dado no ano passado, com a criação da lei número 18.195, garantindo “um marco jurídico claro que fomenta a produção de biocombustíveis”.
Pela lei, a mistura de álcool na gasolina no país está estipulado em 5% até dia 31 de dezembro de 2014; o biodiesel em 2%, como mínimo, entre 1º de janeiro de 2009 até 31 de dezembro de 2010, para mesclar com gasolina e diesel. Depois, passa para 5% até 2012.
As energias não-renováveis do Uruguai representam 64% do total da matriz energética do país, com base no consumo de petróleo e gás. As renováveis respondem pelos 36% restantes. Do total, 16,2% são o uso de biomassa, 16,8% são hidroelétricas e energia importada, e 3% gás natural.
“Não dispomos de reservas de combustíveis fósseis. A possibilidade de incorporar as energias renováveis, como eólica, biomassa e biocombustíveis, permitirá ao país reduzir sua dependência do petróleo, gerando novas oportunidades ao setor agrícola”, afirma Gadea.
Para colocar o programa em prática, a estatal petrolífera Ancap e a empresa, também estatal, de açúcar Alur, retomaram em 2005 o projeto sucroalcooleiro em Bella Unión, região norte do país. Em 2006, o país colheu sua primeira safra açucareira. Gadea lembra que esse setor encontrava-se totalmente desestruturado. A estatal já investiu cerca de US$ 36 milhões, que inclui uma destilaria, uma caldeira e um turbo gerador.
No ano passado, a Alur desenvolveu um plano de desenvolvimento e fez aportes de US$ 10 milhões para a instalação de uma caldeira em um engenho, substituindo equipamentos antigos. Essa caldeira é a maior do país e produzirá energia de 12 Megawatts a partir da queima do bagaço de cana. E possibilitará a venda de 10 MW de eletricidade para UTE, estatal de energia – a oferta mais barata de eletricidade gerada a partir da biomassa que a empresa já recebeu.
Se colocados no papel, os números viram traço, comparados oa Brasil, gigante em etanol. No Uruguai, a área plantada com cana saltou de 3 mil hectares em 2006, para 6,5 mil hectares em 2007. A previsão é que a Ancap comece a fazer a mistura de álcool na gasolina a partir do segundo semestre. A meta de curtíssimo prazo é atingir uma área de 10 mil hectares com cana para açúcar e álcool. Ainda é pouco. O Brasil ocupa 6 milhões de hectares de área com cana.
Para ter cana mais produtiva, a Ancap instalou uma área na zona de Belén, de 140 hectares, para pesquisar novas variedades. Outros 40 hectares foram destinados a 44 famílias de trabalhadores e produtores que não tinham acesso a terras. O governo estima que mais de 400 agricultores se vincularam ao projeto, incluindo assalariados rurais e pequenos produtores. Mas poderá ter a adesão total de 2.600 trabalhadores no campo e 950 na indústria.
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08/07/2008
UE pressiona Brasil a provar sustentabilidade do álcool
Folha de S. Paulo
O presidente da Comissão Européia, José Manuel Durão Barroso, cobrou ontem que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva dê “garantias de sustentabilidade do biocombustível”, ou seja, uma demonstração inequívoca de que nem “destrói a floresta nem é feito em substituição à produção agrícola” [para alimentação humana].
Lula chega hoje a Hokkaido, no Japão, para participar primeiro de uma reunião com seus pares do G5 (México, China, Índia e África do Sul) e, amanhã, de outra cúpula, agora entre o G5 e o G8 -clube formado pelos sete países mais ricos e a Rússia.
O presidente brasileiro tem dito à exaustão que o Brasil tornou-se líder na produção de álcool ao mesmo tempo em que é uma grande potência agrícola, o que significa que o combustível não interfere com a produção alimentar.
Na recente cúpula sobre segurança alimentar, em Roma, usou um exemplo fácil de entender para demonstrar que a cana-de-açúcar, da qual o Brasil extrai o álcool, fica tão longe da floresta amazônica como o Vaticano fica do Kremlin.
