ÁGUA
Análise Fator:
Gestão dos Recursos Hídricos e Sustentabilidade
Por Marcos Redondo, diretor-executivo da Fator Ambiental
Para as empresas que necessitam de grandes volumes de água para o abastecimento de seus processos produtivos, a gestão dos recursos hídricos tem importância estratégica nos negócios, e não é de hoje. Grandes demandadoras de água para o abastecimento de seus processos, como empresas dos setores de siderurgia, petroquímica, alimentos e bebidas, têm na questão da água um fator crítico de sustentabilidade de seus negócios no longo prazo.
Os primeiros investimentos foram decorrentes da ameaça de falta de água para a produção, seguidos também por uma necessidade de enquadramento dos padrões de qualidade dos descartes de efluentes. Mais recentemente, com a cobrança pelo uso de todo e qualquer recurso hídrico, subterrâneos e superficiais (Lei nº 12.183 de 29/12/2005) e da tendência de elevação significativa das tarifas a médio e longo prazos, as empresas passaram a verificar com maior facilidade as taxas de retorno sobre os investimentos em gestão de recursos hídricos e aprovar projetos neste sentido. A água tornou-se um bom negócio (aliás, sempre foi).
Grandes, médios ou pequenos consumidores de água, não importa. O fato é que o uso racional dos recursos hídricos seja através do planejamento da captação, da redução do consumo e principalmente do reúso, é prática comum em todas as empresas e uma das formas de contribuir com a competitividade, redução de riscos e geração de valor.
29/07/2008
Empresas já se preocupam com a água
Gestão dos Recursos hídricos abrange a preservação das fontes e redução do consumo
Gazeta Mercantil
Redação Revista Idéia Socioambiental
Apesar de ser um elemento fundamental para a perenidade de qualquer negócio, a questão da água não tem recebido historicamente a ênfase merecida na estratégia das empresas. As ferramentas de gestão e modelos econômicos tradicionais não consideram, por exemplo, o custo da degradação de fontes de água e ecossistemas essenciais para a manutenção dos recursos hídricos. Antecipando – se a um cenário de escassez iminente, algumas das mais importantes empresas brasileiras começam a repensar seus modelos de negócios e processos produtivos visando otimizar o uso da água.
De acordo com o consultor Maurício Waldman, geógrafo da USP, apesar de grave e preocupante, a questão tem sido negligenciada. “A escassez de recursos hídricos é uma discussão muito recente. Para se ter uma idéia, o relatório Meadows, divulgado pelo Clube de Roma na década de 60, não cita a água em termos de escassez. Ninguém supunha que essa questão teria o aspecto crítico verificado hoje. Só depois de 40 anos, a discussão do problema ganhou corpo. Ainda assim, persiste a falsa idéia de que água é um recurso inesgotável”, afirma o consultor.
Segundo o relatório “Water and sustainable development: A business perspective”, do Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável (World Business Council for Sustainable Development – WBCSD), a gestão eficiente dos recursos hídricos em toda cadeia produtiva não deve ser encarada apenas como um aspecto da responsabilidade social corporativa, mas sim como prática dos negócios.
“A gestão dos recursos hídricos requer a redução do desperdício de água, implementação de tecnologias mais eficientes, melhoria dos processos produtivos e tratamento da água utilizada. Numa abordagem mais profunda, a gestão da água não pode deixar de considerar a preservação das fontes desse recurso e trabalhar com as comunidades para melhorar as práticas de seu uso”, ressalta o documento.
As ações para atingir as etapas acima descritas variam de acordo com o segmento em que a empresa atua. Mas já podem ser observadas em várias corporações.
Na Coca Cola Brasil – onde a água é um elemento vital não só no processo industrial, mas principalmente para o produto em si – reduzir o consumo, evitar o desperdício e promover a reutilização não foi o bastante. A empresa decidiu buscar fontes alternativas de captação, como a água da chuva. Todas essas medidas integram o Programa Água Limpa, criado em 1995, com o objetivo de melhorar a gestão da água no Sistema Coca-Cola Brasil. “A água é a matéria-prima mais importante no processo de fabricação de bebidas. Ela está presente em todos os nossos produtos, logo, o uso eficiente e racional desse recurso é uma prioridade para a Coca-Cola Brasil”, afirma José Mauro de Moraes, diretor de Meio Ambiente da empresa.
