BRASIL
25/11/08Embrapa cria programa para medir impacto de agrotóxicos no solo
Por Bettina Barros, de São Paulo, no Valor Econômico, 21/11/2008.
A Embrapa Meio Ambiente vai colocar à disposição, no início de 2009, o primeiro software nacional que calcula o impacto ambiental do uso de agrotóxicos no solo. Inédito no Brasil, o programa é uma resposta ao decreto federal número 4.074, de 2002, que determina a realização de uma avaliação de riscos desses produtos na natureza.
Desenvolvido em parceria com a Fatec Botucatu, responsável pela conversão dos dados matemáticos em programa, e pela Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp, o software consumiu dois anos de pesquisas e um investimento de R$ 60 mil, desembolsados integralmente pela Embrapa Meio Ambiente.
De acordo com Claudio Spadotto, chefe-geral da Embrapa Meio Ambiente, o novo produto propiciará um avanço nas análises deste tipo. Isso porque serão incorporadas, pela primeira vez, informações sobre solo e clima. Hoje, o governo tem condições de aferir apenas a qualidade do agrotóxico, mas não o seu impacto após a aplicação no solo.
Ainda sem nome, o software será oferecido gratuitamente no site da Embrapa Meio Ambiente, a partir de janeiro. Nesta primeira fase do projeto, o programa calculará os riscos que os agrotóxicos podem causar à água subterrânea (como lençóis freáticos e poços artesianos) e à água superficial (lagos e açudes), de acordo com o tripé de informações sobre o agrotóxico, o solo onde ele será aplicado e o regime de chuvas da região. Baseado em modelos matemáticos e nos cenários agrícolas, o programa estimará o potencial de contaminação química da água, em qual concentração e se ela é tóxica para plantas, animais e consumo humano.
O público alvo é o próprio governo - personificado no Ministério da Agricultura, no Ibama e na Anvisa -, a quem cabe fazer os registros e as renovações de produtos agrotóxicos no país. Mas os fabricantes e os engenheiros agrônomos vinculados a produtores rurais podem lançar mão da ferramenta.
“Não temos o poder de impor a sua utilização, isso é uma decisão de política pública. Mas o software sistematiza a rotina e os procedimentos e amplia a análise”, diz Spadotto. “Com as novas informações, será possível antecipar problemas e os fabricantes poderão modificar e, eventualmente, até abortar o desenvolvimento de alguns agrotóxicos.” O cálculo, diz o pesquisador-chefe, é muito próximo do cenário real no campo. “Se errar, é para mais. O programa é conservador.”
Dependendo da aceitação do mercado (e das verbas), a Embrapa Meio Ambiente pretende fazer atualizações no programa para incluir outros aspectos importantes de impacto ambiental no campo - além da contaminação da água, o uso contínuo de agrotóxicos atinge diretamente mamíferos e aves. “Não estamos apregoando o uso de agrotóxicos”, explica Spadotto. “Simplesmente partimos do pressuposto que usamos muito agrotóxico no Brasil devido ao tipo de agricultura feita aqui”.
Trata-se de um mercado encorpado: a previsão é de que o país fechará o ano com vendas de agrotóxicos de R$ 8,5 bilhões, uma alta de 35% frente a 2007. Cerca de 30 mil toneladas desses produtos, capitaneados pelos fungicidas, herbicidas e inseticidas, são vendidas a cada ano. Segundo Spadotto, ainda não existe no país um trabalho de monitoramento sistemático de contaminação por agrotóxico.
EU, Brasil e a energia sustentável
20/11/08
Esta minha primeira visita ao Brasil ocorre num momento crucial para a Europa, bem como para o Brasil. Estarei representando a Comissão Européia na 2ª Conferência Internacional sobre Biocombustíveis a ser realizada em São Paulo e quero aproveitar a oportunidade de minha visita para entender melhor o êxito mundialmente reconhecido do Brasil no setor de bioenergia. Mas esta visita não trata apenas de biocombustíveis. Como Comissário de Energia da União Européia, estou procurando meios de fortalecer nossa cooperação com o Brasil em todas as principais questões de política energética.
Nossa cooperação no campo da energia ocorre no contexto de preocupações comuns que se concentram em questões verdadeiramente globais: mudanças climáticas e suas conseqüências, segurança de abastecimento e a necessidade de garantir uma matriz energética diversificada para nossos países. Para responder a esses desafios, a União Européia adotou, no ano passado, uma nova política ambiental e energética. Essa nova política define uma agenda voltada para o futuro, no intuito de atingir os objetivos energéticos fundamentais da Europa, a saber, sustentabilidade, competitividade e segurança de abastecimento.
