Arquivo de outubro, 2008

ENERGIA

29/10/08

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20/10

Usiminas investe para ampliar auto-suficiência

SÃO PAULO, 20 de outubro de 2008 - Na busca por reduzir custos e intensificar a verticalização das operações, a Usiminas eleva a autoprodução de energia. A companhia, que já possuía 26% de geração própria na usina de Ipatinga (MG) e 15% na unidade de Cubatão (SP), deve produzir 50% de suas necessidades de energia nas duas principais operações do grupo.

Ainda este mês, a usina de Cubatão, mais conhecida como Cosipa, começa a operar a turbina de topo do alto-forno 2, um projeto, realizado pela japonesa Mitsui Engineering & Shipbuilding, que consumiu investimentos de US$ 26 milhões e elevará a oferta de energia elétrica em cerca de 12 megawatts-médios (MWmédios), o que corresponde a cerca de 6% do consumo de energia da usina. Com isso, a unidade passará a contar com aproximadamente 20% de autogeração. O retorno do investimento será em até 40 meses, informou o superintendente de energia e transportes da Usiminas na unidade de Cubatão, Marcus Antônio Veris.

A turbina foi instalada para aproveitar o processo de redução da pressão dos gases de alto-forno para a geração de energia. O equipamento, fornecido pela japonesa Meidensha, substitui as válvulas que normalmente são usadas para reduzir a pressão, mas que não geram qualquer outro benefício. Posteriormente os gases são usados, como já acontecia, no processo industrial, em caldeiras, forno de aquecimento de placas e outras unidades.

Além dos gases gerados no alto-forno, uma siderúrgica também pode gerar energia elétrica com a utilização dos gases gerados na coqueria e na aciaria - outros processos básicos para a produção de aço em uma usina integrada. “Atualmente estamos realizando uma concorrência para a central termelétrica que vai recuperar o gás de aciaria”, afirmou Veris.
De acordo com ele, o projeto prevê a construção de uma térmica com capacidade para produzir 75 MW médios, o que fará a Cosipa atingir 50% de autogeração a partir de 2011, quando a usina começar a operar. “Com isso, passaremos a utilizar praticamente 100% dos gases gerados pelo processo de produção”, disse.
Veris não informou qual o valor estimado de investimento, mas, tem como base a capacidade de produção, deve ultrapassar os US$ 120 milhões que a companhia gastou para a instalação de uma central termelétrica na unidade de Ipatinga. A usina, que entrará em operação até o final deste ano, deverá produzir 62 MW, ampliando para 53% a autosuficiência de energia. Neste caso, os principais fornecedores foram a Siemens e a Slovenské Energetiché Strojárne (SES)
O restante da energia consumida pela Usiminas é fornecido pela Cemig, por meio de contrato de longo prazo realizado no mercado livre. Válido até 2014, o contrato é reajustado anualmente pelo IGP-M.
A Usiminas também possui um projeto de termelétrica para a nova usina de placas que a companhia deve construir em Santana do Paraíso (MG). A térmica teria capacidade para gerar 250 MW e custaria US$ 395 milhões. (Luciana Collet - Gazeta Mercantil)

 

 


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‘Brasil pode economizar três Itaipus’, diz EPE

23/10 - 12:06 - Agência Estado

O presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, disse que o Brasil tem potencial para economizar o equivalente a três Itaipus até 2030, com esforços em conservação de energia e em investimentos em autoprodução pelos grandes consumidores industriais. “Isso evitaria a construção de hidrelétricas que gerariam 40 mil MW de capacidade instalada, o equivalente a três Itaipu.

 


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Quarta-feira, 22 outubro de 2008

Economizar eletricidade é bom para a economia

Marcos Sá Corrêa*

Trinta anos de sérios apertos no consumo de eletricidade pelo Estado da Califórnia criaram, desde 1978, 1,5 milhão de empregos extras. Parece mágica. Ou, pelo menos, bom demais para ser verdade. Mas é pura lógica de mercado, diz o professor David Roland-Host, de um centro de estudos sobre energia e uso sustentável de recursos naturais da Universidade de Berkeley.

Em plena crise das hipotecas, eis que surge esta semana um economista disposto a provar que o tal do mercado funciona mesmo. No caso, empurrado pela legislação estadual, que forçou os consumidores californianos a gastar menos com suas contas de luz. As sobras, eles naturalmente passaram a botar em outras coisas.

Por exemplo, em comida. Comprando-a em maiores quantidades com a folga no orçamento familiar, eles abriram postos de trabalho do outro lado do balcão no comércio varejista, no setor atacadista, na indústria de alimentos e em todas as empresas que vivem de encher geladeiras.

Suas próprias geladeiras entraram na dança. Foram trocadas por modelos mais eficientes, antecipando a chegada da nova geração de eletrodomésticos de baixo consumo às residências californianas. Por ano, US$ 56 bilhões deixaram de ser queimados nas tomadas e eletrificaram a produção de bens e serviços.

Não por acaso, o relatório de Roland-Host se chama Eficiência Energética, Inovação e Empregos. Trocado em miúdos pelo autor, ele está aí para anunciar que “a eficiência energética de fato estimula a economia”. De quebra, tem dividendos ambientais.

A política contra o desperdício energético entrou em vigor na Califórnia quando mal se falava - fora dos institutos de pesquisa - de gases do efeito estufa ou de desordem climática. Estava em pleno vapor quando as emissões de carbono arrombaram nesta década as portas da economia mundial, apresentando-lhe um custo de produção que nunca se preocupara em contabilizar. Popularizadas em manchetes e negociadas em bolsa, as emissões de carbono ganharam um peso nas atividades humanas que ainda pode ser difícil de contabilizar, mas já não dá para ignorar.

Hoje, o quilowatt custa para o californiano 40% mais caro do que no resto dos Estados Unidos. Em compensação, seu consumo per capita de eletricidade caiu a cerca de 40% da média nacional. De troco - em um país onde mais ou menos a metade da energia elétrica vem de usinas movidas a carvão, recordistas de fumaça tóxica -, deu um lucro inestimável em controle da poluição atmosférica.

Esse ganho o relatório nem se aventurou a orçar. Ele trata exclusivamente dos resultados econômicos de uma política que nasceu sob a suspeita de conspirar contra a prosperidade da Califórnia e acabou beneficiando-a.

MAIS 400 MIL EMPREGOS

O relatório saiu na hora certa. Neste momento, a Califórnia discute o que fará para seguir na frente dos Estados Unidos pelas próximas décadas. A tendência é adotar, até o fim do ano, com seu pacote de Soluções para o Aquecimento Global, medidas ainda mais restritivas às emissões de CO2 e outros vilões da mudança climática. Quer dobrar as metas de substituição das termelétricas sujas por usinas limpas. Com elas, em 2025, metade da eletricidade que produz e consome virá de geradores eólicos e outras fontes alternativas.

