Desenvolvimento Urbano Sustentável
14/08/08Análise Fator:
Por Marcos Redondo, diretor-executivo da Fator Ambiental
Leitura obrigatória é a revista Grandes Reportagens, do jornal O Estado de S. Paulo, sobre o tema Megacidades, publicada em 3 de agosto.
Com enviados especiais, a edição mostra muitos problemas e algumas soluções das maiores metrópoles mundiais, e faz um preciso diagnóstico da situação da Região Metropolitana de São Paulo.
Não é o caso de, neste comentário, resumir o conteúdo das 120 páginas da valiosa publicação, mas de destacar para o mundo corporativo alguns pontos cruciais.
A questão da água na Região Metropolitana de São Paulo, por exemplo, evidencia a necessidade de todas as empresas grandes consumidoras de tratarem seus efluentes e fazerem reúso. Aqui na Fator temos alguns casos exemplares, que permitiram maior eficiência às operações industriais, assim como um alívio da carga poluidora que era despejada em nossos corpos hídricos.
O mercado sabe das limitações da Sabesp, assim como da situação-limite em que se encontra a bacia do Alto-Tietê (aonde se localiza a RMSP), em termos de disponibilidade e qualidade. Segundo a reportagem do Estado de S. Paulo, apenas os planos existentes para a região, em termos de saneamento, somam mais de R$ 19 bilhões em investimentos que na prática não existem. E este valor não leva em conta a gestão dos aqüíferos.
O trabalho desenvolvido pela Fator Ambiental para seus clientes, na gestão de recursos hídricos mostra que, não só estamos no caminho certo, como estamos armando nossos clientes de vantagens competitivas que serão cada vez mais diferenciais em relação à concorrência que permite-se apenas cumprir a legislação enquanto espera por soluções mágicas (que não virão) do poder público.
A questão da qualidade do ar é outro ponto que não pode ser ignorado. Nas palavras do respeitado Professor Dr. Paulo Saldiva, chefe do Laboratório de Poluição Atmosférica, da Faculdade de Medicina da USP, os parâmetros de emissões em vigência no Brasil, fixados pelo Conama em 1990, estão bem acima daqueles sugeridos pela Organização Mundial da Saúde (OMS). De forma análoga à questão dos recursos hídricos, aqui também cabe a atuação responsável das indústrias, aonde o estado permanece omisso.
De novo, temos realizado para alguns clientes – empresas multinacionais líderes em seus segmentos de mercado – inventários de emissões gasosas e planos de gestão destas emissões de modo a garantir a sustentabilidade das operações industriais em uma região onde, segundo o Prof. Dr. Saldiva, em O Estado de S. Paulo, morrem 12 pessoas por dia em conseqüência direta da poluição.
O fato é que as megacidades fazem parte da sociedade contemporânea – no Brasil, além da RMSP, que já vai-se juntando a Campinas, o Rio de Janeiro e algumas outras capitais correm o risco do crescimento desordenado – com soluções e problemas peculiares. Tanto mais importante fica o conceito de Gestão de Sustentabilidade, que temos incansavelmente pregado em nosso dia-a-dia.
03/08/2008
Uma Guarapiranga por dia
A cada 24 horas, vazamentos e desperdício sugam o equivalente a uma represa e põem São Paulo no limite da seca
Herton Escobar
O Estado de S. Paulo
A Organização das Nações Unidas prevê que, nos próximos 25 anos, o acesso à água pode ser a principal causa de enfrentamentos e guerras na África. Mas nem no futuro, nem tão longe de nós, já existe um conflito em curso pela mesma razão. A Grande São Paulo e a região metropolitana de Campinas dependem da bacia hidrográfica dos Rios Piracicaba-Capivari-Jundiaí. Se continuar no ritmo de consumo atual, daqui a poucos anos uma das duas cidades terá de ceder.
São Paulo depende de um volume gigantesco de recursos hídricos para abastecer a população, indústrias e plantações do cinturão verde da capital, mas a Bacia do Alto Tietê tem água suficiente para suprir apenas metade dessa demanda. A outra metade, aproximadamente, precisa ser importada da Bacia do Piracicaba, do outro lado da Serra da Cantareira, que também abastece a região metropolitana de Campinas. Por enquanto, trata-se de um conflito mediado por um contrato de outorga da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), que garante à metrópole paulistana o direito de retirar 31 mil litros de água por segundo da bacia vizinha, durante dez anos. O acordo vence em 2014. Até lá, São Paulo será obrigada, por contrato, a buscar fontes alternativas para se abastecer de água e reduzir sua dependência do Sistema Cantareira, que compõe o trecho leste da Bacia do Piracicaba. Caso contrário, não há garantia de que a outorga seja renovada. “Agora não é mais um problema da Sabesp, é um problema de Estado”, resume o diretor metropolitano da companhia, Paulo Massato.