A UE está comprometida com a iniciativa “20-20-20″: reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 20%, aumentar a participação de fontes renováveis no consumo de energia em 20%, em contraste com os 8,5% atuais, e melhorar nossa eficiência energética em 20%, até 2020. Uma vez implementada, a nova Política Energética Européia mudará fundamentalmente nossos prognósticos energéticos. Investindo em eficiência energética e fontes renováveis de energia hoje, estamos construindo uma nova base sustentável para nossas economias e criando perspectivas de uma futura matriz energética com baixo componente de carbono.
Para complementar e potencializar esses esforços, a Comissão Européia propôs semana passada, no dia 12 de novembro, como parte do seu segundo Relatório sobre Energia Estratégica, um Plano de Ação Solidária e de Segurança Energética para a União Européia, o qual fornecerá instrumentos adicionais para assegurar a consecução dos três objetivos energéticos básicos da UE, focalizando as necessidades de infra-estrutura energética, a diversificação das fontes fornecedoras de energia e os mecanismos de resposta a crises.
Uma das principais prioridades da Europa é fortalecer a cooperação com o Brasil na área de energia. O Brasil é um ator principal nos mercados energéticos mundiais e influencia os desenvolvimentos energéticos que estão sendo realizados na América Latina. O Brasil é um dos pioneiros mundiais e também o maior produtor de biocombustíveis. Essas realizações são de interesse fundamental da União Européia. A Europa tem coisas a aprender com a história de sucessos do Brasil, entre as quais se destacam como integrar com êxito as cadeias de produção de alimentos e biocombustíveis e como fazer com que esses centros de produção de bioenergia trabalhem em prol do desenvolvimento socioeconômico em nível local.
O clima e a política energética da UE incluem uma política de biocombustíveis voltada para o futuro, que está baseada, como qualquer outro elemento de nossa política energética, nos três princípios chaves de sustentabilidade, competitividade e segurança de abastecimento. O setor de transportes, que depende em mais de 90% do petróleo, é particularmente vulnerável, sendo os biocombustíveis uma alternativa viável para esse setor. É por isso que nossas metas energéticas para 2020 também incluem uma meta separada de 10% para o uso de energia renovável nos transportes, devendo os biocombustíveis atender à maior parte dessa meta. A meta de 10% de combustíveis renováveis no setor de transportes vem acompanhada de um conjunto de critérios de sustentabilidade e normas de monitoramento. Esses critérios não devem ser vistos como uma limitação do acesso aos mercados europeus. Pelo contrário, o etanol produzido no Brasil em conformidade com essas normas pode estar entre os biocombustíveis de melhor desempenho, com as mais baixas emissões de GHG (gases de efeito estufa). Adotando esse esquema de sustentabilidade a UE quer influenciar positivamente o mercado internacional de biocombustíveis e provar que os biocombustíveis podem ser ambientalmente aceitáveis quando produzidos de maneira apropriada.
Sem tais critérios, as políticas de biocombustíveis nem sempre são consideradas politicamente aceitáveis, como temos visto no enorme debate público que acontece em nível mundial. A Europa tem sido o principal impulsor do Acordo de Kyoto e do esforço mundial para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Queremos também assumir um papel protagonista no desenvolvimento das normas internacionais de sustentabilidade para os biocombustíveis. Isso interessa ao Brasil e a outros produtores de biocombustíveis, bem como aos países que estão exportando ou querem exportar biocombustíveis.
A União Européia e o Brasil compartilham a certeza de que a cooperação no campo da energia pode trazer benefícios mútuos. Compartilhamos preocupações e desafios neste campo. Temos muito a aprender um do outro, especialmente quanto à energia renovável, mas também em relação a outras tecnologias de baixo carbono e à eficiência e segurança energéticas. Podemos beneficiar-nos enormemente juntando nossas capacidades técnicas e científicas nesses domínios, em prol de uma maior diversificação, segurança e sustentabilidade energéticas. É sobre esses temas que espero ter discussões interessantes e intercâmbios positivos com meus colegas do governo brasileiro.