Restava saber a que custos sociais e econômicos essa política ambiental vingaria. Não mais. Roland-Host acaba de entrar na conversa, apostando que, até 2020, as novas medidas terão criado mais 400 mil empregos e posto mais US$ 48 bilhões por ano na economia da Califórnia.

 

 


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22/10/2008

Energia mais cara e poluente

Ricardo Lima
Fonte:Estado de São Paulo
Os resultados dos últimos leilões de contratação de energia indicam que o Brasil está andando na contramão em termos globais. Enquanto a maioria dos países procura desenvolver uma matriz energética menos custosa e mais limpa, o País, detentor de um dos maiores potenciais hídricos do mundo, opera uma verdadeira substituição da hidreletricidade por energia gerada a partir de combustíveis fósseis. É ilógico, sim, mas essa tendência pôde ser claramente observada nos últimos leilões para fornecimento de eletricidade em três e cinco anos. As térmicas a óleo combustível lideraram ambos.

O principal problema é que a geração com combustíveis fósseis tem custo muito superior. A energia de térmicas chega a ter preços médios 50% superiores aos das hidrelétricas. É evidente que isso pressionará as tarifas de todos os consumidores e, no caso dos industriais, representará um golpe em sua capacidade competitiva. O fato é que essas usinas, de elevados custos variáveis, deveriam representar a última opção para geração de energia elétrica, sendo contratadas somente na completa falta de projetos hidrelétricos de qualidade.

Num momento de cenário mundial conturbado, essa pressão tem peso ainda mais forte, ameaçando a competitividade da indústria e da economia brasileira como um todo. Tal preocupação faz com que esse seja um dos principais temas a serem discutidos no evento Energia competitiva: Contribuindo para o crescimento do Brasil, que a Abrace realiza no dia 30 de outubro em São Paulo.

O aumento da dependência de combustíveis importados também chama a atenção. Estimativas do mercado indicam que a quantidade de óleo combustível necessária para o despacho de todas as térmicas contratadas em setembro supera, em termos de energia, o volume de gás natural importado da Bolívia. Boa parte desse combustível terá de ser importada, deixando o País ainda mais dependente de fornecedores externos de energia. O transporte do óleo combustível para o abastecimento dessas usinas também representa um enorme desafio logístico.

Nos últimos leilões de energia nova, o País registrou uma média de contratação de cerca de 80% da eletricidade de origem térmica e apenas 20% de hidrelétricas. No leilão A-5 realizado no final de setembro, a participação das usinas a óleo combustível respondeu por mais de 60% da energia contratada. Por outro lado, foi negociada a energia de apenas uma hidrelétrica (Baixo Iguaçu), que disponibilizará 137 MW médios.

Esse cenário exige uma rápida alteração de rumo por parte do governo, de forma a garantir a oferta das hidrelétricas nos próximos leilões. Para tanto, é fundamental acelerar os estudos sobre os inventários para definição de novos projetos a serem licitados, bem como acelerar os procedimentos de licenciamento ambiental dos novos empreendimentos.

Outro aspecto preocupante é o risco de um apagão de contratos, tendência verificada nas recentes oportunidades de comercialização de energia existente. No leilão de ajuste realizado no dia 23 de setembro, por exemplo, foram negociados menos de 10% dos 3.399 MW médios necessários para os três últimos meses deste ano. As negociações para fornecimento em 2009 também deixaram a desejar: foi negociado menos de 1% dos 1.305 MW médios demandados. Houve participação de apenas duas geradoras. O restante da energia foi vendido por comercializadores.

Embora os volumes sejam pequenos, confirmam a visão da indústria relativa à falta de energia para contratar em curto prazo. Essa situação pode se dar pelo fato de as geradoras não terem energia para vender no período. Outra possibilidade - mais provável - é que elas estejam aguardando oportunidades para obter preços melhores ao longo de 2009. O baixo preço-teto definido pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) para esse leilão de ajustes teria colaborado com essa situação. É preciso ter muita atenção para evitar que especulações com os preços de energia ameacem o abastecimento.

Os caminhos para garantir a modicidade tarifária e a oferta de energia a preços competitivos têm ainda outros atalhos que incluem, por exemplo, a redução de encargos setoriais. Mas, no que se refere à constituição da matriz elétrica brasileira, a primazia da hidreletricidade é condição essencial.

MUDANÇAS CLIMÁTICAS

29/10/08

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Quarta-Feira, 22 de Outubro de 2008

Emissão de CO2 nos últimos 7 anos supera piores estimativas

Cenário pessimista era de alta de 2,7% ao ano, mas desde 2000 é de 3,5%

Jamil Chade, GENEBRA

As emissões de CO2, o principal gás do efeito estufa, atingiram níveis mais preocupantes que os piores cenários anunciados pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). Dados coletados pelo Programa da ONU para o Meio Ambiente (Pnuma) alertam que as emissões estão acima das taxas imaginadas e que a elevação dos oceanos é superior ao que os especialistas previam.No ano passado, o IPCC lançou uma série de relatórios em que deixa claro que as mudanças climáticas são reais e que o mundo terá de tomar medidas para frear a tendência. Para avaliar o risco ambiental, o painel desenhou diferentes cenários.

O pior deles indicava que haveria um aumento das emissões de CO2 na atmosfera a uma taxa de 2,7% ao ano na última década. “O problema é que estamos vendo, desde 2000, um crescimento nas emissões de 3,5% ao ano, apesar de todo o esforço internacional”, alerta Sylvie Lemmet, diretora do Departamento Econômico do Pnuma. Nos anos 1990, o aumento das emissões era de 1% ao ano e mesmo assim já preocupava os cientistas.

Outro cenário alarmante é o de elevação dos oceanos, causada pelo aumento da temperatura nos pólos. No pior dos cenários, os oceanos subiriam no máximo 0,9 metro em uma década.Os novos números apontam que a elevação dos oceanos variou entre 0,8 e 1,5 metro.

Outra constatação é a de que a perda de cobertura de gelo nos pólos é duas vezes maior na atual década do que nos anos 1990, e quatro vezes maior que os registros de 1980. Em 2030, se esse ritmo for mantido, 300 milhões de pessoas podem ser afetadas diretamente e obrigadas a abandonar suas cidades.