Mas a frase de Barroso revela o quanto é complicada a tarefa do presidente brasileiro de defender o álcool das críticas. Foi justamente o presidente da Comissão Européia quem se encantou com o entusiasmo de Lula pelo álcool, durante visita ao Brasil há cerca de dois anos.
Tanto se encantou que, no ano passado, levou Lula a Lisboa e depois a Bruxelas para vender o álcool brasileiro ao público europeu.
De lá para cá, no entanto, avolumou-se o ruído em torno dos danos que o álcool supostamente causa à floresta e sobre sua responsabilidade no aumento dos preços agrícolas.
Barroso deixou claro ontem que continua a favor do álcool, porque acha que “pode ser parte da resposta para reduzir as emissões de gases que causam o aquecimento global”. Mas sente-se obrigado, como presidente do braço executivo da União Européia, a tomar nota do “debate no mundo inteiro a esse respeito”.
Tem razão. Ontem, na abertura da cúpula do G8, as duas autoridades que se apresentaram para entrevistas coletivas tocaram no assunto.
Fim das tarifas
Primeiro foi Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial, a instituição da qual vazou documento que diz que os biocombustíveis respondem por 75% da disparada de preços dos alimentos.
Zoellick disse que há “um amplo leque de estimativas” sobre os efeitos dos biocombustíveis nos preços agrícolas. “Que há efeito, há”, disse, sem quantificá-lo. Mas separou claramente o álcool derivado da cana, feito no Brasil, do etanol do milho (especialidade norte-americana) e de oleaginosas.
Chegou a dizer que de dois terços a três quartos da produção adicional de milho foi desviada para o etanol. Aproveitou para pedir que tanto a União Européia como os Estados Unidos eliminem as tarifas sobre a importação de álcool, o que soará como música ao ouvido das autoridades brasileiras.
Os EUA cobram US$ 0,54 por galão de álcool importado, o que, como é óbvio, aumenta o preço para o consumidor e dificulta as importações.
A segunda autoridade a tocar no assunto foi o secretário-geral da ONU, o coreano Ban Ki-moon, para quem “não é claro o impacto” da produção de álcool sobre os preços agrícolas.
“São necessárias mais análises e pesquisas, inclusive sobre a segunda geração de biocombustíveis” [que extrairá o combustível de produtos que não servem para consumo humano como cascas de árvores].
Jogou um cálculo mais preciso sobre os efeitos do álcool nos preços para a conferência internacional que o governo brasileiro convocou para novembro, no Brasil. É nela também que Lula aposta para estabelecer, sem paixão, o efeito que o álcool tem tanto sobre os preços agrícolas como sobre o ambiente.
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11/07/2008
Petróleo estatal, adeus Brasil verde
Alexandre Barros
O Estado de S. Paulo
Paralelamente a todas as discussões a respeito de meio ambiente, aquecimento global, desmatamento, etanol, biomassa, diesel vegetal, Al Gore, ONGs, Raposa Serra do Sol, generais da ativa e da reserva, pré-sal, faltou uma. Ela é a mais importante e pode ser uma boa explicação de por que, dificilmente, teremos carros elétricos ou uso intensivo de energias não baseadas em derivados de petróleo e/ou etanol no Brasil.
Se você, leitor, não adivinhou ainda, a resposta é simples: o governo brasileiro (qualquer que seja ele) é o maior interessado em que não se tenha nenhuma outra fonte de energia eficiente e lucrativa, porque ele é o único produtor de petróleo do Brasil. E a bancada sucroalcooleira é uma das maiores no Congresso Nacional.
A tecnologia e a pesquisa vão a reboque do governo, que tem, via Executivo e Legislativo, interesses constituídos muito poderosos, os quais não fazem a menor questão de que consumamos menos etanol ou petróleo. Ao contrário, quanto mais gastarmos desses combustíveis, mais felizes eles ficarão. Cada vez que usarmos outras energias, eles perderão dinheiro.
Não se iluda, leitor, não pense na Petrobrás perdendo dinheiro, pense no governo perdendo o dinheiro da Petrobrás.