A captação da Bacia do Piracicaba foi iniciada em 1974, mas São Paulo só começou a pagar por isso em 2006, com a lei de cobrança pelo uso da água. Hoje a Sabesp paga R$ 11 milhões por ano pelos 31 mil litros que retira por segundo do Cantareira. O dinheiro reverte 100% para o comitê de gestão da Bacia do Piracicaba, o que ajuda na preservação dos rios, mas não repõe a água que, em princípio, deveria estar disponível para os consumidores de Campinas e região. Em 2007, a empresa distribuiu 66 mil l/s, em média, para a região metropolitana de São Paulo (incluindo os 31 mil l/s do Sistema Cantareira). A capacidade máxima instalada de produção, segundo Massato, é de 68 mil l/s – uma margem de segurança mínima, de 2 mil litros, que deixa o abastecimento vulnerável a flutuações climáticas. Em 2003, ao fim de um longo período de estiagem, o Cantareira foi reduzido a 1% da capacidade. Por pouco não secou.
A demanda dos 19 milhões de habitantes da Grande São Paulo é de 86 mil l/s, incluindo todas as fontes de água: superficiais, subterrâneas ou retiradas diretamente dos rios para uso industrial e agrícola. Mas a oferta natural de águas superficiais da Bacia do Alto Tietê é de apenas 20 mil l/s, de acordo com o Plano Estadual de Recursos Hídricos. A Bacia do Piracicaba-Capivari-Jundiaí, que abriga a Grande Campinas, produz 43 mil l/s, para atender uma demanda de 40,8 mil l/s. Seria suficiente, se São Paulo não estivesse sugando outros 31 mil l/s do outro lado da serra. “Não há dúvida de que existe um conflito pelo uso da água”, diz o engenheiro Rui Brasil Assis, especialista da Secretaria de Saneamento e Energia do Estado. “Não temos garantia de disponibilidade de água para o futuro.”
Para evitar a disputa com Campinas, é quase inevitável que São Paulo precisará comprar briga com outras prefeituras. Pelo menos duas grandes obras já estão previstas. A primeira é a duplicação da capacidade da Estação de Tratamento de Água Taiaçupeba, em Suzano, de 5 mil para 10 mil l/s. A segunda, mais complicada, é a transposição de 4,7 mil l/s do Rio Juquiá, da Bacia de Ribeira do Iguape, no litoral sul. A região tem a maior abundância hídrica do Estado, com uma produção natural de 162 mil l/s, para atender uma demanda interna de 3 mil l/s. Se as duas obras forem concluídas como previsto, até 2014, isso significará um incremento de 9,7 mil l/s na oferta de água para a Grande São Paulo – menos de um terço do que é tirado do Sistema Cantareira. Outras opções seriam desviar água do braço do Rio Pequeno, na Represa Billings, hoje reservado para geração de energia na Usina Henry Borden, ou captar água de rios da Serra do Mar, o que teria impactos negativos sobre a mata atlântica. “Temos opções, mas são todas problemáticas”, reconhece Rui Assis. “Precisamos avaliar o que é melhor para o interesse público.”
A Grande São Paulo é a região com a menor disponibilidade de água per capita do País, segundo Massato. Cabeça por cabeça, tem menos água do que o sertão nordestino. A Sabesp calcula que a disponibilidade de água na metrópole é de 165 mil litros anuais por pessoa (incluindo toda a água da bacia, mais a trazida do Cantareira). Nas regiões mais áridas do Nordeste, esse índice gira em torno de 400 mil litros. Já o mínimo considerado sustentável pela Organização das Nações Unidas é 1,5 milhão de litros ao ano por habitante. “O sertão tem pouca água, mas também tem pouca gente”, explica Massato. “Para São Paulo ser sustentável, deveria ter 2 milhões de pessoas, e não 20 milhões.” O risco de escassez se agrava porque, pelos cálculos da ONU, a região metropolitana deverá ganhar 2,5 milhões de habitantes até 2025. Se o consumo doméstico por pessoa for mantido na média atual de 150 litros/dia, haverá uma demanda adicional de 375 milhões de litros/dia. Mas não bastará aumentar a oferta. É preciso reduzir o consumo e cortar o desperdício.
