Grandes oportunidades
Análise Fator
Por Frederico Nadal Draetta, gerente da Fator Ambiental
Nesta semana grandes oportunidades de negócios foram selecionadas para vossa leitura. Temos na área da energia os biocombustíveis e a energia nuclear em destaque, além da expectativa do aumento da produção de ouro em nosso país.
A cada vez maior abertura do mercado europeu aos produtos frutos de processos sustentáveis, além de outras matérias importantes, também fazem parte dessa edição do FATOR NEWS.
E sempre é válido lembrar: os grandes obstáculos são, na verdade, grandes oportunidades, mas é preciso fé, conhecimento e muito trabalho para aproveitá-las!
Boa leitura a todos.
Sexta-Feira, 19 de Setembro de 2008
UE terá cláusula ambiental em seus acordos de comércio
Europeus também confirmam exigência de madeira importada certificada
A Europa anunciou que vai exigir compromissos ambientais em todos os seus acordos comerciais a partir de agora e que já está redigindo uma lei que condicionará toda a importação de madeira de países tropicais, entre eles o Brasil, à apresentação de certificados ambientais.
Todos os acordos comerciais a partir de agora terão, ainda, de incluir metas relacionadas a mudanças climáticas.
A inclusão de cláusulas ambientais nos contratos de comércio sempre preocupou países emergentes, para os quais o assunto é manipulado pelos ricos para criar mais dificuldades às suas exportações.
Ontem, o comissário de Comércio da União Européia, Peter Mandelson, ressaltou que a vigência de critérios ambientais no comércio é irreversível para os europeus. “O mundo de um comércio desregulado pode ter conseqüências negativas para o meio ambiente. Mas esse não é o mundo que queremos”, declarou Mandelson. “O mercado não é moldado apenas por interesses comerciais brutos. Os Estados podem regular o uso de recursos naturais e os cortes de emissões de CO2.”
Os assessores do comissário, porém, ressalvaram que, no caso das negociações em curso para um acordo com o Mercosul, iniciadas sob um mandato sem condicionantes ambientais, seria politicamente complicado zerar o jogo agora e reiniciá-lo com toda uma série de novas e delicadas exigências.
Mas em áreas específicas, o Brasil pode sofrer impactos imediatos. “Na área de madeiras, estamos já trabalhando em uma legislação que vai criar obrigações para exportadores a fim de monitorar de onde veio a madeira. Isso visa a garantir que ela venha de fontes certificadas e legais e que as áreas são gerenciadas de forma responsável ambientalmente”, afirmou Mandelson.
No início do ano, o Estado já havia divulgado o plano da UE de adotar cláusulas ambientais. Agora, Bruxelas confirma que o objetivo é concluir o pacote até o final do ano. Os europeus avaliam, ainda, a criação de selos ambientais para o etanol.
MUDANÇA CLIMÁTICA
Mandelson informou também que a UE vai usar as negociações comerciais para “incentivar a adoção de metas na área de mudanças climáticas”.
As metas vinculantes de corte de emissões de dióxido de carbono (CO2), um dos principais gases do efeito estufa, é outro capítulo controverso na diplomacia internacional. Brasil, Índia e China alegam que não podem assumir compromissos porque isso poderia ser um freio à expansão econômica. Para os europeus, se os emergentes continuarem com o atual ritmo de emissões, os esforços de Bruxelas, Tóquio e Washington de corte de emissões não darão resultado.
Sexta-feira, 19 de setembro de 2008
AIE: América do Sul vive ‘desintegração energética’
AE - Agencia Estado
GENEBRA - A América do Sul está vivendo uma fase de distanciamento entre os governos e desintegração energética diante das políticas desencontradas de vários países e do fracasso da nacionalização na Bolívia. O alerta é a da Agência Internacional de Energia (AIE), que publicou ontem relatório sobre o tema, em Paris. Segundo o documento, os paradoxos são tantos na região que projetos de gasodutos estão sendo abandonados, apesar dos recursos abundantes.
Para a agência, a falta de gás na América do Sul transformou-se em problema “endêmico”, e a demanda no Brasil mais que dobrará até 2012. O País, porém, poderá transformar-se em exportador de gás, dependendo do resultado da exploração das novas reservas de Tupi e Júpiter. A AIE, entidade controlada pelos países ricos, aponta que a Bolívia está dependente hoje do Brasil e, por isso, tentando acertar um pacto com Brasília. Com a promessa de que a Petrobras invista no País, daria preferência ao mercado brasileiro sobre o argentino no fornecimento de gás.
De acordo com o relatório, o crescimento da produção de gás na Bolívia está estagnado e dificilmente o país conseguirá atrair os investimentos necessários para cumprir os contratos assinados nos últimos anos com Argentina e Brasil. A agência estima que o país terá de investir US$ 3,5 bilhões até 2012 para entregar o gás prometido. Isso equivale aos investimento dos últimos 12 anos. Diante da confiança baixa dos investidores no país neste momento, a meta seria difícil de ser atingida.
O problema, para a AIE, é que a demanda de gás no Brasil cresce mais rápido que a produção nacional e deve dobrar até 2012, em comparação a 2006. Por isso, a estratégia é diversificar as fontes e incrementar a produção nacional. “Em 2007, 40% do fornecimento de gás vinha da Bolívia. Mas com a instabilidade política no país e o processo de nacionalização, o Brasil freou seus esforços para incrementar a capacidade de importação do gasoduto.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
A dimensão estratégica da responsabilidade socioambiental
Artigo - Ricardo Abramovay
Valor Econômico
19/9/2008
A responsabilidade socioambiental do setor privado envolve um paradoxo básico, em torno de cuja explicação a literatura científica se polariza e os atores sociais se dividem. Para uns trata-se de contradição nos termos, ilusão que ignora a essência mesmo do que é o sistema capitalista. A expressão emblemática deste ponto de vista está na célebre afirmação do prêmio Nobel de Economia, Milton Friedman, segundo o qual qualquer companhia voltada a controlar a poluição além do exigido por lei, para contribuir com a melhoria do meio ambiente, estaria praticando socialismo puro e simples (”pure and unadulterated socialism”). Mais recentemente (e a partir de argumentos diferentes dos de Friedman), Robert Reich, ex-ministro do Trabalho de Bill Clinton, em Supercapitalism, denuncia a noção de responsabilidade social corporativa como uma espécie de cortina de fumaça que obscurece o papel imprescindível do Estado na organização social.
Nefasto desvio das finalidades para as quais a empresa existe ou ilusão perniciosa de que o setor privado pode conduzir transformações sociais significativas, em ambos os casos a conclusão é a mesma: a busca do lucro (no respeito à lei, é claro) resume a essência do que fazem os componentes de uma economia descentralizada. As unidades individuais operam a partir dos sinais que recebem do mercado e cabe ao Estado corrigir e impor às firmas o ônus das externalidades, isto é, dos efeitos socialmente indesejados de seus atos.
Este ponto de vista padece de dois problemas básicos. Por um lado, ele ignora que o setor privado e as associações empresariais vão muito além do cumprimento da legislação no que se refere aos impactos socioambientais de suas ações. Não havia qualquer exigência legal para a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais e a Associação Nacional de Exportadores de Cereais decidissem, em junho de 2006, não mais comprar soja vinda de áreas recentemente desmatadas do bioma amazônico. Da mesma forma, não foi para obedecer à lei que a indústria farmacêutica criou um “índice de acesso aos medicamentos” (www.atmindex.org), de cuja elaboração participaram universidades, movimentos sociais, governos e organizações não-governamentais, e cujo ponto de partida está na constatação de que as chamadas doenças negligenciadas não têm recebido nem de longe atenção suficiente do setor privado.
Ora, dirá o leitor, nos dois casos, as empresas só tomam estas iniciativas por interesse, para ganhar mais, por razões, na verdade, egoístas, e não por uma preocupação socioambiental legítima. Aqui reside o segundo problema ligado ao ponto de vista que julga ilusória ou nefasta a própria idéia de responsabilidade socioambiental do setor privado. É claro que o setor privado age por interesse. A questão consiste em saber de que maneira se formam e se exprimem estes interesses.
A principal crítica que se pode fazer aos que rejeitam, em princípio, o conceito de responsabilidade socioambiental do setor privado é que tratam os interesses empresariais como se fossem imunes à pressão social. Tudo se passa como se os mercados, de fato, fossem mecanismos de equilíbrio, neutros, impessoais e situados, por assim dizer, acima da vida social.
Não são apenas as empresas que estão no meio ambiente, sob a forma de emissões, destruição da biodiversidade, poluição e comprometimento tão freqüente do patrimônio social e natural em que intervêm. O meio ambiente (isto é os ecossistemas dos quais as sociedades humanas são parte integrante e indissolúvel) também está nas empresas. Sua presença aí é cada vez mais importante e nela se encontra um dos caminhos de mudança no mundo contemporâneo.
Michael Porter e Mark Kramer, em artigo de 2006 premiado pela Harvard Business Review (”Strategy and Society - The Link between Competitive Advantage and Corporate Social Responsibility”), insistem na dimensão estratégica da responsabilidade corporativa. Muitas companhias, relatam Porter e Kramer, só acordaram para a importância do tema sob pressão e isso lhes trouxe (como no célebre caso da Nike, acusada de fazer uso de trabalho infantil ou das empresas petrolíferas diante de seus sucessivos acidentes) imensos prejuízos. Com freqüência, a resposta a estas pressões foi episódica, cosmética e, sobretudo, sem horizonte estratégico. O grande desafio para a empresa é medir as conseqüências de suas ações não só em seu entorno imediato, mas numa perspectiva de longo prazo, em que sejam criadas capacidades para antecipar resultados.
Para isso, é fundamental reconhecer a dependência mútua entre corporações e sociedade. Porter e Kramer falam em valores partilhados (shared values), que abram caminho para reduzir os conflitos potenciais que a firma enfrenta. As escolhas das empresas não envolvem apenas seleção de tecnologias, preços e procedimentos produtivos. Referem-se também à maneira como vão relacionar-se com as dimensões socioambientais do que fazem, ou, em outras palavras, à qualidade de sua inserção social.
A publicação pelo Global Report Initiative de um documento sobre a biodiversidade (http://www.globalreporting.org/home) é um passo marcante neste sentido. Destinado a tomadores de decisão no interior das organizações, o documento mostra a importância dos ecossistemas para a vida humana e sugere procedimentos concretos para proteger e regenerar os ambientes em que atuam. São imensas as oportunidades de ganho empresarial que uma atitude não predatória oferece. Mas isso exige, com freqüência, mudanças tanto na visão que a empresa tem de seus recursos, como, sobretudo, de suas relações com os stakeholders. Estes stakeholders vão desde comunidades locais e grupos preocupados como a biodiversidade até investidores temerosos dos riscos que a destruição dos ecossistemas poderia trazer à própria legitimidade (licença para operar) da companhia. Socioambiental não é um setor à parte, uma equipe de bombeiros convocada quando a temperatura sobe, mas sim o componente estratégico decisivo do qual depende a integridade de qualquer organização contemporânea.
