Arquivo de novembro, 2008

BRASIL

25/11/08

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Embrapa cria programa para medir impacto de agrotóxicos no solo

Por Bettina Barros, de São Paulo, no Valor Econômico, 21/11/2008.

A Embrapa Meio Ambiente vai colocar à disposição, no início de 2009, o primeiro software nacional que calcula o impacto ambiental do uso de agrotóxicos no solo. Inédito no Brasil, o programa é uma resposta ao decreto federal número 4.074, de 2002, que determina a realização de uma avaliação de riscos desses produtos na natureza.

Desenvolvido em parceria com a Fatec Botucatu, responsável pela conversão dos dados matemáticos em programa, e pela Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp, o software consumiu dois anos de pesquisas e um investimento de R$ 60 mil, desembolsados integralmente pela Embrapa Meio Ambiente.

De acordo com Claudio Spadotto, chefe-geral da Embrapa Meio Ambiente, o novo produto propiciará um avanço nas análises deste tipo. Isso porque serão incorporadas, pela primeira vez, informações sobre solo e clima. Hoje, o governo tem condições de aferir apenas a qualidade do agrotóxico, mas não o seu impacto após a aplicação no solo.

Ainda sem nome, o software será oferecido gratuitamente no site da Embrapa Meio Ambiente, a partir de janeiro. Nesta primeira fase do projeto, o programa calculará os riscos que os agrotóxicos podem causar à água subterrânea (como lençóis freáticos e poços artesianos) e à água superficial (lagos e açudes), de acordo com o tripé de informações sobre o agrotóxico, o solo onde ele será aplicado e o regime de chuvas da região. Baseado em modelos matemáticos e nos cenários agrícolas, o programa estimará o potencial de contaminação química da água, em qual concentração e se ela é tóxica para plantas, animais e consumo humano.

O público alvo é o próprio governo - personificado no Ministério da Agricultura, no Ibama e na Anvisa -, a quem cabe fazer os registros e as renovações de produtos agrotóxicos no país. Mas os fabricantes e os engenheiros agrônomos vinculados a produtores rurais podem lançar mão da ferramenta.

“Não temos o poder de impor a sua utilização, isso é uma decisão de política pública. Mas o software sistematiza a rotina e os procedimentos e amplia a análise”, diz Spadotto. “Com as novas informações, será possível antecipar problemas e os fabricantes poderão modificar e, eventualmente, até abortar o desenvolvimento de alguns agrotóxicos.” O cálculo, diz o pesquisador-chefe, é muito próximo do cenário real no campo. “Se errar, é para mais. O programa é conservador.”

Dependendo da aceitação do mercado (e das verbas), a Embrapa Meio Ambiente pretende fazer atualizações no programa para incluir outros aspectos importantes de impacto ambiental no campo - além da contaminação da água, o uso contínuo de agrotóxicos atinge diretamente mamíferos e aves. “Não estamos apregoando o uso de agrotóxicos”, explica Spadotto. “Simplesmente partimos do pressuposto que usamos muito agrotóxico no Brasil devido ao tipo de agricultura feita aqui”.

Trata-se de um mercado encorpado: a previsão é de que o país fechará o ano com vendas de agrotóxicos de R$ 8,5 bilhões, uma alta de 35% frente a 2007. Cerca de 30 mil toneladas desses produtos, capitaneados pelos fungicidas, herbicidas e inseticidas, são vendidas a cada ano. Segundo Spadotto, ainda não existe no país um trabalho de monitoramento sistemático de contaminação por agrotóxico.


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EU, Brasil e a energia sustentável

20/11/08

Esta minha primeira visita ao Brasil ocorre num momento crucial para a Europa, bem como para o Brasil. Estarei representando a Comissão Européia na 2ª Conferência Internacional sobre Biocombustíveis a ser realizada em São Paulo e quero aproveitar a oportunidade de minha visita para entender melhor o êxito mundialmente reconhecido do Brasil no setor de bioenergia. Mas esta visita não trata apenas de biocombustíveis. Como Comissário de Energia da União Européia, estou procurando meios de fortalecer nossa cooperação com o Brasil em todas as principais questões de política energética.