Na Grande São Paulo, 18% da água captada é perdida por vazamentos na rede da Sabesp. Isso equivale a 1 bilhão de litros/dia que, descontadas as perdas, seriam suficientes para abastecer 3,7 milhões de pessoas. “É uma Guarapiranga por dia que estamos jogando fora”, diz Marussia Whately, coordenadora da Campanha de Olho nos Mananciais do Instituto Socioambiental. Da água que chega ao consumidor, boa parte é desperdiçada na lavagem de calçadas, em descargas velhas e banhos longos. Pelos critérios da ONU, uma pessoa precisa de 110 litros por dia para sobreviver – beber, comer, lavar roupas, tomar banho. Em São Paulo, o consumo médio per capita é excessivo: 220 litros por dia (considerando todos os usos, não só o doméstico). Se os 10,8 milhões de paulistanos reduzissem sua cota diária ao nível recomendado pela ONU, poupariam mais 1,2 bilhão de litros/dia. A Sabesp tem um plano de R$ 1,5 bilhão para redução de perdas em dez anos, que envolve troca de tubulações e redução da pressão em pontos críticos da rede. “Todo mundo já morou em uma casa velha que tem vazamentos. Na cidade é a mesma coisa”, compara Massato. O fato é que a metrópole paulistana gasta muito mais água do que a natureza ao redor é capaz de oferecer. As torneiras só não secam graças às represas, que guardam as chuvas de verão para abastecimento durante o inverno, e à água de outras bacias.
Além da superexploração, a escassez tem uma origem natural. A Grande São Paulo concentra quase 50% da população do Estado, mas tem 4% da água disponível. Isso porque é uma área de nascentes, onde o volume dos rios é menor. “Temos pouca água disponível, consumimos praticamente tudo que temos e ainda produzimos uma quantidade enorme de poluentes”, diz o especialista Eduardo Mazzolenis, do Departamento de Tecnologia de Águas Superficiais e Efluentes Líquidos da Cetesb. No fim, não sobra água para diluir a poluição que é despejada nos rios. Dos 34 municípios da Bacia do Alto Tietê, 14 jogam 100% do esgoto diretamente nos rios – inclusive Guarulhos, com 1,2 milhão de habitantes. No total, só 42% dos efluentes produzidos na região metropolitana recebem algum tratamento. Toda essa poluição drena para um único lugar: o Tietê. Apesar das várias operações de despoluição por que passou nos últimos anos, o nível de oxigênio no trecho paulistano do rio nunca saiu do zero, para onde despencou nos anos 1960. “Nós causamos tudo isso”, lamenta a coordenadora da Rede das Águas da SOS Mata Atlântica, Malu Ribeiro. “O Tietê é o espelho de tudo que foi feito de errado nos espaços urbanos da bacia desde o Descobrimento. Se o rio está morto e fedido, é porque nós o tratamos assim.”
03/08/2008
Era uma vez um rio
Uma viagem pelo sistema Tietê-Pinheiros-Billings revela o esgotamento dos recursos hídricos da cidade
Adriana Carranca
O Estado de S. Paulo
Há uma ironia quando se diz que os 76 quilômetros dos Rios Tietê e Pinheiros são o único trecho ainda navegável da cidade de São Paulo. Para percorrê-los, é preciso vencer duas barragens, que controlam o fluxo da água para evitar enchentes, uma eclusa, usada para elevar ou descer embarcações de um nível a outro dos rios, duas estações de flotação, que retiram da água parte do esgoto, e muito lixo. Nos dois dias em que fizemos essa viagem, o motor da voadeira pifou cinco vezes no Tietê, com pedaços de plástico enroscados na hélice, e fundiu no Pinheiros.
O crescimento da mancha urbana – que dobrou de 1975 a 1995 e hoje ocupa 2.209 quilômetros quadrados – foi impiedoso com rios e mananciais. Forçou a canalização do Tamanduateí e do Anhangabaú, alterou o traçado do Tietê e do Pinheiros e avança sobre as Represas Billings e Guarapiranga, na zona sul. Com ocupação proibida desde 1976, as áreas das duas represas tornaram-se rentáveis nas mãos de grileiros: hoje 2 milhões de pessoas, pouco menos de 20% da população da capital, vivem no seu entorno.
Com limitada possibilidade de regularização, os loteamentos crescem sem infra-estrutura, como rede de esgoto ou coleta de lixo. “Não há como recuperar o rio se não tratar afluentes e córregos que trazem todo o lixo das ruas e o esgoto das favelas”, resume o barqueiro Laudo Blanco Cezário, de 61 anos, funcionário do Departamento de Água e Energia Elétrica (Daee). Governo e Prefeitura iniciaram um programa de limpeza de 40 córregos, para o qual estão previstos este ano R$ 200 milhões.
