EMISSÕES

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Inspeção vai exigir reciclagem de veículos no Brasil

Guilherme Manechini e Murillo Camarotto*
03/09/2008

Ana Paula Paiva/Valor

José Edison Parro, da AEA, trabalha na elaboração de um plano de reciclagem para ser apresentado ao governo

José Edison Parro, da AEA, trabalha na elaboração de um plano de reciclagem para ser apresentado ao governo


A aprovação pela Câmara dos Deputados do Projeto de Lei 5.979/2001, que trata da Inspeção Técnica Veicular (ITV), além do impacto político que poderá causar, vai ressuscitar um debate adormecido há quase dez anos: a destinação adequada dos automóveis sem condições de circular no país. Antevendo a discussão, o Ministério das Cidades, por meio do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), solicitou à Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA) um estudo sobre a possibilidade de ser criado um programa nacional de reciclagem de veículos, envolvendo desde a indústria automobilística até as siderúrgicas.

O Denatran não confirma sua atuação direta no projeto, mas admite a relevância do tema. Em nota, ressaltou considerar “que a previsão dos procedimentos de destinação dos veículos reprovados na ITV é necessária na regulamentação da matéria”. Executivos ligados à indústria automotiva também concordam com o fato de que a inspeção vai retirar das ruas um grande contingente de veículos, e que os pátios existentes não suportariam o volume adicional.

O tamanho da frota suscetível ao programa de reciclagem é desconhecido, assim como o número de veículos que realmente rodam no país. Mas é possível ter uma idéia do que o plano pode representar se consideradas as estimativas do Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças). Conforme os dados da entidade, a frota brasileira atual é de 33 milhões de unidades, considerando automóveis (73,3%), motos (22,1%), caminhões (3,7%) e ônibus (0,9%). A idade média da frota é de 9,1 anos, sendo que quase 12% compõe o grupo chamado “frota marginal”, onde estão os veículos com pendências de documentação, multas e falta de condições de segurança. Na teoria, seriam esses os primeiros a caírem na malha fina da inspeção e, por conseqüência, os primeiros a serem retirados de circulação com chances de irem para as prensas de reciclagem.

Para José Edison Parro, presidente da AEA, o processo completo de reciclagem deve envolver não só as montadoras e fabricantes de autopeças, mas também as siderúrgicas, os produtores dos chamados “componentes poluídos” e o poder público. “Tecnicamente, (o processo) será tão complexo quanto forem os modelos de veículos a serem reciclados”, declarou o engenheiro.

Dentro da AEA, foi criada uma comissão responsável pela elaboração do plano de reciclagem. Segundo Parro, além da questão do espaço físico para abrigar os automóveis barrados na inspeção, existe no governo federal a preocupação com os danos ao meio ambiente que esses carros causam quando expostos ao ar livre. Por este motivo, está prevista a despoluição dos veículos no âmbito do processo de desmanche. Essa etapa consiste na retirada de resíduos líquidos, como o combustível, óleo lubrificante, fluidos de freio e embreagem, baterias e gás CFC do ar condicionado. No entanto, ainda não há definição sobre quem seriam os responsáveis por cada etapa do processo de desmanche.

Para algumas pessoas a par do projeto, as siderúrgicas poderiam atuar nessa etapa, porém as empresas do setor mostram maior interesse em consumir o aço resultante da desmontagem. Grande compradora de sucata, a indústria siderúrgica nacional tem forte interesse em utilizar os veículos velhos como matéria-prima para a produção de aço.

O vice-presidente do Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS), Marco Polo de Mello Lopes, afirmou que o setor apóia a iniciativa da reciclagem de veículos e garante que as siderúrgicas nacionais estão totalmente preparadas para receber a sucata em todo o volume que estiver disponível. “Sucata é sempre bem-vinda e necessária. O aço é o produto mais reciclável que existe”, reforçou o vice-presidente do IBS.

