Sustentabilidade na prática: os líderes desta mudança
14/10/08Por Marcos Redondo
Já comentamos aqui que a mudança para implantar a Sustentabilidade nas empresas, na prática, começa pelos acionistas e investidores. É através do exercício da reflexão e visão sobre as oportunidades deste novo mercado, e também sobre as ameaças de uma mudança tardia, é que irão colocar uma empresa rumo à Sustentabilidade.
E o que vem depois? Antes da definição da estratégia e do planejamento da implantação, temos um passo fundamental: a escolha da Liderança.
Mudanças rumo à Sustentabilidade implicam antes de tudo em quebrar paradigmas, deixar de lado as velhas crenças, abandonar a forma que até hoje fizemos e abstrair para um novo mercado, para as oportunidades que virão. É como pensar em inovação, em “oceanos azuis”, em ampliar limites e criar novos mercados, pensar menos nos números do presente e mais nas tendências futuras, sem perder o foco na eficácia da geração de caixa operacional.
As novas gerações de executivos com certeza estarão mais bem preparadas para o novo modelo sustentável de condizir empresas. Elas serão formadas dentro de um novo contexto empresarial, onde ativos financeiros são tão importantes quanto ativos sociais e ambientais e a geração do lucro máximo decorre do alcance de um ponto de equilíbrio, chamado Sustentabilidade. É onde o lucro converge com o bem comum.
Mas, enquanto a nova geração se forma, hoje em dia, diria que o sucesso da implantação da Sustentabilidade nas empresas depende fundamentalmente da escolha de uma Liderança visionária, dedicada, ética, acostumada e disposta a mudanças profundas, apoiada em valores internos sólidos e alinhados com esta nova visão de futuro.Falaremos nas próximas edições sobre estratégia e planejamento.
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Sexta-feira, 10 outubro de 2008
A hora de refazer todas as contas
Washington Novaes
Nos mesmos dias em que o mundo acompanhava, perplexo, o farto noticiário sobre as tentativas de conseguir no Congresso norte-americano a aprovação de um plano de US$ 700 bilhões para conter a crise financeira que já se espalhava por todos os continentes, a comunicação praticamente não deu nenhuma importância à notícia, divulgada pela ONG canadense Global Foot Print Network, de que no dia 23 de setembro a humanidade ultrapassara, este ano, o consumo de todos os recursos que o planeta pode produzir ao longo de 365 dias. A partir daí, ocorre um consumo de recursos e serviços naturais além do que a biosfera terrestre pode repor – um sobreconsumo que agravará a crise, pois aumentará a desertificação e a chamada crise da água, produzirá maior perda de florestas tropicais, gerará a emissão de mais poluentes que contribuirão para mudanças climáticas, etc.
Esse consumo excessivo, que começou a ser avaliado pela ONG em 1986, uma década mais tarde já superava em 15% a capacidade de reposição; em 2007, estava em torno de 25% e ocorreu a partir de 6 de outubro; este ano, a partir de 23 de setembro. É um sistema de avaliação semelhante ao utilizado no Relatório do Planeta Vivo, do WWF. Este, em 2006, já dizia que esse impacto – a “pegada ecológica da humanidade” – mais do que triplicara desde 1961 e já superava a capacidade de reposição em 25%.
Certamente é uma crise mais grave ainda que a financeira, mas que continua a ser minimizada, quando não ignorada. Segue-se tratando da atual crise financeira apenas em termos de quanto afetará ou não o produto bruto mundial e o produto bruto de cada país, inclusive do Brasil, sem preocupação com o quadro de realidade concreta que nos cerca. Como se a crise se pudesse resolver apenas em termos de crescimento econômico. E vale a pena relembrar, nesse ponto, o pensamento, já mencionado neste espaço, do biólogo Edward Wilson, apontado como o cientista que mais entende de biodiversidade. Tenta-se, diz ele, acreditar que a solução para os dramas do mundo estará no crescimento econômico puro e simples. Então, pode-se partir da hipótese de que a economia mundial vá crescer 3,5% ao ano – um crescimento modesto, já que se almeja 5% ou 6%, até 10% ao ano, como na China. Se ela crescer 3,5% ao ano, partindo do atual produto global, superior a US$ 50 trilhões anuais, chegaria a 2050 perto de US$ 160 trilhões. Mas não chegará, porque não há recursos e serviços naturais capazes de suportar o aumento de consumo decorrente desse crescimento. Será preciso, adverte Wilson, encontrarmos formatos de viver e consumir compatíveis com as possibilidades físicas do planeta – até porque não há outro disponível (embora nosso ministro de Assuntos Estratégicos já ande acenando com essa possibilidade).
Faz falta, nessa hora, uma figura como o falecido José A. Lutzenberger, que foi secretário nacional de Meio Ambiente de 1990 a 1992. No seu livro Fim do Futuro, que é de 1980, ele já advertia que nos encontramos “num divisor de eras”: “A crise de energia e matérias-primas que hoje solapa os alicerces da sociedade industrial demonstra que os recursos desta nave espacial, o planeta Terra, são finitos. Esta crise refuta as premissas básicas da sociedade de consumo, com sua ideologia de expansão e esbanjamento ilimitados.” Lutzenberger sabia em que terrenos pisava: “Sempre nos acusaram e continuarão nos acusando de radicais, de líricos, quando não de apocalípticos. Apenas somos realistas. A realidade é grave” (foi exatamente como “apocalíptico” que uma revista de grande circulação o qualificou em título, ao anunciar sua ascensão à Secretaria Nacional do Meio Ambiente em 1990).
Pouco tempo depois, em 1981, ao dirigir-se a uma turma de universitários que o elegera paraninfo, ele insistia: “Nossa política desenvolvimentista, nossos modelos econômicos e tecnológicos são concebidos como se a natureza não existisse, ou apenas estorvasse, como se nós mesmos não fôssemos parte integrante dela, como se pudéssemos sobreviver à sua demolição.” Quem observa a atual crise financeira constata exatamente isso: seu descolamento da realidade física, a começar pelo mercado de hipotecas de imóveis nos EUA, cada uma delas negociada, renegociada muitas vezes, por valores que nada têm que ver com o concreto. Alavancado, como se diz no mercado. Se quiser, encontrará panorama semelhante nos mercados de commodities, nos quais a safra de um ano de determinado produto pode ser negociada e renegociada por muitas vezes seu valor real. E assim será em muitas áreas.