Os loteamentos irregulares não são os únicos responsáveis por esse quadro: 37% do esgoto gerado por 15,6 milhões de pessoas atendidas pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) em 30 municípios da região metropolitana é jogado in natura nas águas do Tietê e do Pinheiros, por falta de tratamento. As outras 9 cidades da Grande São Paulo têm sistemas próprios de saneamento, mas tratam porcentuais baixos de esgoto. Mesmo 2,6 milhões de imóveis regularizados não contam nem com a coleta.
Maior rio do Estado, o Tietê atravessa 34 municípios da Grande São Paulo. Nasce em Salesópolis, na Serra do Mar, e segue por 1.200 quilômetros até o Rio Paraná, na divisa com Mato Grosso do Sul. Da Bacia do Alto Tietê saíram areia e pedras para as primeiras construções de São Paulo e a energia para o desenvolvimento da região metropolitana. “Do ponto de vista do poder público, os rios de São Paulo nunca foram rios, mas fonte de energia e mecanismo para controlar enchentes”, afirma o engenheiro Ubirajara Felix, superintendente do Daee. “Não havia preocupação com ambiente nos anos 1920. A lógica era a do progresso: energia para sustentar a indústria e criar empregos.”
A primeira hidrelétrica da Light no Tietê foi a Usina de Parnaíba, de 1901. Nos anos 1920, a eletricidade produzida já era insuficiente. Em 1934, com a aprovação do Código das Águas, legislação federal, o uso dos rios para energia foi priorizado. O Tietê foi retificado e formou-se um canal de 26 km do Pinheiros, que teve o fluxo invertido para a Billings. Da represa, a água cai por 750 metros em tubulações até a Usina Henry Borden, em Cubatão, com capacidade de 889 quilowatts/hora. Até hoje, a principal função do sistema Tietê-Pinheiros-Billings é manter a usina funcionando. Mas a necessidade de fornecer energia para o progresso também abriu espaço para a especulação imobiliária. Só a retificação do Pinheiros rendeu à Companhia Light 25 km² de terras, onde hoje estão os Shoppings Villa-Lobos, Iguatemi, Eldorado e Morumbi, as mansões da Cidade Jardim, os valorizados prédios de escritório da Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini, o câmpus da Universidade de São Paulo e a congestionada Marginal.
Percorrer os 24,5 km do Tietê – da Barragem da Penha, zona leste, ao anel viário do Cebolão, no lado oeste, onde ele e o Pinheiros foram ligados numa estação elevatória – só é possível graças à ampliação da calha, concluída em 2006. O leito foi aprofundado em 2,5 metros e a base, alargada de 22 para 46 metros. Em quatro anos, foram retirados 6,8 milhões de metros cúbicos de lodo e rochas e 12 toneladas de lixo por dia, incluindo 120 mil pneus.
Com o alargamento da calha do Tietê, a imundície se dilui, mas a água, de tão densa, parece segurar o barco. “Adoro isto aqui”, diz o barqueiro Cezário, tirando da água uma bola de futebol – foram três até o fim do passeio. Na altura do Anhembi, na zona norte, um porco morto bóia ao lado do barco. Cezário afirma que já viu muito corpo de homem boiando também.
Marciliano Nogueira, de 61 anos, morador de rua há 3, vive num albergue na Casa Verde e lava roupa no Tietê, numa tubulação de drenagem, porque dali a água “sai mais limpa”. “É a que vem pelos bueiros, não tem esgoto.” Só lamenta que, com a limpeza das margens, feita por uma escavadeira, não consiga mais reunir as 65 latinhas de alumínio suficientes para vender 1 quilo, pelo qual receberia R$ 3,80. Já Cleverson de Souza, de 30, tenta reconstruir a vida perto da Ponte Aricanduva. Ele deixou mulher e dois filhos em Valparaíso (GO), para trabalhar numa obra em Pirituba, zona oeste. A obra foi embargada logo no primeiro mês, em janeiro. Cleverson arrumou bico de “chapa”, ajudando motoristas a descarregar caminhões. Assim conheceu os dois amigos com quem divide um cano de concreto escuro, úmido e forrado de lodo, coberto por um tapete e com um estrado sem colchão, achados na rua. Comida não tem, para não atrair ratos. “Quero juntar dinheiro para voltar para casa”, diz Cleverson. Enquanto isso, vive no rio.