As Nações Unidas pedem que, apesar da crise financeira, governos e empresas não abandonem suas metas e programas ambientais. “As emissões estão acelerando. O paciente, que é a Terra, não está se recuperando”, afirma Sylvie. Países ricos enfrentam a resistência cada vez maior de seu setor privado. Eles alegam que a atual crise financeira tornará inviável pagar pelas mudanças tecnológicas que o novo modelo ambiental exige.

“Muitas empresas estão cortando dinheiro de filantropia. Mas esperamos que as atividades principais no setor de ambiente sejam mantidas”, disse Georg Kell, que coordena um grupo de empresas em todo o mundo, entre elas a Copagaz no Brasil, que se comprometeram a adotar políticas ambientais.

NÚMEROS

1% ao ano
era o ritmo de crescimento das emissões de dióxido de carbono (CO2), o principal gás-estufa, durante a década de 90. Essa alta já preocupava os especialistas

0,9 metro em uma década
era a pior previsão de elevação do nível dos oceanos, mas a realidade tem indicado elevação de até 1,5 metro, dependendo da Área

 

 


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Os desafios de uma cidade sem problemas

19/10/2008

O Estado de S. Paulo

Pousos, bairros e até casas verdes. Suecos querem menos CO2 no ar

Bruno Paes Manso

Na sala de controle de vôo do Aeroporto de Arlanda, em Estocolmo, na Suécia, Niclas Härenstam, gerente do LFV Group, empresa que cuida dos terminais no país, mostra na tela do computador a nova tecnologia que permite saber com precisão de segundos o tempo de viagem de uma aeronave desde o momento em que decola até quando chega ao solo.

Sem desastres recentes na aviação local, durante mais de uma hora de apresentação, em nenhum momento ele relaciona os investimentos com a diminuição dos riscos de voar. O tema parece discussão antiga, assim como outros debates tão recorrentes em São Paulo. Em Estocolmo, uma das regiões mais limpas e verdes da Europa, com sete séculos de história e habitantes que recebem em média 3 mil por mês, descobre-se quais são os desafios de uma cidade sem problemas.

Enquanto toma café no meio de outros controladores de vôo, Härenstam se concentra em mostrar como a aeronave que se aproxima de Arlanda, piscando na tela do computador, prepara-se para colocar o motor em ponto morto, a chamada posição idle, para descer na “banguela” e dessa maneira diminuir a emissão de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera.

Desde que as chamadas aterrissagens verdes, inventadas na Suécia, começaram a operar em Arlanda, em janeiro de 2006, deixaram de ser lançadas na atmosfera 900 toneladas de CO2. “As aterrissagens nos aeroportos da Suécia correspondem a menos de 0,001% da emissão de CO2 no mundo. É pouco, mas não importa. Todos devem ser responsáveis por suas emissões”, diz Härenstam.

Longe de se tratar do idealismo pueril de um remanescente da geração hippie, em Estocolmo, assuntos relacionados ao aquecimento global, como uso de combustíveis ambientalmente corretos (ou environmentally friendly), reciclagem de carros, casas que se aquecem com baixo consumo de energia (passive houses), entre outras discussões que em uma cidade como São Paulo ganham ares de utopia, são prioritárias e estranhamente debatidas como questões cotidianas.

“Trabalhamos em Estocolmo o conceito de simbiocity, ou seja, tentamos viver em uma cidade em simbiose com o planeta. E a partir da cidade tentamos pensar em soluções para o desenvolvimento urbanístico sustentável no mundo”, explica o professor Hans Lundberg, do Instituto Sueco de Pesquisas Ambientais.

Com um brinco de argola na orelha esquerda, Erik Freudenthal, um cinquentão que coordena as informações ambientais de Hammarby Sjöstad, a Cidade do Lago, considerada um dos mais importantes exemplos de bairro sustentável no mundo, apresenta os feitos do empreendimento, visitado anualmente por 10 mil estrangeiros.

Com 11 mil unidades residenciais para 25 mil moradores, cada apartamento tem dois quartos e custa cerca de 400 mil. Planejado por especialistas de diferentes áreas de conhecimento, o bairro conta com uma moderna tecnologia voltada para transformar as sobras diárias dos moradores em energia. As sobras de comida, por exemplo, voltam para o solo como fertilizantes.

O mesmo ocorre com o esgoto, em que os componentes sólidos são tratados e se transformam em biogás, combustível limpo que pode encher os tanques dos carros verdes. A façanha faz com que os moradores do bairro tenham um adesivo popular em seus banheiros, que recomenda: “Não faça no escritório, faça em casa.”

Para administrar a cidade, os coordenadores misturam metas rígidas a um certo idealismo tipicamente sueco. Até 2010, por exemplo, 80% dos residentes devem fazer suas jornadas entre a casa e o trabalho de transporte coletivo. O consumo de água diário por habitante deverá ser reduzido a 100 litros por dia (metade da média sueca) e 95% do fósforo da água não aproveitada deverá ser reutilizado na plantação. Freudenthal não resiste e acaba a apresentação com uma citação hippie: “Nós não herdamos as terras de nossos ancestrais. Apenas a emprestamos de nossos filhos e netos. É esse espírito que seguimos.”

 

 


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Quarta-feira, 22 outubro de 2008

Braquiária retém carbono no solo

Pesquisa comprova que pasto bem manejado de ‘Brachiaria decumbens’ pode armazenar até 223 toneladas de carbono

O desafio para a atividade pecuária diminuir as emisssões de gases do efeito estufa ganhou um aliado importante, com a comprovação de que a Brachiaria decumbens tem potencial para seqüestrar CO2 da atmosfera. “Considerando que esse capim ocupa 80 milhões de hectares no País, ou 40% da área total de pasto, é um alento saber desse potencial, porque, para muitos criadores, a emissão de metano na pecuária é inexorável”, diz o pesquisador Ladislau Martin Neto, da Embrapa Instrumentação Agropecuária.

Martin Neto foi o orientador da tese de doutorado Estrutura e Estabilidade da Matéria Orgânica em Áreas com Potencial de Seqüestro de Carbono no Solo, defendida em 2007 por Aline Segnini, do Instituto de Química de São Carlos/USP. “O Brasil tem muitas áreas de pastagens degradadas que podem ser recuperadas e que têm potencial para seqüestrar carbono. O potencial dessas áreas é surpreendente.”

