MERCADO DA SUSTENTABILIDADE
21/10 - 02:29
GM terá 38 carros flex no mundo
PEQUIM, 21 de outubro de 2008 - A General Motors Corp., a maior montadora do mundo, pretende oferecer 38 modelos flex no ano que vem, uma vez que a alta dos preços do petróleo e as preocupações com o meio ambiente estimula a demanda por combustíveis alternativos.
A montadora pretende produzir automóveis flex no mundo inteiro, disse Candace S. Wheeler, pesquisador convidado da GM, em Pequim. O sistema flex permite o uso de uma mistura de etanol ou metanol e gasolina comum em qualquer proporção.
As montadoras aumentaram os investimentos no desenvolvimento de combustíveis alternativos diante do fato de os preços do petróleo terem duplicado nos últimos dois anos, ao mesmo tempo em que os governos tomaram medidas mais rígidas para reduzir as emissões de gases poluentes decorrentes do trânsito. O crescimento da economia e da população tende, além disso, a levar a propriedade mundial de veículos a crescer 22%, para cerca de 1 bilhão de unidades até 2020, segundo a GM.
“A demanda por energia para o transporte tende apenas a subir”, disse Andreas Lippert, diretor mundial de combustíveis da GM. A demanda total mundial por combustíveis deverá saltar 70% de 2004 a 2030, acrescentou.
A produção de automóveis flex na China vai começar assim que houver um abastecimento adequado de etanol, disse David S. Chen, vice-presidente do Grupo China da GM.
A produção de etanol à base de grãos pela China quintuplicou para 500 milhões de toneladas de 2004 a 2008, disse Wes Bolsen, diretor de marketing da Coskata Inc., uma das sócias da GM no desenvolvimento de biocombustíveis. Mesmo assim, a sólida demanda por alimentos vai restringir o crescimento futuro na China, o segundo maior consumidor de combustíveis do mundo, acrescentou ele.
Os automóveis respondem por cerca de 50% do consumo de petróleo na China, o maior mercado de veículos do mundo depois dos Estados Unidos.
A GM, sediada em Detroit, já montou 5 milhões de veículos flex no mundo inteiro, entre os quais 3 milhões para o mercado dos Estados Unidos, disse a montadora. Metade de sua produção total de automóveis será flex até 2012, segundo a empresa. (Bloomberg News - Gazeta Mercantil)
Quarta-feira, 22 outubro de 2008
A construção civil sustentável
Entidades do setor de construção e o governo estadual de São Paulo assinaram um protocolo de cooperação técnica e institucional para que obras públicas e empreendimentos particulares sejam realizados com menor impacto ao meio ambiente e pleno respeito à ordem urbana. De acordo com o Protocolo Ambiental da Construção Civil Sustentável, a indústria da construção se compromete a cumprir amplas diretrizes para o uso racional dos recursos naturais, seleção de materiais adequados e reutilização de entulhos, adotando, ainda, procedimentos construtivos menos danosos. O governo, por sua vez, se dispõe a regulamentar e tornar mais ágeis os trâmites de licenciamento ambiental, fornecendo informações aos empreendedores e reduzindo prazos de análise e de aprovação dos projetos. A iniciativa é válida desde que sejam definidos mecanismos de fiscalização que assegurem o cumprimento dos compromissos das duas partes.
Pelo protocolo, os projetos dos empreendimentos deverão detalhar os materiais que serão utilizados, tendo em vista o menor impacto no meio ambiente. Também deverá ser levada em conta na concepção dos espaços e das instalações prediais a flexibilidade para reformas futuras, a transformação do seu uso ou o seu desmonte com o mínimo de danos ao entorno.
Destaca-se no protocolo a necessidade de utilização de energia de fontes renováveis e de produtos e equipamentos com baixo consumo de energia, assim como a adoção de soluções arquitetônicas que favoreçam a iluminação e a ventilação naturais. O documento enfatiza ainda a preservação da vegetação e a adequação dos sistemas de drenagem e movimentação de terra.
Entidades como a Fiesp, o Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon), o Sindicato da Habitação (Secovi), a Associação das Empresas de Loteamento e Desenvolvimento Urbano (Aelo), a Associação Paulista de Empresários de Obras Públicas (Apeop) e a Associação Brasileira de Escritórios de Arquitetura (Asbea)concordaram em zelar para que, daqui por diante, nos empreendimentos sob suas responsabilidades, se armazenem águas pluviais para uso não potável e se utilizem madeiras de reflorestamento ou de origem legal comprovada.