Lutzenberger seria utilíssimo também para nos ajudar a resolver o drama amazônico, que não sai das manchetes. Foi ele que acabou com os subsídios e incentivos fiscais que estimulavam a derrubada da floresta para plantar soja ou criar bois. Foi ele que mostrou a irracionalidade de inundar a floresta para gerar energia subsidiada destinada a produtos eletrointensivos que os países industrializados não querem fabricar, exatamente por causa do custo da energia. Foi ele que proibiu o Ibama de emitir guias que eram usadas muitas vezes cada uma, para transportar madeira extraída ilegalmente – e foi isso que lhe custou a saída da secretaria, em 1992, por pressão do lobby das madeireiras. Mas não é só. Lutzenberger também foi dos primeiros a fazer muitas contas que ficam escondidas até hoje debaixo dos tapetes (“temos de fazer contas de tudo”, dizia). Sobre as unidades de energia consumidas para produzir, por exemplo, carnes, e que são superiores às que estão no produto. Ou sobre a água consumida com a mesma finalidade.
São lições indispensáveis ainda hoje. Será inútil manter ilusões e retardar soluções verdadeiras. Teremos, a partir da crise financeira, de refazer as contas de tudo. Se não for assim, iremos de recaída em recaída. O que está em jogo são os formatos de viver.
Washington Novaes é jornalista
E-mail: wlrnovaes@uol.com.br
10/10
CBMM planeja investir R$ 1 bi em expansão da capacidade
10 de outubro de 2008 – Os sinais de arrefecimento da demanda mundial por aço parecem não assustar a produtora de nióbio Companhia Brasileira de Metalurgia de Mineração (CBMM), que pertence ao Grupo Moreira Salles. O metal é utilizado principalmente na produção de ligas que elevam a maleabilidade, a tenacidade e a resistência de outros metais, como aço, inox e níquel. “Vemos o cenário mais como uma oportunidade”, disse o diretor geral da empresa, Tadeu Carneiro. Por isso, a companhia, que há dois meses inaugurou a expansão da capacidade da fábrica, em Araxá (MG), já aprovou investimentos adicionais de R$ 1 bilhão, considerando o câmbio atual. Com isso, a empresa aumentará a sua capacidade em 87%, para 150 mil toneladas até 2013.
Segundo Carneiro, ainda que haja uma recessão mundial, o consumo de aço deve se manter em crescimento e portanto exigirá novos investimentos por parte das companhias siderúrgicas. “Com a falta de crédito, as empresas podem não ter liquidez para expandir a capacidade, mas poderão usar mais nióbio para ampliar a oferta de aço”, disse. Conforme explicou, a aplicação do aço associado ao nióbio permite à cadeia automotiva, à indústria de tubos para transporte de gás natural e petróleo e ao setor de construção usar menor volume de aço na fabricação de autopeças, dutos, pontes e edifícios.
Carneiro destacou que o consumo do metal também deve ser estimulado devido à crescente preocupação com eficiência energética. Por reduzir o volume de aço necessário na fabricação de autopeças, permite a redução do peso de automóveis e, conseqüentemente, do consumo de combustível. Por outro lado, permite melhor performance de turbinas, como as usadas em aviões, uma vez que suporta maiores temperaturas, que possibilitam a combustão com mais eficiência.
Petróleo
Carneiro também aposta no potencial do mercado de dutos para o setor de petróleo e gás. “As reservas encontradas hoje são cada vez mais distantes e por isso exigem dutos mais extensos e de calibre maior.” Segundo estimativa do Relatório Mundial de Dutos, entre 2008 e 2012 serão construídos 150 mil quilômetros de dutos, o que exigirá investimentos de US$ 178 bilhões.
O desenvolvimento dos campos de petróleo em águas profundas e do pré-sal também garantem bom potencial para a CBMM. É de uma liga de aço com nióbio o duto usado pela Independence Trail na plataforma instalada na distância recorde de lâmina d’água, de 2,5 quilômetros, no Golfo do México, informou Carneiro. “Para resistir ao ambiente de forte corrosão é necessário um duto de aço com baixo carbono”, disse o executivo, explicando que em contrapartida, à redução do carbono se adiciona volumes mais altos de nióbio. No caso do pré-sal, será necessário desenvolver novas especificações para o metal, mas a CBMM já trabalha para tentar emplacar um tipo de liga que contenha nióbio, disse Carneiro.
Atualmente, 80% do nióbio vendido é utilizado em ligas ferro-nióbio, consumidas na produção dos dutos e também pela industria automotiva e da construção. Outros 10% são usados na produção de alguns tipos de aço inoxidável, usados principalmente na produção de escapamentos veiculares. Entre os 10% restantes estão as ligas de níquel (7%) para as turbinas de avião e outras aplicações especiais.
O Brasil produz 95% da produção mundial de nióbio e a CBMM é a maior fabricante nacional. Até 2007 podia produzir 70 mil toneladas/ano de nióbio, capacidade ampliada para 90 mil toneladas. A companhia, que até agosto faturou R$ 2 bilhões, iniciou a segunda fase de expansão, na qual aplicará R$ 250 milhões para elevar capacidade para 110 mil toneladas até 2011. Para a terceira fase estão previstos mais US$ 350 milhões para alcançar 150 mil toneladas/ano. (Luciana Collet – Gazeta Mercantil)
Um apagão ambiental
09/10/2008
O GLOBO
MOREIRA MENDES
O aproveitamento energético do Rio Madeira, com a construção das usinas de Santo Antônio e Jirau, atende, ao mesmo tempo, à demanda do país por energia, afastando o perigo de um novo apagão, e ao desafio de desenvolver a Amazônia de forma sustentável, com energia limpa. Esse projeto, contudo, corre o risco de, literalmente, ir por água abaixo.
Com o início próximo da temporada de chuvas na Amazônia e os atrasos na liberação das obras de Jirau, o governo federal terá que acionar usinas termelétricas movidas a óleo diesel. Essas usinas, além de não afastarem por completo o risco de um novo apagão e gastarem mais, vão sujar a matriz energética brasileira e jogar milhões de toneladas de CO2 na atmosfera.
O Brasil precisa de energia para crescer. A demanda nacional vai obrigar o país a pôr em operação 20 termelétricas movidas a óleo ou gás para compensar a energia que deixará de ser gerada caso as obras não se iniciem imediatamente.
Aí, sim, teremos um verdadeiro apagão ambiental. Termelétricas movidas a óleo combustível têm grande impacto sobre o meio ambiente devido às altas taxas de emissão de gases causadores do efeito estufa, que podem variar de 12 milhões a 17 milhões de toneladas de CO2 lançados na atmosfera por ano. Essas emissões não só prejudicam diretamente a Floresta Amazônica, como também contribuem sobremaneira para o aquecimento global.