O estudo quantificou o estoque de carbono no solo de quatro áreas com diferentes manejos, utilizando uma área de “cerradão” como referência. A primeira área tinha histórico de 27 anos de pastagens com B. decumbens sem adubação; a segunda não recebeu calcário na superfície, apenas adubação mineral; o terceiro experimento recebeu calcário, adubo e reforço de calcário; e o quarto experimento recebeu apenas calcário, sem adubação. Comparadas as áreas, constatou-se estoque de carbono no solo de 174 toneladas/hectare na área 1; 212 toneladas/hectare na área 2; 215 toneladas/hectare na área 4 e 223 toneladas/hectare na área 3, ante 129 toneladas/hectare na área de cerradão. “Onde o manejo foi mais intensivo, o seqüestro de carbono foi maior”, diz Martin Neto.

Na prática, a contribuição do pecuarista no processo de mitigação do efeito estufa está no manejo do pasto como se fosse uma cultura, fazendo correção de solo e adubação, e adotando pastejo rotacionado e ajustando a lotação animal.

Para o pesquisador Odo Primavesi, da Embrapa Pecuária Sudeste, o seqüestro de carbono no solo será uma realidade quando o manejo evitar a superlotação (maior número de animais/hectare em relação à oferta de forragem) e as queimadas. “A partir daí, o sistema radicular da forrageira será fortalecido; conseqüentemente, a decomposição biológica das raízes mortas e resíduos vegetais não queimados acumulará carbono no solo.”

Segundo Primavesi, o teor de matéria orgânica de uma área de pastagem bem manejada chega a 4%, ante 1,5% em área de lavoura convencional e 2% em plantio direto. Em pastagens, esse teor é maior, até mesmo em relação a áreas de florestas, cujo índice de matéria orgânica não passa de 3,5%. “Quando se adota pastejo rotacionado, com adubação, é grande a chance de acumular de três a dez vezes mais carbono no solo em comparação a um pastejo extensivo.”

 

 


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23/10/2008

Diesel mais limpo será decidido dia 30

BRASÍLIA, 23 de outubro de 2008 - As negociações entre o Ministério do Meio Ambiente, Petrobras e Anfavea, para adoção do combustível com menos enxofre e emissões poluentes máximas de 50 ppm (partes por milhão) a partir de janeiro que vem, devem resultar na aprovação de uma fase adicional para implementação do uso de combustível mais limpo e um ajuste de conduta envolvendo montadoras de carros e as refinarias estatais, informou fonte do governo à Gazeta Mercantil.

Duas linhas de ação vêm sendo discutidas pelo grupo: a primeira prevê a criação de uma nova fase para o Programa de Controle de Emissão por Veículos Automotores (Proconve), a fase P7, que definirá limites mais rigorosos como compensação ao descumprimento da fase P6, marcada para ter início dentro de cerca de 70 dias, em janeiro de 2009. E a outra linha propõe a adoção de sistemas catalisadores para instalação nos próprios veículos, capazes de reduzir as emissões aos níveis fixados para fase P6 (50ppm). Essa linha incluiria, também, a assinatura de um termo de ajustamento de conduta pela Petrobras e Anfavea.
Essa alternativa surgiu da constatação de que a resolução só fixa o limite de emissão e não o padrão do combustível, o que abriria espaço para a disseminação de catalisadores para baixar o nível de poluentes. A Associação Nacional de Veículos Automotores (Anfavea) considerou a alternativa muito cara, inviabilizando a sua adoção, segundo apurado pela reportagem.

A proposta de criação da fase P7, que será votada pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) no próximo dia 30, surgiu como uma alternativa para suplantar a precariedade de implementação da Fase P6 do Proconve, criada pela Resolução 315 do colegiado e que só não corre risco de ser adiada devido a uma ação do Ministério Público paulista.

O gabinete do Meio Ambiente vem conduzindo o processo tendo como princípio a definição de que a resolução não será revogada em nenhuma hipótese, informou a fonte.
Essa definição obrigou a Petrobras a assumir, nos últimos dias, o compromisso com o ministro Carlos Minc (Meio Ambiente) de suprir o mercado com o novo óleo diesel S50, dez vezes menos poluente que o atual (de 500 ppm), por meio de importações. A estatal já admitiu, em caráter restrito, não ser possível ofertar o produto nacional até janeiro nos volumes necessários ao atendimento da frota - embora algumas refinarias já estejam em fase final de adaptação para a produção do S50. O produto importado deverá ficar restrito às regiões metropolitanas.

Segundo a fonte, a fase P7 vai contemplar uma compensação, a ser imposta à indústria automobilística, que prevê a implementação do óleo diesel S10 (cinco vezes menos poluente que o S50) em período mais curto. Reuniões para definir a proposta final vêm sendo realizadas entre os envolvidos durante toda essa semana, em São Paulo, mas não obtiveram consenso no prazo que se esperava, até dia 21, o que obrigou o grupo a estender as negociações por mais alguns dias. (Márcio de Morais - Gazeta Mercantil)

MERCADO DA SUSTENTABILIDADE

29/10/08

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21/10 - 02:29

GM terá 38 carros flex no mundo

PEQUIM, 21 de outubro de 2008 - A General Motors Corp., a maior montadora do mundo, pretende oferecer 38 modelos flex no ano que vem, uma vez que a alta dos preços do petróleo e as preocupações com o meio ambiente estimula a demanda por combustíveis alternativos.
A montadora pretende produzir automóveis flex no mundo inteiro, disse Candace S. Wheeler, pesquisador convidado da GM, em Pequim. O sistema flex permite o uso de uma mistura de etanol ou metanol e gasolina comum em qualquer proporção.
As montadoras aumentaram os investimentos no desenvolvimento de combustíveis alternativos diante do fato de os preços do petróleo terem duplicado nos últimos dois anos, ao mesmo tempo em que os governos tomaram medidas mais rígidas para reduzir as emissões de gases poluentes decorrentes do trânsito. O crescimento da economia e da população tende, além disso, a levar a propriedade mundial de veículos a crescer 22%, para cerca de 1 bilhão de unidades até 2020, segundo a GM.
“A demanda por energia para o transporte tende apenas a subir”, disse Andreas Lippert, diretor mundial de combustíveis da GM. A demanda total mundial por combustíveis deverá saltar 70% de 2004 a 2030, acrescentou.
A produção de automóveis flex na China vai começar assim que houver um abastecimento adequado de etanol, disse David S. Chen, vice-presidente do Grupo China da GM.
A produção de etanol à base de grãos pela China quintuplicou para 500 milhões de toneladas de 2004 a 2008, disse Wes Bolsen, diretor de marketing da Coskata Inc., uma das sócias da GM no desenvolvimento de biocombustíveis. Mesmo assim, a sólida demanda por alimentos vai restringir o crescimento futuro na China, o segundo maior consumidor de combustíveis do mundo, acrescentou ele.
Os automóveis respondem por cerca de 50% do consumo de petróleo na China, o maior mercado de veículos do mundo depois dos Estados Unidos.
A GM, sediada em Detroit, já montou 5 milhões de veículos flex no mundo inteiro, entre os quais 3 milhões para o mercado dos Estados Unidos, disse a montadora. Metade de sua produção total de automóveis será flex até 2012, segundo a empresa. (Bloomberg News - Gazeta Mercantil)