Um dos maiores problemas causados pelas construções urbanas - o do despejo inadequado de entulho - também foi tratado no protocolo. O documento considera que o maior esforço deve ser feito para não gerar esse tipo de resíduo ou para reduzir sua produção, reutilizá-lo, reciclá-lo e dar-lhe destinação adequada.
Nos empreendimentos em que seja inevitável alguma agressão à vegetação, o documento estabelece compensação ambiental: 20% de área verde nos terrenos, arborização urbana, plantio de mudas em canteiros centrais das vias, em praças, rotatórias e calçadas - para todos os empreendimentos.
O governo adotará as mesmas diretrizes nos conjuntos habitacionais e outras obras de sua responsabilidade, além de tornar mais ágeis a análise e a aprovação de novos empreendimentos, por meio da informatização, seja para fornecer dados aos empreendedores, seja para a gestão mais eficaz dos processos que tramitam pelas Secretarias do Meio Ambiente e da Habitação. O protocolo determina que se centralize a coordenação dos pedidos de licenciamento em um único órgão, definindo um fluxograma de tramitação, com regras, critérios, objetivos, responsabilidades e prazos.
Um grupo gestor, formado por representantes do governo e do setor da construção civil, foi criado para acompanhar o cumprimento do protocolo. A iniciativa, pioneira no País, de se harmonizar as atividades da construção com o desenvolvimento urbano e a preservação do ambiente é um avanço importante na direção da melhoria das condições de vida urbana.
Embora a adesão ao protocolo seja voluntária, espera-se que a indústria da construção atenda efetivamente às suas diretrizes e veja nele, mais que um desafio, uma oportunidade de participar com mais empenho da evolução da ordem urbana e da proteção ao meio ambiente.
23/10/2008
Saída é a revolução tecnológica verde
23 de outubro de 2008 - O 2 está de volta. Na semana passada os preços de varejo da gasolina nos Estados Unidos recuaram abaixo dos US$ 3 o galão, para uma média de US$ 2,91, o nível mais baixo em quase um ano. Por que será que essa notícia me deixa com confuso?
Porque em meio a essa violenta crise econômica com a taxa de desemprego subindo e o plano 401 (k) [plano de aposentadoria patrocinado pelo empregador] declinando, seria um grande alívio para muitos americanos conseguir uma redução nas bombas de gasolina. Hoje em dia, os preços em queda da gasolina atuam como uma redução de imposto para os consumidores e podem poupar de US$ 15 a US$ 20 no tanque cheio de um utilitário esportivo da família, em comparação com o que acontecia quando a gasolina era vendida a US$ 4,11 o galão em julho.
Sim, é impossível para mim ignorar o fato de que quando a gasolina atingiu US$ 4,11 o galão nós mudamos - muito.
Os americanos passaram a dirigir menos, poluir menos, se exercitar mais , usar mais os transportes públicos e, o mais importante, afogar Detroit com pedidos por carros mais eficientes, híbridos e elétricos. Os setores de energia limpa e de eficiência viram um crescimento recorde - uma das poucas locomotivas que nos restaram de real criação de qualidade no trabalho.
Entretanto com o pouco crédito disponível para novos empreendimentos energéticos e os preços mais baixos do petróleo dificultando a escalada para as fontes renováveis existentes como a energia eólica e a solar, e a fraca economia tornando quase impossível para o Congresso passar um imposto sobre o carvão ou a gasolina que tornaria a energia limpa mais competitiva, o que será de nossa florescente revolução da tecnologia não poluente?
Para mim o momento atual lembra a exibição de um filme B ruim dos anos 80. E sei como esse filme termina - com nossa recaída no vício do petróleo e da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), assim como com a incerteza corrosiva para nossa economia, balança comercial, segurança e meio ambiente.
“Será que a crise econômica irá representar o fim do verde?”, pergunta David Rothkopf, consultor sobre energia e autor do livro “Superclass.” Ou, será o verde o caminho para acabar com a crise econômica?
Precisa ser a segunda alternativa. Não podemos aceitar uma ajuda financeira que não seja também uma alavanca para o verde - alavanca de um novo setor de energia limpa que fortaleça os EUA e ajude o planeta.
Mas como fazer isso sem uma norma que afete os preços da gasolina e do carvão?