A empresa também desenvolve o Programa Água das Florestas Tropicais Brasileiras que tem como objetivo a recuperação, proteção e manutenção de mananciais através da recomposição florestal de áreas próximas a rios e lagos.
A primeira fase desse projeto conta com recursos da ordem de R$ 27 milhões destinados ao replantio de 3,3 milhões de árvores no período de cinco anos, na Serra do Japi, região de Jundiaí (SP) que será feito em parceria com a organização SOS Mata Atlântica.
Responsável pela iniciativa, o Instituto Coca Cola também fornece suporte técnico e financeiro para conscientização e o envolvimento dos habitantes das regiões atendidas pelo projeto que foi desenvolvido para ser elegível ao mercado de carbono, de acordo com a Convenção do Clima do Protocolo de Kyoto.
Fazer mais com menos
Mesmo nas empresas em que a água não é matéria-prima dos produtos, o recurso tem um papel importante nos processos industriais e, requer, portanto atenção especial.
Na Holcim, por exemplo, a principal finalidade da água é o resfriamento dos equipamentos. Segundo Valéria Pereira, gerente corporativa de meio ambiente da empresa, a água só entra no processo produtivo, propriamente dito, nos moinhos de cimento e também nas torres e fornos para resfriamento.
“A água utilizada pela empresa é 100% recirculada. É uma forma de evitar o consumo e descarte, pois captamos a água e a consumimos novamente”, ressalta Valéria.
A Bosch, por sua vez, implementou um processo de tratamento de efluentes galvânicos na sua fábrica, em Campinas, que permite a reutilização de 60% do total da água utilizada. Anualmente, esse sistema possibilita o reaproveitamento de 240 milhões de litros.
“Como a Bosch é uma empresa do segmento metalúrgico, a água é essencial nos processos produtivos. Utilizamos as fontes de obtenção pública de água tratada, recursos hídricos de superfície e subsolos. Há um tratamento específico para cada etapa da produção, sendo que os efluentes também são tratados e utilizados em outros processos”, afirma Theóphilo Arruda, gerente de Engenharia Civil, Preservação do Meio Ambiente e Segurança Empresarial Corporativa da Robert Bosch América Latina.
Conciliar a redução do consumo de água com o aumento da produção é um dos grandes desafios das empresas. Este é o caso da Unilever. Nos últimos cinco anos, a empresa diminuiu o consumo de água em 32% mesmo diante do crescimento de sua produção de 27%, no mesmo período. Na prática, essa redução foi de mais de 1.000.000 metros cúbicos / tonelada, o equivalente a mais de 400 piscinas olímpicas ao ano.
Pegada de água
O relatório “As empresas no mundo da água – cenários para 2025″, do WBCSD, prevê que, por volta de 2010, os países exigirão a divulgação pelas empresas das suas pegadas de água.
Assim como a medida “pegada de carbono” serve para expressar as emissões de CO2, a “pegada de água” está relacionada à quantidade de água utilizada, direta ou indiretamente, para produção de um bem ou serviço.
Otimizar a relação de água necessária por unidade de produto ou serviço é um aspecto importante na gestão dos recursos hídricos.
Essa é uma das metas perseguidas pela Coca Cola Brasil. Em 2007, o consumo médio das 37 unidades da empresa no País foi de 2,10 litros de água/ litro de bebida, um volume 5% menor que o de 2006, quando o consumo foi de 2,21 litros.
Com essa redução a Coca-Cola Brasil deixou de captar 960 milhões de litros de água, volume suficiente para abastecer 3.100 famílias de quatro pessoas, por um ano. Segundo Moraes, a meta é chegar, até 2012, a 1,7 litro de água consumido por um litro de bebida produzido.
“A grande meta da empresa é tornar – se ”neutra” no consumo de água, a partir de ações alinhadas com as diretrizes dos três Rs: reciclar a água utilizada por meio das ETEs (Estação de Tratamento de Efluentes); reduzir o consumo de água com o aumento da eficiência no consumo e buscando fontes alternativas, como a captação de chuva e repor a água consumida, por meio de ações compensatórias, como o programa Água das Florestas Tropicais Brasileiras”, afirma o diretor de Meio Ambiente da Coca-Cola Brasil.