 

 

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Quarta-feira, 22 outubro de 2008

A construção civil sustentável

Entidades do setor de construção e o governo estadual de São Paulo assinaram um protocolo de cooperação técnica e institucional para que obras públicas e empreendimentos particulares sejam realizados com menor impacto ao meio ambiente e pleno respeito à ordem urbana. De acordo com o Protocolo Ambiental da Construção Civil Sustentável, a indústria da construção se compromete a cumprir amplas diretrizes para o uso racional dos recursos naturais, seleção de materiais adequados e reutilização de entulhos, adotando, ainda, procedimentos construtivos menos danosos. O governo, por sua vez, se dispõe a regulamentar e tornar mais ágeis os trâmites de licenciamento ambiental, fornecendo informações aos empreendedores e reduzindo prazos de análise e de aprovação dos projetos. A iniciativa é válida desde que sejam definidos mecanismos de fiscalização que assegurem o cumprimento dos compromissos das duas partes.

Pelo protocolo, os projetos dos empreendimentos deverão detalhar os materiais que serão utilizados, tendo em vista o menor impacto no meio ambiente. Também deverá ser levada em conta na concepção dos espaços e das instalações prediais a flexibilidade para reformas futuras, a transformação do seu uso ou o seu desmonte com o mínimo de danos ao entorno.

Destaca-se no protocolo a necessidade de utilização de energia de fontes renováveis e de produtos e equipamentos com baixo consumo de energia, assim como a adoção de soluções arquitetônicas que favoreçam a iluminação e a ventilação naturais. O documento enfatiza ainda a preservação da vegetação e a adequação dos sistemas de drenagem e movimentação de terra.

Entidades como a Fiesp, o Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon), o Sindicato da Habitação (Secovi), a Associação das Empresas de Loteamento e Desenvolvimento Urbano (Aelo), a Associação Paulista de Empresários de Obras Públicas (Apeop) e a Associação Brasileira de Escritórios de Arquitetura (Asbea)concordaram em zelar para que, daqui por diante, nos empreendimentos sob suas responsabilidades, se armazenem águas pluviais para uso não potável e se utilizem madeiras de reflorestamento ou de origem legal comprovada.

Um dos maiores problemas causados pelas construções urbanas - o do despejo inadequado de entulho - também foi tratado no protocolo. O documento considera que o maior esforço deve ser feito para não gerar esse tipo de resíduo ou para reduzir sua produção, reutilizá-lo, reciclá-lo e dar-lhe destinação adequada.

Nos empreendimentos em que seja inevitável alguma agressão à vegetação, o documento estabelece compensação ambiental: 20% de área verde nos terrenos, arborização urbana, plantio de mudas em canteiros centrais das vias, em praças, rotatórias e calçadas - para todos os empreendimentos.

O governo adotará as mesmas diretrizes nos conjuntos habitacionais e outras obras de sua responsabilidade, além de tornar mais ágeis a análise e a aprovação de novos empreendimentos, por meio da informatização, seja para fornecer dados aos empreendedores, seja para a gestão mais eficaz dos processos que tramitam pelas Secretarias do Meio Ambiente e da Habitação. O protocolo determina que se centralize a coordenação dos pedidos de licenciamento em um único órgão, definindo um fluxograma de tramitação, com regras, critérios, objetivos, responsabilidades e prazos.

Um grupo gestor, formado por representantes do governo e do setor da construção civil, foi criado para acompanhar o cumprimento do protocolo. A iniciativa, pioneira no País, de se harmonizar as atividades da construção com o desenvolvimento urbano e a preservação do ambiente é um avanço importante na direção da melhoria das condições de vida urbana.

Embora a adesão ao protocolo seja voluntária, espera-se que a indústria da construção atenda efetivamente às suas diretrizes e veja nele, mais que um desafio, uma oportunidade de participar com mais empenho da evolução da ordem urbana e da proteção ao meio ambiente.

 

 