Nossa cooperação no campo da energia ocorre no contexto de preocupações comuns que se concentram em questões verdadeiramente globais: mudanças climáticas e suas conseqüências, segurança de abastecimento e a necessidade de garantir uma matriz energética diversificada para nossos países. Para responder a esses desafios, a União Européia adotou, no ano passado, uma nova política ambiental e energética. Essa nova política define uma agenda voltada para o futuro, no intuito de atingir os objetivos energéticos fundamentais da Europa, a saber, sustentabilidade, competitividade e segurança de abastecimento.

A UE está comprometida com a iniciativa “20-20-20″: reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 20%, aumentar a participação de fontes renováveis no consumo de energia em 20%, em contraste com os 8,5% atuais, e melhorar nossa eficiência energética em 20%, até 2020. Uma vez implementada, a nova Política Energética Européia mudará fundamentalmente nossos prognósticos energéticos. Investindo em eficiência energética e fontes renováveis de energia hoje, estamos construindo uma nova base sustentável para nossas economias e criando perspectivas de uma futura matriz energética com baixo componente de carbono.

Para complementar e potencializar esses esforços, a Comissão Européia propôs semana passada, no dia 12 de novembro, como parte do seu segundo Relatório sobre Energia Estratégica, um Plano de Ação Solidária e de Segurança Energética para a União Européia, o qual fornecerá instrumentos adicionais para assegurar a consecução dos três objetivos energéticos básicos da UE, focalizando as necessidades de infra-estrutura energética, a diversificação das fontes fornecedoras de energia e os mecanismos de resposta a crises.

Uma das principais prioridades da Europa é fortalecer a cooperação com o Brasil na área de energia. O Brasil é um ator principal nos mercados energéticos mundiais e influencia os desenvolvimentos energéticos que estão sendo realizados na América Latina. O Brasil é um dos pioneiros mundiais e também o maior produtor de biocombustíveis. Essas realizações são de interesse fundamental da União Européia. A Europa tem coisas a aprender com a história de sucessos do Brasil, entre as quais se destacam como integrar com êxito as cadeias de produção de alimentos e biocombustíveis e como fazer com que esses centros de produção de bioenergia trabalhem em prol do desenvolvimento socioeconômico em nível local.

O clima e a política energética da UE incluem uma política de biocombustíveis voltada para o futuro, que está baseada, como qualquer outro elemento de nossa política energética, nos três princípios chaves de sustentabilidade, competitividade e segurança de abastecimento. O setor de transportes, que depende em mais de 90% do petróleo, é particularmente vulnerável, sendo os biocombustíveis uma alternativa viável para esse setor. É por isso que nossas metas energéticas para 2020 também incluem uma meta separada de 10% para o uso de energia renovável nos transportes, devendo os biocombustíveis atender à maior parte dessa meta. A meta de 10% de combustíveis renováveis no setor de transportes vem acompanhada de um conjunto de critérios de sustentabilidade e normas de monitoramento. Esses critérios não devem ser vistos como uma limitação do acesso aos mercados europeus. Pelo contrário, o etanol produzido no Brasil em conformidade com essas normas pode estar entre os biocombustíveis de melhor desempenho, com as mais baixas emissões de GHG (gases de efeito estufa). Adotando esse esquema de sustentabilidade a UE quer influenciar positivamente o mercado internacional de biocombustíveis e provar que os biocombustíveis podem ser ambientalmente aceitáveis quando produzidos de maneira apropriada.

Sem tais critérios, as políticas de biocombustíveis nem sempre são consideradas politicamente aceitáveis, como temos visto no enorme debate público que acontece em nível mundial. A Europa tem sido o principal impulsor do Acordo de Kyoto e do esforço mundial para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Queremos também assumir um papel protagonista no desenvolvimento das normas internacionais de sustentabilidade para os biocombustíveis. Isso interessa ao Brasil e a outros produtores de biocombustíveis, bem como aos países que estão exportando ou querem exportar biocombustíveis.
A União Européia e o Brasil compartilham a certeza de que a cooperação no campo da energia pode trazer benefícios mútuos. Compartilhamos preocupações e desafios neste campo. Temos muito a aprender um do outro, especialmente quanto à energia renovável, mas também em relação a outras tecnologias de baixo carbono e à eficiência e segurança energéticas. Podemos beneficiar-nos enormemente juntando nossas capacidades técnicas e científicas nesses domínios, em prol de uma maior diversificação, segurança e sustentabilidade energéticas. É sobre esses temas que espero ter discussões interessantes e intercâmbios positivos com meus colegas do governo brasileiro.
Fonte: Valor Econômico