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No fim dos anos 90, foi sugerido valor de R$ 1,8 mil como incentivo ao proprietário que trocasse de carro

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O debate sobre a reciclagem não é novo e já teve defensores bem organizados e dispostos a investir. No fim da década de 90, as montadoras foram as maiores defensoras da adoção da inspeção e reciclagem. Naquela época, ao lado dos sindicatos de metalúrgicos, as montadoras articularam o chamado Plano de Renovação da Frota. O objetivo era impulsionar as vendas de veículos, em queda acentuada desde 98. De acordo com os dados da Anfavea, a produção total de automóveis no país em 1997 foi de 2,07 milhões de unidades. No ano seguinte, o setor registrou uma queda de 30%, totalizando 1,59 milhão de unidades. Em 99, mais um tombo, desta vez de 17% em relação ao ano anterior, o que resultou em uma produção de aproximadamente 1,36 milhão de veículos.

Na ocasião, o plano preparado pelos fabricantes de veículos incluía o pagamento de R$ 1,8 mil por automóvel velho que fosse entregue para reciclagem. Atualizado pelo IPCA, índice de inflação oficial, o valor seria hoje em torno de R$ 3,5 mil, praticamente o dobro do que foi estimado pela indústria em 98.

Mas a disposição das montadoras mudou tão radicalmente quanto o cenário de vendas. Agora que o mercado caminha para atingir o recorde de, aproximadamente, 3,5 milhões de veículos produzidos, as montadoras estão à margem da discussão. Por meio de porta-voz, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) nega a existência de qualquer iniciativa dentro da entidade sobre um programa de reciclagem de automóveis.

Luiz Antonio Pirola, vice-presidente do Instituto Brasileiro Veicular (IBV), ressalta o fato de a capacidade de produção das montadoras estar apertada como um limitador à sua participação no plano de reciclagem. “Há dez anos, a vontade dos fabricantes estava atrelada ao desejo de melhorar o desempenho das vendas”, afirmou o executivo.

Mesmo que as montadoras estivessem hoje tão interessadas como há dez anos, os entraves a criação de um programa de reciclagem seriam, basicamente, os mesmos: legislação adequada para determinar quais veículos serão encaminhados à reciclagem; incentivo financeiro para que o proprietário de um carro antigo participe do programa; e principalmente a aprovação da ITV pela Câmara dos Deputados e Congresso Nacional.

Antonio Carlos Bento, conselheiro do Sindipeças e coordenador do Grupo de Manutenção Automotiva (GMA), alerta para a necessidade de uma estrutura jurídica adequada para que o desmanche dos automóveis seja viabilizado. “Não pode haver brechas para que um carro roubado desapareça”, disse. Segundo ele, do ponto de vista tecnológico, o país está preparado.

Na seara política, pesa contra a ITV a impopularidade atrelada à cobrança da inspeção, que deve ficar em torno de R$ 100 no caso dos veículos de passeio e comerciais leves. Para muitos em Brasília, a aprovação da inspeção poderá soar como “um novo imposto disfarçado”, tese rechaçada por Anfavea e Sindipeças. O projeto de lei está na fila para ser votado na Câmara. (*Valor Online)


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Redução de emissões precisa de incentivo fiscal

Daniela Chiaretti
02/09/2008

Economias de baixo carbono, adaptadas ao futuro mais aquecido do planeta, dependerão de engenharia tributária para decolar. Produtos ambientalmente mais eficientes, que gastem menos energia ou usem menos recursos naturais, custarão inevitavelmente mais. Para tornar a conta mais atraente ao consumidor, o poder público terá que flexibilizar a arrecadação e oferecer algum tipo de incentivo fiscal. As sugestões partem da outra ponta do tripé – dos empresários.

