MUDANÇAS CLIMÁTICAS
Quarta-Feira, 22 de Outubro de 2008
Emissão de CO2 nos últimos 7 anos supera piores estimativas
Cenário pessimista era de alta de 2,7% ao ano, mas desde 2000 é de 3,5%
Jamil Chade, GENEBRA
As emissões de CO2, o principal gás do efeito estufa, atingiram níveis mais preocupantes que os piores cenários anunciados pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). Dados coletados pelo Programa da ONU para o Meio Ambiente (Pnuma) alertam que as emissões estão acima das taxas imaginadas e que a elevação dos oceanos é superior ao que os especialistas previam.No ano passado, o IPCC lançou uma série de relatórios em que deixa claro que as mudanças climáticas são reais e que o mundo terá de tomar medidas para frear a tendência. Para avaliar o risco ambiental, o painel desenhou diferentes cenários.
O pior deles indicava que haveria um aumento das emissões de CO2 na atmosfera a uma taxa de 2,7% ao ano na última década. “O problema é que estamos vendo, desde 2000, um crescimento nas emissões de 3,5% ao ano, apesar de todo o esforço internacional”, alerta Sylvie Lemmet, diretora do Departamento Econômico do Pnuma. Nos anos 1990, o aumento das emissões era de 1% ao ano e mesmo assim já preocupava os cientistas.
Outro cenário alarmante é o de elevação dos oceanos, causada pelo aumento da temperatura nos pólos. No pior dos cenários, os oceanos subiriam no máximo 0,9 metro em uma década.Os novos números apontam que a elevação dos oceanos variou entre 0,8 e 1,5 metro.
Outra constatação é a de que a perda de cobertura de gelo nos pólos é duas vezes maior na atual década do que nos anos 1990, e quatro vezes maior que os registros de 1980. Em 2030, se esse ritmo for mantido, 300 milhões de pessoas podem ser afetadas diretamente e obrigadas a abandonar suas cidades.
As Nações Unidas pedem que, apesar da crise financeira, governos e empresas não abandonem suas metas e programas ambientais. “As emissões estão acelerando. O paciente, que é a Terra, não está se recuperando”, afirma Sylvie. Países ricos enfrentam a resistência cada vez maior de seu setor privado. Eles alegam que a atual crise financeira tornará inviável pagar pelas mudanças tecnológicas que o novo modelo ambiental exige.
“Muitas empresas estão cortando dinheiro de filantropia. Mas esperamos que as atividades principais no setor de ambiente sejam mantidas”, disse Georg Kell, que coordena um grupo de empresas em todo o mundo, entre elas a Copagaz no Brasil, que se comprometeram a adotar políticas ambientais.
NÚMEROS
1% ao ano
era o ritmo de crescimento das emissões de dióxido de carbono (CO2), o principal gás-estufa, durante a década de 90. Essa alta já preocupava os especialistas
0,9 metro em uma década
era a pior previsão de elevação do nível dos oceanos, mas a realidade tem indicado elevação de até 1,5 metro, dependendo da Área
Os desafios de uma cidade sem problemas
19/10/2008
O Estado de S. Paulo
Pousos, bairros e até casas verdes. Suecos querem menos CO2 no ar
Bruno Paes Manso
Na sala de controle de vôo do Aeroporto de Arlanda, em Estocolmo, na Suécia, Niclas Härenstam, gerente do LFV Group, empresa que cuida dos terminais no país, mostra na tela do computador a nova tecnologia que permite saber com precisão de segundos o tempo de viagem de uma aeronave desde o momento em que decola até quando chega ao solo.
Sem desastres recentes na aviação local, durante mais de uma hora de apresentação, em nenhum momento ele relaciona os investimentos com a diminuição dos riscos de voar. O tema parece discussão antiga, assim como outros debates tão recorrentes em São Paulo. Em Estocolmo, uma das regiões mais limpas e verdes da Europa, com sete séculos de história e habitantes que recebem em média 3 mil por mês, descobre-se quais são os desafios de uma cidade sem problemas.
Enquanto toma café no meio de outros controladores de vôo, Härenstam se concentra em mostrar como a aeronave que se aproxima de Arlanda, piscando na tela do computador, prepara-se para colocar o motor em ponto morto, a chamada posição idle, para descer na “banguela” e dessa maneira diminuir a emissão de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera.