A Petrobrás desconfia que haja muito petróleo abaixo da camada do pré-sal. Especula-se, no mercado, que a reserva se estenda muito mais ao longo do território brasileiro do que o que já foi divulgado até agora (a relação entre o governo dos EUA ter recriado a 4ª Frota no Atlântico Sul e as reservas ao longo da costa brasileira está aberta à sua especulação, leitor, aceito idéias e sugestões).
A Petrobrás é imprivatizável (desculpe, ministro Antonio Magri; obrigado, acadêmico Cândido Mendes) desde o governo Fernando Henrique. As pessoas se iludem achando que o Brasil ganha com a Petrobrás estatal. E tanto a Petrobrás quanto o seu dono, o governo, fazem de tudo para que continuemos a acreditar nisso. Potoca.
Ganham é os funcionários da Petrobrás e o governo, que usa o dinheiro da empresa para pagar muitas extravagâncias e idiossincrasias (não estou falando de atividades corruptas ou ilegais) para as quais ele – governo – não tem dinheiro no Orçamento público, votado pelo Congresso Nacional. Mas consegue fazer com o dinheiro da Petrobrás. Como, de resto, o faz também com o dinheiro do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal, do BNDES e, quiçá, de outras empresas estatais menores.
Basta olhar boa parte das campanhas e dos patrocínios a todo tipo de atividades. Lá – na camisa do atleta, nos créditos do filme ou da peça teatral, nos cartazes da exposição – estará o logotipo ou o nome de uma das estatais fazendo política social ou incentivando a cultura, a educação ou o esporte.
Nada contra nenhuma dessas causas, mas isto é apenas para lembrar que, como o governo distribui dinheiro a rodo por intermédio dessas empresas, para iniciativas boas e ruins, mais meritórias e menos meritórias, há uma grande massa de financiados que querem manter a imprivatizabilidade da Petrobrás e de outras estatais, pois vivem do dinheiro delas.
O governo faz cortesia com o nosso chapéu, financiando campanhas que, independentemente do mérito ou demérito de cada uma delas, têm uma coisa em comum: fazem o governo sair melhor na foto (e, de quebra, financia seus amigos).
No caso dos combustíveis alternativos, a situação é mais grave. Existe um movimento mundial para fazer uma faxina no ar que se respira, que passa, em parte, pela redução do consumo de petróleo. Em lugares onde o petróleo não é estatal, governos podem ajudar na faxina incentivando empresas, universidades e pessoas, ou pelo menos não as desincentivando, a buscar e desenvolver combustíveis alternativos.
O preço definido livremente pelo mercado é sempre o melhor incentivador ou desincentivador de atividades. Bastou o petróleo passar de US$ 120 o barril e montadoras desistiram de carros possantes e fecharam fábricas. Empresas de aviação testam combustíveis não derivados de petróleo. A freqüência do metrô de Nova York sobe quase 5% e, lá, os engarrafamentos urbanos se reduzem.
Aqui, o governo tenta comprar a vitória nas eleições municipais segurando o preço dos derivados de petróleo. Já vimos esse filme.
Nada melhor que o mercado. Hoje há, pelo mundo, todo tipo de pessoas e empresas tentando mover engenhos com vento, sol, óleo de fritura usado, estrume, hidrogênio e muitas coisas mais. Onde o petróleo não é estatal, os governos podem ajudar isso a acontecer ou, pelo menos, podem não atrapalhar.
Aqui, como o governo é o maior interessado no lucro do petróleo, a esperança de termos pesquisa significativa em energias alternativas é muito pequena. Não interessa ao governo.
E mais: não duvido que, em sendo descobertas alternativas energéticas em outros países, seja muito possível que o governo brasileiro não permita sua importação ou seu uso no nosso país, por uma razão muito simples: o governo ganha com a poluição.
Bastou o anúncio das reservas do pré-sal para o governo brasileiro entrar num assanhamento sem par. Há gente no governo querendo meter mais fundo a mão nos lucros hipotéticos do petróleo.
A Petrobrás não é suficiente, dizem alguns. Querem uma outra estatal, mais monopolista e mais poderosa, para controlar uma herança cujo valor ainda não se conhece ao certo, mas se acha ser muito grande. Agora brigam governo e Petrobrás. Ela, para não perder poder; ele, para eliminar a Petrobrás dessa perspectiva de se tornar mais poderosa.