Neste caso específico são britânicos. Estão num meticuloso estudo da Confederação das Indústrias Britânicas, a CBI, sobre o aquecimento global e seus desafios para o mercado. “Mudanças climáticas: um assunto do interesse de todos”, será lançado hoje em São Paulo. Nele se lê que os consumidores, através de suas decisões pessoais, controlam diretamente ou influenciam 60% das emissões no Reino Unido – desde a escolha do meio de transporte ao aparelho elétrico que preferem usar ou à forma de esquentar e iluminar a própria casa. “Mas, claro, a consciência do consumidor não será suficiente para enfrentar o problema”, diz Martin Broughton, presidente da CBI, ao Valor, em entrevista por e-mail. “É por isso que estamos pedindo para que se pense numa reforma tributária no Reino Unido”, continua.

“O sistema que existe hoje é antigo e não reflete o rumo de uma economia de baixo carbono”, justifica. O estudo sugere que se dê algum tipo de incentivo fiscal para as pessoas que investirem em sistemas mais eficientes de isolamento térmico em casa, por exemplo. O período de amortização de uma escolha mais ecológica deste tipo pode chegar a cinco anos, muito longo para a maioria. Com algum mecanismo fiscal, a decisão se torna mais sedutora. Já funciona assim na Espanha e na Itália, com alguns eletrodomésticos.

“Achamos que este sistema também poderia ser adotado no Reino Unido.” No mercado britânico já existem rótulos que indicam a eficiência energética das geladeiras, num ranking que vai de A (a mais eficiente) a G (a lanterninha). Com o tempo, diz ele, a preferência dos consumidores fez com que a maioria das geladeiras do mercado fosse do tipo A. “O interessante é que, com a economia desacelerando, os consumidores estão buscando aparelhos elétricos mais eficientes e analisando quanto dinheiro vão poupar na conta de luz.”

A aviação é outro setor que persegue cortes maiores nas emissões de gases do efeito-estufa – reduzir pela metade as emissões por passageiro/por km entre 2000 e 2020. Broughton fala do assunto de carteirinha, é o chairman da British Airways. Ele diz que a meta vem sendo alcançada através de mudanças no design e na produção de aviões ambientalmente mais “limpos”. O mega Airbus A380 e o Boeing 787 Dreamliner, diz ele, emitem entre 20% e 50% menos que os aviões mais velhos, que terão desaparecido em 2020.

Empresas como a BA, continua, têm feito lobby junto aos governos para conseguirem rotas mais eficientes – uma revisão no espaço aéreo da União Européia poderia significar um corte nas emissões de CO2 de 12%. A British Airways, diz Broughton, deixou de emitir 60 milhões de toneladas de CO2 desde 1990, com um combustível menos poluente. Para emitir menos, os aviões da empresa seguem técnicas como taxiar com apenas uma das turbinas.


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Setor privado britânico calcula custos dos cortes das emissões

01/09/2008
Gazeta Mercantil (Brasil)

São Paulo, 1 de Setembro de 2008 – A comunidade científica está cada vez mais convencida de que o aquecimento da Terra se deve ao aumento das emissões de gases de efeito estufa produzidas pelo homem como decorrência da industrialização. Com relação ao Reino Unido, a maior parte dessas emissões resulta da queima de combustíveis fósseis com o propósito de atender necessidades de energia em casa, no trabalho e no transporte.

Uma das principais economias desenvolvidas – e responsável por cerca de 2% das emissões globais de gases de efeito estufa -, ao Reino Unido cabe um papel significativo nesse desafio mundial, conforme o estudo “Mudanças Climáticas: Um Assunto do Interesse de Todos”, divulgado pelo grupo de trabalho de mudanças climáticas da Confederação Britânica da Indústria (CBI).

O peso do Reino Unido nas emissões mundiais sobe para 10% do total se contabilizado o carbono oriundo da produção de artigos importados e o dos bens e serviços exportados. Estima-se que as emissões globais diretas das 100 maiores empresas britânicas representem, sozinhas, cerca de 1,5% do total mundial.