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Quarta-feira, 19 novembro de 2008

Móvel ’sustentável’ ganha selo

Empresas de Santa Catarina lançam o ‘biomóvel’

Paulo Justus

Um grupo de 26 empresas catarinenses aposta no móvel sustentável para fortalecer a presença no mercado interno. As fabricantes lançam hoje em São Paulo as primeiras linhas de produtos com a marca Biomóvel, fabricados com madeira reflorestada e design que economiza matérias-primas.

A marca Biomóvel foi desenvolvida para agregar valor às adaptações que o Arranjo Produtivo Local (APL) do norte catarinense havia feito para se adaptar às normas européias. “As empresas da região já trabalhavam seguindo as exigências européias, e agora vão tentar colocar esses móveis no mercado nacional”, diz Sandro Rudnick, proprietário da Móveis Rudnick. A iniciativa surgiu no início do ano, quando o pólo moveleiro passava por dificuldades no mercado externo.

A certificação dos móveis é feita pelo Serviço Nacional da Indústria (Senai), que auditora as empresas para verificar se a origem dos materiais, os processos de fabricação e distribuição dos móveis condizem com as premissas do projeto (economia de matérias-primas e menos impacto ambiental).

A estratégia é manter o móvel “verde” com preço compatível ao das demais linhas. “Temos condições de produzir sem agredir o meio ambiente e sem cobrar mais caro por isso”, diz Ivo Grossl, proprietário da Móveis Grossl. O lançamento dos biomóveis vai contar com 50 produtos certificados. “Esperamos ter de 5% a 10% das nossas linhas compostas por biomóveis em 2009″, diz Rudnick.

Para Ari Lorandi, diretor da Central de Excelência Moveleira, empresa de marketing responsável pela criação da marca, os biomóveis devem despertar a procura de projetos ambientalmente corretos, como os edifícios verdes. “Existe hoje um nicho de mercado em crescimento, de arquitetos que procuram mobiliário para esses empreendimentos”, diz.


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FOLHA DE S. PAULO - SP
17/11/2008

BNDES vê expansão de 81% em biocombustível

Crise, no entanto, poderá afetar projeções para 2010; conferência internacional discute tema em São Paulo

JANAINA LAGE
DA SUCURSAL DO RIO

Estudo elaborado pelo BNDES a pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirma que a demanda mundial por biocombustíveis alcançará 101 bilhões em 2010. O resultado representaria um aumento de 81,3% em relação ao patamar de 2007, de produção de 55,7 bilhões de litros.

As previsões indicam que a equiparação entre oferta e demanda só deverá ocorrer em 2015, quando a produção chegar a 162 bilhões de litros para um patamar de demanda de 150 bilhões de litros.

As informações fazem parte do livro “Bioetanol de Cana-de-açúcar Energia para o Desenvolvimento Sustentável”, que será lançado pelo presidente amanhã durante a Conferência Internacional sobre os Biocombustíveis, em São Paulo.

Apesar do cenário positivo projetado no livro, Júlio Ramundo, superintendente da área de Indústria do BNDES, diz que a crise no mercado financeiro está levando empresas a reverem planos de investimento. Ele diz não ter havido impacto nos pedidos de financiamento feitos ao banco.

“A falta de crédito generalizada afeta todos os setores. O setor já vinha de uma situação de preços que não era das mais favoráveis, mas o banco vê isso como uma situação conjuntural. Os projetos que estão em sua fase inicial estão sujeitos a revisão das decisões de investimento. O tempo de maturação desses projetos é longo, e quando os pedidos chegam ao banco, o empresário já tomou a decisão de investir. Não houve desistência”, disse.

A participação dos empréstimos para o setor sucroalcooleiro no total de financiamentos do BNDES saltou de 1,53% em 2004 para quase 8% de janeiro a outubro deste ano. De acordo com o banco de fomento, já foram liberados este ano R$ 5,22 bilhões para o setor.