Para chegar às margens do Pinheiros, o bote tem de vencer o lixo e a espuma do sabão e detergente das casas. José Raimundo, de 31, o segundo barqueiro da viagem, navega pelo rio há 8 anos. Conhece cada família de capivaras – cerca de 70 animais, habituados à poluição. No percurso, ilhas de entulho: latas de óleo, um pote de creme Nívea, uma lata de Nescau, uma garrafa de água Cristal, outra de Coca-Cola, um pé de chinelo Havaianas. “O Pinheiros não foi desassoreado. Está no limite da poluição.”
Nos 4 km finais do Pinheiros, antes da Billings, chegamos a duas estações de flotação, em teste. Lá, bolhas de oxigênio são injetadas na água, fazendo boiar parte da poluição, levada para uma estação de tratamento. Com isso, a Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae) quer retomar o bombeamento de água para a Billings, proibido em 1989, porque a poluição ameaçava o abastecimento na capital. Com o veto, a água poluída antes jogada na Billings voltou a correr para o interior. As cenas da espuma invadindo cidades como Bom Jesus de Pirapora provocaram uma inédita reação da sociedade em defesa dos rios e mananciais.
Os paulistanos sonham em ter rios limpos como o Tâmisa, de Londres, ou o Sena, de Paris. Mas perto deles Tietê e Pinheiros são fios d’água. O Tâmisa tem 23 metros de profundidade e o Sena, 29. Ambos deságuam diretamente no mar, o que dilui os dejetos ainda lançados nas águas. O Tietê tem 5 metros de profundidade. Sua vazão, na seca, é de 40 m³/s – e metade disso é esgoto. Ou seja, ele é muito mais prejudicado pela falta de tratamento. “E o povo tem de saber que a bituca de cigarro que joga na rua, a garrafa PET, o papel, tudo acaba neste rio”, diz Cezário.
02/08/ 2008
Consumo de água em SP no mês de julho é o maior em 20 anos
Houve calor atípico e umidade baixa; período também foi o mais poluído desde 2006
Lais Cattassini
O Estado de S. Paulo
Com temperaturas e irradiação solar dignas de verão, o consumo de água na Região Metropolitana de São Paulo no mês de julho foi o mais alto dos últimos 20 anos. Segundo a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), 67 mil litros de água por segundo, mais de 2 mil litros acima da média para a época, foram consumidos em julho deste ano.
No mesmo mês do ano passado, 65,67 mil litros por segundo foram produzidos diariamente. A média de temperatura máxima para o mês foi de 22,2°C, dois graus abaixo da média deste ano, de 24,3°C. “Por causa do calor, o consumo de água é maior. Como tivemos um julho atípico, o consumo aumentou”, explicou o superintendente de produção de água da Sabesp, Hélio Luiz Castro.
O período de estiagem afeta também a distribuição de energia na cidade de São Paulo. Segundo o coordenador de Uso Final e Aplicação de Energia da AES Eletropaulo, Fernando Bacellar, a produção pode ser comprometida no período de seca. “A matriz energética brasileira depende fortemente das chuvas (para a geração de energia)”, explica.
Os níveis dos reservatórios das hidrelétricas das regiões Sudeste e Centro-Oeste tiveram um decréscimo de 6,5%. A falta de chuvas em outros Estados, como Minas Gerais e Piauí, agravam a situação das principais bacias geradoras das duas regiões.
As represas que distribuem água para a Região Metropolitana de São Paulo não estão em níveis críticos. O período de chuvas do início do ano garantiu o abastecimento durante a estiagem, mas a Sabesp alerta para a importância da economia.
Baixa Umidade
Sob influência de uma massa de ar seco, São Paulo tem enfrentado altas temperaturas e baixa umidade. A chuva forte deverá vir na próxima semana. Segundo Marcelo Schneider, meteorologista do Inmet, uma frente fria chega à São Paulo hoje, provocando queda de temperaturas e chuvas fracas. Na terça-feira a massa ganha força, provocando pancadas de chuva mais intensas.
Em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, a umidade relativa do ar em torno dos 9% fez com que funcionários públicos encerrassem o expediente mais cedo. Também para garantir a saúde de alunos, as aulas de educação física em escolas serão mais leves e realizadas em ambientes cobertos.
Poluição
Julho deste ano foi o mais seco de todos os tempos e o mais poluído desde 2006, segundo a Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental (Cetesb). Culpa também da falta de chuvas, que deixa o ar seco. A Organização Mundial ad Saúde (OMS), considera aceitável níveis de umidade de 30%, depois disso, a situação passa a ser crítica. E alguns cuidados devem ser tomados para evitar doenças e desconfortos.
Em julho, as 23 estações da Cetesb na região metropolitana registraram a ocorrência de qualidade inadequada do ar em sete ocasiões em quatro dias. De todas as medições, 0,9% delas registrou qualidade inadequada; 49,7% estavam em estado regular e 49,8%, boa.