Ganhe ela ou ganhe ele, não teremos nada a dizer, porque um monopólio nos tira todo o poder. Que falta faz um mercado de verdade na energia do Brasil!
Alexandre Barros, Ph.D. em Ciência Política (University of
Chicago), é pró-reitor do Centro Universitário Unieuro, em Brasília.
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11/07/2008
Efacec vai investir em energia eólica e em transportes no Brasil
Grupo português fechou contrato de R$ 200 milhões com a CPTM.
Maurício Capela
Valor Econômico
Luis Filipi Pereira, o principal executivo da multinacional portuguesa Efacec, tem planos ambiciosos para sua operação no Brasil. No comando de um grupo que deverá faturar globalmente ? 600 milhões de euros neste ano, Pereira mira desde a expansão do metrô em São Paulo (SP), passando pelo serviço de trens da capital paulista, pelo gerenciamento de projetos de instalação de usinas termelétricas até ser dono de parques eólicos no país.
A primeira investida aconteceu dias atrás, quando a Efacec firmou um contrato com a Cia. Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) de R$ 200 milhões. Pelo acordo, a multinacional vai instalar um sistema de sinalização, de telecomunicação, energia e outros nas linhas da CPTM. “O contrato tem duração de 24 meses a contar de julho deste ano. E tem uma possibilidade de prorrogação por mais seis meses”, diz Pereira ao Valor. O executivo assegura que o serviço a ser prestado para a CPTM será muito parecido com o já feito pela companhia no metrô de Lisboa, em Portugal, ou de Dublin, na Irlanda.
Outra investida da Efacec no país deverá acontecer na região Nordeste. Depois de pagar R$ 7,5 milhões para comprar a brasileira Energy Service no ano passado, a empresa herdou uma operação no Recife (PE) que faz reparação e manutenção de motores e geradores. Agora, estuda mudá-la de local.
Segundo o executivo da Efacec, a companhia já reservou ? 6 milhões de euros para levar a unidade de Recife para próximo do Porto de Suape, também no Estado de Pernambuco. A mudança também vai quintuplicar a capacidade instalada da operação. “Devemos tomar uma decisão entre o fim deste ano e início de 2009. Mas já temos conversado com as autoridades locais sobre o assunto”, afirma o executivo.
O fato é que a operação do Brasil tem despertado cada vez mais o interesse da matriz em Portugal. Primeiro, porque a meta imaginada para meia década foi cumprida neste ano. E depois porque a quantidade de pedidos em carteira é de fazer inveja a muitos grupos.
No ano passado, quando faturava R$ 30 milhões por aqui, a companhia imaginava ultrapassar a marca dos R$ 100 milhões em cinco anos. Enganou-se. Em 2008, assegura Pereira, a receita da Efacec no Brasil será de R$ 100 milhões.
Com o bom andamento da operação no país, a Efacec então resolveu fazer novas previsões. E já projeta um faturamento anual de R$ 500 milhões para 2013. Ou seja, uma receita cinco vezes maior que a registrada neste ano.
Aparentemente a tarefa parece ser quase impossível. Mas não é, diz Pereira. Isso, porque a Efacec já tem em carteira pedidos que totalizam R$ 600 milhões. “O gerenciamento de projetos de instalação de termelétricas terá um peso de 50% na receita projetada. Além disso, existe a automação industrial, o setor de transportes e a energia renovável”, diz. Um bom exemplo é o contrato de gerenciamento da construção da termelétrica a carvão em Pecém, no Estado do Ceará, controlada pelo empresário Eike Batista e a Energias do Brasil, controlada pela portuguesa EDP.
Agora, ser dono de usinas eólicas é uma diretriz nova. Em Portugal, por exemplo, a empresa detém 2% de um conjunto de parques, que totalizam uma capacidade instalada de 400 megawatts. E a empresa tem essa pequena parcela porque à época da construção mirava a obra e o fornecimento de equipamentos. Mas agora a história é outra e as conversas com parceiros no Brasil têm andado.