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23/10/2008

Saída é a revolução tecnológica verde

23 de outubro de 2008 - O 2 está de volta. Na semana passada os preços de varejo da gasolina nos Estados Unidos recuaram abaixo dos US$ 3 o galão, para uma média de US$ 2,91, o nível mais baixo em quase um ano. Por que será que essa notícia me deixa com confuso?
Porque em meio a essa violenta crise econômica com a taxa de desemprego subindo e o plano 401 (k) [plano de aposentadoria patrocinado pelo empregador] declinando, seria um grande alívio para muitos americanos conseguir uma redução nas bombas de gasolina. Hoje em dia, os preços em queda da gasolina atuam como uma redução de imposto para os consumidores e podem poupar de US$ 15 a US$ 20 no tanque cheio de um utilitário esportivo da família, em comparação com o que acontecia quando a gasolina era vendida a US$ 4,11 o galão em julho.
Sim, é impossível para mim ignorar o fato de que quando a gasolina atingiu US$ 4,11 o galão nós mudamos - muito.
Os americanos passaram a dirigir menos, poluir menos, se exercitar mais , usar mais os transportes públicos e, o mais importante, afogar Detroit com pedidos por carros mais eficientes, híbridos e elétricos. Os setores de energia limpa e de eficiência viram um crescimento recorde - uma das poucas locomotivas que nos restaram de real criação de qualidade no trabalho.
Entretanto com o pouco crédito disponível para novos empreendimentos energéticos e os preços mais baixos do petróleo dificultando a escalada para as fontes renováveis existentes como a energia eólica e a solar, e a fraca economia tornando quase impossível para o Congresso passar um imposto sobre o carvão ou a gasolina que tornaria a energia limpa mais competitiva, o que será de nossa florescente revolução da tecnologia não poluente?
Para mim o momento atual lembra a exibição de um filme B ruim dos anos 80. E sei como esse filme termina - com nossa recaída no vício do petróleo e da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), assim como com a incerteza corrosiva para nossa economia, balança comercial, segurança e meio ambiente.
“Será que a crise econômica irá representar o fim do verde?”, pergunta David Rothkopf, consultor sobre energia e autor do livro “Superclass.” Ou, será o verde o caminho para acabar com a crise econômica?
Precisa ser a segunda alternativa. Não podemos aceitar uma ajuda financeira que não seja também uma alavanca para o verde - alavanca de um novo setor de energia limpa que fortaleça os EUA e ajude o planeta.
Mas como fazer isso sem uma norma que afete os preços da gasolina e do carvão?
Eis algumas idéias: Em primeiro lugar, Washington poderia impor um parâmetro nacional de energia renovável que requisitasse de cada empresa de utilidade pública no país uma produção 20% baseada em fontes energéticas limpas, não emissoras de gases poluentes - fonte eólica, solar, nuclear, de biomassa - até 2025. Cerca de metade dos estados no país já implementou isso, mas são todos programas diferentes. Criaríamos uma gigantesca alavancagem doméstica para a energia renovável se tivéssemos uma norma nacional uniforme.
Em segundo lugar, Washington poderia exigir em termos nacionais que cada estado modificasse suas empresas pública para um sistema de “decoupling-plus.” Esse é o termo técnico para mudar o modo como o setor de infra-estrutura ganha dinheiro - mudando o sistema que o faz ser pago pelo volume de eletricidade ou gás que nos faz consumir e passar a ser pago pela quantidade de eletricidade e gás que nos faz poupar. Vários estados já adotaram o caminho.
Em terceiro lugar, a idéia apresentada por Andy Karsner, ex-secretário-assistente de Energia, seria de modificar o código fiscal de modo que qualquer companhia que investir em nova capacidade de manufatura doméstica visando a tecnologia de energia limpa - ou que procure qualquer sistema de energia limpa ou um meio de poupança energética que seja feito por americanos - possa dar baixa contábil no custo integral do investimento por meio de um crédito fiscal e/ou depreciação acelerada no primeiro ano.
“Falo de tudo, desde janelas de eficiência energética a aquecedores de água para caldeiras industriais e painéis solares, e a geração de empregos e instalações fabris que produzem - qualquer coisa que nos deixe mais eficientes, enxutos e economicamente competitivos, e que seja proveniente de uma fonte americana doméstica”, disse Karsner.
Ele também sugeriu utilizar parte do dinheiro proveniente de qualquer pacote de estímulo para diretamente incentivar e apoiar os esforços dos estados para implementar e modernizar com inteligência seus códigos de construção a fim de obter rapidamente as já nacionalmente estabelecidas “práticas excelentes” em seus mercados.
Por fim, precisamos que o próximo presidente ponha nos trilhos a eficiência energética, começando por reinventar a parada da vitória. Livre-se das limusines negras e dos Chevy Tahoe blindados que cruzam a Pennsylvania Avenue. Ao invés disso, que o próximo presidente anuncie que não usará nenhum veículo nesse dia que ande com menos de 30 milhas por galão. O mandatário poderia convidar todas as empresas de veículos a participar da parada histórica com seus melhores carros fabricados nos EUA , e eficientes.
Para finalizar, se o Congresso aprovar outro pacote de ajuda, que não seja apenas para uma outra rodada de cheques de US$ 600 para comprar televisores de tela plana “made in China.” Também vai precisar incluir pontes que levem a algum lugar - investimentos direcionados para a pesquisa científica, trânsito intenso, manufatura de tecnologia doméstica limpa, e eficiência energética que nos transformem em uma sociedade mais produtiva e inovadora, uma com maior capacidade, competitividade, produtividade e melhor infra-estrutura para conduzir à próxima grande revolução industrial: E.T. — energy technology (tecnologia energética). (Thomas L. Friedman - The New York Times - Gazeta Mercantil)

 

 

 


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Sexta-feira, 24 outubro de 2008

A crise do dinheiro no mundo da mandioca

Washington Novaes
O Estado de São Paulo
Por menos que o mercado financeiro o deseje, a cada dia a crise nos mercados mundiais traz à luz mais discussões sobre o descompasso entre o terreno das finanças, a realidade concreta e os limites do planeta; entre os valores em jogo nesse mercado (fala-se em mais de US$ 500 trilhões) e o valor da produção efetiva (o produto bruto mundial é calculado em cerca de US$ 60 trilhões por ano); entre os formatos de calcular esse produto e as realidades que eles ignoram; entre as possibilidades reais em termos de recursos e serviços naturais e o consumo insustentável, já além desses limites concretos.

Algumas manifestações nas últimas semanas puseram ainda mais em evidência o tema. A começar pela prestigiada revista britânica New Scientist, que dedicou sua capa a uma discussão entre cientistas e estudiosos do “desenvolvimento sustentável”. Ela conclui pela afirmação de que “a ciência nos diz que se for para levarmos a sério a tentativa de salvar o planeta temos de remodelar nossa economia”, já que esta, hoje, busca o “crescimento infinito”, enquanto os recursos naturais são finitos. Uma das opiniões citadas é do respeitado economista Hernan Daly, da Universidade de Maryland e ex-Banco Mundial, segundo quem “a Terra já não está conseguindo sustentar a economia existente, muito menos uma que continue crescendo (…); o mundo caminha para desastres ecológico e econômico (por falta de recursos naturais); é preciso mudar”.

Na mesma direção vai entrevista do professor Paul Singer, da USP e da Secretaria da Economia Solidária do Ministério do Trabalho, a uma publicação da Unisinos, sobre o consumo além da capacidade de reposição planetária (um dos exemplos por ele citados é o da produção de carnes). Ele lembra que em O Mito do Desenvolvimento Econômico (1974) o economista Celso Furtado já comentava a impossibilidade de o mundo todo chegar ao padrão de consumo dos EUA - por falta de recursos e serviços naturais. Também o professor Ricardo Abramovay, da Faculdade de Economia da USP, observa (Valor Econômico, 9/10) que “a maneira de medir a riqueza está ultrapassada”, sem levar em conta vários fatores e ignorando a urgência de “descarbonizar a matriz energética global”, hoje dependente, em 80%, de combustíveis fósseis, e que tem graves conseqüências na área do clima.

Ainda uma vez, é preciso ressaltar neste momento:

A ausência de uma estratégia adequada brasileira diante desse quadro, levando em conta o privilégio de ser um País bem dotado de recursos e serviços naturais, que são exatamente o fator escasso no mundo - como já se escreveu tantas vezes neste espaço.

O contra-senso de quase toda a discussão sobre a crise atual deixar de lado uma evidência: enquanto os governos direcionam trilhões de dólares para salvar instituições financeiras, este ano o movimento da ONU contra a fome só conseguiu 10% dos US$ 22 bilhões de que precisava para enfrentar o problema no mundo - o número de pessoas nessa situação aumentou de 850 milhões para 925 milhões, disse o diretor-geral da Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO), Jacques Diouf. Segundo a FAO, nada menos que 33 países estão em “situação alarmante”, sem produção interna de alimentos suficiente. No Brasil, com uns 30% da população abaixo da linha da pobreza, segundo o Ministério do Desenvolvimento Social, os 20% mais pobres da população gastam 34,5% de sua renda total com alimentos.