Desde que as chamadas aterrissagens verdes, inventadas na Suécia, começaram a operar em Arlanda, em janeiro de 2006, deixaram de ser lançadas na atmosfera 900 toneladas de CO2. “As aterrissagens nos aeroportos da Suécia correspondem a menos de 0,001% da emissão de CO2 no mundo. É pouco, mas não importa. Todos devem ser responsáveis por suas emissões”, diz Härenstam.
Longe de se tratar do idealismo pueril de um remanescente da geração hippie, em Estocolmo, assuntos relacionados ao aquecimento global, como uso de combustíveis ambientalmente corretos (ou environmentally friendly), reciclagem de carros, casas que se aquecem com baixo consumo de energia (passive houses), entre outras discussões que em uma cidade como São Paulo ganham ares de utopia, são prioritárias e estranhamente debatidas como questões cotidianas.
“Trabalhamos em Estocolmo o conceito de simbiocity, ou seja, tentamos viver em uma cidade em simbiose com o planeta. E a partir da cidade tentamos pensar em soluções para o desenvolvimento urbanístico sustentável no mundo”, explica o professor Hans Lundberg, do Instituto Sueco de Pesquisas Ambientais.
Com um brinco de argola na orelha esquerda, Erik Freudenthal, um cinquentão que coordena as informações ambientais de Hammarby Sjöstad, a Cidade do Lago, considerada um dos mais importantes exemplos de bairro sustentável no mundo, apresenta os feitos do empreendimento, visitado anualmente por 10 mil estrangeiros.
Com 11 mil unidades residenciais para 25 mil moradores, cada apartamento tem dois quartos e custa cerca de 400 mil. Planejado por especialistas de diferentes áreas de conhecimento, o bairro conta com uma moderna tecnologia voltada para transformar as sobras diárias dos moradores em energia. As sobras de comida, por exemplo, voltam para o solo como fertilizantes.
O mesmo ocorre com o esgoto, em que os componentes sólidos são tratados e se transformam em biogás, combustível limpo que pode encher os tanques dos carros verdes. A façanha faz com que os moradores do bairro tenham um adesivo popular em seus banheiros, que recomenda: “Não faça no escritório, faça em casa.”
Para administrar a cidade, os coordenadores misturam metas rígidas a um certo idealismo tipicamente sueco. Até 2010, por exemplo, 80% dos residentes devem fazer suas jornadas entre a casa e o trabalho de transporte coletivo. O consumo de água diário por habitante deverá ser reduzido a 100 litros por dia (metade da média sueca) e 95% do fósforo da água não aproveitada deverá ser reutilizado na plantação. Freudenthal não resiste e acaba a apresentação com uma citação hippie: “Nós não herdamos as terras de nossos ancestrais. Apenas a emprestamos de nossos filhos e netos. É esse espírito que seguimos.”
Quarta-feira, 22 outubro de 2008
Braquiária retém carbono no solo
Pesquisa comprova que pasto bem manejado de ‘Brachiaria decumbens’ pode armazenar até 223 toneladas de carbono
O desafio para a atividade pecuária diminuir as emisssões de gases do efeito estufa ganhou um aliado importante, com a comprovação de que a Brachiaria decumbens tem potencial para seqüestrar CO2 da atmosfera. “Considerando que esse capim ocupa 80 milhões de hectares no País, ou 40% da área total de pasto, é um alento saber desse potencial, porque, para muitos criadores, a emissão de metano na pecuária é inexorável”, diz o pesquisador Ladislau Martin Neto, da Embrapa Instrumentação Agropecuária.
Martin Neto foi o orientador da tese de doutorado Estrutura e Estabilidade da Matéria Orgânica em Áreas com Potencial de Seqüestro de Carbono no Solo, defendida em 2007 por Aline Segnini, do Instituto de Química de São Carlos/USP. “O Brasil tem muitas áreas de pastagens degradadas que podem ser recuperadas e que têm potencial para seqüestrar carbono. O potencial dessas áreas é surpreendente.”
O estudo quantificou o estoque de carbono no solo de quatro áreas com diferentes manejos, utilizando uma área de “cerradão” como referência. A primeira área tinha histórico de 27 anos de pastagens com B. decumbens sem adubação; a segunda não recebeu calcário na superfície, apenas adubação mineral; o terceiro experimento recebeu calcário, adubo e reforço de calcário; e o quarto experimento recebeu apenas calcário, sem adubação. Comparadas as áreas, constatou-se estoque de carbono no solo de 174 toneladas/hectare na área 1; 212 toneladas/hectare na área 2; 215 toneladas/hectare na área 4 e 223 toneladas/hectare na área 3, ante 129 toneladas/hectare na área de cerradão. “Onde o manejo foi mais intensivo, o seqüestro de carbono foi maior”, diz Martin Neto.