Eis algumas idéias: Em primeiro lugar, Washington poderia impor um parâmetro nacional de energia renovável que requisitasse de cada empresa de utilidade pública no país uma produção 20% baseada em fontes energéticas limpas, não emissoras de gases poluentes - fonte eólica, solar, nuclear, de biomassa - até 2025. Cerca de metade dos estados no país já implementou isso, mas são todos programas diferentes. Criaríamos uma gigantesca alavancagem doméstica para a energia renovável se tivéssemos uma norma nacional uniforme.
Em segundo lugar, Washington poderia exigir em termos nacionais que cada estado modificasse suas empresas pública para um sistema de “decoupling-plus.” Esse é o termo técnico para mudar o modo como o setor de infra-estrutura ganha dinheiro - mudando o sistema que o faz ser pago pelo volume de eletricidade ou gás que nos faz consumir e passar a ser pago pela quantidade de eletricidade e gás que nos faz poupar. Vários estados já adotaram o caminho.
Em terceiro lugar, a idéia apresentada por Andy Karsner, ex-secretário-assistente de Energia, seria de modificar o código fiscal de modo que qualquer companhia que investir em nova capacidade de manufatura doméstica visando a tecnologia de energia limpa - ou que procure qualquer sistema de energia limpa ou um meio de poupança energética que seja feito por americanos - possa dar baixa contábil no custo integral do investimento por meio de um crédito fiscal e/ou depreciação acelerada no primeiro ano.
“Falo de tudo, desde janelas de eficiência energética a aquecedores de água para caldeiras industriais e painéis solares, e a geração de empregos e instalações fabris que produzem - qualquer coisa que nos deixe mais eficientes, enxutos e economicamente competitivos, e que seja proveniente de uma fonte americana doméstica”, disse Karsner.
Ele também sugeriu utilizar parte do dinheiro proveniente de qualquer pacote de estímulo para diretamente incentivar e apoiar os esforços dos estados para implementar e modernizar com inteligência seus códigos de construção a fim de obter rapidamente as já nacionalmente estabelecidas “práticas excelentes” em seus mercados.
Por fim, precisamos que o próximo presidente ponha nos trilhos a eficiência energética, começando por reinventar a parada da vitória. Livre-se das limusines negras e dos Chevy Tahoe blindados que cruzam a Pennsylvania Avenue. Ao invés disso, que o próximo presidente anuncie que não usará nenhum veículo nesse dia que ande com menos de 30 milhas por galão. O mandatário poderia convidar todas as empresas de veículos a participar da parada histórica com seus melhores carros fabricados nos EUA , e eficientes.
Para finalizar, se o Congresso aprovar outro pacote de ajuda, que não seja apenas para uma outra rodada de cheques de US$ 600 para comprar televisores de tela plana “made in China.” Também vai precisar incluir pontes que levem a algum lugar - investimentos direcionados para a pesquisa científica, trânsito intenso, manufatura de tecnologia doméstica limpa, e eficiência energética que nos transformem em uma sociedade mais produtiva e inovadora, uma com maior capacidade, competitividade, produtividade e melhor infra-estrutura para conduzir à próxima grande revolução industrial: E.T. — energy technology (tecnologia energética). (Thomas L. Friedman - The New York Times - Gazeta Mercantil)
Sexta-feira, 24 outubro de 2008
A crise do dinheiro no mundo da mandioca
Washington Novaes
O Estado de São Paulo
Por menos que o mercado financeiro o deseje, a cada dia a crise nos mercados mundiais traz à luz mais discussões sobre o descompasso entre o terreno das finanças, a realidade concreta e os limites do planeta; entre os valores em jogo nesse mercado (fala-se em mais de US$ 500 trilhões) e o valor da produção efetiva (o produto bruto mundial é calculado em cerca de US$ 60 trilhões por ano); entre os formatos de calcular esse produto e as realidades que eles ignoram; entre as possibilidades reais em termos de recursos e serviços naturais e o consumo insustentável, já além desses limites concretos.
Algumas manifestações nas últimas semanas puseram ainda mais em evidência o tema. A começar pela prestigiada revista britânica New Scientist, que dedicou sua capa a uma discussão entre cientistas e estudiosos do “desenvolvimento sustentável”. Ela conclui pela afirmação de que “a ciência nos diz que se for para levarmos a sério a tentativa de salvar o planeta temos de remodelar nossa economia”, já que esta, hoje, busca o “crescimento infinito”, enquanto os recursos naturais são finitos. Uma das opiniões citadas é do respeitado economista Hernan Daly, da Universidade de Maryland e ex-Banco Mundial, segundo quem “a Terra já não está conseguindo sustentar a economia existente, muito menos uma que continue crescendo (…); o mundo caminha para desastres ecológico e econômico (por falta de recursos naturais); é preciso mudar”.