Diz ainda a Organização Internacional do Trabalho (OIT) que a atual crise financeira já aumentou em 20 milhões o número de desempregados no mundo, que pela primeira vez passa de 200 milhões - são agora 210 milhões. O contingente de pessoas que vive com menos um dólar por dia subiu de 480 milhões para 520 milhões; com mais 100 milhões de pessoas que têm menos de dois dólares diários, este contingente soma agora 1,4 bilhões de pessoas. E o temor é de que venha a aumentar muito a criminalidade, com a ampliação do desemprego entre jovens.

Diante das incertezas na área dos alimentos e da necessidade de importar trigo, parece estranho o presidente da República vetar projeto, aprovado pelo Congresso Nacional (Estadão Online, 10/10), que exigia a adição de amido de mandioca à farinha de trigo comprada pelo poder público, sob a alegação de que seria difícil comprovar as porcentagens (quando em outras épocas no País toda a farinha de trigo recebeu a mistura). Estranho, em primeiro lugar, porque limita caminhos a um dos principais produtos da agricultura familiar, que responde por 70% do abastecimento interno de alimentos (82% da mandioca, 59% dos suínos, 58,9% do feijão, 55,4% do leite, 47,9% das aves, 43,1% do milho, 41,3% do arroz, 28,4% da soja) e pela quase totalidade dos postos de trabalho na zona rural, onde ainda vivem uns 20% dos brasileiros. Segundo, porque a mandioca é a mais adequada de todas as culturas aos solos brasileiros - não precisa de “corretivos” nem de outros insumos químicos. Quanto não vale isso, quando o valor das commodities de exportação caiu 30% em média (Estado,17/10) este ano, enquanto o preço internacional dos fertilizantes fosfatados subiu de US$ 250 para US$1.230 a tonelada, como lembra o professor Abramovay; o de adubos à base de potássio subiu de US$ 172 para US$ 500; o de nitrogenados, de US$ 277 para US$ 450?

Há quase 20 anos, o cientista Paulo Tarso Alvim sentenciava: “Se a mandioca fosse norte-americana, o mundo todo estaria comendo tapioca flakes e mandioca puffs.” Não terá chegado a hora de rever estratégias, adequar a economia a realidades maiores, antecipar-se a efeitos da crise global, que poderão ser ainda mais danosos - em lugar de dizer, como nos mais altos níveis da República, que “a crise na oferta de alimentos é passageira, não é coisa perigosa.”

AMAZÔNIA

29/10/08

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”Governo não quer desmate no Google”

Afirmação é de indígena de Cacoal cuja tribo é monitorada pelo Google Earth

18/10/2008
O governo está dificultando um acordo de uma tribo da Amazônia com o Google Earth para a divulgação de imagens detalhadas de satélite em seu site sobre o desmatamento da floresta. A acusação é do líder indígena Almir Suruí, que pediu ajuda da empresa para mapear sua terra e protegê-la da devastação.

A iniciativa colocaria ainda mais pressão sobre o governo brasileiro, já que qualquer um no mundo saberá onde a floresta está desaparecendo.
A tribo de Almir fica localizada no município de Cacoal, em Rondônia, e faz parte da Terra Indígena Sete de Setembro. Tanto para a tribo de 1,2 mil habitantes como para o Google, a iniciativa é considerada histórica. O Google Earth é um serviço de imagens de satélite e mapas via internet acessado diariamente por milhões de pessoas.
Algumas imagens já estão no site, mas o Google quer ir além, dar mais detalhes e suprir a internet com imagens praticamente em tempo real sobre o desmatamento. Hoje, as imagens ainda são de baixa resolução. Para dar um passo além, a empresa precisa do sinal verde do governo. Segundo Almir, porém, o governo brasileiro está emperrando um acordo.
Há uma semana, o líder indígena esteve nos EUA em reuniões com os executivos do Google. Os americanos garantiram que têm interesse e tecnologia suficiente para prestar o serviço à tribo.
Em carta enviada pelo governo a Almir, Brasília teria solicitado mais detalhes sobre que tipo de imagens vão ser divulgadas no site. “A Funai nos disse que isso seria resolvido”, afirmou Almir. “O problema é o governo, que não quer as imagens no Google, porque tem medo de que seja um concorrente do Sivam”, atacou o líder.

Autor: Jamil Chade
Fonte: O estado de s. paulo

 

 


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Segunda-feira, 20 outubro de 2008

UE quer barrar madeira ilegal

Nova lei tornaria certificado de origem obrigatório

Jamil Chade, GENEBRA
Uma nova lei européia promete atingir em cheio as exportações brasileiras de madeira. A União Européia (UE) anunciou que quer adotar barreiras para impedir a entrada de madeira ilegal nos países do bloco. Cada importador europeu ou empresas que usam a madeira estrangeira terão de provar que o produto comprado das florestas da Amazônia, África ou Ásia são de origem legal.

Cerca de 20% da madeira que entra no mercado europeu é considerada ilegal, sem certificado de origem. A idéia da proposta - que ainda precisa ser ratificada pelos 27 governos da UE - é pressionar os importadores nos países ricos para que comprem apenas madeira certificada de seus fornecedores nos países emergentes, como o Brasil.

A América Latina tem um quarto das florestas do mundo, mas só 1,6% são certificadas, segundo dados da Organização das Nações Unidas.

A idéia européia é criar um mecanismo de créditos de carbono válido em todo o mundo, cujos recursos seriam usados para apoiar a redução do desmatamento em países emergentes. Até 2020, a Europa espera destinar até US$ 3,3 bilhões aos países que mostrem reduções reais das taxas de devastação. A Noruega já fez um acordo desse tipo com o Brasil: comprometeu-se a doar US$ 1 bilhão para a conservação da Amazônia, desde que o País comprove que está reduzindo o desmatamento.

O novo mecanismo será levado pela UE à conferência sobre mudanças climáticas que a ONU realiza em dezembro, na Polônia. O desmatamento é responsável por 20% das emissões de dióxido de carbono (CO2), o principal gás envolvido no aquecimento global. Com os incentivos financeiros e as barreiras sobre o comércio de madeira, a UE espera cortar pela metade a perda de cobertura florestal até 2020.