Do total desembolsado pelo BNDES em 2008 para o setor, R$ 2,31 bilhões foram destinados à fabricação de álcool. O restante estava relacionado a investimentos em co-geração, cultivo de cana e produção de açúcar. A carteira de projetos do banco soma R$ 12,415 bilhões, entre operações em perspectiva, em consulta, em análise, aprovadas ou contratadas, com um total de 78 projetos.

Divulgação

Com o objetivo de abrir espaços na economia mundial para o álcool, o BNDES programou viagens de divulgação do livro “Bioetanol de Cana-de-açúcar -Energia para o Desenvolvimento Sustentável” por América do Norte, América Central, Europa e África em 2009.

Luiz Augusto Horta Nogueira, organizador do livro, diz que o principal entrave para a inserção do álcool como commodity é a desinformação. “Para nós, o álcool já se tornou parte do cotidiano, mas há quem não saiba nem que há uma parcela de álcool misturada à gasolina”, diz ele. O estudo contesta também as afirmações de que a produção de álcool de cana-de-açúcar prejudica a produção de alimentos.


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17 de Novembro de 2008.

O desafio da Amazônia

Folha de SP

Reinhold Stephanes

O desafio, agora, é dimensionar o nível de responsabilidade de cada agente, adotando alternativas sustentáveis

Reinhold Stephanes é economista, deputado federal licenciado (PMDB-PR) e ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Foi ministro do Trabalho e Previdência Social (1992-1995) e da Previdência e Assistência Social (1995-1998). Artigo publicado na “Folha de SP”:

Não é preciso derrubar mais árvores na Amazônia para expandir a agropecuária brasileira, mas o mero congelamento da atividade não garantirá a preservação da floresta. Quem conhece a realidade local, bem distante de Brasília, identifica melhor as causas do desmatamento, originadas, principalmente, pela forma como a região foi ocupada, em uma época em que a própria lei estimulava a derrubada da selva.

Hoje, carvoarias, madeireiras, assentamentos, produtores rurais e a população que, literalmente, vive da floresta dividem, em vários níveis, a responsabilidade pela redução gradual do bioma. Porém, o Estado brasileiro merece, também, uma parcela de culpa por ter subestimado a importância da Amazônia no passado.

O desafio, agora, é dimensionar o nível de responsabilidade de cada agente, adotando alternativas sustentáveis -e viáveis economicamente- que contribuam para o equilíbrio entre o homem e a natureza na região.

Sob pressão externa, trata-se o desmatamento na Amazônia de forma emocional e nem sempre com base em dados confiáveis, que, por sua vez, acabam justificando medidas inconseqüentes. Tampouco a estrutura tecnológica disponível é capaz de detectar as ocorrências em tempo real, a fim de reprimi-las.

Perdem-se meses discutindo a credibilidade das listas de desmatadores, quando, na verdade, desconhecemos os proprietários das terras. Aliás, a regularização fundiária da Amazônia é tão necessária que deverá merecer a criação de mecanismos próprios de acompanhamento, propostos pelo ministro extraordinário de Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger, com aval do presidente da República.

A legislação ambiental contribui, também, para engessar o debate sobre as melhores alternativas para a região. As leis mudaram, os critérios foram alterados, mas a realidade persiste. Por exemplo, até 2001, o Código Florestal obrigava os produtores a preservar 50% da área, e não 80%, como atualmente. Quem derrubou metade da propriedade passou a ser obrigado a reflorestar. Foi o que aconteceu com os assentamentos incluídos recentemente na lista dos maiores desmatadores da Amazônia.

Vale lembrar que a legislação ambiental contempla o território nacional, mas não considera as diferentes realidades nem as regiões nas quais a agricultura se instalou há décadas. Se as normas forem cumpridas à risca, praticamente a metade das propriedades rurais do Centro-Sul do país, no qual a agropecuária está consolidada, está ou estará fora da lei.

Outra questão é a existência de duas Amazônias constantemente confundidas: a do bioma e a legal.