Ricardo Abramovay professor titular do Departamento de Economia da FEA/USP, coordenador de seu Núcleo de Economia Socioambiental (NESA) e pesquisador do CNPq - www.econ.fea.usp.br/abramovay/
Brasileiro é sensível ao aquecimento
O Estado de S. Paulo
19/09/2008
Cristina Amorim
Os brasileiros estão mais sensíveis com as mudanças climáticas, mas ainda há uma inércia que não converte a preocupação em ações. Essa é uma das conclusões de um estudo realizado pelo Instituto de Estudos da Religião (Iser), com o apoio da Embaixada Britânica.
Entre janeiro e maio, foram ouvidas 210 pessoas consideradas influentes em seis segmentos: mídia, Congresso, sociedade civil organizada, universidades e institutos de pesquisa, empresariado e agências governamentais. “Além de seus papéis sociais, as pessoas estão perplexas como indivíduos diante do desafio. Há um engajamento quase pessoal”, explica a principal autora do estudo, Samyra Crespo.
Ela enfatiza que todos os setores esperam que o Poder Executivo indique o direcionamento do Brasil diante da problemática global. A expectativa vem, também, dos legisladores - abertos ao diálogo com o “lobby virtuoso” feito por ambientalistas, mas que não inseriram a temática em propostas de trabalho. “Eles acham que ambiente não dá votos e, de fato, ainda não dá”, diz Crespo.
Isso porque as pessoas ainda não estabelecem vínculos diretos entre questões ambientais e o cotidiano, como a manutenção da saúde. “Mas a questão das mudanças climáticas traz essa urgência. Sou otimista”, afirma.
Brasileiros esperam liderança nacional contra efeito estufa
Segundo pesquisa do Iser, os cientistas são os mais engajados na questão, e os políticos, os menos
São Paulo - A mudança climática tornou-se um tema importante na agenda de cientistas, empresários, ONGs, da mídia e dos políticos no Brasil. É o que aponta o estudo do Instituto de Estudos da Religião (Iser) que ouviu representantes de todas essas áreas no País.
Os pesquisadores ouviram a opinião de 210 pessoas consideradas líderes em seus respectivos segmentos. E todos os setores ouvidos defenderam que o aquecimento global representa uma das questões mais importantes do nosso tempo, um fato científico incontestável e que afetará toda a sociedade, especialmente a população pobre.
A pesquisa foi feita entre janeiro e maio de 2008, com o apoio da Embaixada Britânica e usou a técnica da entrevista em profundidade, realizando entrevistas de cerca de 50 minutos com cada líder.
“Trata-se de um estudo sobre o nível de informação, engajamento, visões e percepções dominantes de 30 líderes em cada setor selecionado em relação o tema das mudanças climáticas” explica a cientista social do Iser, Samyra Crespo, coordenadora da pesquisa.
Segundo os entrevistados, os impactos sociais das mudanças climáticas deverão levar a uma reformulação nas políticas públicas, com enfoque na redução das desigualdades e conservação de recursos hídricos.
Para a maioria dos entrevistados, a responsabilidade do Brasil perante o mundo no combate às mudanças climáticas concentra-se, principalmente, em quatro ações: conter o desmatamento da Amazônia, rever a matriz de transportes, não “sujar” a matriz energética brasileira, cuja base hidrelétrica considerada limpa em comparação à de países que dependem da queima de combustível para gerar eletricidade, e priorizar o desenvolvimento de biocombustíveis.
“A idéia presente na maioria das respostas é a de que conter o desmatamento é um problema, pois significa mudar o modelo de uso do solo na região, tida como enorme e diversa”, explica Samyra.
Entre os setores entrevistados, os cientistas são os mais preocupados, engajados e bem informados, e os congressistas foram os que se posicionam de forma mais insegura em termos de consistência e engajamento.
Para uma parte significativa dos entrevistados, o Brasil vem, equivocadamente, desprezando a chance de encabeçar uma iniciativa relevante, tornando-se líder dos países emergentes. Para a maioria absoluta dos entrevistados, quem deve liderar o processo de engajamento do Brasil, dentro e fora do País, é o governo. Trata-se de “tarefa de Estado”, disseram. Depois que o governo sinalizar para a sociedade que está levando o assunto a sério, dizem os entrevistados, os demais atores tendem a se engajar.
Veja também:
Íntegra dos resultados do estudo www.estadao.com.br/ext/especiais/2008/09/relatorio_de_divulgacao.pdf
19/09/2008 - 10h36
Algodão transgênico dá proteção a lavoura vizinha
RICARDO BONALUME NETO
da Folha de S.Paulo
O algodão transgênico em plantações na China já havia diminuído a quantidade de inseticidas na agricultura, mas agora uma equipe de pesquisadores mostrou um benefício inesperado da tecnologia: as plantas modificadas geneticamente ajudaram a diminuir as pragas que afetam culturas vizinhas.
O algodão estudado foi modificado para produzir o inseticida Bt (derivado da bactéria Bacillus thuringiensis).
O grupo de Kong-Ming Wu, da Academia Chinesa de Ciências Agrícolas, estudou dados agrícolas de 1997 a 2007 sobre a cultura do algodão Bt no norte da China, além de checar as populações das pragas, especialmente a lagarta da espécie Helicoverpa armigera. O Bt não faz mal a humanos, mas é letal para lagartas de borboletas e mariposas, que atacam plantas como o algodão.
A equipe de cientistas estudou várias culturas plantadas em seis Províncias chinesas, cobrindo 38 milhões de hectares. Desse total, três milhões de hectares eram de algodão Bt.
As lagartas de Helicoverpa armigera costumam atacar o trigo na sua primeira geração, e migram para algodão, milho, soja, amendoim e legumes em gerações subseqüentes.
Em artigo publicado na edição de hoje do periódico “Science”, os cientistas afirmam que a “densidade populacional da H. armigera foi “drasticamente” reduzida com a introdução do algodão Bt.
E as plantações vizinhas de outras culturas também se beneficiaram com a diminuição das pragas. Segundo os autores, isso resultaria do fato de o algodão ser o principal hospedeiro dos ovos desses insetos.
Os cientistas dizem, porém, que é preciso ter cuidado com a possibilidade de os insetos adquirirem resistência ao Bt.
“O controle da resistência de inseto é uma das questões-chave ligadas à pesquisa e desenvolvimento, regulação e aplicação de culturas Bt para controle de insetos no mundo. Entretanto, nenhum caso de resistência em campo foi relatado”, disse Zhao à Folha.
Em laboratório, têm sido criadas linhagens de insetos resistentes ao inseticida. “É uma questão complicada, com muitos artigos sendo publicados a cada ano”, afirma Zhao; por isso, ele cita as conclusões de um novo livro sobre o tema.
“Uma estratégia promissora de controle da resistência envolve o uso de plantas com uma alta dose da toxina em combinação com a manutenção de culturas “refúgios” que encorajam a proliferação de insetos suscetíveis ao Bt na população da praga”, escreveram os autores no artigo na “Science”.
Nos EUA, isso virou norma –cada fazenda de algodão tem de reservar uma parte da terra para algodão não-transgênico.
No caso chinês essa solução seria mais difícil, pela necessidade de instruir milhões de camponeses. Mas a prática chinesa de plantar diversas culturas –como soja, amendoim e milho– próximas ao algodão cria, na prática, os refúgios nos quais as pragas podem viver sem a pressão de terem de adquirir resistência ou morrer.
Sexta-feira, 19 setembro de 2008
Para escapar à barbárie urbana
Washington Novaes
Às vésperas de eleições municipais, deveríamos meditar no significado dos números da contagem divulgada há duas semanas, que apontam uma população nacional de 189,6 milhões, quando se acreditava que ela já estaria próxima de 200 milhões. Mais ainda, a contagem mostra que o índice de fecundidade das mulheres já baixou para 1,8 filho, abaixo da taxa de reposição populacional, que é de 2 filhos por mulher (que substituirão mãe e pai, sem aumentar a população), e que se esperava só fosse atingido em meados do século, com uma população em torno de 245 milhões. Isso quer dizer que ultrapassamos o crescimento populacional “explosivo”. A população só continuará aumentando nas próximas décadas porque ainda é alto o número de mulheres em idade fértil (por causa das altas taxas de natalidade nas décadas de 60 a 90 do século passado). A persistirem as atuais taxas de fecundidade, a população poderá até reduzir-se em poucas décadas.
É hora, então, de repensar as políticas urbanas. Para que os benefícios da mudança no quadro populacional não venham a ser anulados por políticas que continuem estimulando a concentração urbana e a formação de megalópoles próximas da ingovernabilidade, como nas últimas décadas. Os números expostos pelo caderno especial Megacidades (Estado, agosto de 2008) são assustadores, com a megarregião São Paulo-Campinas concentrando em 11.698 km2 (0,27% do território nacional) nada menos que 22 milhões de moradores, 22,1% do PIB brasileiro e 65% do PIB paulista. Para agravar, pouco mais de um quarto dos paulistanos, 3,2 milhões de pessoas, vive em 1.565 favelas e 1.128 loteamentos irregulares (4/8), além de 36,5 km2 de áreas de mananciais (500 mil pessoas).
O déficit habitacional ali é calculado em 1,5 milhão de moradias. Mas as contas são difíceis porque, ao mesmo tempo, é imenso o número de moradias vagas, com a degradação de certas áreas e a migração de pessoas em busca de segurança. Entre 1996 e 2007, dizem a Fundação Seade e o IBGE , o “centro expandido” perdeu 441 mil habitantes, enquanto áreas “extremas” da Região Metropolitana ganharam 1,21 milhão. É evidente que o deslocamento gera novas demandas. E, ao mesmo tempo, o fechamento progressivo, a “condominialização” de ruas ou setores inteiros em busca de segurança, é uma nova questão.
Para completar, o quadro dos transportes urbanos: “São Paulo vai parar”, diz o urbanista Cândido Malta Campos Filho (Estado, 30/3), segundo quem os paulistanos só aceitam deixar o carro se dispuserem de metrô. E ele não acredita que o Rodoanel venha a alterar significativamente o panorama, pois só deslocará 50 mil veículos.