A AmBev, por sua vez, alcançou a média de 1,71 litros de água para cada litro de refrigerante produzido em 2007. Em algumas unidades da empresa, o consumo de água é ainda menor. A filial de Jundiaí, por exemplo, reduziu de 1,78 para 1,63 litros a água usada na produção de cada litro de refrigerantes, tornando – se referência entre todas unidades da companhia. Em 2006, a filial de Contagem (MG) atingiu a média de 1,25 litros de água para cada litro de bebida fabricada.
O processo de fabricação de cerveja demanda mais água. Ainda assim, houve uma economia do consumo de 2006 para 2007. A companhia reduziu de 4,30 para 4,19 litros a água usada na produção de cada litro de cerveja. A economia gerada com a redução representa, em volume, a quantidade de água suficiente para abastecer uma cidade de 200 mil habitantes por um mês.
Por meio de ações como instalação de medidores de água em cada etapa do processo produtivo e um sistema compacto e integrado de tratamento de efluentes sanitários para reutilização da água, a Amanco reduziu a um quarto o consumo de água em suas unidades produtivas no Brasil.
Parte significativa dessa economia também se deve à adoção do sistema de resfriamento dos tubos fabricados em circuito fechado. Em 2002, o consumo médio de todas as fábricas era de 1,07 metro cúbico por tonelada de tubos produzida. Hoje, essa relação é de 0,23 metro cúbico por tonelada produzida. “Saindo de sistemas abertos para fechados aumentamos muito a possibilidade de reutilização da água. O antigo sistema da torre de resfriamento era aberto e a água acabava evaporando. Já os sistemas fechados, com o uso de filtros específicos, conservam muito mais água, resultando em uma alta eficiência do recurso”, afirma Regina Zimmermman, gerente de qualidade da Amanco.
Na fábrica da Amanco localizada em Suape (PE), a forma como a fábrica foi projetada tem proporcionado o uso mais eficiente dos recursos naturais, entre eles a água. Nessa unidade, o processo de produção de uma tonelada consome apenas 40 litros de água, enquanto que pelo método tradicional seriam necessários 1.500 litros.
“A menor disponibilidade de água no futuro é um fato com o qual buscamos trabalhar. Tanto a sociedade, quanto as indústrias e governos, devem estar atentos a essa perspectiva. Muitas pessoas e diversas empresas percebem as novas tendências e se antecipam à busca de melhorias. Aqueles que não se anteciparem vão acabar ficando para trás, pois todo negócio pode ser comprometido com a falta desse recurso. Além de ser uma questão ambiental é também uma questão de competitividade”, ressalta Regina.
29/07/2008
Fábrica d’água
Xico Graziano
O Estado de S. Paulo
Água e desenvolvimento sustentável – esse é o tema central da Expo 2008, que se realiza em Zaragoza, na Espanha. Recursos hídricos mobilizam a Europa, cada vez mais sedenta. Água, em todo o mundo, carrega preocupação.
A grande exposição mundial ocorre a cada dez anos. Lisboa, em 1998, abrigou a anterior Expo, cujo foco mirava os oceanos, intitulados “um patrimônio para o futuro”. Agora, pregando o uso sustentável da água, certamente um dos maiores desafios globais da humanidade, a Expo 2008 conta com 104 países participantes e aguarda 6,5 milhões de visitantes. Vale a pena conhecer.
Zaragoza lidera a região de Aragón, no leste espanhol, separada da França pelos picos gelados dos Pirineus. Berço das principais nascentes ibéricas, em suas cordilheiras nascem o Rio Tejo, que atravessa a Península para desaguar no estuário de Lisboa, e o Rio Ebro, que corre para o sul, encontrando o Mediterrâneo.
Este, cuja bacia hidrográfica supera a do Tejo, tornou-se recentemente palco de enorme disputa política, devida à terrível seca que acometeu a Região Metropolitana de Barcelona. Na iminência de 5 milhões de pessoas ficarem sem água sequer para beber, o governo propôs um “transvase”, quer dizer, uma transposição do Rio Ebro. Enterrado ao longo da auto-estrada que liga Terragona a Barcelona, um duto levaria o precioso líquido para saciar os catalães.