Sobre o bioma amazônico, é simples: abrange a marca da floresta, embora registre outros sub-biomas. A Amazônia Legal é uma ficção geográfica, fruto da busca pelos benefícios fiscais da União por parte dos Estados vizinhos à floresta. Alguns destes com parte predominante dos territórios fora do bioma amazônico, sobretudo no Centro-Oeste, onde estão os biomas de cerrado, pantanal ou caatinga.

Mesmo assim, a lei ambiental equiparou áreas desses biomas às da floresta amazônica, impondo-lhes, em grande parte, as mesmas restrições.

No que se refere ao agronegócio, repito, o Brasil tem alternativas para a expansão. Há estudos técnicos apontando para o uso preferencial de áreas agricultáveis, atualmente ocupadas por pastagens e que se encontram em vários níveis de degradação. E isso deve acontecer fora do bioma amazônico. Basta lembrar que a pecuária utiliza 200 milhões de hectares em todo o país para um rebanho estimado de 180 milhões de cabeças de gado.

Ninguém em sã consciência discorda que essa distribuição pode ser refeita e até incentivada pelo governo federal. Além do apoio à atividade econômica, a utilização correta das áreas degradadas evita a erosão e a desertificação, que levam ao assoreamento dos rios e ao empobrecimento do solo, respectivamente.

A questão, porém, é que há áreas degradadas na região amazônica que poderiam ser recuperadas com culturas perenes, como o dendê e outras espécies nativas, que, além de seqüestrarem carbono da atmosfera, recuperam o solo e geram empregos em quantidade suficiente para absorver os que por falta de opção sobrevivem consumindo a riqueza da floresta.

Compreende-se que a defesa da Amazônia exija uma posição protecionista mais rígida. Isso não pode impedir, porém, que ignoremos áreas agrícolas consolidadas há gerações, sem encontrar formas de flexibilização do uso do solo. Ambas as posições são necessárias para alcançarmos o desenvolvimento sustentável que a Amazônia e sua gente merecem.

 



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Segunda-feira, 17 novembro de 2008

Sabesp coleta esgoto e joga nos rios

1,27 bilhão de litros/dia de resíduos jorram por 6.670 pontos; 1/4 dos dejetos metropolitanos acaba em cursos d’água

Eduardo Reina

Parte dos habitantes da Região Metropolitana de São Paulo atendidos pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) paga a coleta e o tratamento de esgotos, mas a empresa joga tudo, in natura, nos rios e córregos, por falta de coletores, interceptores e emissários. Esses pontos de poluição são chamados pela empresa de lançamentos provisórios, mas sempre existiram. Há 6.670 pontos, que jogam em cursos d’água 1,27 bilhão de litros/dia e deverão estar totalmente ligados aos coletores só em 2018. A Sabesp justifica-se, dizendo que 3.470 pontos foram conectados à rede nos últimos anos, baixando o despejo em 1,41 bilhão de litros/dia - anteriormente eram 10.140 pontos de poluição.

Para piorar, as seis cidades da Região Metropolitana que têm serviço próprio de água e esgoto - Santo André, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá, Guarulhos e Mogi das Cruzes - não conseguem tratar seus dejetos e também despejam mais de 394 milhões de litros de detritos todos os dias em rios e ribeirões. E há ainda as 100 mil ligações clandestinas de esgotos na capital que jorram a cada 24 horas mais 500 mil litros de sujeira nesses mesmos cursos d’água. As bacias dos Rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí, na Grande São Paulo, recebem cerca de 26,8% de todo o esgoto metropolitano (4,32 bilhões litros/segundo), fora a sujeira que vem das ruas. E 15% da população sequer conta com os dejetos coletados.

O mapeamento dos pontos de despejo feito pela Sabesp coloca um ponto vermelho em cada um dos locais de lançamento. A quantidade é tão grande que, internamente, ganhou o nome de “mapa catapora”. “É uma vergonha que a sede da maior empresa de saneamento da América Latina esteja numa cidade que fede a esgoto”, afirma o presidente, Gesner Oliveira.