Nesse panorama, parece claro que só a descentralização político-administrativa para valer, com participação da sociedade na elaboração, execução e fiscalização do orçamento, poderá levar a novos rumos - e impedir que as decisões administrativas continuem confinadas em corporações de interesses político-econômicos. Mas se esbarra aí em outra questão, tratada com muita competência pelo sociólogo José de Souza Martins neste jornal (24/8), ao dizer que a utopia urbana é bloqueada “pelas irracionalidades e absurdos que, infiltrando-se pelas eleições, chegam à política e dominam as cidades”. Explica ele: “Pessoas que foram secularmente mantidas à margem dos direitos políticos, e ainda estão à margem dos direitos econômicos e sociais, tiveram um crescimento político mutilado por essa deformação, que, inevitavelmente, se reflete nas eleições por meio da transformação das carências não-políticas em demandas políticas.” Ou seja, os marginalizados transformam a satisfação de suas carências econômico-sociais em demanda eleitoral - e, por esse caminho, em política clientelista por parte dos candidatos. Não se concebem políticas urbanas adequadas, e sim formatos de atendimento de necessidades específicas (asfalto, ônibus, escola, postos de saúde) em locais específicos. Não se consegue conceber macropolíticas que mudem os rumos das grandes cidades.
Seria fundamental, então, que o País conseguisse chegar a verdadeiras políticas de redistribuição da renda, que nos tirassem do patamar vergonhoso em que nos situamos, com pelo menos 30% da população abaixo da linha da pobreza e milhões na miséria. Embora o Bolsa-Família seja importante, não se pode esperar daí nenhuma transformação profunda do quadro. Ainda mais sabendo que, pelo outro lado, prossegue a concentração, com o pagamento de juros absorvendo 15 vezes mais recursos que o Bolsa-Família. Sem falar em isenções de impostos, perdão de dívidas, crédito privilegiado, sonegação tolerada, etc., etc.
Simultaneamente, precisamos conceber políticas urbanas que levem a transformações profundas na localização de investimentos (e na geração de postos de trabalho), para redistribuir espacialmente a população. Enfrentar interesses que levam à expansão urbana desordenada, sem implantação das infra-estruturas básicas (e transferindo os ônus para toda a sociedade). Ter coragem no enfrentamento das questões do trânsito: vai-se continuar permitindo, sem nenhuma outra exigência (como a retirada de veículos muito antigos), o licenciamento de mil veículos novos a cada dia numa cidade que está parando? Não se estabelecerá nenhuma exigência quanto ao tipo de veículo e seu volume de emissões de gases, nem se implantará o programa de aferição de emissões, aprovado há mais de 20 anos? Não se tornarão obrigatórias novas regras para construções, que substituam e economizem materiais, além de estimular a iluminação e aeração naturais? Não haverá obrigatoriedade de todo gerador de resíduos pagar pela sua coleta e destinação?
“Nossas cidades”, diz José de Souza Martins, “estão escapulindo da civilização em direção à barbárie.” Não é com políticas e medidas paliativas/clientelistas que se pode fugir a desse destino.
Washington Novaes é jornalista
E-mail: wlrnovaes@uol.com.br
Sexta-Feira, 19 de Setembro de 2008
Sabesp nega descontos aos clientes
Empresa diz que água tem qualidade e nenhuma operação será realizada
A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) não dará desconto nas contas de água dos consumidores afetados pelo surto de algas nem vai suspender a cobrança enquanto o problema não for solucionado. De acordo com o Departamento Comercial da Sabesp, o problema está no desconforto no consumo, mas a água continua própria para ingestão. Não existe nenhuma operação a ser realizada para diminuir o cheiro e o sabor fortes da água.
Responsável pela Estação de Tratamento da Represa do Guarapiranga, Angelino Aniello Saullo disse que não há mais nada a ser feito. “Não existe necessidade de novo tratamento. A água está segura para o consumo. Não recomendamos nenhuma etapa adicional de tratamento em casa. Se isso for feito, poderá quebrar a presença do cloro”, explicou.
O sol forte e excesso de nutrientes presentes na água por causa do despejo de esgoto são os responsáveis pela proliferação desse tipo de organismo. As algas se proliferam na presença de fosfato de nitrogênio, de luz e de calor forte, como o registrado em agosto. “Há um trabalho no manejo da represa para que esses eventos não ocorram. Mas o comportamento do manancial, que recebe muito esgoto, estiagem e calor, faz as algas aparecerem”, disse Saullo.
Técnicos em química apontam que sabor e cheiro indesejáveis na água, como de inseticida, bolor, terra ou peixe, são provocados pela presença de algas, húmus e outros detritos que naturalmente estão presentes nos mananciais. O gosto e o cheiro provocados pelas algas tem como causa alguns gêneros de cianobactérias, minúscula alga que libera composto orgânico chamado de geosmina.
A Sabesp, em carta aos moradores que reclamaram, informou que “a água, apesar de diferente, não traz riscos à saúde”. “A Sabesp toma todos os cuidados para garantir que seu produto - a água - seja sanitariamente seguro para o consumo humano, cumprindo todas as exigências das leis que normatizam a qualidade da água no território nacional, tendo inclusive certificados seus laboratórios de análise com padrões ISO”, afirmou a empresa. E.R.
Serra da Mantiqueira tem seu primeiro residencial ecológico
São José dos Campos (SP), 18 de Setembro de 2008 - Situado no quilômetro 151 da antiga estrada para Campos do Jordão, a SP-50, foi criado o primeiro loteamento ambientalmente correto e compatível com a legislação que protege a Mata Atlântica de altitude que cobre a Serra da Mantiqueira. Trata-se do Residencial Ecológico Parque da Mantiqueira, localizado em Santo Antônio do Pinhal. O local manteve 70% de sua área como sendo de preservação e se tornou o primeiro da região a ter 100% de aprovado pelos órgãos ambientais.
Os índices de conservação do bioma natural, segundo o proprietário do empreendimento Armando Pinheiro, se encontram além do exigido pela legislação. Isto acabou sendo o diferencial de venda do loteamento e a principal característica do residencial, que manteve 115 mil m de mata preservada e com ecossistemas complexos e ativos.
“A área do empreendimento é histórica. Por sua localização estratégica, suas vistas, cachoeiras e água mineral farta, contam que foi passagem dos Bandeirantes no século XVII e acampamento das lutas entre mineiros e paulistas por divisas, na primeira metade século XX. Ali se formou a antiga Fazenda Rancho Feliz”, explicou o empresário.
O local ficou por décadas intocado, com isso se preservou a flora e fauna primitivas. No lugar há ainda um dos bosques com 30 mil m exclusivos de araucárias centenárias e cinco trilhas próprias. Em meio a esses corredores existe um trecho de 320 metros onde se tem 12 cachoeiras e piscinas naturais.
Vista deslumbrante
Outra referência é a vista panorâmica. Do residencial se contempla pontos que são marcos turísticos do trecho paulista da Serra da Mantiqueira, como o Pico Agudo, a Pedra do Baú, o vale do Rio Sapucaí, os altos de Campos do Jordão e a parte da cordilheira na qual se encontra o distrito de São Francisco Xavier, pertencente a São José dos Campos. Por características microclimáticas e a altitude, neste trecho serrano há no inverno a formação de grandes geadas e a queda de neve, além dos termômetros atingirem temperaturas até 6 graus abaixo de zero.
Os investimentos realizados, já computados a infra-estrutura completa, se encontram na ordem de R$ 9 milhões. Eles abrangem 5,5 mil metros de alamedas interna, todas drenadas, pavimentadas, arborizadas, sinalizadas e com paisagismo. A rede domiciliar é abastecida por água mineral, captada e armazenada no próprio empreendimento. Entre os cuidados com o meio ambiente natural está a rede de energia elétrica e iluminação pública. A fiação é subterrânea.
A área total do Residencial Ecológico Parque da Mantiqueira é de 750 mil m sendo 500 mil m destinados às áreas verdes e alamedas. Um terço da área, cerca de 240 mil, foi usada para abrigar os 196 lotes. Os terrenos variam de tamanho, entre 900 a 2 mil m. Desse total, 109 deles já foram comercializados, ao preço médio atual de R$ 100 por metro quadrado.
Foi criada uma associação de proprietários que estabeleceu normas para o início das obras de residências. A entidade considerou as peculiaridades ecológicas do empreendimento e a necessidade de se cumprir a legislação específica voltada para área de preservação ambiental. Isto fez com que se estabelecesse um limite de tonelagem de carga nas vias públicas e a necessidade de controle de acesso de veículos e pessoas pela portaria principal.
O residencial foi entregue no final do primeiro semestre deste ano com 100% da infra-estrutura implantada, o que tem atraído a atenção de pessoas de várias localidades. Os compradores são, geralmente, profissionais liberais, empresários e executivos de empresas que optaram por morar no local ou ter sua casa de campo. Cerca de 50% dos compradores residem na Grande São Paulo, 40% no Vale do Paraíba e 10% em outras regiões. Eles não vêem a hora de voltar a entrar em contato com a natureza e fugir do trânsito da capital.
(Gazeta Mercantil/relatorio - Pág. 4)(Júlio Ottoboni)
18/09/2008 - 10h23
Mais da metade dos domicílios brasileiros tem rede de esgoto
Pela primeira vez, o Brasil passou a ter mais da metade dos domicílios com acesso a tratamento de esgoto, segundo a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), divulgada nesta quinta-feira.
Em 2007, 51,3% das habitações estavam ligadas à rede coletora, totalizando 28,9 milhões de residências.
A pesquisa registrou também melhora na qualidade dos domicílios brasileiros. De acordo com a pesquisa, 2,4 milhões de domicílios passaram a ter acesso à rede coletora de esgoto em 2007, alcançando mais da metade das residências no país. Quando considerados os domicílios com sistema de fossa séptica, esse percentual vai a 70%.
O número total de domicílios aumentou 3,18%, ou 1,7 milhão, no Brasil em 2007, chegando a 56,3 milhões. Destes, 69,8% eram casas próprias, que tiveram um aumento de 0,7 ponto percentual ante 2006.
Já o abastecimento de água chegou, em 2007, para 46,9 milhões de domicílios, totalizando 83,3% do total, pouco a mais que em 2006 (83,2%). Em termos absolutos, cerca de 1,5 milhão de casas passaram a contar com a rede de água em 2007.
A energia elétrica foi o serviço mais abrangente nos domicílios brasileiros em 2007. Naquele ano, apenas 1,8% das casas não tinham acesso à energia. No Sudeste, o índice de residências atendidas por este serviço chegou a 99,8%, segundo a Pnad.
Por causa do acesso facilitado a aparelhos celulares, a presença de telefones em domicílios brasileiros vem crescendo nos últimos anos, segundo o IBGE. Em 2007, 2,7 milhões de residências passaram a contar com aparelhos, totalizando 43,4 milhões, ou 77% do total. Destas, 17,6 milhões tinham só telefones celulares.