Fonte: Valor Econômico
Quarta-feira, 19 novembro de 2008
Móvel ’sustentável’ ganha selo
Empresas de Santa Catarina lançam o ‘biomóvel’
Paulo Justus
Um grupo de 26 empresas catarinenses aposta no móvel sustentável para fortalecer a presença no mercado interno. As fabricantes lançam hoje em São Paulo as primeiras linhas de produtos com a marca Biomóvel, fabricados com madeira reflorestada e design que economiza matérias-primas.
A marca Biomóvel foi desenvolvida para agregar valor às adaptações que o Arranjo Produtivo Local (APL) do norte catarinense havia feito para se adaptar às normas européias. “As empresas da região já trabalhavam seguindo as exigências européias, e agora vão tentar colocar esses móveis no mercado nacional”, diz Sandro Rudnick, proprietário da Móveis Rudnick. A iniciativa surgiu no início do ano, quando o pólo moveleiro passava por dificuldades no mercado externo.
A certificação dos móveis é feita pelo Serviço Nacional da Indústria (Senai), que auditora as empresas para verificar se a origem dos materiais, os processos de fabricação e distribuição dos móveis condizem com as premissas do projeto (economia de matérias-primas e menos impacto ambiental).
A estratégia é manter o móvel “verde” com preço compatível ao das demais linhas. “Temos condições de produzir sem agredir o meio ambiente e sem cobrar mais caro por isso”, diz Ivo Grossl, proprietário da Móveis Grossl. O lançamento dos biomóveis vai contar com 50 produtos certificados. “Esperamos ter de 5% a 10% das nossas linhas compostas por biomóveis em 2009″, diz Rudnick.
Para Ari Lorandi, diretor da Central de Excelência Moveleira, empresa de marketing responsável pela criação da marca, os biomóveis devem despertar a procura de projetos ambientalmente corretos, como os edifícios verdes. “Existe hoje um nicho de mercado em crescimento, de arquitetos que procuram mobiliário para esses empreendimentos”, diz.
FOLHA DE S. PAULO - SP
17/11/2008
BNDES vê expansão de 81% em biocombustível
Crise, no entanto, poderá afetar projeções para 2010; conferência internacional discute tema em São Paulo
JANAINA LAGE
DA SUCURSAL DO RIO
Estudo elaborado pelo BNDES a pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirma que a demanda mundial por biocombustíveis alcançará 101 bilhões em 2010. O resultado representaria um aumento de 81,3% em relação ao patamar de 2007, de produção de 55,7 bilhões de litros.
As previsões indicam que a equiparação entre oferta e demanda só deverá ocorrer em 2015, quando a produção chegar a 162 bilhões de litros para um patamar de demanda de 150 bilhões de litros.
As informações fazem parte do livro “Bioetanol de Cana-de-açúcar Energia para o Desenvolvimento Sustentável”, que será lançado pelo presidente amanhã durante a Conferência Internacional sobre os Biocombustíveis, em São Paulo.
Apesar do cenário positivo projetado no livro, Júlio Ramundo, superintendente da área de Indústria do BNDES, diz que a crise no mercado financeiro está levando empresas a reverem planos de investimento. Ele diz não ter havido impacto nos pedidos de financiamento feitos ao banco.
“A falta de crédito generalizada afeta todos os setores. O setor já vinha de uma situação de preços que não era das mais favoráveis, mas o banco vê isso como uma situação conjuntural. Os projetos que estão em sua fase inicial estão sujeitos a revisão das decisões de investimento. O tempo de maturação desses projetos é longo, e quando os pedidos chegam ao banco, o empresário já tomou a decisão de investir. Não houve desistência”, disse.
A participação dos empréstimos para o setor sucroalcooleiro no total de financiamentos do BNDES saltou de 1,53% em 2004 para quase 8% de janeiro a outubro deste ano. De acordo com o banco de fomento, já foram liberados este ano R$ 5,22 bilhões para o setor.
Do total desembolsado pelo BNDES em 2008 para o setor, R$ 2,31 bilhões foram destinados à fabricação de álcool. O restante estava relacionado a investimentos em co-geração, cultivo de cana e produção de açúcar. A carteira de projetos do banco soma R$ 12,415 bilhões, entre operações em perspectiva, em consulta, em análise, aprovadas ou contratadas, com um total de 78 projetos.
Divulgação
Com o objetivo de abrir espaços na economia mundial para o álcool, o BNDES programou viagens de divulgação do livro “Bioetanol de Cana-de-açúcar -Energia para o Desenvolvimento Sustentável” por América do Norte, América Central, Europa e África em 2009.