 

 

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Quarta-Feira, 22 de Outubro de 2008

Sudeste consome carne originária de área desmatada

Maior parte da produção da Amazônia está sendo usada no abastecimento da região mais rica do País

Herton Escobar
A maior parte da carne produzida em áreas de desmatamento na Amazônia está sendo consumida no Sudeste, segundo um levantamento feito por pesquisadores do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). Os números indicam que apenas 5% da carne produzida na região é exportada. E dos 95% que ficam no País, quase 70% são enviados para o Sudeste. Só 12% viram alimento dentro da própria Amazônia Legal.

A pecuária é o setor produtivo que mais influencia no desmatamento da Amazônia. Cientistas e ambientalistas estimam que mais de 70% das derrubadas florestais são feitas para a abertura de pastagens. Os pesquisadores do Imazon calculam que 253 mil quilômetros quadrados foram ocupados por pastos na Amazônia entre 1990 e 2006 - uma área maior do que o Piauí.

O rebanho da região aumentou 180% no mesmo período, passando de 26 milhões para 73 milhões de cabeças, o equivalente a 36% do total nacional. Entre 2000 e 2005, 27 frigoríficos se instalaram na região.

Enquanto isso, no Sudeste, ocorreu o inverso: a área de pastagem diminuiu 15% e o rebanho encolheu 3% no período 1996-2006, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) compilados no Anuário da Pecuária Brasileira, do Instituto FNP.

Segundo especialistas ouvidos pelo Estado, o aumento das exportações de carne nos últimos anos deixou um “vácuo” de abastecimento no mercado interno, que está sendo suprido, ao menos parcialmente, com carne produzida na Amazônia. As exportações nacionais do setor aumentaram 126% entre 2002 e 2006. “Como o Norte não tem ainda condições de exportar, o Sudeste exporta e a gente preenche a lacuna”, diz o diretor de pesquisa ambiental do Instituto de Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental do Pará (Idesp), Jonas da Veiga.

“A Amazônia abriu espaço para a pecuária crescer com produção barata, caso contrário o preço da carne no mercado interno teria aumentado muito”, avalia o pesquisador Paulo Barreto, que coordenou a pesquisa com dois colegas do Imazon - uma organização não-governamental com sede em Belém (PA). A grande vantagem da região é o preço baixo - ou quase nulo - da terra. “Fazendeiros que se apossam de terras públicas ganham mais do que o normal, pois não compraram a terra nem pagam aluguel pelo seu uso”, escrevem os autores.

O consultor José Vicente Ferraz, do Instituto FNP, vê a expansão da pecuária na Amazônia como um “fenômeno natural” associado ao perfil “nômade” do setor, que está sempre em busca das terras mais baratas para produzir. “Como se costuma dizer, não existe boi barato em cima de terra cara”, diz. “As terras mais baratas hoje estão no Norte e Nordeste. O pecuarista vende 1 hectare aqui (no Sudeste) e compra 10 hectares lá.”

INFLUÊNCIA DA CANA

O crescimento da pecuária no Norte e o encolhimento das pastagens no Sudeste levantam dúvidas sobre a influência indireta da cana-de-açúcar no desmatamento da Amazônia. Dados do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone), em São Paulo, mostram que o aumento da área plantada com cana na região Centro-Sul ocorreu principalmente sobre áreas de pastagem.

No Estado de São Paulo, 72% dos novos canaviais abertos entre 2002 e 2006 foram plantados sobre pastos. A área paulista de cana cresceu 622 mil hectares no período, enquanto a de pastagens encolheu 882 mil hectares. Em Minas, 51% das novas plantações de cana foram em substituição a pasto. No Paraná, o índice foi de 63%, e em Goiás, 90%.

Ainda assim, segundo especialistas, não há indícios de que isso esteja influenciando a pecuária na Amazônia. “O que ocorreu foi que o grosso da expansão do rebanho brasileiro se deu no Norte, mas não foi por pressão da cana no Sudeste. A pecuária na Amazônia tem uma dinâmica própria”, diz a economista Leila Harfuch, pesquisadora do Icone.

“A área de cana em relação à de pecuária é ínfima”, acrescenta Ferraz. Enquanto as pastagens ocupam quase 200 milhões de hectares no País, os canaviais ocupam só 6 milhões. “Há pressão local? Sim, mas não acho que seja um fator relevante na dinâmica da pecuária.”

Barreto, do Imazon, está preocupado. Com o aumento da demanda internacional por biocombustíveis, diz, a tendência é que a briga por espaço entre a pecuária e a cana se intensifique. Ele defende uma regulamentação mais rígida da cadeia produtiva, para garantir que os frigoríficos não comprem carne de áreas desmatadas ilegalmente.

 

 

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Minc e Coutinho formalizam criação do Comitê Orientador

Data: 23/10/2008
Veículo: GAZETA MERCANTIL - SP
Editoria: NACIONAL
Assunto principal: AMAZÔNIA

Rio de Janeiro, O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, e o presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, formalizam amanhã, na sede do banco, a criação do Comitê Orientador do Fundo Amazônia.
Composto por órgãos do governo federal, dos governos dos estados da Amazônia Legal que tenham Planos de Prevenção e Combate ao Desmatamento Ilegal e por representantes da sociedade civil a serem nomeados pelo presidente do BNDES, o comitê terá como principal atribuição aprovar as diretrizes de aplicação de recursos, seu regimento interno e o relatório anual.
Na primeira reunião do comitê, logo após a cerimônia, serão definidas as prioridades de aplicação dos recursos no primeiro ano de operação. As deliberações do comitê deverão ser aprovadas por consenso. De acordo com o BNDES, nessa reunião, será apresentado um relatório do andamento das atividades até agora, a minuta de regimento interno e o cronograma das próximas reuniões.
Segundo a instituição, a população poderá acompanhar pela internet a aplicação dos recursos e o que está sendo feito na Amazônia. O fundo já conta com recursos de US$ 1 bilhão doados pelo governo norueguês - o primeiro doador.
Criado por decreto presidencial, assinado no dia 1o de agosto, o Fundo Amazônia será administrado pelo BNDES, que coordenará a captação de doações e emitirá diplomas reconhecendo a contribuição dos doadores. Os diplomas serão nominais, intransferíveis e não gerarão direito patrimonial ou crédito de carbono para compensações.
A previsão inicial é de que o fundo capte recursos exclusivamente por meio de doações. A captação potencial de recursos, nacionais e estrangeiros, pode ser superior a US$ 21 bilhões até 2021.
Ainda conforme o BNDES, o novo fundo será destinado a financiamentos não-reembolsáveis de ações que possam contribuir para a prevenção, monitoramento e combate ao desmatamento, além de promover a conservação e o uso sustentável das florestas no bioma amazônico.