As casas com computadores passaram a representar 26,6% do total de domicílios em 2007, ou 15 milhões. Entre elas, 11 milhões tinham acesso a internet.
Junto da aquisição de mais bens e mais serviços, os domicílios brasileiros ficaram menos ocupados, segundo dados da pesquisa. Caiu o número de domicílios com oito, sete, seis, cinco ou quatro habitantes, e subiu a quantidade de casas com um, dois ou três moradores, na comparação com 2006. Em 2007, a maioria dos domicílios (cerca de 25%) abrigada três pessoas, e a minoria (cerca de 2%), oito pessoas.
A Pnad, que faz levantamentos socioeconômicos anuais da população brasileira, coletou em 2007 dados em 147.851 domicílios de 851 municípios do Brasil.
Consumo pode triplicar em 10 anos, prevê BP
Johannesburgo (África do Sul), 18 de Setembro de 2008 - A demanda mundial por biocombustíveis pode até triplicar, à medida que os governos dos Estados Unidos, da Europa e da Ásia regulamentarem políticas para aumentar o uso de combustíveis derivados de produtos agrícolas, disse Olivier Mace, diretor para a Europa e a África da unidade de biocombustíveis da BP Plc.
O consumo mundial de etanol pode crescer para, pelo menos, 40 bilhões de galões (150 bilhões de litros) por ano até 2020, duplicando a quantidade prevista para consumo até 2010, disse Mace ontem em entrevista na capital comercial da Tanzânia, Dar es Salaam. No mesmo período, o uso de biodiesel pode crescer de 5 bilhões de galões para mais de 10 bilhões de galões. “As estimativas conservadoras mostram a demanda por biocombustíveis dobrando”, disse Mace. “As mais altistas a mostram triplicando”, acrescentou.
A demanda global por etanol está crescendo, num momento em que muitos países, entre eles os Estados Unidos, tentam reduzir a sua dependência do petróleo e reduzir a emissão de gazes poluentes. O preço dos biocombustíveis também seguiu a alta dos preços do petróleo nos últimos 12 meses porque os atacadistas de combustíveis usam mais etanol quando os preços da gasolina sobem.
A oferta de biocombustíveis da América do Sul, particularmente do Brasil, e de países africanos provavelmente será necessária para cobrir a escassez nos Estados Unidos e na Europa, disse Mace. A BP está explorando a viabilidade de se produzir biocombustíveis na África para o mercado europeu, aproveitando a proximidade entre os dois continentes e acordos de tarifas preferenciais, acrescentou o diretor da unidade de biocombustíveis da BP Plc.
(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 10)(Bloomberg News)
Falta de gás faz subir preço da energia
São Paulo, 17 de Setembro de 2008 - Se colocado em prática, o plano de contingência de gás natural trará efeitos desastrosos para ao preço nacional da energia elétrica e, conseqüentemente, para o bolso de todos consumidores brasileiros de eletricidade. O “plano B” traçado pelo governo federal para um eventual novo corte de fornecimento do produto boliviano prevê a substituição de gás por óleo diesel nas indústrias capacitadas para operar com ambos os combustíveis e ainda o desligamento de termelétricas a gás, mantendo em operação as usinas abastecidas com o óleo .
“Ligando térmicas a óleo diesel, mais uma vez o impacto será para o consumidor, já que a geração a partir desse combustível é mais cara, além de mais suja”, afirma Ricardo Lima, presidente da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace). A geração térmica a partir do óleo custa em torno de R$ 600 por megawatt-hora (MWh), o dobro do custo da geração de uma termelétrica a gás.
Na quinta-feira da semana passada, o Brasil viu o seu fornecimento diário de gás boliviano, de cerca de 31 milhões de metros cúbicos, cair pela metade por um período de seis horas, depois que opositores do governo Evo Morales danificaram as instalações do produto. Por precaução, a Petrobras acionou seu plano de contingência e, para evitar um racionamento de gás, a primeira medida anunciada pela estatal foi a retirada de algumas térmicas a gás da companhia do sistema elétrico. Caso a crise se agravasse, o segundo passo seria o ligamento das chamadas “usinas bicombustívies”, que normalmente utilizam o gás natural, mas que também podem operar com o óleo diesel.
“A dependência que temos da Bolívia é muito grande. O país vizinho fornece para o Brasil mais da metade do total de gás consumido aqui”, diz João Canellas, da consultoria Andrade & Canellas.
Leonardo Caio, coordenador do curso de pós-graduação em negócios de petróleo, gás e biocombustíveis da Fundação Instituto de Administração (Fia), afirma que, assim como durante a crise energética de 2001, ano do apagão no País, quem pagará a conta pelo problema do gás é o consumidor. “Não será diferente se essa crise se agravar”, comenta o especialista, para completar: “O primeiro custo que será repassado para o consumidor é a substituição do gás pelo óleo diesel, seja na geração elétrica com no refino do petróleo”, explica Caio.
Conta salgada
Só o acionamento de usinas térmicas - que substituem a geração a partir de hidrelétricas - durante os primeiros sete meses deste ano custará aos consumidores brasileiros de energia R$ 1,5 bilhão. Esse valor será rateado entre todas as distribuidoras de energia, via cobertura tarifária pelo encargo setorial denominado Encargo de Serviços do Sistema (ESS) - que tem como atribuição garantir a segurança energética. “Se térmicas a óleo começarem a funcionar agora, o ESS subirá e o consumidor terá de pagar”, ressalta Lima, da Abrace. “Se forem ligadas, mais uma vez o ESS vai disparar”, ecoa Márcio Sant”ana, diretor da comercializadora Ecom Energia.
As termelétricas a óleo e gás foram acionadas durante o fim de 2007 e início de 2008 para suprir a escassez de energia proveniente das hidrelétricas devido ao baixo regime de chuvas. “Se houver pouca chuva no momento em que faltar gás, o País sofrerá novo apagão”, diz Giuseppe Bacoccoli, pesquisador da coordenação dos estudos de pós-graduação de petróleo (Coppe) da UFRJ.
O presidente da Abrace ressalta ainda a questão logística para entrega de óleo diesel. “Não conhecemos detalhes do plano de contingência da Petrobras. Eles solicitam a troca do gás pelo óleo diesel, mas será que há transporte suficiente para entregar o combustível?”, questiona Lima.
Ricardo Neuding, diretor da Ativos Técnicos e Ambientais (Ata), ressalta os danos ambientais causados pela geração a óleo diesel. “No Brasil a maior parte da matriz é hidrelétrica e, portanto renovável. A geração térmica é muito mais poluente, sobretudo a por meio do óleo diesel, que emite gases para o efeito estufa”, argumenta.
Setor produtivo
Na lista do plano de contingência, após o corte de gás para as térmicas, está a interrupção do fornecimento do produto ao setor produtivo. “Se houvesse um novo corte do fornecimento, o governo precisaria escolher ente abastecer as térmicas ou a indústria”, afirma Canellas. Segundo o presidente da Abrace, um corte na indústria seria “extremamente prejudicial para a competitividade” nacional. “O desequilíbrio no fornecimento pode causar impacto direto na indústria”, afirma. No entanto, segundo Lima, como a Petrobras receberá algum ressarcimento da Bolívia, pelo não cumprimento do contrato, a estatal deveria fornecer o óleo diesel para a indústria a um preço equivalente. “Assim não prejudica tanto o setor produtivo”, sugere.
Leonardo Caio, da Fia, diz que algumas empresas não são “flex”, ou seja, que podem funcionar com gás e óleo diesel. “As flex são prejudicadas porque o diesel custa mais que o gás, o que tira a competitividade da unidade fabril”, afirma. “Num caso de agravamento da crise, o governo deveria reduzir a carga tributária para compensar os gastos adicionais com combustível”, completa.
“Erros estratégicos”
As indústrias de cerâmica e de vidro, setores que nos últimos dez anos promoveram a troca da matriz energética de diesel para gás natural, também criticam o atual cenário. “Depender de um único parceiro e não desenvolver alternativas são erros estratégicos”, afirma Lucien Belmonte, superintendente da Associação Técnica Brasileira das Indústrias Automáticas de Vidro (Abividro).
Possível agravamento
Apesar de a situação estar aparentemente calma, Bacoccoli, da Coppe/UFRJ, afirma que a crise na Bolívia é constante e tem melhoras e pioras. “Naquele país há profundas diferenças sociais e étnicas, portanto há um racha na sociedade que dificilmente será superado”, comenta o especialista. “Estamos nas mãos das manifestações dos bolivianos. Me admiro que os ataques aos gasodutos tenham ocorrido só neste ano”, acrescenta o pesquisador, que afirma que “é muito difícil controlar um manifestante”.
Bacoccoli diz que as ações violentas dos manifestantes ocorrem por “incapacidade do governo boliviano de segurar os opositores”. Além disso, o professor critica a falta de planejamento energético brasileiro. “Nós nunca tivemos planejamento e por isso estamos nas mãos do gás boliviano”, argumenta. O professor lembra que o gasoduto que liga a Bolívia ao Brasil ficou pronto em 1999 e nessa época sobrava gás natural. Porém, diz, por conta do tipo de contrato firmado com o país vizinho, não era possível negociar a quantidade exportada.
Para o professor da universidade do Rio, já em 2001, após o apagão, já era possível saber que faltaria o insumo em 2005. “Desde 2001, o consumo nacional por gás nacional tem subido em 16% ao ano”, diz. “O erro foi cometido nesta época. O gás não era para termelétricas”, acrescenta.
GNL como alternativa
O início da operação de regaseificação do gás natural liquefeito (GNL) importado pela Petrobras pode dar um alívio ao consumidores de gás natural no Brasil. “A entrada do GNL ajuda, mas não elimina a dependência brasileira, já que o insumo será importado”, diz Bacoccoli. O especialista afirma que é preciso achar gás no Brasil. “Com o pré-sal acredito que a situação do gás natural melhore a partir de 2015″.
(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 7)(Roberta Scrivano)
GAZETA MERCANTIL
INFRA-ESTRUTURA - 17/09/2008
Battistella propõe uso de biodiesel em geradores
O grupo Battistella - com sede na capital paranaense e negócios na área de logística, revenda de caminhões e florestas e faturamento próximo a R$ 1 bilhão - quer aproveitar os altos e baixos do fornecimento de gás boliviano para alavancar uma solução que permita substituir o insumo importado pelo biodiesel. A proposta é a instalação de grupos geradores de 20 megawatts (MW) ou mais junto aos fabricantes de biodiesel espalhados pelo Brasil, para que estes possam produzir energia e despachá-la para consumo próximo ou a média distância.