Com tamanha gama de projetos em carteira no Brasil e no mundo, já que seu portfólio global soma 800 milhões de euros , a Efacec sabe que o peso de Portugal nos negócios do grupo vai diminuir. Se no ano passado a matriz respondia por 50% do faturamento de 450 milhões de euros , neste ano não ultrapassará 45%. E isso parece ser a estratégia principal do grupo. “Em três anos, Portugal terá uma participação de 20%”, diz Pereira.
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08/07/2008
Comitê é aposta em programa de energia nuclear
Leonardo Goy
O Estado de S. Paulo
O governo aposta na energia nuclear para garantir o fornecimento de energia no futuro, principalmente quando as chuvas não forem capazes de encher os reservatórios das hidrelétricas. Prova disso é a criação, na semana passada, do Comitê de Desenvolvimento do Programa Nuclear Brasileiro. O grupo será coordenado pela Casa Civil e seu objetivo é traçar metas para o programa nuclear do País.
Um dos pontos a serem analisados por esse comitê é a localização das próximas centrais. Já é quase consensual que o Nordeste – onde, hoje, o Rio São Francisco já não oferece alternativas de geração hidrelétrica – deverá abrigar pelo menos mais uma usina.
A defesa da geração de energia em usinas nucleares vem crescendo no governo por diversos fatores. Um deles é econômico, já que a alta do preço do petróleo encarece a produção de energia em outros tipos de termoelétricas (como as movidas a óleo ou gás). Outro, é a segurança do abastecimento. Como o Brasil tem boas reservas de urânio, o combustível para essas novas centrais estaria garantido.
O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, quer, inclusive, abrir o mercado de geração de energia nuclear a empresas privadas, para estimular mais investimentos.
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09/07/2008
”Usinas nucleares são reserva estratégica”
Para Lobão, País não pode depender só de hidrelétricas
Leonardo Goy, BRASÍLIA
A decisão de retomar o programa nuclear faz parte de uma política do governo que usa usinas térmicas e nucleares como uma espécie de contrapartida – a acionar no período seco – à redução da produção das usinas hidrelétricas. Técnicos que atuam no Ministério de Minas e Energia e em outros órgãos do governo vêm definindo o sistema elétrico brasileiro como “hidrotérmico”. Isso significa que, apesar de as hidrelétricas serem predominantes na matriz elétrica brasileira, o papel complementar das térmicas, assim como das usinas nucleares, será cada vez mais decisivo.
As usinas termoelétricas produzem energia a partir do calor. Esse calor pode ser obtido por meio de uma reação nuclear, como nas usinas de Angra dos Reis, ou por meio da queima de um combustível, como gás natural, biomassa, carvão ou óleo. O modelo adotado no Brasil prevê que as térmicas funcionam como uma “reserva” do sistema. Na prática, elas podem permanecer desligadas por algum tempo, mas são chamadas a gerar energia em momentos críticos.
Isso o que aconteceu no início do ano, quando, temendo o atraso das chuvas, o governo mandou ligar quase todas as térmicas para poupar água nos reservatórios das hidrelétricas.
O ministro de Minas Energia, Edson Lobão, reforçou ontem o discurso do governo de aposta no aumento de geração de energia termonuclear para garantir o fornecimento de energia elétrica. “Vamos caminhar fortemente na direção das usinas nucleares. As obras de Angra 3 começam em 1º de setembro e daí por diante continuaremos o programa de modo tão célere quanto possível”, disse, durante debate em audiência pública na Comissão de Minas e Energia da Câmara dos Deputados.
Ele reconheceu que o Brasil ainda tem grande potencial a ser explorado em energia hidrelétrica, especialmente no Norte, que dispõe de um potencial de mais de 130 mil megawatts nos rios. Sublinhou, contudo, que dificuldades ambientais e mesmo sociais fazem com que o País não possa depender apenas da energia hidrelétrica. “Temos de tomar providências e precauções, ainda que estas digam respeito a usinas termoelétricas movidas a gás, óleo ou nucleares.”
Lobão disse que as térmicas são “uma espécie de reserva estratégica” para momentos de necessidade. E lembrou que este ano as usinas ajudaram a poupar água dos reservatórios, garantindo a segurança do sistema de geração de energia.