Outro problema decorrente do acionamento das termelétricas é o alto custo adicional com o qual a sociedade brasileira terá de arcar. Estimase que, para compensar o déficit de energia limpa, o Brasil terá de pagar R$ 14 bilhões em 2012. Com esse valor seria possível construir uma usina de 5.000 MW, que corresponde, por exemplo, a todo o complexo do Rio Madeira, incluindo as usinas de Santo Antônio e de Jirau. Explico: o custo da energia gerada por uma termelétrica é maior porque gasta combustível. Para se ter uma idéia, o preço médio de venda de energia gerada em uma térmica a diesel é de R$ 920 por MW. A energia gerada por uma hidrelétrica custa bem menos, em média R$ 103 por MW.
As hidrelétricas produzem, reconhecidamente, uma energia limpa, pois não há emissão de gases que provocam o efeito estufa, além de proporcionar o planejamento do impacto ambiental e social, como está sendo feito para as usinas de Jirau e de Santo Antônio.
Outro grande benefício para a sociedade brasileira foi a mudança do eixo de Jirau, pois permitirá antecipar em um ano a geração de energia, para 2011, além de incorporar mais 95,27 MW médios ao Sistema Brasileiro, o que vai descartar a necessidade do uso da energia suja das termelétricas.
A construção de grandes hidrelétricas no Rio Madeira, em particular no trecho que corre dentro do município de Porto Velho, é uma antiga reivindicação do estado. A Amazônia precisa, com urgência, de um projeto de infraestrutura que leve o desenvolvimento sustentável para a região.
O aproveitamento do potencial energético do Rio Madeira é o caminho para esse crescimento. Entre as principais obras do PAC, as hidrelétricas oferecem ao país a possibilidade de cumprir as metas de desenvolvimento limpo da Região Norte, gerando postos de trabalho e aumento de renda da população, além de incrementar o orçamento dos municípios de Rondônia.
Com a oferta de emprego crescente e o aumento na qualidade de vida nas cidades, as atividades de garimpo, a extração desenfreada de madeira e as queimadas também perdem espaço.
Outro fator de grande importância, que torna as hidrelétricas ainda mais necessárias, é a disparada dos preços do petróleo e do gás natural em nível global. Nesse contexto, deve-se acrescentar, ainda, a crescente preocupação com a segurança no fornecimento desses combustíveis.
Por todas essas razões, e pensando especialmente no povo brasileiro, no crescimento de nossa economia e na preocupação com o meio ambiente, é vital que se decida já pela continuação das obras das usinas hidrelétricas no Rio Madeira.
Sem novas hidrelétricas, o país precisará ter em funcionamento 20 termelétricas
MOREIRA MENDES É DEPUTADO FEDERAL (PPS-RO)
GAZETA MERCANTIL – SP
09/10/2008
Brasil vai promover megaevento sobre setor de biocombustíveis
Brasília, O presidente Luiz Inácio Lula da Silva quer mostrar aos estrangeiros os benefícios dos biocombustíveis do Brasil e fixar a imagem de que a produção nacional do etanol e biodiesel é sustentável. Essa é uma resposta às críticas internacionais de que o combustível causa desmatamento e reduz a oferta de alimentos. Por essa razão, o Palácio do Planalto organizará em São Paulo, entre os dias 17 e 20 de novembro, um mega evento sobre o setor, que consumirá cerca de R$ 2 milhões.
O presidente Lula pediu para convidar cerca de 80 ministros estrangeiros, principalmente dos Estados Unidos e União Européia, que já lidam com a tecnologia dos biocombustíveis – além da imprensa internacional e empresas estrangeiras do ramo. Apesar de o evento ser em nível ministerial, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, deve ser o protagonista, em meio a crise financeira internacional. Segundo o Itamaraty “há indicações fortes de que ele venha”. Embora Bush tenha sido muito criticado por Lula, recentemente, por conta da crise, Bush prometeu vir ao Brasil se despedir do presidente Lula em seu último ano de governo nos Estados Unidos – de onde também partiram críticas contra o etanol brasileiro.
Segundo fontes do governo, Lula pediu para a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) organizar a “1ª Exposição Internacional Sobre Biocombustíveis” para esclarecer dúvidas sobre os biocombustíveis brasileiros. Foi criado um comitê-executivo para organizar o evento entre vários ministérios, inclusive a Casa Civil, que está organizado a “Conferência Internacional sobre Biocombustíveis”, que permitirá a discussão sobre o tema.
Evento com 2,5 mil pessoas
O governo espera que o evento atraia 2,5 mil conferencistas entre brasileiros e estrangeiros. A Apex-Brasil elencou seis principais objetivos do evento. Mobilizar formadores de opinião internacionais; defender a sustentabilidade dos biocombustíveis brasileiro; e promover diálogo mais equilibrado sobre a sustentabilidade dos biocombustíveis. Acrescenta-se a idéia de estimular o uso do modelo brasileiro de biocombustíveis por outros países; e a de explorar o interesse das autoridades internacionais com apoio brasileiro para aperfeiçoar modelo de biocombustíveis. Além de “encorajar” o contato e a troca de informações entre representantes brasileiros do setor e participantes estrangeiros.
Sustentável e eficiente
“Essa é uma oportunidade de os estrangeiros virem ao Brasil e saber que a produção de biocombustíveis do Brasil é sustentável e eficiente”, disse o presidente da Apex, Alessandro Teixeira. Segundo ele, a produção nacional de biocombustíveis é sustentável, porque usa apenas as culturas não destinadas a alimentação, como pinhão-manso e cana-de-açúcar, a principal matéria-prima do Brasil utilizada para a produção de etanol, além de cultivares para biomassa (restos de produtos agrícolas e florestais para a produção de energia renovável). Nos Estados Unidos, o milho é a principal matéria-prima usada para a produção do combustível.
O governo vai aproveitar o evento para disseminar o uso da tecnologia flex fuel desenvolvida no Brasil que permite um único automóvel ser abastecido tanto com álcool como com gasolina, fator já consolidado na indústria automobilística brasileira. Hoje 90% dos automóveis fabricados no Brasil contam com tal tecnologia.
Conforme Teixeira, muitas pessoas estrangeiras desconhecem a tecnologia flex fuel desenvolvida no Brasil. “São vários pontos que vamos demonstrar durante o evento e mostrar a nossa diferença em sustentabilidade na produção dos biocombustíveis”, disse.
O Brasil quer aumentar a participação das exportações de biocombustíveis e da tecnologia que produz o combustível, como máquinas e equipamentos.
O Arranjo Produtivo Local do Álcool (Apla) que apoia a Apex informa que 40 empresas do setor, incluindo entidades, vão apresentar as últimas tecnologias para a produção de biocombustíveis no evento. Também estima que o setor nacional de álcool e etanol movimenta R$ 40 bilhões anuais.
08/10 – 05:17
FAO pede o fim dos subsídios ao etanol
SÃO PAULO, 8 de outubro de 2008 – No mais completo estudo já feito pela FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) sobre o etanol, a organização alerta que as políticas e subsídios de governos ricos promovendo a expansão dos biocombustíveis precisam ser “revistas com urgência”. De acordo com a entidade, elas estão afetando diretamente os interesses exportadores do Brasil.