“É uma medida preventiva, que poderia funcionar por três ou quatro anos até que os investimentos em novas hidrelétricas se consolidem e elas estejam produzindo”, explica Gérson Schmitt, presidente executivo do grupo.
Uma primeira experiência de um produtor de biodiesel utilizando o produto para também gerar energia já começou na BSBios, usina de biodiesel de Passo Fundo (RS), que utiliza o Maquigeral B100 e hoje é auto-suficiente na produção de energia nos horários críticos. “Enquanto o investimento numa PCH (Pequena Central Hidrelétrica) ou usina convencional é geralmente superior a R$ 2.000,00/KW, uma PUC-100 (Pequena Usina de Biodiesel 100%) custa R$ 350,00/KW, com tempo de implantação de 2 a 4 meses, contra os 2 a 4 anos habituais das hidroelétricas”, compara Schmitt. “Numa crise de oferta de energia, em meio ano, várias PUB-100 poderiam despachar 500 mil/KW de energia limpa e renovável, evitando um súbito apagão”, acrescenta o executivo.
Uma das vantagens econômicas do projeto, por exemplo, seria auferida pela Petrobras e o programa nacional de biodiesel, para o qual a alternativa de conversão de combustível em energia poderia trazer um novo acelerador para o desenvolvimento e consolidação desse projeto estratégico. “Já a Petrobras, que hoje demonstra preocupação com o provável aumento do custo ou falta de gás natural, poderia evitar o deslocamento de milhares de caminhões com combustível para alimentar termelétricas no Centro-Oeste do País”, afirma. “Assim, a proposta das PUB-100 apresenta-se como uma alternativa muito mais barata em termos logísticos, além de ser segura na geração e distribuição de energia”, completa Schmitt.
O Grupo Battistella há mais de 30 anos possui uma indústria montadora de grupo motor gerador instalada em Colombo, no Paraná´, e que hoje produz 160 máquinas mensais, e fatura perto de R$ 100 milhões anuais. No entanto, de acordo com a empresa, o faturamento poderá dobrar com a instalação de mais um turno.
Há quatro anos a empresa vem pesquisando a utilização de biodiesel puro (100%) neste equipamentos com resultados expressivos. “Utilizar as usinas de biodiesel como parte de um complexo de geração de energia limpa em um modelo descentralizado e com custo logístico menor que o abastecimento das atuais térmicas movidas a diesel convencional é um desenvolvimento possível do nosso negócio”, acrescenta o executivo.
Na BS Bios, o grupo gerador, além da segurança, já trouxe também economia. Segundo Erasmo Carlos Battistella, diretor comercial, anteriormente a empresa dependia somente da concessionária de energia local para o fornecimento de energia, independente do horário e com o risco de quedas nos horários de ponta - das 17h30 às 21h30 - e a possibilidade de paralisação na produção da empresa. “Os blecautes de energia não são previsíveis e como trabalhamos com processos químicos contínuos, a nossa produção não pode parar”, diz. “Neste horário o preço da energia fornecida pelas concessionárias aumenta muito. De segunda a sexta-feira, o preço médio do MWh praticado pela concessionária é de R$ 1.169,50, sem impostos. Já o preço da energia produzida pela usina geradora a biodiesel instalada na BS Bios é de R$ 775 o MWh, incluso a cotação do litro de biodiesel B100, que é de R$ 2,65″, garante ele.
Com a evolução do projeto, a BS Bios já pensa em ampliar sua produção de energia, para atender a demanda local, em programa conjunto com a comercializadora que atua em sua região.
Segundo a Battistella, o grupo motor gerador alimentado a biodiesel reduz consideravelmente a emissão de gases poluentes em relação ao diesel comum, chegando a ter 25% menos emissão de CO (monóxido de carbono) e 14% de hidrocarbonetos, além da diminuição de 88% da fuligem na atmosfera, responsável pelo efeito estufa.
A solução conjugada de máquinas foi chamada de “Pequenas Usinas de Biodiesel - PUB”. Esta tecnologia permite ainda a supervisão remota, à distância, do equipamento. O Maquigeral B 100 foi lançado no mercado pela Battistella no fim de 2007, após seu desenvolvimento por meio de uma parceria tecnológica de vários anos, com o Instituto Tecnológico do Paraná (Tecpar).
(Norberto Staviski)
Mais energia e eficiência
EDITORIAL
Folha de S. Paulo
17/9/2008
EDISON LOBÃO , titular do Ministério de Minas e Energia, surpreendeu há poucos dias até os mais entusiasmados defensores da geração de energia elétrica de fonte termonuclear. Em visita à Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto, em Angra dos Reis (RJ), o ministro afirmou que o governo federal prevê instalar 50 usinas nucleares em 50 anos. Isso depois de concluir Angra 3, em 2014, e de construir outras quatro já previstas no Plano Nacional de Energia 2030.
Tendo em vista que foram necessárias três décadas para pôr em operação as duas usinas de Angra, seria um desempenho e tanto. Lobão parece seguro de que a opção do governo Lula pela energia nuclear será mantida e até aprofundada pelas próximas administrações.
No órgão de planejamento de seu próprio ministério, contudo, o cenário é outro. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE), que coordenou o PNE 2030, projeta um potencial máximo de 25 unidades termonucleares no país.
Mesmo esse contingente soa otimista demais. A expansão das usinas nucleares é necessária e desejável, mas é preciso ressaltar que essa fonte continuará a ter peso minoritário na matriz energética do país. Isso porque o potencial hidrelétrico, por exemplo, está longe de ser esgotado.
A alternativa mais óbvia, em curto prazo, é promover a eficiência energética. Estima-se na EPE um potencial de 10% a 20% de redução no consumo com medidas de conservação de energia, da utilização de equipamentos mais eficientes na indústria à substituição de lâmpadas incandescentes por fluorescentes.
Pouco se ouve falar desse tipo de providência. O país já conta há décadas com programas isolados de conservação, como o Procel (etiquetagem indicadora de baixo consumo por aparelhos). Falta, contudo, uma ação ambiciosa e abrangente.
Encontra-se em gestação no Ministério de Minas e Energia, desde 2004, um Plano Nacional de Eficiência Energética. Deveria ser finalizado em dezembro próximo. Seria bom ouvir o ministro falar sobre isso com igual entusiasmo.
Quarta-feira, 17 setembro de 2008
Doação para ambiente terá isenção de imposto
Noruega vai destinar US$ 1 bilhão até 2015 para combater o desmatamento na Amazônia
João Domingos, Adriana Fernandes e Denise Chrispim Marin, BRASÍLIA
A decisão do governo da Noruega de destinar U$ 1 bilhão ao País até 2015 para conter o desmatamento na Amazônia levou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a assinar decreto que isenta da cobrança do PIS/Cofins o dinheiro de doações para a prevenção, monitoramento e combate ao desmatamento e de conservação do uso sustentável das florestas. Para obter a isenção, o dinheiro terá de ser depositado em bancos oficiais.
No caso do Fundo Amazônia, que recebeu U$ 20 milhões da Noruega ontem, o dinheiro ficará no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Outros U$ 120 milhões deverão ser depositados no fundo nos próximos 12 meses, também pelo governo da Noruega. O restante, pelos anos seguintes, até 2015.
“Não tem sentido um país dar U$ 100 milhões para defender a Amazônia e U$ 20 milhões virarem imposto para o governo. Então, qualquer fundo dessa natureza, supõe-se que ele vá diretamente para o destino adequado, que é a sustentabilidade”, disse o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc. “Não faz sentido taxar uma doação que está destinada a um fim tão nobre”, complementou o presidente do BNDES, Luciano Coutinho.
O decreto que isentou as doações destinadas à preservação das florestas foi publicado no Diário Oficial da União de ontem e regulamenta a Medida Provisória 438, deste ano, que prevê a criação de fundos para a preservação da biodiversidade do País. Pelos cálculos do governo, o impacto da renúncia fiscal em 2008 é estimado em R$ 43 milhões para a Cofins e R$ 7 milhões para o PIS/Pasep. Para os anos seguintes, a previsão de renúncia também é de R$ 50 milhões.
O primeiro-ministro da Noruega, Jens Stoltenberg, anunciou ontem a concessão de US$ 1 bilhão até 2015 para o Fundo da Amazônia. Do total, US$ 870 milhões estarão no fundo entre 2010 e 2015 só se forem comprovados os resultados da política brasileira de redução do desmatamento da região.
A iniciativa do governo norueguês foi qualificada como exemplar pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que recebeu Stoltenberg, em visita oficial. “No dia em que todo o País desenvolvido tiver a mesma atitude da Noruega, teremos certeza de que o aquecimento global vai ser reduzido”, afirmou Lula. “Espero que outros países sigam o exemplo da Noruega.”
Segundo Minc, além da Noruega, outros cinco países já manifestaram interesse em colaborar com a preservação da região: Coréia, Japão, Suécia, Alemanha e Suíça.
Segundo o ministro, “hoje o governo fecha uma serraria em uma hora, mas não gera 50 empregos sustentáveis em uma hora. Sem recursos importantes e manejo e desenvolvimento sustentável, a guerra contra o desmatamento não prosperará”.
COLABOROU TÂNIA MONTEIRO
Iguatemi e Brascan entram na onda verde
São Paulo, 16 de Setembro de 2008 - Os shopping centers estão entrando na onda verde. Dois novos projetos de shoppings em São Paulo estão se adaptando para receber o certificado LEED (Leadership in Energy & Environmental Design), concedido pelo US Green Building Council, com sede em Beverly Hills (EUA), que atesta, em diferentes graus, a sustentabilidade dos empreendimentos. O Iguatemi Alphaville foi o primeiro shopping do Brasil a entrar com o pedido de certificação, em maio passado, pela Iguatemi Empresa de Shopping Centers (IESC).
O projeto do shopping - cujas obras de fundação já começaram na entrada principal de Alphaville - inclui um edifício comercial anexo de 26 andares com lajes corporativas, o iTower Alphaville, e tem como parceiros a Odebrecht Empreendimentos Imobiliários, a JAG Participação e Desenvolvimento e a Y. Takaoka Empreendimentos, que era dona do terreno e terá participação de 22% no empreendimento.
O investimento total será de R$ 300 milhões, sendo R$ 180 milhões somente no shopping center, que deverá ser inaugurado em abril de 2010. Segundo Carlos Jereissati Filho, presidente da IESC, o projeto de sustentabilidade para um shopping center tem um grau de complexidade bem maior que o de um prédio comercial porque sofre mais interferências de terceiros. É preciso, lembra ele, fazer um trabalho junto a todos os lojistas para que cada um colabore com a utilização racional de seus equipamentos individuais como, por exemplo, do ar-condicionado.