Luiz Augusto Horta Nogueira, organizador do livro, diz que o principal entrave para a inserção do álcool como commodity é a desinformação. “Para nós, o álcool já se tornou parte do cotidiano, mas há quem não saiba nem que há uma parcela de álcool misturada à gasolina”, diz ele. O estudo contesta também as afirmações de que a produção de álcool de cana-de-açúcar prejudica a produção de alimentos.
17 de Novembro de 2008.
O desafio da Amazônia
Folha de SP
Reinhold Stephanes
O desafio, agora, é dimensionar o nível de responsabilidade de cada agente, adotando alternativas sustentáveis
Reinhold Stephanes é economista, deputado federal licenciado (PMDB-PR) e ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Foi ministro do Trabalho e Previdência Social (1992-1995) e da Previdência e Assistência Social (1995-1998). Artigo publicado na “Folha de SP”:
Não é preciso derrubar mais árvores na Amazônia para expandir a agropecuária brasileira, mas o mero congelamento da atividade não garantirá a preservação da floresta. Quem conhece a realidade local, bem distante de Brasília, identifica melhor as causas do desmatamento, originadas, principalmente, pela forma como a região foi ocupada, em uma época em que a própria lei estimulava a derrubada da selva.
Hoje, carvoarias, madeireiras, assentamentos, produtores rurais e a população que, literalmente, vive da floresta dividem, em vários níveis, a responsabilidade pela redução gradual do bioma. Porém, o Estado brasileiro merece, também, uma parcela de culpa por ter subestimado a importância da Amazônia no passado.
O desafio, agora, é dimensionar o nível de responsabilidade de cada agente, adotando alternativas sustentáveis -e viáveis economicamente- que contribuam para o equilíbrio entre o homem e a natureza na região.
Sob pressão externa, trata-se o desmatamento na Amazônia de forma emocional e nem sempre com base em dados confiáveis, que, por sua vez, acabam justificando medidas inconseqüentes. Tampouco a estrutura tecnológica disponível é capaz de detectar as ocorrências em tempo real, a fim de reprimi-las.
Perdem-se meses discutindo a credibilidade das listas de desmatadores, quando, na verdade, desconhecemos os proprietários das terras. Aliás, a regularização fundiária da Amazônia é tão necessária que deverá merecer a criação de mecanismos próprios de acompanhamento, propostos pelo ministro extraordinário de Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger, com aval do presidente da República.
A legislação ambiental contribui, também, para engessar o debate sobre as melhores alternativas para a região. As leis mudaram, os critérios foram alterados, mas a realidade persiste. Por exemplo, até 2001, o Código Florestal obrigava os produtores a preservar 50% da área, e não 80%, como atualmente. Quem derrubou metade da propriedade passou a ser obrigado a reflorestar. Foi o que aconteceu com os assentamentos incluídos recentemente na lista dos maiores desmatadores da Amazônia.
Vale lembrar que a legislação ambiental contempla o território nacional, mas não considera as diferentes realidades nem as regiões nas quais a agricultura se instalou há décadas. Se as normas forem cumpridas à risca, praticamente a metade das propriedades rurais do Centro-Sul do país, no qual a agropecuária está consolidada, está ou estará fora da lei.
Outra questão é a existência de duas Amazônias constantemente confundidas: a do bioma e a legal.
Sobre o bioma amazônico, é simples: abrange a marca da floresta, embora registre outros sub-biomas. A Amazônia Legal é uma ficção geográfica, fruto da busca pelos benefícios fiscais da União por parte dos Estados vizinhos à floresta. Alguns destes com parte predominante dos territórios fora do bioma amazônico, sobretudo no Centro-Oeste, onde estão os biomas de cerrado, pantanal ou caatinga.
Mesmo assim, a lei ambiental equiparou áreas desses biomas às da floresta amazônica, impondo-lhes, em grande parte, as mesmas restrições.
No que se refere ao agronegócio, repito, o Brasil tem alternativas para a expansão. Há estudos técnicos apontando para o uso preferencial de áreas agricultáveis, atualmente ocupadas por pastagens e que se encontram em vários níveis de degradação. E isso deve acontecer fora do bioma amazônico. Basta lembrar que a pecuária utiliza 200 milhões de hectares em todo o país para um rebanho estimado de 180 milhões de cabeças de gado.
Ninguém em sã consciência discorda que essa distribuição pode ser refeita e até incentivada pelo governo federal. Além do apoio à atividade econômica, a utilização correta das áreas degradadas evita a erosão e a desertificação, que levam ao assoreamento dos rios e ao empobrecimento do solo, respectivamente.