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09/07/2008
Plano nuclear esbarra na Constituição
Renée Pereira
O Estado de S. Paulo
O plano do governo para ampliar a geração nuclear no Brasil pode esbarrar na Constituição Federal e ser questionado na Justiça. Segundo advogados, a construção de novas usinas precisa ser aprovada pelo Congresso Nacional. Além disso, a localização das unidades tem de ser obrigatoriamente definida por lei federal, conforme o parágrafo sexto do artigo 225 da Constituição, explica o advogado David Waltenberg, da Advocacia Waltenberg, um especialista no setor energético. Angra 3 já havia sido aprovada no passado e, por isso, exigiu apenas decisão do Conselho Nacional de Política Energética.
Outra polêmica é a declaração do ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, de que vai chamar a iniciativa privada para participar como minoritária nos projetos nucleares. A economista Elena Landau, também especialista no setor, afirma que a Constituição não permite esse tipo de sociedade. Isso porque a atividade nuclear é considerada monopólio da União. Waltenberg concorda com a avaliação de Elena. Segundo ele, há cinco dispositivos na Constituição que tratam das atividades nucleares. O artigo 21, por exemplo, diz que compete à União a exploração dos serviços e instalações nucleares de qualquer natureza e exercer monopólio estatal sobre a pesquisa.
O ex-secretário de meio ambiente de São Paulo José Goldemberg diz que incluir a iniciativa privada num projeto nuclear não é nada fácil. “Outros países já fizeram essa tentativa e não conseguiram atrair o investidor. Isso porque a rentabilidade é pequena diante do risco. Se o governo quer expandir a matriz nuclear terá de pôr dinheiro próprio.”
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09/07/2008
Minc quer compensação por Angra 3
Ministro diz que licença ambiental para obra incluirá exigências como prazo para resolver problema de lixo nuclear
Ana Paula Scinocca e Andrea Vialli
Colaboração Leonardo Goy
O Estado de S. Paulo
O Ministério do Meio Ambiente é contra a construção de usinas nucleares, mas foi voto vencido dentro do governo e, por isso, considera a decisão um assunto superado. Mas o ministro Carlos Minc disse ontem que o licenciamento da usina nuclear de Angra 3 vai exigir compensações ambientais e monitoramento independente para os níveis de radiação.
Minc lembrou que a posição dele, contrária à energia nuclear, é a mesma de sua antecessora na pasta, Marina Silva (PT-AC). “Foi uma decisão de governo” enfatizou. Na véspera, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, dissera que o início da construção de Angra 3 tem data marcada: 1º de setembro.
Sobre as exigências do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para o licenciamento de Angra 3, Minc afirmou: “Vamos acrescentar vários pontos nessa licença ambiental. Queremos um prazo para resolver o problema dos rejeitos, o lixo nuclear”, disse.
Uma terceira medida em estudo é a obrigatoriedade de monitoramento externo e independente para os níveis de radiação. “Teremos sensores em terra, mar e ar e quem vai operar isso será uma universidade ou fundação independente, como já é feito na Espanha”, explicou.
Para o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, não há risco de atrasos, por eventuais novas exigências ambientais, no cronograma de início das obras de construção da usina nuclear Angra 3, no Rio de Janeiro, nem das usinas hidrelétricas Santo Antonio e Jirau, no Rio Madeira, em Rondônia.
“Essas exigências não vão contra o prazo, e me parecem razoáveis. Não pretendemos trabalhar com a idéia de atraso no reinício da construção de Angra 3″, disse. “O ministro Minc tem participado de reuniões sobre esse assunto, e o governo inteiro tem consciência de que deve começar a construção no dia 1º de setembro.”
Apesar da resignação de Minc, a alternativa nuclear é vista com reservas por ambientalistas e acadêmicos. “Angra 3 é uma sinfonia inacabada”, diz o físico José Goldemberg, professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da USP.