Se as políticas distorcivas continuarem, argumenta a FAO, as populações mais pobres do planeta sofrerão e as economias emergentes não vão tirar proveito da expansão do setor. De outro lado, os países emergentes também precisam rever suas políticas de expansão para evitar que danos ambientais não ocorram por causa do etanol.
“A produção de biocombustíveis se multiplicou por três em apenas oito anos. Agora, precisamos parar e reconsiderar as políticas de biocombustíveis diante dos riscos que ela representa”, afirmou Jacques Diouf, diretor da FAO.
Para a FAO, o etanol pode ser uma oportunidade para os agricultores dos países pobres e está “redesenhando a agricultura mundial”. Mas também pode ser um risco, provocando a alta dos preços dos alimentos e acirrando a competição por terras. Ninguém na FAO questiona os benefícios do setor aos pequenos agricultores, mas hoje os riscos são considerados ainda maiores.
A entidade ainda questiona a contribuição do etanol para o meio ambiente, para a redução de pobreza, para a segurança alimentar e mesmo como substituto do petróleo. Para a entidade, o Brasil hoje é o único país que consegue produzir de forma competitiva o etanol, mas precisa garantir que a expansão não tenha um impacto ambiental negativo.
OPORTUNIDADE E RISCO
O raio-x foi apresentado ontem em Roma como resultado de meses de debates sobre o combustível. A entidade apresenta critérios que devem ser seguidos se governos decidirem continuar com a política de expansão do etanol, o que, de fato, pode gerar maior renda ao campo e oportunidades para os países em desenvolvimento. “O etanol é uma oportunidade e um risco. Seu futuro dependerá de como os governos vão implementar políticas”, afirmou Diouf.
Depois de anos de otimismo em relação ao etanol, as questões mudaram o debate. Hoje, a FAO alerta que o futuro do etanol no mundo ainda é “incerto”. O etanol, segundo a FAO, pode ser positivo, reduzindo a pobreza e até sendo uma fonte de investimentos para o campo nos países mais pobres. Outro fator positivo é o aumento dos preços das commodities. Mas uma política para garantir que os mais pobres não sejam afetados precisa ser adotada para que essa nova renda não fique apenas nas mãos de poucos e que milhões passem fome.
Os países em desenvolvimento ainda precisam dar garantias de que os benefícios também serão repartidos para os pequenos agricultores e que o plantio não atingirá zonas protegidas e florestas.
SUBSÍDIOS
Outro fator que contribuiria seria a abertura dos mercados dos países ricos. Diante dos riscos que o etanol representa, a FAO deixa claro que está na hora de os países adotarem novas políticas para o setor, antes que promovam sua expansão. “A viabilidade da maioria dos biocombustíveis é tênue sem apoio e subsídios.”
Um dos principais ataques é contra os subsídios dos países ricos, que distorcem o mercado. A FAO estima que o Brasil poderia expandir suas exportações se americanos e europeus reduzissem suas intervenções que chegam a US$ 12 bilhões. O dinheiro, segundo a entidade, deveria ser usado para pesquisas de etanol de segunda geração. Em alguns lugares, como na Europa, os subsídios chegam a US$ 1,00 por litro.
Para a FAO, o Brasil tem hoje o menor custo de produção do etanol no mundo. No restante dos países, o etanol simplesmente não seria competitivo se não fosse pelos subsídios, mesmo com o preço do petróleo alto. A ajuda ainda está impedindo um comércio eficiente do etanol pelo mundo.
Sem subsídios, a produção mundial de etanol cairia em 15%. Mas o Brasil seria o maior beneficiado. A produção americana seria reduzida em 8 bilhões de litros por anos, quase o mesmo volume da Europa. No Brasil, com maior mercado e sem distorções, a produção aumentaria em 3 bilhões de litros, apenas com o fim dos subsídios.
BARREIRAS
A entidade também ataca as barreiras aduaneiras aplicadas pelos países ricos. A constatação é de que, sem impostos de importação, a produção de etanol simplesmente não seria viável nessas economias.
Enquanto no Brasil a taxa é zero, a Austrália aplica tarifas de 51%, a Suíça 46%, os EUA 28% e a Europa 52%. “Essas tarifas determinam a lucratividade da produção que, em muitos lugares, sequer existiriam sem as barreiras”, afirmou a FAO.
A conclusão é que apenas o Brasil é competitivo no setor se os subsídios e proteções forem retiradas. A cana brasileira é hoje a mais competitiva, seguido pela Índia. Em uma distante terceira colocação vem a Malásia (com óleo de palma), Indonésia e só então os EUA. Prova da falta de competitividade nos países ricos é o fato de que a alta nos preços das commodities gerados pelo próprio setor de etanol acabou afetando a capacidade das usinas em comprar grãos para o combustível.
Segundo a FAO, o etanol de cana do Brasil é o único que de forma consistente tem seu preço abaixo do petróleo. Na Europa, o biodiesel custa o dobro que o etanol brasileiro. (O Estado de S. Paulo)
08/10
Petróleo continuará sendo a maior fonte de energia
SÃO PAULO, 8 de outubro de 2008 – No campo da energia, os subsídios ao etanol não servem para resolver o problema de abastecimento mundial. A FAO concluiu que a contribuição dos biocombustíveis será modesta para garantir o abastecimento nos próximos dez anos. “A contribuição de biocombustíveis será limitada”, afirma a FAO, alertando que o mercado continuará dominado pelo petróleo. Em 2030, os combustíveis fósseis continuarão dominando 82% do mercado. A energia de biomassa ficará com 10%. Os biocombustíveis para transporte representarão apenas 3,5% do consumo em 2030. Hoje, essa taxa é de pouco mais de 1%. Mesmo se toda a produção de cana, milho, soja e trigo for usada para biocombustíveis, apenas 57% do petróleo poderiam ser substituídos. Num cálculo mais realista, se 25% desses cultivos fossem destinados à energia, o consumo de petróleo cairia 14%. Mesmo assim, com um “fortíssimo impacto” nos preços agrícolas. (O Estado de S. Paulo)
Quarta-feira, 8 outubro de 2008
Mesmo em motor velho, diesel S50 baixa poluição
Relatório do governo, de janeiro, aponta redução de 40% da emissão de material particulado
Cristina Amorim
Veículos velhos alimentados com diesel mais limpo, com menos enxofre, contribuem com a melhoria da qualidade do ar, indica um documento do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Datado de 9 de janeiro deste ano, ele aponta a vantagem ambiental ao discorrer sobre a comercialização do diesel com 50 partes de enxofre por milhão (ppm), chamado de S50, nas regiões metropolitanas em 2009.