“Se nos perguntarem se temos certeza de que o clima está mudando, teremos que pedir desculpa, pois não cabe a nós da comunidade empresarial dar esta resposta.. Se a questão for se temos certeza de que as mudanças climáticas de fato representam um risco capaz de afetar profundamente a sociedade e a economia em que vivemos, a resposta mais apropriada é, sem dúvida, sim”, afirma o presidente da CBI, Martin Broughton.

Segundo ele, os próximos dois ou três anos serão decisivos e é preciso reconhecer a urgência da situação se o Reino Unido quiser ocupar um papel de liderança internacional na futura economia de baixa emissão de carbono. Somente com esforço adicional atingirá a meta fixada pelo governo, de cortar em mais da metade, até 2030, as emissões previstas. Os benefícios econômicos e os custos de diferentes opções para reduzir as emissões de gases de efeito estufa foram levantadas pela pesquisa.

O estudo – o primeiro com esse nível de aprofundamento realizado naquele país com participação de algumas das principais empresas lá sediadas e baseado em pesquisa encomendada à McKinsey – estima que colocar em prática todas as iniciativas necessárias ao cumprimento dessa meta implica um preço máximo de ? 40 por tonelada, em 2030.

Isso se traduz em investimentos de pouco mais de ? 100 ao ano por domicílio – menos de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) – até 2030. Ainda de acordo com o documento da CBI, esses investimentos vão contribuir para um mundo de vida mais sustentável e para redirecionar recursos aos setores da economia que forneçam produtos e serviços com baixa emissão de carbono.

A pesquisa deu ênfase à busca por maior eficiência energética, com a substituição das atuais fontes por outras de baixa emissão de carbono, além da busca de acordos internacionais de mitigação dessas emissões. Ainda de acordo com o documento, até 2030 o uso eficiente de energia em casa, nas empresas e no transporte tem que representar cerca de 60% das reduções necessárias. No setor de transportes, a previsão é de que boa parte das reduções virá dos veículos de transporte e de passeio, com a incorporação de avanços de eficiência nos motores. Já no setor industrial, a esperança recai sobre a melhoria nos processos de produção, com a substituição dos combustíveis fósseis pela biomassa.

Sem mudanças substanciais no funcionamento da economia não haverá transformação, afirma o documento. Embora muitas tecnologias e soluções estejam disponíveis, ainda não são viáveis do ponto de vista comercial. Segundo o relatório, embora em 2030 a migração para fontes de energia de baixa emissão de carbono e a racionalização do uso de energia elétrica em edifícios possam representar, cada uma, 30% a mais nas reduções necessárias, e os setores industrial e de transportes possam contribuir juntos com os 40% restantes, os entraves são muitos.

(Gazeta Mercantil/Caderno A – Pág. 5)(Liliana Lavoratti)

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Empresários lançam plano para corte de emissões

Daniela Chiaretti, de São Paulo
01/09/2008

Os empresários britânicos têm enfrentado as mudanças climáticas com senso de urgência e como uma oportunidade para remodelar a economia. Dezoito executivos do alto escalão das maiores empresas do Reino Unido se debruçaram sobre o tema durante 10 meses, produzindo um relatório que detalha com profundidade como o governo, as corporações e os consumidores devem agir para tentar reduzir o aquecimento global no futuro e se adequar a ele no presente. A estratégia rumo a uma economia de baixa emissão de carbono prevê desde investimentos de 100 libras ao ano em cada casa, até 2030, ao surgimento de 12 novas usinas nucleares nas ilhas.