A Região Metropolitana produz todos os dias algo em torno de 50 mil litros de esgoto por segundo. Efetivamente são tratados nas cinco estações de tratamento de esgotos (ETEs) - ABC, Barueri, Parque Novo Mundo, São Miguel e Suzano - 13,5 mil litros por segundo. Entretanto, a capacidade efetiva de tratamento dessas ETEs é de 18 mil litros/segundo. “Daqui a dez anos será inaceitável passar pelas Marginais e sentir fedor. É preciso resolver o problema do esgotamento sanitário”, admite Gesner. Para tanto, uma das apostas da companhia ainda é o Projeto Tietê, para limpar os rios e coletar e tratar todo o esgoto na Grande São Paulo até 2018.

De acordo com o engenheiro Julio Cerqueira Cesar Neto, da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental, são dois os motivos que impedem a utilização total da capacidade de tratamento. Primeiramente, a deficiência das canalizações que deveriam transportar os esgotos das redes coletoras para áreas de tratamento. Faltam coletores-tronco (tubulações instaladas ao lado dos córregos), interceptadores (tubulações assentadas ao lado dos rios) e emissários. “A Sabesp, desde a fundação em 1973, até o início do Projeto Tietê, na década de 90, se preocupou em construir apenas as pontas do sistema: as redes coletoras e as estações de tratamento. Evidentemente as redes coletoras foram executadas despejando os esgotos in natura nos córregos.”

Só após a passagem pela estações o produto é devolvido, em boas condições - segundo a Sabesp -, ao meio ambiente ou destinado ao reúso. Um estudo do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas também mostra que cada R$ 1 investido em saneamento representa uma economia de R$ 4 em gastos com saúde.

MUDANÇAS CLIMÁTICAS

25/11/08

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FOLHA DE S. PAULO - SP Editoria:
TENDÊNCIAS Data:
21/11/2008

O enxofre, a omissão e a demagogia

CARLOS MINC

No impasse do teor de enxofre no diesel, sofremos fortes pressões para adiar, alterar ou criar exceções para a resolução. Não cedemos

EM ARTIGO publicado neste espaço (”Sentença de morte”, 13/ 11), o sr. Oded Grajew omite informações e faz ataques infundados, com a fúria típica de um recém-convertido à causa ambiental.
Ele ofende o Ministério Público Federal, o Ministério do Meio Ambiente e a Petrobras com o destempero de quem jogou para a platéia, querendo faturar politicamente no impasse no caso do teor de enxofre no diesel.
Ele omitiu que o governo do Estado de São Paulo e a Cetesb, co-autores da ação judicial, assinaram o TAC (termo de ajustamento de conduta) após participar de dezenas de reuniões com o Ministério Público, no que se supõe que suas demandas, ao menos na maior parte, foram contempladas.

A não-assinatura do TAC levaria o caso para a Justiça, sabe-se por quantos anos, com prejuízos ambientais, econômicos e sociais. As medidas compensatórias não seriam exercidas, oito fábricas de ônibus e caminhões seriam fechadas, 10 mil trabalhadores seriam demitidos e a qualidade do ar não melhoraria.
A resolução 315/02 do Conama determinou que os novos ônibus e caminhões, em 2009, teriam emissão equivalente à dos motores Euro 4 e do diesel S-50 (com 50 partes por milhão de enxofre). Mas nada vinha sendo feito para seu cumprimento.

No primeiro mês de nossa gestão, porém, reunimos cinco ministérios, ANP, Anfavea, Petrobras, Sindicato de Distribuidoras de Combustível, governos do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e São Paulo e Ministério Público Federal. Uma fundação independente elaborou metodologia de cálculo para avaliar as conseqüências para a saúde da população geradas pelo atraso no cumprimento da resolução.
Sofremos fortes pressões para adiar, alterar ou criar exceções técnicas para a resolução. Não cedemos e anunciamos que nenhum caminhão ou ônibus novo a diesel sairia das fábricas em 2009 sem atender à resolução ou obter acordo judicial com o Ministério Público Federal.

Propusemos ainda uma nova etapa do Proconve (Programa de Controle de Poluição do Ar por Veículos Automotores), instituindo um padrão, para 2012, equivalente ao do Euro 5 e do S-10, cinco vezes menos poluidor do que o S-50. O atraso da resolução 315/02 não poderia justificar um recuo, e sim um salto para nos igualarmos ao padrão europeu, já que os pulmões são idênticos.
Apresentamos então nova resolução ao Conama, que a aprovou, incorporando emendas dos ambientalistas. Estamos elaborando um Plano Nacional de Qualidade do Ar, envolvendo vistoria veicular obrigatória das emissões, como a que existe há nove anos no Rio de Janeiro, por causa de lei estadual de nossa autoria. O Rio é o único Estado com esse procedimento, que reduz as emissões.