Segundo o texto, “testes realizados indicaram que o uso do mencionado diesel em motores antigos provoca redução de 40% em material particulado e de 10% a 15% em óxido de nitrogênio e monóxido de carbono”. Os três itens são poluentes que saem pelo escapamento dos ônibus, caminhões e utilitários abastecidos com diesel e que levam ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares.
O documento responde a um pedido de informação do deputado federal Arnaldo Jardim (PPS-SP). Ele também informa que o benefício ambiental depende de os veículos estarem devidamente regulados, com manutenção adequada.
Uma resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), a 315, de 2002, determina que o diesel S50 substitua os tipos mais poluentes, com 500 ppm e 2.000 ppm de enxofre, em 1º de janeiro. Porém, o texto não deixa claro se a quantidade a ser disponibilizada deve ser suficiente para abastecer veículos novos e antigos ou apenas os veículos novos.
O Ministério Público Federal, secretarias de Meio Ambiente de São Paulo (estadual e municipal) e de Minas Gerais, organizações civis e médicos afirmam que a primeira interpretação deveria ser a válida, ao alegar menor impacto à saúde da população ao incluir veículos antigos na conta. A Petrobrás prefere a segunda interpretação – que foi referendada pela Justiça no mês passado.
Segundo o secretário do Meio Ambiente de São Paulo, Xico Graziano, o valor exato do ganho ambiental é discutido, ainda que não contestado. “A Petrobrás fala em 10%, outras fontes falam em 40%. Mas mesmo 10% seria maravilhoso”, afirma. “A simples regulagem, pelas inspeções veiculares, forneceria um ganho de mais de 10%. Com o S50, então, somariam-se dois benefícios.”
SEM PROBLEMAS
Em ofício datado de 22 de agosto, em resposta a uma solicitação da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) diz que não há problemas técnicos em colocar diesel mais limpo em motores preparados para receber diesel mais sujo. O que falta é colocar o combustível no mercado.
“Até onde a Anfavea tem conhecimento, os veículos pesados e motores hoje produzidos por suas associadas já são compatíveis com esse novo combustível (S50). Portanto, tão logo seja disponibilizado o fornecimento desde diesel S50 no município de São Paulo, não haverá impedimento algum a que os referidos veículos pesados e motores sejam abastecidos com o novo combustível.”
Ao Estado, a Anfavea, por meio de sua assessoria de imprensa, reiterou a informação. Segundo a associação, o que não é possível é abastecer veículos novos, preparados para receber o S50, com o diesel sujo atualmente utilizado no País.
Terça-feira, 7 outubro de 2008
Corredor ecológico
Xico Graziano
Matas ciliares são aquelas que protegem os corpos d’água, mantendo a biodiversidade ao longo dos córregos. No passado foram dizimadas, agora começam a ser recuperadas. A beira d’água espelha a maior das prioridades na agenda ambiental da agricultura. O verde protege o azul.
Essas áreas de vegetação nativa à beira de rios cumprem função relevante ao impedirem o assoreamento das represas e dos reservatórios, causado pela erosão do solo a seu montante. Daí advém seu nome. Assim como os cílios protegem os olhos, impedindo que a poeira os macule, as matas ciliares abrigam os mananciais e seu berço, as benditas nascentes d’água. Formam um acolchoado vegetal.
Na abertura das fronteiras agrícolas do Sudeste, processo que remonta à economia cafeeira do século 19, o desmatamento aniquilava, inicialmente, as áreas próximas dos rios. Ali a matéria orgânica e a umidade garantiam as melhores colheitas. Fertilizantes químicos inexistiam naquela época.
Na verdade, a ocupação das áreas úmidas das baixadas caracteriza a regra histórica da atividade agrícola. Nas várzeas dos Rios Tigre e Eufrates, ricas de depósitos orgânicos, nasceu a agricultura da antiga Mesopotâmia, origem da civilização humana. Sem o delta do Nilo e suas regulares enchentes inexistiria o velho Egito. O vale do Rio Olantaytambo, fundamental para os incas, era considerado sagrado.
Na Europa, sempre a produção rural se instalou nos vales, fugindo das escarpadas montanhas. Do Velho Continente trouxeram os primeiros agricultores brasileiros a experiência da lavra. Nada estranha, portanto, olhando para trás, que os pioneiros do campo tenham suprimido as matas ciliares por aqui. Nos anos 70, o mais vistoso programa do Ministério da Agricultura se chamava Pró-Várzea. Recursos, fortemente subsidiados, eram direcionados para drenar áreas palustres, seguindo o modelo europeu de agricultura. Cultura rural.
Havia, ainda, outra questão, própria dos trópicos. Nas margens dos rios morava o mosquito da terrível malária. Especialmente nos Estados de São Paulo e do Paraná, naquelas epopéias agrícolas, derrubar as matas ciliares pertencia ao receituário médico dos desbravadores do sertão. Com a febre da maleita a tremer o corpo, ninguém enfrentava a dureza da terra.
O estrago ambiental assim realizado apenas no presente se aquilata. Naquele tempo inexistia qualquer preocupação ecológica. Esta moderna agenda chega com o Código Florestal, em 1965, ganhando destaque somente na década de 1980. Em São Paulo, a Secretaria Estadual de Meio Ambiente surgiu em 1986. Ecologia era assunto de sonhador.
Para os agricultores, aquilo que nas gerações passadas significava um grande ativo de produção se transformou num pesado passivo ambiental. Porque, agora, a lei exige a preservação integral das áreas lindeiras aos corpos d’água, numa faixa mínima de 30 metros. A vantagem virou problema. Rios poluídos, assoreados, exigem a devolução de suas matas ciliares. Reparar o dano ecológico para reviver.
Tarefa difícil, mas realizável. O governo paulista estima recuperar, até 2025, uma área de 1,7 milhão de hectares de matas ciliares. Cumprida, essa meta da política ambiental permitiria manter, somados os remanescentes florestais existentes, 20% do território coberto com vegetação natural. Hoje mostra 14%.
A Secretaria Estadual do Meio Ambiente divulgou, nestes dias, que já contabiliza 240 mil hectares em seu cadastro de recuperação florestal, dentro do projeto estratégico Mata Ciliar. O número ultrapassa em 78% a meta anual do programa, mostrando boa adesão dos agricultores à proposta de formação dos corredores ecológicos. Fato inédito na história da conservação florestal do País.
A importância da recuperação das matas ciliares pode ser mais bem aquilatada quando se considera o outro lado da moeda. Até agosto deste ano, o governo estadual autorizou a supressão de 952 hectares de vegetação nativa, destinados a diversas atividades, incluindo agricultura, obras públicas e loteamentos. A grande maioria da área suprimida se enquadra na categoria de “capoeiras”, pouco complexa em termos de biodiversidade. O desmatamento propriamente dito afrontou tão-somente 28,5 hectares. Menos mal.