“A verdade é que todo mundo está cansado de ouvir falar dessa usina. Seria um alívio se fosse concluída”, desabafou. Segundo ele, o alto custo de manutenção da usina parada, estimado em R$ 20 milhões por ano, é um argumento favorável para sua retomada. “O que não é bom é a retomada do programa nuclear”, disse, sobre o projeto do governo de produzir 60 mil megawatts (MW) de energia nuclear até 2050. “Não faz sentido. Custa quase o dobro da energia hidrelétrica.”
Segundo o professor, o custo do para produzir um MW/h de energia nuclear está em torno de R$ 170, enquanto a energia produzida nas hidrelétricas está cotada em torno de R$ 70 o MW/h. “Para gerar 60 mil MW até 2050, como o governo pretende, seria melhor construir mais hidrelétricas na Amazônia, apesar das controvérsias, e implementar parques eólicos em grande escala”, disse.
O Greenpeace também se posicionou contrário à retomada do parque nuclear brasileiro. “A retomada da construção de Angra 3 é inconstitucional, pois não passou pelo Congresso Nacional”, afirma Rebeca Lerer, coordenadora da campanha de energia do Greenpeace. A ONG já entrou com três ações na Justiça pedindo o cancelamento do projeto – todas correm sem previsão de julgamento. “O argumento é que o projeto de Angra 3 é anterior à Constituição de 1988.”
Estudo do Greenpeace aponta que o investimento em Angra 3, estimado em R$ 7,3 bilhões, deve custar mais aos cofres públicos, por causa de atrasos na construção.
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10/7/2008
Usinas terão taxa para preservação ambiental
Valor Econômico
O governo federal vai exigir que as usinas geradoras de energia elétrica “adotem” áreas de preservação ambiental, como parques e reservas indígenas, destinando parcela da tarifa cobrada dos consumidores para atividades de conservação que serão fixadas em contrato. As geradoras atuais, que já pagam taxas para preservação, precisarão se adequar, mas ainda não se sabe como.
“O empreendimento estará acoplado a um grande parque, a uma grande reserva indígena com um projeto que tenha o interesse de preservação ambiental”, afirmou o diretor brasileiro da Itaipu binacional, Jorge Samek.
A decisão do governo, tomada ontem pelos ministros do Meio Ambiente, Carlos Minc, e de Minas e Energia, Edison Lobão, é “carimbar” os recursos para parques específicos e assim suprir carências administrativas do Ibama com a falta de funcionários e equipamentos. Na terça-feira, Minc havia exposto essa idéia numa entrevista coletiva. Aparentemente, seu colega Lobão não havia tomado conhecimento dos planos da área do meio ambiente, pois se disse surpreso com as declarações de Minc, ao ser informado delas, poucas horas depois. “Eu não sei em que ele está se baseando para fazer essa proposta”, afirmou Lobão.
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11/07/2008
Nova proposta de Minc exclui usinas do Madeira
Agência Estado
O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, assegurou ontem, em entrevista ao Estado, que sua proposta de passar a exigir que novas hidrelétricas conservem reservas ambientais próximas às barragens não terá impacto nas tarifas da energia que será produzida nas usinas de Santo Antônio e Jirau, no Rio Madeira (RO). O preço da energia dessas duas hidrelétricas já foi definido em leilões realizados no ano passado e em maio deste ano.
“Algum tipo de medida será exigido delas, mas sem impacto na tarifa” disse o ministro. Ele informou que pretende dar mais agilidade à concessão de novas licenças ambientais para a construção de usinas hidrelétricas, mas ressaltou que, “em contrapartida, não será dada mais nenhuma licença para o setor elétrico sem a adoção de algum parque (ecológico)”.
Minc explicou que a adoção poderá ser direta, com a própria empresa conservando a área, ou por meio do pagamento de uma taxa de compensação por danos causados ao meio ambiente.
O ministro voltou a afirmar que a licença de instalação da usina hidrelétrica de Santo Antônio deverá ser emitida pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) até o fim deste mês. Somente com a liberação desse documento é que o consórcio liderado por Furnas e Odebrecht, vencedor do leilão de concessão da usina, poderá iniciar as obras de construção. A licença para Jirau, também no Madeira, ainda tem de passar pela análise do Ibama.