Na mesma direção vai entrevista do professor Paul Singer, da USP e da Secretaria da Economia Solidária do Ministério do Trabalho, a uma publicação da Unisinos, sobre o consumo além da capacidade de reposição planetária (um dos exemplos por ele citados é o da produção de carnes). Ele lembra que em O Mito do Desenvolvimento Econômico (1974) o economista Celso Furtado já comentava a impossibilidade de o mundo todo chegar ao padrão de consumo dos EUA - por falta de recursos e serviços naturais. Também o professor Ricardo Abramovay, da Faculdade de Economia da USP, observa (Valor Econômico, 9/10) que “a maneira de medir a riqueza está ultrapassada”, sem levar em conta vários fatores e ignorando a urgência de “descarbonizar a matriz energética global”, hoje dependente, em 80%, de combustíveis fósseis, e que tem graves conseqüências na área do clima.
Ainda uma vez, é preciso ressaltar neste momento:
A ausência de uma estratégia adequada brasileira diante desse quadro, levando em conta o privilégio de ser um País bem dotado de recursos e serviços naturais, que são exatamente o fator escasso no mundo - como já se escreveu tantas vezes neste espaço.
O contra-senso de quase toda a discussão sobre a crise atual deixar de lado uma evidência: enquanto os governos direcionam trilhões de dólares para salvar instituições financeiras, este ano o movimento da ONU contra a fome só conseguiu 10% dos US$ 22 bilhões de que precisava para enfrentar o problema no mundo - o número de pessoas nessa situação aumentou de 850 milhões para 925 milhões, disse o diretor-geral da Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO), Jacques Diouf. Segundo a FAO, nada menos que 33 países estão em “situação alarmante”, sem produção interna de alimentos suficiente. No Brasil, com uns 30% da população abaixo da linha da pobreza, segundo o Ministério do Desenvolvimento Social, os 20% mais pobres da população gastam 34,5% de sua renda total com alimentos.
Diz ainda a Organização Internacional do Trabalho (OIT) que a atual crise financeira já aumentou em 20 milhões o número de desempregados no mundo, que pela primeira vez passa de 200 milhões - são agora 210 milhões. O contingente de pessoas que vive com menos um dólar por dia subiu de 480 milhões para 520 milhões; com mais 100 milhões de pessoas que têm menos de dois dólares diários, este contingente soma agora 1,4 bilhões de pessoas. E o temor é de que venha a aumentar muito a criminalidade, com a ampliação do desemprego entre jovens.
Diante das incertezas na área dos alimentos e da necessidade de importar trigo, parece estranho o presidente da República vetar projeto, aprovado pelo Congresso Nacional (Estadão Online, 10/10), que exigia a adição de amido de mandioca à farinha de trigo comprada pelo poder público, sob a alegação de que seria difícil comprovar as porcentagens (quando em outras épocas no País toda a farinha de trigo recebeu a mistura). Estranho, em primeiro lugar, porque limita caminhos a um dos principais produtos da agricultura familiar, que responde por 70% do abastecimento interno de alimentos (82% da mandioca, 59% dos suínos, 58,9% do feijão, 55,4% do leite, 47,9% das aves, 43,1% do milho, 41,3% do arroz, 28,4% da soja) e pela quase totalidade dos postos de trabalho na zona rural, onde ainda vivem uns 20% dos brasileiros. Segundo, porque a mandioca é a mais adequada de todas as culturas aos solos brasileiros - não precisa de “corretivos” nem de outros insumos químicos. Quanto não vale isso, quando o valor das commodities de exportação caiu 30% em média (Estado,17/10) este ano, enquanto o preço internacional dos fertilizantes fosfatados subiu de US$ 250 para US$1.230 a tonelada, como lembra o professor Abramovay; o de adubos à base de potássio subiu de US$ 172 para US$ 500; o de nitrogenados, de US$ 277 para US$ 450?
Há quase 20 anos, o cientista Paulo Tarso Alvim sentenciava: “Se a mandioca fosse norte-americana, o mundo todo estaria comendo tapioca flakes e mandioca puffs.” Não terá chegado a hora de rever estratégias, adequar a economia a realidades maiores, antecipar-se a efeitos da crise global, que poderão ser ainda mais danosos - em lugar de dizer, como nos mais altos níveis da República, que “a crise na oferta de alimentos é passageira, não é coisa perigosa.”