Existe, porém, o desmatamento ilegal. A Polícia Ambiental do Estado averiguou crimes que, somados em 2008, representam 1.002 hectares de vegetação nativa abatida. Somadas a supressão de vegetação autorizada mais a ilegal, percebe-se que, em São Paulo, para cada hectare surrupiado existem 123 hectares em recuperação florestal. Página virada no desmatamento.
É interessante apontar que, da área de mata ciliar cadastrada no Sistema Ambiental, 58% vêm do setor sucroalcooleiro. Isso é fruto do Protocolo Agroambiental, em que o setor sucroalcooleiro se compromete a eliminar a queimada da cana-de-açúcar e a promover a recuperação das matas ciliares em meio aos canaviais. Crescem as lavouras e, ao mesmo tempo, revigora-se a biodiversidade. Isso se chama, na prática, desenvolvimento sustentável.
Tudo indica que os agricultores entenderam o recado da sociedade. Falta, entretanto, a cidade melhorar sua lição de casa, retirando dos rios a carga poluente dos esgotos domésticos, verdadeiro veneno para a fauna aquática. De nada adianta a margem verde bordejar água morta e fétida.
Os novos prefeitos precisam agarrar essa tarefa com afinco. O governo ajudando, investindo na conscientização e na educação ambiental, pode-se vislumbrar essa agenda vencida, no interior paulista, até as próximas eleições municipais. O resultado será fantástico. Com mata ciliar e água limpa, o futuro terá reencontrado o passado. Sem malária.
Xico Graziano, agrônomo, é secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. E-mail: xico@xicograziano.com.br
Os desafios políticos da Rodovia Transoceânica
ARTIGO – João Francisco Salomão
Presidente da Federação das Indústrias do Estado do Acre
Correio Braziliense
7/10/2008
A Rodovia Transoceânica, estrada de 2,6 mil quilômetros ao longo da Floresta Amazônica e dos Andes, que ligará o Brasil ao Oceano Pacífico, significará alternativa importante para as nossas exportações aos crescentes mercados da Ásia, responsáveis por mais de 15% de nossas vendas externas. Serão 6 mil quilômetros a menos que os produtos nacionais terão de percorrer até chegar aos consumidores chineses, japoneses, indianos, coreanos e de outras nações da região. Convertida em dólares, essa expressiva distância menor significará sensível redução de custo dos fretes, agregando mais um diferencial competitivo aos manufaturados e commodities brasileiros no comércio exterior.
Além desse grande benefício econômico para todo o Brasil, a rodovia representará inegável fator de desenvolvimento regional, não apenas no Acre, como nos estados vizinhos e vasta área do território do Peru. Estudo da Federação das Indústrias do Estado Acre (Fieac) estima que o vasto mercado a ser aberto pela estrada envolveria 7 milhões de consumidores em Madre de Dios, Cusco, Puno, Arequipa, Apurímac, Ayacucho, Ica, Tacna, Moquegua, Loreto, San Martin, Ucayali, Huanuco e adjacências. Será estabelecido um novo pólo de fomento comercial e intercâmbio na América do Sul, com impactos positivos na indústria, comércio, hotelaria e turismo em geral.
Por tudo isso, justifica-se plenamente a construção da estrada, uma das mais ousadas obras de engenharia de todos os tempos. Sua conclusão, prevista para o fim de 2010 ou início de 2011, representará uma vitória do talento humano ante dificuldades geográficas imensas. O traçado parte de Rio Branco, no Acre, e segue por 344km em território brasileiro. Cruza a fronteira com o Peru, percorrendo mais 2.256 quilômetros, cortando a Floresta Amazônica e a Cordilheira dos Andes, até chegar a três portos do país vizinho: Ilo, Matarani e San Juan de Marcona. É um empreendimento de US$ 1,8 bilhão, envolvendo os governos das duas nações e a participação privada.
O avanço da engenharia está viabilizando a superação de formidáveis obstáculos naturais, ou seja, a maior floresta tropical do mundo e a Cordilheira dos Andes. Há trechos da estrada a 3.500m acima do nível do mar e um segmento a 4.870m de altitude. A obra é um exemplo da capacidade brasileira e latino-americana de solucionar o déficit de infra-estrutura, um dos mais graves e preocupantes gargalos da economia regional, em especial o setor de transportes, ainda muito aquém dos desafios da logística.
Contudo, o sucesso desse grande empreendimento transnacional, principalmente quanto aos resultados que pode produzir em termos de fomento, redução dos custos dos fretes à Ásia e geração de riquezas e empregos, ainda depende da vitória sobre empecilhos não geográficos, mas políticos e relacionados à diplomacia econômica. Há alguns pontos sensíveis a serem superados para a consolidação da Rodovia Transoceânica como pólo de desenvolvimento.
A primeira medida a ser adotada refere-se a esforços para a consolidação de uma linha aérea regular acessível e o fim dos entraves ao transporte de passageiros em ônibus e microônibus. Também é fundamental a simplificação das relações aduaneiras, com a implantação de um modelo de preferências tarifárias e facilitação do câmbio. Na fronteira peruano-brasileira (Assis Brasil – Iñapari) é preciso que prospere, pelo menos até a conclusão da estrada, uma área de livre comércio, eliminando-se as restrições alfandegárias e não-alfandegárias que limitam o comércio bilateral. Uma boa medida seria a implantação de um sistema de utilização das moedas locais, a exemplo do adotado a partir de outubro no intercâmbio entre Brasil e Argentina.
É preciso encarar com otimismo as possibilidades de avanços em todas essas negociações, dada a inegável importância da Rodovia Transoceânica. Afinal, seria uma inadmissível ironia, depois de vencer a Floresta Amazônica e os Andes, limitar os impactos econômicos positivos desse fabuloso empreendimento em decorrência de meras idiossincrasias.
06/10/08- FOLHA DE SP
Retomando o fio da meada
por Marina Silva
O aumento evidente do índice de desmatamento da Amazônia tem gerado uma profusão de subtemas relevantes e dignos de atenção. Eles podem levar, contudo, a uma grande dispersão em torno de questões pontuais que nos afastam daquilo que está na cabeça e nos desejos da maioria: um modelo de desenvolvimento para a região baseado na floresta em pé, e não na sua destruição.
A simples multiplicação de ações desconexas pode não ser a melhor resposta às situações adversas. Felizmente, não estamos partindo do zero. Há uma história de esforços governamentais e da sociedade que trouxeram a questão Amazônia a um ponto que não pode ser perdido agora, como se estivéssemos segurando o fio da meada e de repente o largássemos, embolando de novo todo o novelo.