A poluição e tempo seco afetam mais duas partes do corpo: os olhos e o aparelho respiratório. A garganta, a traquéia e os brônquios ficam irritados. Os olhos ardem, a formação de lágrimas fica prejudicada e, com isso, facilita o contágio de doenças, como a conjuntivite.
A dica dos especialistas é manter uma boa hidratação, bebendo pequenas doses de água ao longo do dia. Os banhos devem ser curtos e a temperatura da água, morna. Ou corre-se o risco de ter a pele ressecada.
Colocar uma bacia de água perto da cama na hora de dormir e evitar a prática de exercícios físicos no período das 10 às 16 horas são outras dicas para manter o bem-estar.
Para quem é hipertenso ou diabético: mais um alerta: o tempo seco prejudica o sistema circulatório e aumenta o risco dessas doenças.
04/08/2008
Olimpíadas, sustentabilidade e educação
Artigo – Maria Tereza Leme Fleury
Gazeta Mercantil
O início das Olimpíadas na China, nesta semana, colocou o tema da sustentabilidade em pauta para a mídia e para a discussão da sociedade.
Há sete anos, aquele país se prepara para abrigar os Jogos Olímpicos, com a construção dos estádios, linhas de metrô, ampliação de aeroportos, construção de novas habitações, remoção de fábricas poluidoras da periferia de Pequim, num esforço de mostrar ao mundo a nova potência que é a China.
Por coincidência, eu estava, sete anos atrás, viajando pelo território chinês, com minha família, quando numa pequena cidade, no monte Emei, a população foi informada de que a China fora escolhida para sediar este evento de impacto mundial. Fomos testemunhas da alegria e vontade de todos de que o projeto fosse concretizado de acordo com as exigências do Comitê Olímpico Internacional (COI) e nos prazos previstos.
A par da euforia e ufanismo presentes, a questão dos riscos e sustentabilidade permeia hoje as notícias e avaliações sobre este megaevento, ora jogando luz sobre aspectos ambientais (o clima nas cidades, as condições do mar para velejar), ora sobre as questões sociais e políticas.
No Brasil este tema também é constante nas manchetes, inclusive nos debates das eleições municipais. Em um artigo recente, o professor José Goldenberg, lembrando Pequim, chamou a atenção para a nossa cidade, para a necessidade de medidas que a prefeitura de São Paulo está em condições de adotar para reduzir a poluição que aflige de modo mais direto os moradores da cidade, mas que tem conseqüências importantes para as mudanças climáticas do planeta.
O professor Goldenberg sugeriu medidas na área do transporte e logística, no setor de energia, de gerenciamento de resíduos, no próprio uso do solo, com a criação de novas áreas verdes e aumento dos parques existentes.
Sob um outro foco, o da educação, este tema também tem provocado reflexões importantes dos educadores – qual o legado para as próximas gerações de um planeta com escassez de recursos e degradação ambiental?
Se as ações apontadas na área governamental em consonância com as empresas são importantes, são fundamentais as mudanças também na formação dos jovens; sem isto não se conseguem mudanças culturais de longo alcance.
Em um workshop realizado na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, o tema foi discutido em suas várias dimensões, procurando-se redesenhar os programas de formação para engenheiros e administradores sob esta perspectiva.
As universidades brasileiras também têm-se debruçado sobre o tema. Em escolas de administração, como a Faculdade de Economia e Administração (FEA) da Universidade de São Paulo (USP) e Escola de Administração e Economia do Estado de São Paulo (Eaesp) da Fundação Getulio Vargas (FGV), centros de pesquisa contribuem com conhecimento, cursos, atividades envolvendo alunos de graduação e pós-graduação em temas como sustentabilidade social, financeira, ambiental, produção sustentável e empreendedorismo social.
Menciono esses centros e seus impactos positivos, pois são os que conheço mais de perto. Outras iniciativas de importância também ocorrem em diversos pontos do País.
Quais são os desafios para fazer avançar estes projetos? O primeiro diz respeito a transpor fronteiras de áreas do conhecimento, que se acham estruturadas em departamentos e escolas separadas.
A necessidade de serem adotadas abordagens interdisciplinares é essencial para se avançar nesta área para que realmente se gerem inovações.
Um segundo desafio é o respeito pela diversidade cultural, transpondo-se fronteiras não só em termos do conhecimento, mas também de países. Voltando ao seminário do qual participei em Cambridge, uma das riquezas foi a diversidade de experiências dos países mais desenvolvidos no tema como os países nórdicos, das economias emergentes como China, Índia, dos países africanos. Não existem soluções fáceis, nem de curto prazo.