A questão, porém, é que há áreas degradadas na região amazônica que poderiam ser recuperadas com culturas perenes, como o dendê e outras espécies nativas, que, além de seqüestrarem carbono da atmosfera, recuperam o solo e geram empregos em quantidade suficiente para absorver os que por falta de opção sobrevivem consumindo a riqueza da floresta.
Compreende-se que a defesa da Amazônia exija uma posição protecionista mais rígida. Isso não pode impedir, porém, que ignoremos áreas agrícolas consolidadas há gerações, sem encontrar formas de flexibilização do uso do solo. Ambas as posições são necessárias para alcançarmos o desenvolvimento sustentável que a Amazônia e sua gente merecem.
Segunda-feira, 17 novembro de 2008
Sabesp coleta esgoto e joga nos rios
1,27 bilhão de litros/dia de resíduos jorram por 6.670 pontos; 1/4 dos dejetos metropolitanos acaba em cursos d’água
Eduardo Reina
Parte dos habitantes da Região Metropolitana de São Paulo atendidos pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) paga a coleta e o tratamento de esgotos, mas a empresa joga tudo, in natura, nos rios e córregos, por falta de coletores, interceptores e emissários. Esses pontos de poluição são chamados pela empresa de lançamentos provisórios, mas sempre existiram. Há 6.670 pontos, que jogam em cursos d’água 1,27 bilhão de litros/dia e deverão estar totalmente ligados aos coletores só em 2018. A Sabesp justifica-se, dizendo que 3.470 pontos foram conectados à rede nos últimos anos, baixando o despejo em 1,41 bilhão de litros/dia - anteriormente eram 10.140 pontos de poluição.
Para piorar, as seis cidades da Região Metropolitana que têm serviço próprio de água e esgoto - Santo André, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá, Guarulhos e Mogi das Cruzes - não conseguem tratar seus dejetos e também despejam mais de 394 milhões de litros de detritos todos os dias em rios e ribeirões. E há ainda as 100 mil ligações clandestinas de esgotos na capital que jorram a cada 24 horas mais 500 mil litros de sujeira nesses mesmos cursos d’água. As bacias dos Rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí, na Grande São Paulo, recebem cerca de 26,8% de todo o esgoto metropolitano (4,32 bilhões litros/segundo), fora a sujeira que vem das ruas. E 15% da população sequer conta com os dejetos coletados.
O mapeamento dos pontos de despejo feito pela Sabesp coloca um ponto vermelho em cada um dos locais de lançamento. A quantidade é tão grande que, internamente, ganhou o nome de “mapa catapora”. “É uma vergonha que a sede da maior empresa de saneamento da América Latina esteja numa cidade que fede a esgoto”, afirma o presidente, Gesner Oliveira.
A Região Metropolitana produz todos os dias algo em torno de 50 mil litros de esgoto por segundo. Efetivamente são tratados nas cinco estações de tratamento de esgotos (ETEs) - ABC, Barueri, Parque Novo Mundo, São Miguel e Suzano - 13,5 mil litros por segundo. Entretanto, a capacidade efetiva de tratamento dessas ETEs é de 18 mil litros/segundo. “Daqui a dez anos será inaceitável passar pelas Marginais e sentir fedor. É preciso resolver o problema do esgotamento sanitário”, admite Gesner. Para tanto, uma das apostas da companhia ainda é o Projeto Tietê, para limpar os rios e coletar e tratar todo o esgoto na Grande São Paulo até 2018.
De acordo com o engenheiro Julio Cerqueira Cesar Neto, da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental, são dois os motivos que impedem a utilização total da capacidade de tratamento. Primeiramente, a deficiência das canalizações que deveriam transportar os esgotos das redes coletoras para áreas de tratamento. Faltam coletores-tronco (tubulações instaladas ao lado dos córregos), interceptadores (tubulações assentadas ao lado dos rios) e emissários. “A Sabesp, desde a fundação em 1973, até o início do Projeto Tietê, na década de 90, se preocupou em construir apenas as pontas do sistema: as redes coletoras e as estações de tratamento. Evidentemente as redes coletoras foram executadas despejando os esgotos in natura nos córregos.”
Só após a passagem pela estações o produto é devolvido, em boas condições - segundo a Sabesp -, ao meio ambiente ou destinado ao reúso. Um estudo do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas também mostra que cada R$ 1 investido em saneamento representa uma economia de R$ 4 em gastos com saúde.