Para evitar esse risco, é preciso retomar o caminho iniciado com o Plano de Ação para a Prevenção e o Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAM), criado por decreto do presidente Lula em julho de 2003, sob coordenação da Casa Civil, com secretaria técnica do MMA e envolvendo 14 ministérios.
Esse plano é constituído de três eixos: do Ordenamento Territorial e Fundiário, do Monitoramento e Controle Ambiental e do Fomento ao Uso Sustentável da floresta e das áreas abertas. Ele contribuiu decisivamente, por três anos consecutivos, de 2005 a 2007, para reduzir em 57% o desmatamento, até então considerado pelo governo federal como problema de exclusiva competência da área ambiental.
Após essa vitória, seguiram-se prenúncios de retrocesso devido a pressões previsíveis de alguns setores para revogar as importantes medidas adotadas.
O governo parece ter perdido a unidade no discurso e, em parte, nas ações, o que tem estimulado o reagrupamento dos interesses contrários à ampliação da governança ambiental na Amazônia. É necessário que retome urgentemente a coordenação política do PPCDAM, reforce-o no seu processo de controle social e valorize-o com o crescente envolvimento de governos estaduais e municipais, como forma de barrar retrocessos.
A redução do desmatamento, mesmo diante de fatores que tradicionalmente o incrementam, como estiagem prolongada, elevação dos preços de commodities e eleições, seria uma demonstração de governança estável que traria resultados positivos para todos. Inclusive para os setores contrários às medidas de proteção à floresta, que veriam se abrir novas possibilidades para o seu negócio, com base, justamente, na imagem de responsabilidade socioambiental diante de um patrimônio do porte da Amazônia.
Segunda-feira, 6 outubro de 2008
Aumenta busca de prédios por selo verde
Em 4 anos, número de pedidos de certificação internacional passou de 1 para 68; cada processo custa US$ 3 mil
Edison Veiga e Renato Machado
Primeiramente surgiram as instruções para que as pessoas tivessem um comportamento ecologicamente correto: recicle o lixo, tome banhos rápidos, economize energia elétrica e utilize transporte público ou bicicleta. Com um pouco de resistência, alguns desses itens começaram a ser seguidos e, aos poucos, tornaram-se praticamente obrigatórios. Agora, é a vez dos empreendimentos imobiliários buscarem “sustentabilidade”. Apenas neste ano, 68 edifícios entraram com processo para conseguir o selo Leadership in Energy and Environmental Design (Leed), um dos mais reconhecidos no mundo. Há quatro anos, só um tentou a certificação de “prédio verde”.
E essa tendência veio para ficar – ou até para predominar – nos grandes centros urbanos, como São Paulo. Embora todos os empreendimentos certificados no Brasil sejam da categoria prata, a segunda pior, o País pode terminar o ano com dois selos ouros. Duas edificações – uma no Rio, o Ventura Corporate Towers, e outra em São Paulo – conseguiram uma pré-certificação no segundo melhor nível e devem receber o registro definitivo até o fim deste ano.
O empreendimento paulistano que virou modelo é o Rochaverá, às margens do Rio Pinheiros, na zona sul. Uma das características que contou a favor foi o sistema de reúso da água da chuva. Absorvida nas coberturas das torres e nos ralos em toda a área do empreendimento, ela é encaminhada para um depósito, de onde o líquido é bombeado novamente para a superfície, irrigando os jardins.
Primeira a possuir um selo na América do Sul, a agência do Banco Real de Cotia tem um sistema parecido e reutiliza toda a água da chuva nos vasos sanitários. Ali, 100% do esgoto é tratado e ainda serve para regar os jardins. Além disso, painéis fotovoltaicos garantem o fornecimento de energia – a luz solar é armazenada e utilizada para abastecer os caixas eletrônicos de auto-atendimento.
INFRA-ESTRUTURA
Para ser considerado um “prédio verde” e conseguir o selo Leed, o empreendimento passa pela avaliação de alguns requisitos, como o uso de iluminação natural, a gestão de perdas e resíduos, as administrações do consumo de água e energia elétrica, o uso de materiais renováveis, a qualidade interna do ambiente e as idéias inovadoras. Após a análise, uma edificação recebe de 0 a 69 pontos, nas categorias ouro, prata e verde – quem satisfaz a partir de 85% das exigências ganha o selo na modalidade Platina. No Brasil, somente três empreendimentos têm o selo Leed, todos na categoria prata: a agência do Real, em Cotia; e em São Paulo o laboratório Delboni Auriemo de Santana e a unidade do Morgan Stanley da Avenida Brigadeiro Faria Lima.
Um dos quesitos mais importantes é a localização do empreendimento. O terreno não deve ser contaminado e cobra-se uma boa infra-estrutura local, principalmente de transporte público, para evitar que o edifício se transforme em um pólo gerador de congestionamentos. As construções também devem reservar espaço para bicicletários e incentivar ações ecológicas – reservando vagas de estacionamento perto dos elevadores para quem der carona e para veículos de baixa emissão de carbono.
Muitas dessas exigências não significam necessariamente um aumento no custo final da obra e podem ser alcançadas com mudanças estruturais. O processo para conseguir o certificado Leed custa aproximadamente US$ 3 mil para as incorporadoras. Os projetos são enviados para o World Green Building Council, nos Estados Unidos, e depois há um acompanhamento da obra pelo escritório brasileiro da instituição. O certificado é emitido seis meses após a entrada em operação do empreendimento. Estima-se que um projeto ambientalmente sustentável custe cerca de 10% acima do normal, por dar preferência a determinados produtos e soluções.
No Rochaverá, os elevadores ficam no centro das torres, de forma que as laterais sejam todas ocupadas por janelas. Dessa forma, há uma superfície maior para incidência de luz natural e as lâmpadas não precisam ficar ligadas o tempo todo. Para evitar o uso desnecessário de ar-condicionado, o lado oeste – mais sujeito à ação solar – tem placas de granito intercaladas com os vidros para impedir o aquecimento interno. Do outro lado, há somente vidro. Na cobertura, além de um jardim para absorver a chuva, foram usadas tintas reflexivas para que o calor não seja absorvido.
O World Green Building Council também analisa a qualidade de todo o material usado nos canteiros de obras, avalia se é renovável e qual a sua procedência. O paulistano Delboni Auriemo, por exemplo, que também tem o selo prata, foi construído com madeira certificada e todo o material usado foi comprado em um raio de 800 quilômetros da capital.