Os governos regionais de Murcia e Valencia, principais beneficiários naturais daquele manancial, reagiram fortemente, ameaçando levar o caso ao Tribunal Constitucional. Em Aragón, onde se localiza grande parte da bacia hidrográfica, ninguém gostou da idéia. Castilla y León igualmente se opôs ao tratamento diferenciado para Barcelona. A guerra d’água só não ocorreu porque fartas chuvas caíram sobre toda a região espanhola entre abril e maio deste ano, elevando substancialmente o nível dos reservatórios. Bênção dos céus.
Momentaneamente, os ânimos dos briguentos espanhóis se acalmaram. Mas o trauma da seca permanece. Barcelona investirá milhões de euros na instalação de três grandes dessalinizadoras, prevendo até 2012 garantir talvez 30% do abastecimento com água captada no mar. Além disso, sua maior estação de tratamento de esgotos já iniciou obras para recalcar, 50 km rio acima, a chamada “água de reúso”, retornando ao manancial, devidamente tratada, boa parte daquilo que aproveita para uso humano. Heterodoxia ambiental.
A proteção dos recursos hídricos está virando uma obsessão na Espanha. Ainda bem. Basta observar a falta de cobertura vegetal naquela região peninsular, dizimada especialmente desde o descobrimento da América. A devastação das florestas originou crescente desertificação. Para se ter uma idéia do estrago causado pela erosão dos solos basta verificar o acúmulo de sedimentos na foz do Ebro. Historiadores apontam que aquele conhecido delta era inexistente no século 15. Hoje sua planície litorânea adentra 50 km no mar. Idêntico fenômeno atingiu o estuário do Tejo. Caravelas navegavam lindas onde agora se enroscam bancos de areia.
As barragens construídas visando à produção de energia e irrigação agrícola regularizam os rios e, conseqüentemente, reduzem os depósitos terrestres no mar. Permanece, entretanto, o grave problema da inexistência das matas ciliares. Situadas às margens dos corpos d’água, estas funcionam como uma espécie de capa protetora dos mananciais. Sem ela as áridas regiões ibéricas temem perder definitivamente a água abençoada.
No Brasil, o tema da sustentabilidade da água começa a entrar na agenda fundamental. Já passava da hora. Algumas regiões metropolitanas, especialmente a macrometrópole de São Paulo, que inclui Sorocaba, Santos e Campinas, começam a sentir o esgotamento de seus mananciais próximos. A possível falta de água preocupa, obviamente, governo e cidadania.
Detentor de 11,6% da quantidade de água doce superficial do mundo, 70% da qual molha a Amazônia, criou-se no Brasil uma ilusão de abundância com relação aos recursos hídricos. Gasta-se água como se fosse um bem infinito. Ledo engano. A poluição dos mananciais e o desperdício levantaram a bandeira vermelha da perigosa escassez. Afinal, no Sudeste, onde estão 42,6% da população brasileira, correm apenas 6% da água nacional. É pouco.
A transposição do Rio São Francisco visa a garantir abastecimento e irrigação em parte do Nordeste. O projeto recebeu licença para sangrar 26,5 m3 por segundo rumo ao semi-árido. Embora polêmico, o assunto não traz novidade. Utilizar água de bacia hidrográfica distinta da natural se faz no Brasil desde os anos 1950, quando parte importante das águas do Paraíba do Sul foi desviada para abastecer o Rio de Janeiro. No Sistema Cantareira, em São Paulo, 31 m3/s deixam a bacia do Rio Piracicaba e seguem bombeados para a região paulistana.
A gravidade do problema da água exige, porém, solução mais criativa, e sustentável, além das tradicionais receitas do armazenamento ou das transposições. Na Europa como no Brasil. Começa pela economia do desperdício e educação ambiental. Passa pelo reúso. Termina por assegurar a permanência das “fábricas d’água”. Preservação das nascentes e reflorestamento, isso sim, são as fórmulas do futuro.
Pouca gente sabe que, da quantidade total de água existente na Terra, 97,5% estão salgadas nos oceanos e mares. Apenas 2,5% representam água doce. Desta, 68,9% se encontram na forma de gelo, enquanto 29,9% são subterrâneas. Faça as contas. Quanto sobrou, água saudável, na superfície?