A decisão do TAC ficou por conta do MPF de São Paulo. A procuradora da República Ana Cristina Bandeira Lins ouviu durante três meses as partes, criou um núcleo técnico de alto nível com profissionais da Cetesb, do Ibama e de fundações e realizou 20 reuniões de avaliação técnica das emissões e das medidas compensatórias apresentadas pela Petrobras e pela Anfavea, incluindo a importação de milhões de litros de diesel S-50, a regulagem de dezenas de milhares de ônibus e caminhões e a antecipação da fase do S-10.
Sem demagogia: todos sabiam que a resolução não seria cumprida devido a omissões de cinco anos. O que se avizinhava era um desastre ambiental, institucional e social. O Conama seria desrespeitado, e o ambiente, agredido por emissões sem nenhuma compensação. A não-assinatura do TAC implicaria a importação de 200 mil novos ônibus e caminhões a diesel, o fechamento de fábricas e a demissão de trabalhadores.
Na assinatura do TAC, a Cetesb e o governo de São Paulo exigiram medidas suplementares, como a ampliação das regulagens de outros milhares de ônibus e caminhões pela Petrobras e Anfavea, além do fornecimento de S-50, em 2009, às regiões metropolitanas do país e às frotas cativas de ônibus. O Ibama exigiu cronograma para a substituição definitiva do S-2.000 no interior e do S-500 em todas as regiões metropolitanas.

Mas não comemoramos. A resolução 315/02 deveria ter sido cumprida.

Do ponto em que enfrentamos o problema, não cedemos à postergação da resolução e ainda avançamos com o S-10. O TAC é de responsabilidade dos que o assinaram. Vamos fiscalizar o cumprimento integral do TAC e da nova resolução do Conama; aprovar a vistoria obrigatória nos Estados e ampliar a participação do etanol e do biodiesel na matriz energética, num crescimento de 11% ao ano. Em defesa do clima e dos pulmões.

CARLOS MINC é ministro de Estado do Meio Ambiente.

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Data: 19/11/2008 -Fonte: Gazeta Mercantil

Brasil terá centro de mudanças climáticas

O Brasil terá um novo status nos acordos de cooperação internacional. Na próxima semana o Diário Oficial da União publicará a portaria de criação do Centro de Ciências do Sistema Terrestre, que focará suas pesquisas para a área de mudanças climáticas globais. O novo núcleo científico será ligado ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e promoverá acordos internacionais para avançar nos estudos sobre as ações naturais e antrópicas no aquecimento global e suas conseqüências no futuro do planeta.

Esse centro será dirigido pelo cientista Carlos Nobre, um dos mais reconhecidos e respeitados pesquisadores sobre aquecimento global em todo mundo e com trânsito nas principais entidades científicas do primeiro mundo.

“O Inpe e o Hadley Centre, da Inglaterra, assinarão um acordo de colaboração científica em modelagem climática. Um dos aspectos trata do uso pelo Inpe do modelo climático global do instituto britânico, que representa o estado da arte mundial na área de modelagem climática”, especificou Nobre.

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19 de Novembro de 2008

Entidades cobram do Brasil adoção de metas para redução de gases

Especialistas pedem regras para biocombustíveis

Lançada no ano passado pelo governo Lula como forma de promover o etanol brasileiro ao mundo, a Conferência Internacional de Biocombustíveis, iniciada esta semana em São Paulo, por pouco não foi um tiro pela culatra. No segundo dia de encontro, o tema foi sombreado em vários momentos por alfinetadas sobre a atuação do Brasil nas discussões internacionais sobre mudanças climáticas.

No grande salão de conferências do Hotel Hyatt - esvaziado pela ausência de chefes de Estado -, especialistas brasileiros e estrangeiros trouxeram à tona a proposta que levanta arrepios em várias salas de ministérios em Brasília: a adoção de metas para redução das emissões de gases-estufa nos países em desenvolvimento. Na lista, Brasil, Índia, China e México, os grandes emissores na categoria.