Reunião da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) discute mídia e mudanças climáticas
O Estado de S. Paulo
05/10/2008
Domingo, 05 de Outubro de 2008
Para especialistas, há certo alarmismo na cobertura relacionada ao assunto
Cientistas e especialistas em mudanças climáticas afirmaram ontem, na 64ª Assembléia-Geral da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), que o alarmismo predomina nas notícias sobre o tema. Eles pediram aos jornalistas que transmitam as informações da forma mais equilibrada possível. Esta foi uma das conclusões do seminário sobre mudanças climáticas e meios de comunicação, quando foi debatida a responsabilidade dos jornalistas na informação sobre os efeitos do aquecimento global. A reunião acontece em Madri (Espanha) e termina na terça-feira.
O professor César Dopazo, assessor do presidente da Comissão Européia (CE, órgão executivo da União Européia), José Manuel Durão Barroso, e que atuou como moderador, considerou essencial que a informação científica seja de qualidade, correta e cautelosa, já que, caso contrário, as pessoas podem se alarmar em excesso.
Segundo ele, as notícias sobre as mudanças climáticas são “um excelente exemplo de quando sobra espetáculo”. Para Dopazo, o desafio da imprensa é conscientizar a população, pois os cidadãos, em sua opinião, precisam distinguir o que é informação certa do que não é.
Thomas Dowing, diretor do Instituto Ambiental de Estocolmo e co-autor do Atlas da Mudança Climática, pediu aos jornalistas mensagens mais de esperança do que de catástrofe, para que todos possam “fazer algo” na luta contra o aquecimento.
Já o diretor da Cidade das Artes e das Ciências de Valência e presidente da Associação Espanhola de Jornalismo Científico, Manuel Toharia, afirmou que todos os que vivem “na sociedade consumista” têm responsabilidade na questão das mudanças climáticas, e não só a imprensa, que “tem responsabilidade justa, nada mais”.
Em sua opinião, “a falha” nas notícias sobre o fenômeno está no fato de nelas predominar o alarmismo, enquanto “a virtude” é se falar muito do tema, o que favorece o debate nas ruas. Toharia ressaltou que “é fácil jogar a culpa no mensageiro”, mas ao mesmo tempo pediu que a informação sobre o assunto seja a mais equilibrada possível.
Os blogs como novos nichos de informação, as comunidades sociais na internet e a projeção dos veículos digitais também marcaram ontem os debates. A questão foi abordada em um painel no qual “integracionistas e separatistas” debateram se o jornal digital deve ser o novo “centro do universo” nas redações.
LIBERDADE
Hoje acontecem as discussões de mais impacto da assembléia da SIP, referentes à liberdade de imprensa e à violência a que jornalistas são expostos quando realizam seu trabalho. A Comissão de Liberdade de Imprensa e Informação reúne-se de manhã e recebe relatórios da situação em cada país.
Sábado, 4 outubro de 2008
Os lixões inadequados
A Cetesb interditará os lixões de 67 municípios paulistas, que funcionam de forma inadequada desde os anos 80. Na semana passada, 9 já foram notificados, entre eles, Araçariguama, Cruzeiro, Embu-Guaçu, Itapetininga e Presidente Prudente. As prefeituras locais ignoraram orientações, apelos, acordos, multas e Termos de Ajustamento de Conduta (TACs), e mantêm o lixo produzido por 1,1 milhão de habitantes em instalações incapazes de evitar que os poluentes contaminem o ar, o solo e as águas subterrâneas.
Alguns prefeitos reclamam de “perseguição” da Cetesb, que, segundo eles, estaria favorecendo os 21 aterros particulares em funcionamento no Estado. Mas, se tivessem dado prioridade nos orçamentos municipais ao bom tratamento dos detritos e utilizado com critério os R$ 8 milhões que o governo estadual destinou para a melhoria dos lixões de 70 municípios, não estariam enfrentando a interdição.
A medida foi adotada pela Cetesb depois de uma reclassificação, realizada em setembro, das condições dos aterros de 137 cidades que, nas últimas edições do Inventário Estadual de Resíduos Sólidos Domiciliares, apresentaram baixos Índices de Qualidade de Resíduos (IQR). Nela se constatou que 78 municípios têm lixões inadequados e em 67 a situação é crítica, o que impõe a interdição.
Em compensação, 55 cidades com aterros que foram considerados inadequados no inventário de 2007 estão agora com a situação controlada, graças à reciclagem do lixo e à instalação de novas estações de transbordo.
Em junho, a Cetesb já bloqueara as operações nos lixões de Mongaguá, Itanhaém, Itapecerica da Serra e Araras. Mongaguá recebeu 12 autuações (R$ 313,8 mil) por disposição inadequada dos resíduos sólidos domiciliares. Desde 2000, a prefeitura de Itanhaém havia sido multada seis vezes (R$ 134 mil). O depósito inadequado do lixo e o funcionamento ilegal do lixão levaram Araras a receber oito multas desde 2002, e a Prefeitura também responde a processo por não apresentar informações referentes à gestão dos resíduos sólidos domiciliares. Por sua vez, Itapecerica pagou quase R$ 695 mil pela agressão ao meio ambiente. Seu lixão está localizado em área de manancial e compromete as águas subterrâneas da Bacia da Represa de Guarapiranga.
Hoje essas cidades estão enviando o lixo para municípios vizinhos, o que encarece o serviço de coleta e limpeza urbana. Em Ubatuba, o transporte de lixo para Tremembé, no Vale do Paraíba, poderá elevar os custos da coleta de R$ 700 mil para R$ 1,5 milhão.
A demora das prefeituras em resolver a questão não será mais admitida pelo governo estadual. No dizer do secretário do Meio Ambiente, Francisco Graziano, é inadmissível que 67 municípios não tenham tomado uma providência sequer para melhorar as condições dos seus aterros.
Uma das medidas, a coleta seletiva, poderia reduzir significativamente a massa de lixo nos aterros. Essa providência é das mais necessárias, uma vez que a quantidade de lixo produzida pela população aumentou muito nos últimos tempos. Em 1990, cada paulistano produzia em média 200 gramas de lixo por dia. Hoje, produz cerca de 800 gramas.
Em municípios como Cananéia, Caraguatatuba, Ilha Comprida, Itanhaém, Mongaguá e Ubatuba, no litoral, verdadeiras montanhas de lixo ameaçam áreas de preservação da mata atlântica. As prefeituras acusam a Cetesb de dificultar a construção de aterros regionais, por causa das muitas áreas de preservação ambiental existentes no litoral. Além disso, a Cetesb só concede novas licenças para centros de tratamento com controle da produção de chorume e de gás.
As exigências da Cetesb são corretas, mas não deixam de abrir caminho para as acusações de favorecimento dos aterros de firmas particulares. Certamente, não se trata de favorecimento, mas da definição de um padrão ideal para a gestão dos detritos. Às prefeituras, o que resta é alcançar o mesmo grau de eficiência dos aterros particulares – o que já poderiam ter conseguido, caso tivessem dado ao assunto a devida prioridade.