Quase nada. Portanto, hora de valorizar. Vem aí a cobrança pelo uso da água.
Xico Graziano, agrônomo, é secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo.
20/07/2008
Ameaça ao Projeto Tietê
O Estado de S. Paulo
Apontado por entidades internacionais como um dos mais bem estruturados e bem geridos programas ambientais do mundo, o Projeto Tietê está sob ameaça de ser interrompido. Sua segunda etapa termina neste mês e, apesar do cumprimento do cronograma e do vulto das obras – que permitiram significativo avanço nos serviços de coleta (84%) e de tratamento de esgoto (70%) -, a diretoria de Controle de Poluição Ambiental da Cetesb alerta: a meta de aumentar o número de empresas no monitoramento de efluentes despejados no Rio Tietê não foi cumprida. O não-atendimento dessa exigência do contrato de financiamento, firmado pelo governo estadual com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), poderá impedir a liberação de US$ 1 bilhão para a terceira etapa do programa. Essa fase prevê a universalização da coleta de esgoto e o combate à poluição nos afluentes do rio.
Na primeira etapa, realizada entre 1992 e 1998 ao custo de US$ 1,1 bilhão, foi estruturado o Sistema de Esgoto da Grande São Paulo, com cinco estações de tratamento de esgoto e uma rede de transporte de esgoto coletado. Agora, na conclusão da segunda etapa, são entregues 2,7 mil quilômetros de redes coletoras, 427 quilômetros de coletores-tronco, 70 quilômetros de interceptadores e 540 mil novas ligações domiciliares.
Nesses 16 anos foram investidos R$ 3 bilhões – metade financiada pelo BID e metade, pela Sabesp – em obras para melhorar as condições ambientais e a saúde pública na região metropolitana de São Paulo. Os avanços conquistados com a ampliação da coleta e tratamento de esgoto já levaram algumas áreas da capital paulista, em termos de qualidade do saneamento, a níveis de países como Itália e Espanha. Em grande parte, como resultado da redução da emissão de esgoto doméstico. Somente na segunda etapa do programa, 3,6 milhões de pessoas se beneficiaram com a ampliação da rede de coleta, que elevou o índice de atendimento da população de 80% para 84%. Outros 8,5 milhões de habitantes passaram a ser atendidos pelo tratamento de esgoto.
A questão que ameaça o financiamento da terceira fase do Projeto Tietê está associada ao controle dos efluentes industriais. Embora os relatórios acusem reduções de 69% da poluição orgânica lançada no rio pelas indústrias da região metropolitana, e de 38,7% do despejo de resíduos inorgânicos (materiais pesados), esses números são da primeira fase do programa. Metas de ampliação do controle de emissão de poluentes industriais não foram atingidas.
No início do Projeto Tietê, a Cetesb controlava o despejo de poluentes de 1.250 indústrias. Hoje, controla 594 porque grande parte delas encerrou atividades na Grande São Paulo.
Na segunda etapa, o governo do Estado tinha o compromisso de ampliar a fiscalização para mais 290 indústrias, mas não o fez. Manteve a fiscalização por meio da renovação de licenças de operação e recolhimento de amostras das indústrias consideradas poluidoras. O êxodo das fábricas, associado à manutenção do monitoramento, permite que a Cetesb apresente redução total da carga poluidora, mas o que os relatórios da companhia mostram são índices obtidos com a primeira etapa do projeto.
Em entrevista ao jornal Valor, Richard Hiroshi, da diretoria de Controle de Poluição Ambiental da Cetesb, admitiu que o BID pode considerar a ação insuficiente e não liberar US$ 1 bilhão para as obras previstas para o início de 2009. “Se não for a contento do BID, não haverá Tietê-3″, afirmou.
Há muitos obstáculos para se completar a despoluição do Tietê. As indústrias representam apenas um. As prefeituras resistem a cumprir suas obrigações de construir redes coletoras e coletores-tronco para tratar o esgoto antes que deságüe no rio. Grande parte da população também não faz as ligações domiciliares às redes coletoras – entre pagar mais pelo serviço de água e esgoto e poluir o rio, opta-se pela poluição.
Mas o trabalho feito até agora não pode se frustrar. A indústria, a população e as prefeituras têm que assumir a parte que lhes cabe na despoluição do rio.