“Este relatório não foi escrito por ativistas”, avisa a primeira linha do prefácio de “Mudanças climáticas: um assunto do interesse de todos”, o estudo do grupo de trabalho sobre o assunto da CBI, a Confederação das Indústrias Britânicas. “Foi escrito pela comunidade empresarial.” Isto significou reunir os planos de diretores-executivos e presidentes de empresas de diversos setores sediadas no Reino Unido, que empregam quase dois milhões de pessoas no mundo e têm uma receita anual que bate em um trilhão de libras esterlinas – o que é bem mais que o PIB brasileiro. Ali se lê, por exemplo, que em 2030, se os britânicos quiserem atingir as metas de cortes de emissão propostas pelo governo, 15 milhões de casas deverão ser reformadas para ter isolamento térmico mais eficiente e os produtos elétricos terão que consumir 30% menos energia que os de hoje. Com isso, deixarão de lançar à atmosfera 68 milhões de toneladas de CO2 equivalente – medida que expressa a quantidade de aquecimento global produzida pelos gases-estufa tomando o CO2 como base. Em 22 anos, o Reino Unido terá que ter três mil usinas de geração de energia eólica e 10% de automóveis híbridos, além de aposentar os combustíveis fósseis tradicionais, se quiser realmente dar uma guinada na economia e cortar a emissão de gases-estufa.

O desafio das mudanças climáticas

O desafio das mudanças climáticas

Hoje o Reino Unido responde por cerca de 2% das emissões globais. O estudo mostra que se for considerada a “pegada de carbono”, a responsabilidade britânica é ainda maior. “Pegada de carbono” é a quantidade de emissões de gases-estufa que está ligada a uma atividade. No caso, significa o carbono emitido na produção de artigos importados que os britânicos consomem, assim como o relativo ao que exportam. A estimativa é que as emissões globais diretas das 100 maiores empresas do Reino Unido representem, sozinhas, cerca de 1,5 % do total mundial.

Os planos das empresas

Os planos das empresas

“Os próximos dois ou três anos serão decisivos”, diz o estudo. Lá se propõe que, no próximo triênio, sejam tomadas decisões que alterem a tributação de empresas premiando as que tiverem atitudes realmente ecológicas, que se estudem taxações sobre automóveis e que exista um novo acordo sobre as emissões de CO2 dos carros e até que as compras governamentais sejam feitas pensando em adquirir bens que emitam menos. As compras do setor público batem em 150 bilhões de libras esterlinas ao ano, ou 12% do PIB. O estudo dos empresários calcula que o governo seja responsável por cerca de 7% das emissões do Reino Unido. “É preciso reconhecer a urgência da situação se quisermos atingir as metas de redução das emissões de gases de efeito estufa a um custo razoável e ocupar um papel de liderança internacional na futura economia de baixa emissão de carbono”, diz o relatório, feito a partir de uma análise encomendada à McKinsey. A conclusão da empresa de consultoria é que o governo dificilmente conseguirá atingir as metas de redução de gases-estufa que propôs para 2020. Tem alguma chance com as outras, definidas para 2050, se poder público, empresas e consumidores começarem a se mexer agora.

Para trabalhar com horizonte mais curto e palpável, o estudo da McKinsey projetou um roteiro de ações para 2030. A economia britânica terá que funcionar de outro jeito. A migração para fontes de energia de baixa emissão de carbono e a racionalização do uso de energia elétrica em edifícios poderão representar, cada uma, 30% a mais nas reduções necessárias. A aposta é numa geração de eletricidade mais limpa à medida que as usinas antigas forem substituídas por termoelétricas a gás mais modernas e as energias renováveis ficarem mais baratas.

Trata-se de um esforço gigantesco pela frente. O setor industrial, por exemplo, terá que substituir os combustíveis fósseis convencionais por fontes de energia como biomassa ou lixo. A dependência de geração elétrica aos fósseis, que hoje representa 70% do consumo no Reino Unido, terá que ser reduzida à metade e o restante compensado com investimentos na geração da energia dos ventos, das marés e nucleares. “É preciso começar já a planejar a substituição e expansão da atual frota de usinas nucleares para que as obras tenham início nos próximos cinco anos”, recomendam. Tudo isso sem que a economia perca vigor e estimando um crescimento anual do PIB de 2% a 3%.