Na prática, a contribuição do pecuarista no processo de mitigação do efeito estufa está no manejo do pasto como se fosse uma cultura, fazendo correção de solo e adubação, e adotando pastejo rotacionado e ajustando a lotação animal.
Para o pesquisador Odo Primavesi, da Embrapa Pecuária Sudeste, o seqüestro de carbono no solo será uma realidade quando o manejo evitar a superlotação (maior número de animais/hectare em relação à oferta de forragem) e as queimadas. “A partir daí, o sistema radicular da forrageira será fortalecido; conseqüentemente, a decomposição biológica das raízes mortas e resíduos vegetais não queimados acumulará carbono no solo.”
Segundo Primavesi, o teor de matéria orgânica de uma área de pastagem bem manejada chega a 4%, ante 1,5% em área de lavoura convencional e 2% em plantio direto. Em pastagens, esse teor é maior, até mesmo em relação a áreas de florestas, cujo índice de matéria orgânica não passa de 3,5%. “Quando se adota pastejo rotacionado, com adubação, é grande a chance de acumular de três a dez vezes mais carbono no solo em comparação a um pastejo extensivo.”
23/10/2008
Diesel mais limpo será decidido dia 30
BRASÍLIA, 23 de outubro de 2008 – As negociações entre o Ministério do Meio Ambiente, Petrobras e Anfavea, para adoção do combustível com menos enxofre e emissões poluentes máximas de 50 ppm (partes por milhão) a partir de janeiro que vem, devem resultar na aprovação de uma fase adicional para implementação do uso de combustível mais limpo e um ajuste de conduta envolvendo montadoras de carros e as refinarias estatais, informou fonte do governo à Gazeta Mercantil.
Duas linhas de ação vêm sendo discutidas pelo grupo: a primeira prevê a criação de uma nova fase para o Programa de Controle de Emissão por Veículos Automotores (Proconve), a fase P7, que definirá limites mais rigorosos como compensação ao descumprimento da fase P6, marcada para ter início dentro de cerca de 70 dias, em janeiro de 2009. E a outra linha propõe a adoção de sistemas catalisadores para instalação nos próprios veículos, capazes de reduzir as emissões aos níveis fixados para fase P6 (50ppm). Essa linha incluiria, também, a assinatura de um termo de ajustamento de conduta pela Petrobras e Anfavea.
Essa alternativa surgiu da constatação de que a resolução só fixa o limite de emissão e não o padrão do combustível, o que abriria espaço para a disseminação de catalisadores para baixar o nível de poluentes. A Associação Nacional de Veículos Automotores (Anfavea) considerou a alternativa muito cara, inviabilizando a sua adoção, segundo apurado pela reportagem.
A proposta de criação da fase P7, que será votada pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) no próximo dia 30, surgiu como uma alternativa para suplantar a precariedade de implementação da Fase P6 do Proconve, criada pela Resolução 315 do colegiado e que só não corre risco de ser adiada devido a uma ação do Ministério Público paulista.
O gabinete do Meio Ambiente vem conduzindo o processo tendo como princípio a definição de que a resolução não será revogada em nenhuma hipótese, informou a fonte.
Essa definição obrigou a Petrobras a assumir, nos últimos dias, o compromisso com o ministro Carlos Minc (Meio Ambiente) de suprir o mercado com o novo óleo diesel S50, dez vezes menos poluente que o atual (de 500 ppm), por meio de importações. A estatal já admitiu, em caráter restrito, não ser possível ofertar o produto nacional até janeiro nos volumes necessários ao atendimento da frota – embora algumas refinarias já estejam em fase final de adaptação para a produção do S50. O produto importado deverá ficar restrito às regiões metropolitanas.
Segundo a fonte, a fase P7 vai contemplar uma compensação, a ser imposta à indústria automobilística, que prevê a implementação do óleo diesel S10 (cinco vezes menos poluente que o S50) em período mais curto. Reuniões para definir a proposta final vêm sendo realizadas entre os envolvidos durante toda essa semana, em São Paulo, mas não obtiveram consenso no prazo que se esperava, até dia 21, o que obrigou o grupo a estender as negociações por mais alguns dias. (Márcio de Morais – Gazeta Mercantil)