Jereissati Filho calcula que o projeto sustentável do novo shopping, que terá 230 lojas em uma área construída de 119.283 m, deverá resultar em economia operacional de 40% no consumo de água e redução de 20% a 25% no uso de energia elétrica. Parte dessa economia, segundo ele, será repassada de alguma forma aos lojistas. “É a lógica do negócio, racionalizar a operação”, declara sem saber ainda estimar o quanto os custos operacionais ficarão abaixo dos projetos já existentes.
Já a Brascan Shopping Centers está elaborando o projeto para entrar com pedido de certificado LEED para o shopping Pátio Mogi, cujas obras estão começando na cidade de Mogi Mirim, a cerca de 160 km de São Paulo. Este será o primeiro shopping da Brascan no interior paulista e terá como parceira a empresa Jorge’’s Participações. Segundo Paulo Bastos, gerente de desenvolvimento da Brascan, uma pesquisa feita pela empresa identificou 54 cidades com mais de 200 mil habitantes com potencial econômico e financeiro para o desenvolvimento de shopping centers e essa região foi a escolhida porque fica próxima também das cidades de Mogi Guaçu, Itapira e Estiva Gerbi, somando uma população de 350 mil habitantes.
O empreendimento absorverá investimentos totais da ordem de R$ 60 milhões e o custo das obras deve ficar entre 5% e 10% mais alto que o de uma construção convencional, afirma Bastos. O shopping terá 162 lojas com uma área bruta locável (ABL) de 19,6 mil m e cerca de 1 mil vagas de estacionamento. Será uma construção térrea de 27,6 mil m em um terreno de 84,7 mil m dos quais serão ocupados apenas cerca de 50 mil m. A área restante ficará reservada para um plano de expansão que poderá ser lançado sete anos após a inauguração da primeira fase, informa o gerente. A inauguração do Pátio Mogi está prevista para o Natal de 2009.
Bastos não soube adiantar de quanto será a economia operacional com o projeto sustentável mas disse que não deverá influir nos preços dos aluguéis e do condomínio para os lojistas. Isto porque a adoção do projeto sustentável eleva gastos em outros setores que terão que ser compensados. Como exemplo ele cita a operação do sistema de reutilização de água. Ao invés de uma, serão feitas três torres de água - uma para captação de água da chuva, uma para água potável e uma para água reaproveitada e tratada - que consumirão mais energia em sua operação. Esse consumo terá que ser compensado com outras formas de redução de uso de energia, como iluminação ou ar-condicionado.
Segundo Ricardo Vasconcelos, sócio da CA2 - empresa que está desenvolvendo o projeto de sustentabilidade para a Brascan - a economia nos gastos com energia e água nas construções verdes nos Estados Unidos, chega a 30% e 50%, respectivamente. De acordo com ele, cerca de 10% de todo o material que será usado na construção do Pátio Mogi é reciclado.
(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 9)(amarilis bertachini)
Terça-feira, 16 setembro de 2008
Ambiente ‘perde’ R$ 3,2 bi de royalty
Em 6 anos, ministério deveria receber R$ 3,8 bilhões para programas ambientais, mas ficou com R$ 606 milhões
Sérgio Gobetti
O governo brasileiro desviou para o superávit primário R$ 3,2 bilhões de royalties de petróleo, recursos hídricos e minerais vinculados ao meio ambiente entre 2002 e 2007, cerca de 10 vezes mais do que deve receber da Noruega para investir na preservação da floresta amazônica, entre U$ 150 milhões e U$ 200 milhões. A informação consta de um relatório técnico elaborado pela Confederação Nacional dos Municípios (CNM), com base em dados do Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi).
Nos últimos seis anos, o Ministério do Meio Ambiente deveria receber R$ 3,8 bilhões de royalties para investir nos programas ambientais, mas ficou com apenas R$ 606 milhões. O restante dos recursos foi, como se diz no jargão orçamentário, contingenciado - a maior parte já na aprovação da lei orçamentária. Ou seja, os parlamentares aprovaram a proposta do governo de deixar o dinheiro dos royalties numa reserva de contingência, a ser utilizada apenas eventualmente.
Na prática, o dinheiro dos royalties tem sido acumulado no caixa do governo para o superávit primário, a economia de receitas que o governo faz para teoricamente pagar a dívida. Esse “desvio de finalidade” foi possível porque a legislação diz onde o dinheiro dos royalties pode e onde não pode ser aplicado, mas nada impede o governo de não gastá-lo, como vem ocorrendo.
No caso da participação especial do petróleo, por exemplo, o Meio Ambiente tem direito a 10% de tudo o que o Tesouro arrecada. Das demais atividades que lidam com recursos naturais não-renováveis, os royalties vinculados ao meio ambiente somaram apenas R$ 230 milhões em seis anos.
De acordo com o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, o contingenciamento de verbas é um dos motivos que levaram à proposta do fundo privado para defender a Amazônia, no qual o Tesouro não tem ingerência. Além disso, segundo Minc, o governo enviou um projeto ao Congresso flexibilizando a regra sobre a utilização dos royalties do petróleo - hoje limitada a programas de mitigação de desastres ambientais no mar.
“Queremos utilizar o dinheiro em programas de clima, que contribuam para a redução das emissões de gases poluentes, como a preservação e monitoramento da Amazônia e o programa de tirar metano do lixo”, afirma. O ministro diz que a expectativa é arrecadar US$ 900 milhões (cerca de R$ 1,6 bilhão) para o Fundo da Amazônia neste ano. A primeira doação será oficializada hoje pelo primeiro ministro da Noruega, Jens Stoltenberg, em Brasília.
Inicialmente cogitava-se uma ajuda anual da Noruega de US$ 100 milhões (aproximadamente R$ 180 milhões) ao Brasil, mas assessores do governo norueguês admitiam que essa contribuição pode chegar a US$ 200 milhões (cerca de R$ 360 milhões).
PASSEIO
O primeiro-ministro Stoltenberg teve ontem um roteiro movimentado no Rio, que começou por um passeio a Niterói.Na quarta-feira, o primeiro-ministro da Noruega viaja para Santarém (PA), base de sua visita à floresta amazônica. A Noruega dispõe de um fundo de US$ 3 bilhões para destinar à preservação das florestas tropicais de todo o mundo durante cinco anos.
O ESTADO DE S. PAULO
ECONOMIA E NEGÓCIOS - 16/09/2008
Biodiesel poderá ganhar superusina
Petrobrás estuda a construção de sua quarta unidade, que poderá produzir cinco vezes mais que as atuais
Gustavo Porto, Kelly Lima e Nicola Pamplona
A Petrobrás estuda a construção de sua quarta usina de biodiesel, a primeira de grande porte, com capacidade de produção anual de 300 mil toneladas ou 295 milhões de litros. Essa unidade teria produção mais de cinco vezes superior à de cada uma das três atuais da companhia - as já inauguradas em Quixadá (CE), Candeias (BA) e a de Montes Claros (MG), prevista para entrar em operação até meados de outubro.
De acordo com o diretor industrial da Petrobrás Biocombustível, Ricardo Castelo Branco, a quarta unidade será ainda um projeto inédito de produção de biodiesel com 30% de óleo de mamona misturado ao de soja já utilizado no sistema de produção. “Até agora, nenhum fabricante nos dava garantias para um projeto como esse, mas desenvolvemos reatores, separadores que são capazes de superar essa dificuldade adicional”, explicou o diretor, que não revelou data e nem local do projeto.
Como a utilização do óleo de mamona no processo, a Petrobrás espera atingir os padrões de especificação europeus para o combustível, os quais não são atendidos pelo combustível só de soja. “A mamona aparece como uma solução, pois, na mistura, há melhora nas propriedades a frio, que consistem no desempenho do funcionamento dos veículos, prejudicado no rigoroso inverno europeu”, disse.
Apesar das perspectivas para esse biodiesel na Europa, o diretor disse que não há negociações da companhia para a exportação do combustível para o continente. “Não há negociação para exportação, mas toda vez que se discute exportação para a Europa aparece como uma das dificuldades a rigorosa especificação de lá”, disse. A Petrobrás espera chegar em 2012 com participação de 40% no mercado brasileiro de biodiesel, estimado em 938 milhões litros ao ano.
Ele não descartou o interesse da Petrobrás também na aquisição da participação em empresas produtoras de biodiesel. “As parcerias não estão excluídas, principalmente com empresas bem posicionadas”, concluiu o executivo, que participou da Rio Oil & Gas Conference.
Castelo Branco também admitiu que companhia iniciou a revisão das metas de exportação de etanol até 2012. Os novos dados serão divulgados até o início de outubro. “As metas ano a ano, até chegar aos 4,75 bilhões de litros em 2012, estão sob reavaliação”, afirmou.
Ele evitou falar sobre os novos números, mas deu a entender que a meta deverá ser maior que a atual e pode haver variações nos dados de exportação de álcool nos próximos anos. “Se é para cima ou para baixo, vamos avaliar de acordo com o mercado. A tendência (em 2012) é ser maior, mas, se num determinado ano teremos o mercado para uma determinada quantidade, isso vai depender das condições externas.”
Até 2012, a Petrobrás espera ter um volume de pelo menos 4 bilhões de litros produzido em 20 unidades das quais será sócia minoritária, no modelo de parceria que une a companhia a produtores, que têm participação majoritária e uma trading.
Geração une investidor e ambientalistas
São Paulo, 15 de Setembro de 2008 - A preocupação com a definição da matriz energética nacional e as fontes que vão garantir o crescimento do País une ambientalistas e os que priorizam o crescimento econômico na dinâmica do desenvolvimento sustentável. O Brasil tem hoje nas tomadas 102 mil megawatts (MW) de energia. Até 2015, calcula-se que será preciso injetar mais 5% na atual oferta a cada ano. Para não correr o risco da responsabilidade por novos apagões - ou arcar com o ônus de desastres ecológicos - verdes e desenvolvimentistas definem estratégias pragmáticas na busca de saídas para abastecimento do mercado consu-midor, abrindo mão de velhos radicalismos.
No governo, a saída para o setor de energia tem três nome: Jirau, com capacidade instalada de 3.300 MW; Santo Antônio, com 3.150 MW, hidrelétricas de grande porte na região Amazônica, cujos leilões foram vencidos por megacorporações como Odebrecht e a franco-belga Suez, além de Belo Monte, que será a segunda maior hidrelétrica da América Latina, com 11 mil MW.
Para verdes como o Greenpeace, a questão é mais profunda: redesenhar a matriz energética, optando por pequenas hidrelétricas e atenuando o peso do represamento na composição da cesta energética brasileira.