Repensar a construção de um mundo, de forma a reduzir o uso de recursos, a mudar os modelos de produção e consumo requer inovações de toda ordem. E principalmente nos projetos de formação das próximas gerações.
kicker: A China é um exemplo do que se pode fazer para recuperar áreas urbanas
Maria Tereza Leme Fleury – professora da FEA/USP e FIA.
04/08/2008
Mais água para abastecer a Grande São Paulo
Artigo – Dilma Pena
Gazeta Mercantil
Começa uma nova era no abastecimento de água de São Paulo. A Sabesp assinou um contrato histórico: sua primeira Parceria Público-Privada e a maior do País no setor de saneamento, a PPP Alto do Tietê. Trata-se de um modelo novo que será imprescindível para financiar obras de água e esgotos. Em dois anos, o fornecimento de água tratada à Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) aumentará em 5 mil litros por segundo, garantindo a normalidade do abastecimento. Quando foi renovada a outorga do Sistema Cantareira, em 2004, ficou acordado que o Estado de São Paulo procuraria novas formas de aumentar a disponibilidade de água na bacia hidrográfica Alto Tietê.
A parceria beneficiará diretamente 3,1 milhões de pessoas da zona leste da capital e os municípios de Suzano, Itaquaquecetuba, Arujá, Ferraz de Vasconcelos e Poá. Com a expansão do Sistema Produtor Alto Tietê, as demais regiões atendidas, que somam quase 20 milhões de habitantes, também serão favorecidas, uma vez que o sistema de produção é integrado.
O contrato com o consórcio Águas de São Paulo, composto pela Companhia Águas do Brasil (CAB Ambiental) e pela Galvão Engenharia, envolve grandes somas, poupando a Sabesp de desembolso para essas obras. O reflexo foi imediato na Bolsa. No dia da assinatura do contrato, a ação ON da Sabesp, com alta de 1,69%, foi um dos destaques do Ibovespa.
A PPP mobiliza uma fonte não tradicional de financiamento para o saneamento: a iniciativa privada. O saneamento foi financiado no início pelo Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e depois pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e por recursos externos e das empresas do setor.
O contrato de R$ 310 milhões com o consórcio prevê o aumento de 10 mil para 15 mil litros do fornecimento de água do Alto Tietê, que abastece 16,5% dos quase 20 milhões de habitantes da RMSP, e inclui a ampliação da Estação de Tratamento de Água de Taiaçupeba, a construção de 17,7 quilômetros de adutoras de grande porte e de quatro reservatórios com capacidade para armazenar 70 milhões de litros. Entre outros serviços, o consórcio será responsável pela manutenção de barragens, túneis e canais, pelo tratamento e disposição final do lodo resultante da água tratada, além do aumento da eficiência energética e redução de custos. A Sabesp ainda não possui know-how de alguns desses serviços. O investimento total deve chegar a R$ 1 bilhão em 30 anos. O contrato prevê a cessão de créditos tarifários da Sabesp como forma a garantir a contraprestação mensal da companhia.
O Brasil possui água em abundância, mas está mal distribuída – a maior concentração fica na Amazônia e no Pantanal, regiões pouco povoadas. Na macrometrópole paulista, que inclui a capital, Campinas e a Baixada Santista e onde vivem 28 milhões de pessoas, há escassez de água, como em estados do Nordeste. A RMSP é abastecida por oito sistemas produtores. O primeiro é o da Cantareira, com 46,6%, o segundo, Guarapiranga (21%). O Alto Tietê é o terceiro.
Também no mês de junho, a Sabesp participou do consórcio vitorioso na licitação para o tratamento do esgoto de Mogi Mirim. O consórcio Site Saneamento – que tem 36% de participação da Sabesp – apresentou tarifas de tratamento de esgoto (investimento e operacional) 18% inferiores ao limite do edital da licitação, economia que refletirá na conta para a população. O contrato com o consórcio formado por duas empresas do grupo espanhol OHL, Inima e TGM, e duas brasileiras, Sabesp e Estudos Técnicos e Projetos Ltda. ( ETEP) é de 30 anos. Ele investirá em Mogi Mirim R$ 53,3 milhões (o edital previa até R$ 57,2 milhões), proporcionando os mesmos benefícios previstos no edital.