Em paralelo a esta busca por novas fontes de energia, o trabalho aposta no desenvolvimento de tecnologias que capturem e armazenem o carbono emitido pelas termoelétricas, as chamadas CAC. A idéia é que todas as novas termoelétricas a carvão tenham CAC em 2025. Os cortes nas emissões também podem ser obtidos com melhor gerenciamento. Um exemplo é a aviação. As viagens aéreas internacionais e domésticas significam 6% das emissões do Reino Unido. Pelo menos 73 milhões de toneladas de CO2 são jogadas por ano na atmosfera devido ao congestionamento de aviões no céu ao redor do aeroporto de Heathrow. “A modernização dos sistemas de controle de tráfego aéreo na Europa poderia cortar o consumo de combustível em 12%”, estima.

Para chegar ao que se pretende em 2050, os níveis de eficiência energética terão que ser muito superiores aos atuais. E os impostos e a legislação que foram feitos para a “antiga economia” devem ser ajustados para um mundo “onde o carbono seja uma nova moeda e os consumidores e as empresas sejam recompensados por tomar as decisões certas.” Esta nova moeda deverá ter um valor máximo para que as coisas funcionem. Segundo a análise da McKinsey, a tonelada de CO2 equivalente terá que custar, no máximo, 40 euros em 2030. Este valor será mais alto em 2020 (60 euros a 90 euros) É o tempo para que o custo inicial das novas tecnologias caia.

Os britânicos já vêm sentindo os efeitos das mudanças climáticas. A barreira contra enchentes do Tâmisa, inaugurada em 1983 para proteger Londres das inundações, foi acionada 55 vezes até 2005 – 28 delas nos últimos cinco anos. A ameaça é real, mas as oportunidades também, reforça o estudo. “As mudanças climáticas abrirão excelentes oportunidades para desenvolver, no Reino Unido, novas áreas de geração de riqueza”, diz. O mercado mundial voltado para as soluções a este megaproblema pode atingir US$ 1 trilhão nos primeiros cinco anos. Haverá oportunidades para empresas inglesas de tecnologia da informação, finanças, aeroespaciais, automotivas, de arquitetura e de varejo. A intenção, também, é se transformar num líder mundial na adaptação ao inevitável – os segmentos de negócios, no caso, seriam os de previsão climática, engenharia civil, tratamento de água e artigos farmacêuticos. O relatório coordenado pelo grupo de trabalho dos empresários britânicos será divulgado amanhã, em São Paulo, por Martin Broughton, presidente da CBI.


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Folha de São Paulo
Data: 30/08/2008

Polônia verá rascunho do pós-Kyoto

Renate Krieger

A terceira de oito reuniões rumo a um novo acordo global de combate às mudanças climáticas acabou nesta semana em Acra, Gana, com sinais de que as negociações para o substituto do protocolo de Kyoto, a partir de 2013, estão acelerando. “Acabou a fase de brainstorming [proposição de idéias]“, disse à Folha o diplomata brasileiro Luiz Alberto Figueiredo Machado, que preside o grupo que negocia o acordo pós-Kyoto.

Em dezembro, Figueiredo quer que os países fiquem prontos para começar a negociar o novo acordo. A rodada oficial de negociações terá início em Poznan, na Polônia.
“Teremos algo muito próximo da primeira versão do texto para as negociações”, disse Yvo de Boer, secretário-executivo da Convenção do Clima das Nações Unidas. O novo acordo deve ficar pronto no fim de 2009, em Copenhague (Dinamarca).

De Boer disse à Folha que está “mais otimista” com o caminho das negociações. “Tivemos propostas muito específicas sobre financiamento, tecnologia e adaptação, especialmente vindas de países em desenvolvimento”, explicou o holandês, citando dois mecanismos propostos pelos países em desenvolvimento para facilitar o financiamento e a transferência de tecnologias energéticas. Após a segunda etapa de reuniões, na Alemanha, De Boer havia criticado as nações, exortando-as a acelerar o entendimento e fazer propostas menos “vagas”.

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