“Nossa matriz energética atual é invejável do ponto de vista ambiental, com mais de 80% vinda de hidrelétrica. Os países desenvolvidos lutam com desespero para renovar suas fontes por energias limpas. E, como planejador estou tranqüilo. Em Belo Monte, fizemos um acordo que diminuiu de 2 mil quilômetros quadrados para 440 quilômetros quadrados a área a ser alagada e cancelamos os projetos de construção de outras duas hidrelétricas no Rio Xingu”, diz Mauricio Tolmasquim, presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE).
“A maior ameaça ao desenvolvimento são as mudanças climáticas e, por isto, discutir a matriz energética é fundamental”, diz Marcelo Furtado, diretor-executivo do Greenpeace no Brasil. Para a entidade, em 2050, o perfil energético deveria ter 38% em hidrelétricas, somando as hidrelétricas existentes e novos projetos pequenos de até 15 MW. A conta inclui 26% de biomassa, conseguida com a segunda geração de restos agrícolas, 20% de eólica, 12% de gás natural e 4% de solar. “Reconheço que não é possível fechar a matriz com fontes inteiramente renováveis”, diz Furtado sobre a inclusão de gás natural, que contém metano, um desastre em tempos de aquecimento ambiental. “Há uma visão quase hostil às grandes usinas mas não sei o efeito destas pequenas todas juntas”, diz Jerson Kelman, presidente da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
Os efeitos das grandes hidrelétricas são o pomo da discórdia entre os dois lados. Na luta pela concessão das licenças ambientais, o tema já rendeu polêmicas como a do peixe bagre dourado, migrador do rio Madeira. O impacto sobre a rota migratória do peixe ao longo do rio Madeira teria adiado a concessão da licença pelo Ibama para as usinas de Santo Antônio e Jirau. A demora do órgão na liberação de aval para que os canteiros de obras fossem autorizados teria rendido, entre outros motivos, em meados de maio, o pedido de demissão da ministra Marina Silva, representante do setor mais a esquerda dos ambientalistas. Seu sucessor, Carlos Minc, começou agradando aos setores mais verdes mas, ao conceder a licença de funcionamento para Angra 3, perdeu a simpatia.
“O estudo sobre o bagre dourado migrador de longo curso faz parte de um pacote de ações da empresa focadas no levantamento das espécies da região da fauna e da flora”, diz Sérgio Leão, diretor de meio ambiente da Odebrecht Investimentos Infra Estrutura. Ao lado das demandas pelo meio ambiente, o executivo frisa que as carências sociais também têm peso relevante na hora de aprovar os projetos. “O licenciamento se tornou caixa de ressonância de carências da sociedade”, diz ele, que conduziu 69 reuniões com as populações moradoras da região que será submersa por Santo Antônio. “Atenuamos a ansiedade das pessoas e conseguimos a licença social para a obra”.
“O pior é a postergação das decisões”, diz Paulo Godoy, da Associação Brasileira de Infra Estrutura e Indústrias de Base (Abdib). Segundo estudos da entidade, o prazo médio para o licenciamento varia de 21 e 37 meses. “Queremos algo em torno de 13 meses”, diz Godoy, para quem o setor de energia já tem preocupações ambientais e monitoramento oficial suficientes. “O mais preocupante são as operações ilegais, como invasões urbanas e desmatamentos em áreas preservadas”, acrescenta.
(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 5)(Leda Rosa)
SERRA PELADA VIVE NOVA CORRIDA PELO OURO
Luciana Collet
Gazeta Mercantil
15/9/2008
Serra Pelada, o célebre garimpo que nos anos de 1980 fez muita gente enriquecer e, depois de fechado, em 1992, deixou muitos “órfãos”, volta à cena no próximo domingo.
- A esperança de um futuro “de ouro” e a disputa de poder dividem a cena em Serra Pelada, no sudeste do Pará. Não, esse não é um texto de 1982, quando o então “maior garimpo a céu aberto do mundo” atraía milhares de homens que lutavam por um pedacinho de terra e trabalhavam horas ao sol em busca de uma pepita que pudesse mudar o rumo da própria vida. Em 2008, a cava do garimpo é um lago, mas ainda existem homens procurando ouro na área. Em vez de garimpeiros, são geólogos e ao invés de pepitas que possam lhes dar uma vida melhor, buscam volume de metal que garanta a sustentabilidade da exploração industrial da área.
O projeto está a cargo da mineradora canadense Colossus Minerals, empresa fundada há cerca de dois anos e que realiza pesquisas minerais em ouro no Brasil, em Sumidouro (MG) e Natividade (TO), além de Serra Pelada, mas o principal foco de atenção atualmente é o ex-garimpo paraense, informou Augusto Kishida, vice-presidente de exploração da companhia.
O projeto é realizado em parceria com a Cooperativa de Mineração dos Garimpeiros de Serra Pelada (Coomigasp), em uma joint venture formada em meados de 2007 na qual a mineradora detém 51% de participação, e a cooperativa 49%. Enquanto a empresa canadense entrou com os recursos e o conhecimento necessários para o desenvolvimento da pesquisa, a cooperativa entrou com os direitos minerários, já que desde 2007 detém o alvará de pesquisa de 100 hectares onde está localizada Serra Pelada. Até então a área estava em poder da Cia Vale do Rio Doce, que possui a concessão para explorar os 10 mil hectares ao redor de Serra Pelada, onde produz minério de ferro.
Entre 1980 e 1998, a Vale avaliou cerca de 40 mil metros de Serra Pelada e identificou potencial de cerca de 20 toneladas de ouro - durante a época do garimpo, acredita-se que foram retiradas 60 toneladas. Estimativas extra-oficiais são de que ainda há de 30 toneladas a 40 toneladas de ouro na região, mas os garimpeiros alimentaram por anos o sonho de que as reservas seriam superiores a 200 toneladas.
O plano da Colossus, de US$ 18 milhões, prevê a sondagem complementar de cerca de 20 mil metros, além de fazer a reinterpretacão dos dados da Vale. A pesquisa, que deve ser concluída até o final de 2009, já analisou cerca de 5 mil metros, com resultados animadores. Em volumes pesquisados, encontrou-se até 24,11 gramas de ouro por tonelada minerada, além de 9,04 gramas de platina e 11,57 gramas de paládio. “Tecnicamente é preciso aguardar os resultados finais, mas pessoalmente acho que já dá para pensar na fase de desenvolvimento”, disse Kishida.
Segundo geólogos ouvidos por este jornal, existem projetos em andamento com teor abaixo de 1 grama de ouro por tonelada minerada, o que coloca Serra Pelada em uma posição de destaque, se mantiver a média entre 20 e 25 gramas por tonelada minerada. Com a vantagem de que ainda há teores comercializáveis de platina e paládio, usados principalmente em catalisadores. O preço da platina subiu 36,9% em 2007, mas acumula queda de 22,4% este ano e fechou em US$ 1.187 por onça-troy. Já a cotação do paládio acumula perdas de 33,8% neste ano, encerrando a semana passada em US$ 241 por onça-troy.
Caso seja confirmada a viabilidade econômica do depósito, será instalada uma mina no local, empreendimento que demandará cerca de US$ 30 milhões na fase de desenvolvimento e outros US$ 150 milhões na implantação. A Colossus e a entidade dividiriam os ganhos com a operação, portanto os associados da cooperativa receberiam uma participação nos resultados.
Há quem defenda que os recursos poderiam ser destinados a projetos de desenvolvimento econômico e social da comunidade . “A intenção é aproveitar os recursos para incentivar a educação básica e profissionalizante, estimular a agricultura familiar e melhorar as condições de moradia”, disse o geólogo Pérsio Mandetta, que colaborou na elaboração do projeto de parceria da Coomigasp com a Colossus.
Investimento no metal sobe 56% em um ano
São Paulo, 15 de Setembro de 2008 - Em tempos de turbulência financeira, o porto seguro dos investidores é o ouro. Com a crise dos créditos imobiliários de alto risco (subprime) nos Estados Unidos não foi diferente e o resultado é não apenas o aumento no preço do metal, que acumula uma alta de 23% no último ano, mas também uma alta de 56,4% no investimento em mineração de ouro no Brasil. Agora será de US$ 1,55 bilhão para o período de cinco anos, entre 2008 e 2012, segundo levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). No ano passado, o valor dos investimentos em projetos de produção de ouro somava US$ 989 milhões para o período de cinco anos.
As autorizações para pesquisa mineral concedidas pelo Departamento Nacional de Pesquisa Mineral (DNPM) também aumentaram, 47,9%, entre 2006 e 2007 e totalizaram 1782 somente no ano passado.
Apesar da recente desaceleração no preço do ouro, que registrou queda de 10,23% no acumulado do ano até sexta-feira, o diretor presidente do Ibram, Paulo Camillo Vargas Penna, destacou que o metal ainda apresenta um valor elevado, do ponto de vista histórico, e não deve ter retração deste patamar. “De 2001 a agosto de 2008, o ouro acumula alta de 206%, sendo que somente no último ano subiu 23,8%”, disse. “Já o níquel acumula queda de 30% no ano, o chumbo caiu 54% e o zinco, 43%”, comparou. Por isso, o executivo acredita que o metal continuará atrativo para investimentos. “Muito disso se deve à alta volatilidade no mercado financeiro, e o ouro se torna um ativo ainda mais importante nessas horas.”
No Brasil, o maior consumo de ouro vem do mercado de ativos financeiros, que responde por 79% de toda a demanda nacional, segundo o Ibram. Em seguida vem a indústria metalúrgica, com 9,5%, e o setor joalheiro, com 7,1%.
Em 2007, a produção brasileira foi de 47 toneladas, 14,6% acima do apurado em 2006, e correspondeu a 1,88% da demanda mundial, ante 1,64% do ano anterior.
Mesmo com o crescimento, o País permaneceu no décimo terceiro lugar entre os principais produtores mundiais de ouro. Do total produzido, 33,8 toneladas foram exportadas, o que representou um incremento de 6,5% ante os embarques de 2006. Países como Estados Unidos, Peru, Indonésia e Canadá reduziram suas produções entre 2006 e 2007.
Com isso, a exportação de ouro brasileiro tem crescido. Passou de 31 toneladas para 36 toneladas no ano passado. Somente em 2007, o crescimento foi de 6,5% em volume. Em valor, a alta foi ainda maior, de 19,3%, somou US$ 791 milhões. Os Estados Unidos foram os principais compradores, adquirindo 92% do volume total embarcado, seguidos pelo Reino Unido, com 6%, e Canadá e Emirados Árabes, com 2% cada um.