O governo Serra está aberto a formas inovadoras de serviços de saneamento, de sorte que possamos disponibilizar todos os agentes para resolver esse problema de tratamento de água e de recuperação das bacias hidrográficas, sobretudo, num ambiente de escassez hídrica. Para aumentar a disponibilidade de água, o Estado de São Paulo investe na redução da poluição de rios e córregos, na economia de água, com rigoroso controle de perdas pela Sabesp, e no combate ao desperdício, com a ajuda da população.
kicker: A iniciativa privada é mobilizada para financiar o saneamento
Dilma Pena – Secretária de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo e presidente do Fórum Nacional dos Secretários Estaduais de Saneamento
04/08/2008
China será líder em renováveis
Gazeta Mercantil
A China, país que é o maior emissor de gases geradores do efeito estufa, está prestes a liderar a produção mundial de células de energia solar, turbinas de geração de energia eólica e tecnologias energéticas geradoras de baixos níveis de gás carbônico. O país asiático já é o maior produtor de fontes de energia renováveis, de acordo com medições de sua capacidade instalada de geração, segundo relatório divulgado sexta-feira pelo Climate Group, coalizão de empresas e governos que apóiam soluções para o aquecimento global.
A China é o principal fabricante de células de produção de energia solar e será o principal exportador de turbinas de geração de energia eólica até 2009. A posição do país como consumidor e produtor de energia renovável vai contra sua posição de destaque no ranking dos maiores poluidores do mundo e contra sua rápida expansão na área de geração de energia a partir da combustão de carvão.
Cerca de 75% da energia elétrica da China é gerada pela queima de carvão, disse Wu Changhua, diretora para a China do Climate Group, que está sediado em Pequim. “Eles têm de produzir energia limpa, pois simplesmente não podem produzir cada vez mais energia suja”, disse Michael Liebreich, principal executivo da New Energy Finance, de Londres, que fornece pesquisas para investidores em fontes de energia limpa. “Nós consideramos a China como a 1ª, 2ª ou 3ª colocada em vários segmentos diferentes desse setor”, completou.
A China está fechando centrais movidas a carvão e as substituindo por geradores a carvão mais eficientes, disse a diretora para a China do Climate Group em entrevista concedida em 25 de julho. Embora o país continue dependendo do carvão para alimentar seu rápido crescimento econômico, autoridades federais endentem a necessidade de realizar a transição para fontes de energia limpa, afirmou.
07/08/2008
Setor começa a certificar toda a cadeia de fornecedores
Amarilis Bertachini
Gazeta Mercantil
Quando o primeiro empreendimento brasileiro certificado como sustentável começou ser construído, há cerca de dois anos, os incorporadores não imaginavam as dificuldades que teriam para conseguir fornecedores capacitados a atender às exigências dos edifícios verdes. “As tintas descascaram e alguns painéis racharam”, conta Nilton Figueiredo, presidente da SustentaX Engenharia de Sustentabilidade, empresa de consultoria que desenvolveu o projeto de sustentabilidade da agência do Banco Real em Cotia, região metropolitana de São Paulo, o primeiro projeto no Brasil a receber o certificado de sustentabilidade LEED (Leadership in Energy & Environmental Design). Aos poucos, os materiais que apresentaram problemas foram substituídos até se encaixarem nas exigências do US Green Building Council, com sede nos Estados Unidos, que concede o selo LEED.
Foram essas dificuldades que levaram a empresa a criar um sistema de certificação para a cadeia de fornecedores: o Selo SustentaX. De acordo com Figueiredo, o selo servirá como uma referência para os construtores de que o produto atende ao requisito de sustentabilidade ambiental internacional e de que foi produzido com responsabilidade socioambiental (sem trabalho infantil, com controle de dejetos, carteira assinada etc.). A SustentaX começou a desenvolver o conceito dos selos em 2006. A empresa tem três funcionários acreditados junto ao Green Building Council.
Para receber o selo, os produtos foram submetidos a testes que comprovam sua qualidade e durabilidade e atestam que o fabricante tem intenções claras para redução de desperdícios e reutilização e reciclagem das sobras de materiais.
Os primeiros selos SustentaX serão entregues na próxima semana a cerca de 30 produtos durante o evento II Mostra Sistema FIESP de Responsabilidade Socioambiental, que acontecerá no auditório do Parque do Ibirapuera. Entre as empresas que receberão o certificado de produtos socioambientais responsáveis estão a Duratex, Deca, Nova Hydra, Suvinil, Fademac, Werden e JRJ Tecidos.
“Sofremos no passado com fornecedores”, declara Renato Auriemo, sócio da RMA Engenharia, empresa responsável pela obra do laboratório Delboni que foi o segundo empreendimento a receber o LEED no Brasil. Segundo Auriemo, essa situação hoje está bem melhor mas ainda há dificuldades porque como são poucos as empresas capacitadas nessa área a procura é muito grande e elas estão “super demandadas”.