Expansão
Com os investimentos em expansão, a produção brasileira deve atingir as 80 toneladas até 2012. Deste volume, 10 toneladas virão do projeto de expansão da Rio Paracatu Mineração, controlada da Kinross Gold Corporation. A empresa está finalizando seu projeto de expansão que triplicará a capacidade da mina em Paracatu (MG), para 15 toneladas. O projeto, orçado em US$ 540 milhões, já está em fase de testes e deve entrar em operação ainda este mês. Com isso, já este ano colaborará para um aumento de 4,5 toneladas na produção brasileira.
Já a Yamana Gold vai investir US$ 740 milhões em seus projetos de expansão no Brasil entre 2008 e 2011. O volume corresponde a 57% do plano de US$ 1,3 bilhão que a companhia está desenvolvendo para ampliar em 83% sua produção global de ouro, de 1,2 milhão de onças ( 37,3 toneladas) para 2,2 milhões de onças (68,4 toneladas).
O maior investimento será realizado para a expansão da mina de Chapada, em Goiás, onde serão aplicados US$ 221 milhões. Atualmente, a mina possui capacidade para processar 16 milhões de toneladas de rocha, e deve ampliar essa capacidade para 32 milhões em 2011. A estimativa é de que a companhia produza 170 mil onças (5,3 toneladas) de ouro este ano e atinja 6,2 toneladas anuais em 2012.
O projeto da AngloGold Ashanti, de US$ 350 milhões, prevê a expansão da mina de Cuiabá, localizada em Sabará (MG), que deve passar de uma produção anual de 5,2 toneladas para 8,5 toneladas até 2010. Além disso, a empresa, que no início de agosto adquiriu a São Bento Mineração por US$70 milhões, possui o projeto de Córrego do Sítio, no qual estuda a viabilidade de produzir 100 mil onças (3,1 toneladas) a partir de 2011. Devido à aquisição, a empresa avalia ampliar o projeto.
(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 9)(Luciana Collet)
Segunda-feira, 15 setembro de 2008
O Banco Mundial e as hidrelétricas
José Goldemberg
O Banco Mundial publicou recentemente um interessante relatório sobre o Licenciamento Ambiental de Empreendimentos Hidrelétricos no Brasil, que foi preparado como contribuição ao debate sobre os rumos que a produção de eletricidade vai tomar no Brasil.
Foi a produção de energia em usinas hidrelétricas, a partir do fim do século 19, que deu início à eletrificação do mundo moderno. Em condições favoráveis, é uma energia limpa e renovável, que transforma a força mecânica da água dos rios em eletricidade. Uma vez construída, uma usina hidrelétrica pode funcionar sem maiores problemas durante 40 a 50 anos, sem consumir combustível e operada por apenas algumas dezenas de técnicos. Assim foi introduzida na Europa e nos países industrializados, onde praticamente todos os aproveitamentos hidrelétricos possíveis foram feitos rapidamente. Só a partir de meados do século passado é que a geração de eletricidade em usinas térmicas, queimando carvão, derivados de petróleo e gás - além de usinas nucleares -, se tornou importante. Nos países em desenvolvimento, sobretudo na América Latina e na África, existe ainda um imenso potencial de aproveitamentos hidrelétricos a serem feitos.
Como explicar, portanto, as resistências que surgiram à construção de usinas hidrelétricas em vários países do mundo e, em especial, no Brasil?
A origem do problema está na Índia e na China, que têm grande densidade populacional e não são particularmente dotadas de recursos hidrelétricos. O que sucede é que a construção de usinas exige, em geral, a formação de lagos artificiais, que inundam grandes áreas e provocam outros impactos ambientais e sociais que forçam à realocação de populações indígenas e ribeirinhas e de atividades agrícolas. Em alguns casos, de fato, ela não foi bem conduzida, o que deu origem a toda espécie de reivindicações, algumas legítimas, às quais se somam, às vezes, outras questões não relacionadas com as hidrelétricas.
Uma das conseqüências dessas reivindicações, no Brasil, é que desde meados da década de 1980 as usinas que têm sido construídas têm reservatórios pequenos ou até nenhum reservatório, o que origina falta de eletricidade em períodos de pouca chuva. Parte dos problemas que tivemos em 2001 e até quase levaram a um racionamento se deve a isso.
Há cerca de dez anos, a resistência à construção de usinas atingiu tal vulto em alguns países que foi sugerido que o Banco Mundial deixasse de financiar empreendimentos hidrelétricos. Uma decisão dessas teria graves conseqüências, uma vez que usinas hidrelétricas exigem longo tempo para sua concretização (de cinco a dez anos), o que torna indispensável a aplicação de recursos financeiros a juros baixos e longo prazo para pagamento, que só o Banco Mundial pode fazer. Tratava-se, evidentemente, de uma proposta que poderia prejudicar milhões de habitantes de cidades que ficariam na escuridão sem a eletricidade proveniente de tais usinas. Por essa razão, na época foi criada uma Comissão Internacional de Barragens, que fez recomendações de aperfeiçoamento do processo de licenciamento e construção de hidrelétricas, sem impedir seu financiamento e construção. Muitas delas são relevantes para o Brasil e merecem ser revisitadas.
O grande potencial hidrelétrico remanescente do nosso país está na Amazônia, porque os principais aproveitamentos da Região Centro-Sul já foram feitos. Essa expansão, no entretanto, está provocando resistência de populações ribeirinhas e grupos indígenas diretamente atingidos e de algumas organizações não-governamentais (ONGs) que ainda não compreenderam que as outras opções para produzir energia, como usinas térmicas e nucleares, seriam piores do ponto de vista ambiental.
Essa resistência faz aumentar muito o tempo necessário para a concessão das licenças ambientais, o que eleva o custo das obras e até torna incerta a implementação de alguns projetos. Só para dar uma idéia dos problemas, os custos diretos do licenciamento ambiental (sociais, ambientais e incertezas regulatórias) representam, em média, cerca de 15% do custo total da obra - além dos custos indiretos.
O resultado é que se criam freqüentemente conflitos entre o Ministério de Minas e Energia, que deseja fazer as obras, e o Ministério do Meio Ambiente, que as licencia, uma vez que grandes obras (não só hidrelétricas, como estradas, portos e outras de infra-estrutura) sempre geram impactos.
É realmente urgente a solução desses problemas, pela seguinte razão: quando o governo decide ampliar a produção de eletricidade, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) realiza um leilão em que o vencedor é o grupo empresarial que oferece o menor preço para a eletricidade a ser vendida quando a usina começar a funcionar. Esse procedimento aparentemente beneficia a população com tarifas mais baixas, mas tem a conseqüência perversa de beneficiar também a opção por usinas a carvão ou gás, que levam menor tempo para construir, mas são muito mais poluentes. Com isso a responsabilidade e a pressão das ONGs, do Ministério Público e dos empreendedores sobre as autoridades ambientais se tornam imensas, porque estas ficam com a missão de corrigir escolhas impróprias que decorrem de leilões em que a única consideração é o preço final da energia.
Esta é uma situação parecida com os procedimentos que os governos utilizam para compras em geral, desde lápis até computadores: o critério é o menor preço, o que freqüentemente leva à compra do pior.
O recente relatório do Banco Mundial analisou em detalhes todas essas questões e fez um conjunto de recomendações muito úteis que - se adotadas - resolveriam muitos dos problemas existentes.
José Goldemberg, professor da USP, foi secretário de Meio Ambiente do Estado de São Paulo
Segunda-feira, 15 setembro de 2008
Seul limpa rio poluído em tempo recorde
Mais barato e rápido, programa coreano virou exemplo mundial
Eduardo Reina
Cheonggyecheon e Tietê são muito parecidos, quase primos. Dois rios que cortam duas grandes metrópoles, Seul e São Paulo; dois rios extremamente poluídos, símbolos da degradação das cidades e do desenvolvimento a qualquer custo. Ambos receberam milhões de dólares para serem revitalizados. Aí começa a diferença: além dos milhares de quilômetros que separam Cheonggyecheon e Tietê, um deles foi totalmente revitalizado em apenas quatro anos e hoje tem cascatas, fontes, peixes, crianças brincando e jovens se divertindo. Já o outro está há 16 anos esperando sua limpeza, sem vislumbrar quando de fato isso irá acontecer.
O governo de Seul iniciou o que se pode chamar de renascimento do Cheonggyecheon, no coração da capital sul-coreana, em julho de 2003. Por sobre o fétido canal havia um enorme viaduto, quase um Minhocão, que foi implodido. A revitalização integrou projeto de nova política de transportes públicos para uma cidade sustentável.
Gyengchul Kim, diretor do Instituto de Desenvolvimento de Seul, contou que os governantes adotaram, a partir de 2002, medidas em favor da utilização de ônibus e metrô. O caso mais emblemático foi a derrubada do viaduto sobre o leito do Cheonggyecheon. Em lugar da obra, construída em 1960, foi iniciada sua revitalização, com um parque linear para recreação e atrações culturais.
O curso d’água recebeu peixes e vegetação. Foram erguidas fontes luminosas que se tornaram pontos de visitação. A temperatura em Seul, em virtude das melhorias no meio ambiente proporcionadas pelo novo Cheonggyecheon, diminuiu 3,6°C, indo de 36,3°C para 32,7°C. Tudo ao custo de US$ 370 milhões na época (hoje algo em torno de R$ 700 milhões).
Vencido o desafio, a restauração dos 5,8 quilômetros do rio teve impacto econômico positivo para a cidade. Segundo representantes da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), sediada em Paris, foi criada uma outra imagem da Coréia do Sul, contribuindo para a promoção do país no mercado internacional e para a atração do capital estrangeiro. “Seul deve descartar os excessos do desenvolvimento e se tornar ecologicamente correta, para prosperar. Pense diferente, eco-eficientemente. Não para mais carros, mas sim pelas pessoas”, disse Kim.
O rio sul-coreano era responsável pela drenagem das águas de toda a cidade, com mais de 10 milhões de habitantes. No auge do desenvolvimento, o leito se tornou poluído. A calha principal acabou parcialmente aterrada e agora reaberta. Hoje, as águas que correm por lá são bombeadas do Rio Han.
Aqui, o programa de despoluição do Tietê já custou US$ 1,5 bilhão, ou quase R$ 3 bilhões aos cofres do Estado, desde sua implementação em 1992. Tantos gastos e esforços, e a sensação que se tem é que a poluição continua cada vez maior.
O Tietê, quando atravessa os municípios da Grande São Paulo, recebe uma infinidade de esgotos, efluentes industriais e lixo. O engenheiro Julio Cerqueira Cesar Neto, da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental, estima que sejam despejados nos rios e córregos da capital cerca de 39 mil litros de esgoto in natura por segundo, que de certa forma acabam no Tietê.