“Lanço um desafio aqui para o Brasil: ponham de lado o argumento da responsabilidade histórica. O custo da mudança climática será alto para todos nós, e os países pobres serão os que mais sofrerão”, disse Christopher Flavin, presidente do respeitado Worldwatch Institute, dos Estados Unidos. “Está na hora [de os países em desenvolvimento] pararem de pensar na mudança climática como problema insolúvel”, continua, “e os biocombustíveis são só parte da solução. A discussão é muito mais ampla”.

Foi o início de um mal-estar que apareceu outras vezes nas apresentações e nos bastidores do evento organizado pelo Itamaraty. O governo brasileiro tem dito e repetido a seus interlocutores externos que não abre mão do princípio, acordado no Protocolo de Kyoto, das emissões históricas - isto é, a responsabilidade dos países desenvolvidos pelas toneladas de gases-estufa emitidas desde a Revolução Industrial, no século XIX. Nos moldes atuais, somente os países ricos devem atingir as metas de redução - e a maioria esmagadora não conseguiu sequer cumpri-las.

“Estamos ouvindo um discurso cínico aqui”, rebateu José Domingo Miguez, secretário-executivo da Comissão Interministerial de Mudança Global do Clima, composta por 11 ministérios. Presente como convidado especial ao evento, Miguez é uma das vozes contrárias ao estabelecimento de metas de redução de gases-estufa e defensores da diferenciação de responsabilidades. “As emissões do Brasil em 2004 foram as mesmas que o Reino Unido registrou em 1888. Por que temos que pagar por isso?”

Sua posição vai de encontro ao ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, que recentemente anunciou a possibilidade de redução em 20% das emissões brasileiras sobre os níveis de 2004 - uma mudança de posição significativa, mas que, segundo muitos, não reflete a opinião oficial do governo.

Em conversas paralelas no intervalo do evento, a ex-ministra e senadora Marina Silva personificava a divisão sobre o assunto no Executivo. Ela cobrou de representantes da Casa Civil a necessidade de o governo estabelecer metas para redução de gases e reforçar a fiscalização dos desmatamentos. “Já se passaram 20 anos da morte [do ambientalista] Chico Mendes e o PT chega à segunda metade do seu segundo mandato sem avanços na preservação ambiental”, dizia ela.

O argumento central de ambientalistas e outros especialistas é que o mundo mudou desde 1997, quando Kyoto foi assinado. A China ultrapassou os Estados Unidos na emissão de gases-estufa. O Brasil, com seu desmatamento sem controle, já figura entre os cinco maiores emissores mundiais. Por essas e outras razões, cresce a pressão para que a obrigatoriedade de metas inclua esse bloco de países.

“Para mim, está claro que é preciso mais adesões”, afirmou Raúl Estrada-Oyuela, embaixador argentino que preside o Processo Negociador do Protocolo de Kyoto.

A expectativa é que viradas importantes ocorram a partir de 2009, com a chegada de Barack Obama na presidência americana - alegando razões econômicas, Bush não se comprometeu com Kyoto. “Este é um período extraordinário da história”, disse Flavin. “Mas se os EUA entrarem e os outros não, não adiantará nada”.

Outra unanimidade no evento: a crise financeira pode ser o pontapé decisivo para que o mundo repense seu sistema energético e sua agricultura, transformando-se em uma economia de baixo carbono.

“A capacidade de alocação à indústria automobilística com a crise financeira é impressionante, inclusive no Brasil. Isso teria de ser uma oportunidade para se desenvolver uma nova arquitetura de economia mundial, incorporando as mudanças climáticas”, disse Fábio Feldman, secretário-executivo do Fórum Paulista de Mudanças Climáticas Globais e Biodiversidade.

Esse esforço global de políticas públicas deveria ser pensado nos moldes do New Deal, a resposta econômica à Grande Depressão iniciada em 1929. “Precisamos do Deal Global Verde”, disse Flavin.

“Se formos sérios, precisaremos de investimentos maciços em tecnologia limpa”, disse Sir David King, da Universidade de Oxford. “Temos que reconhecer: Kyoto não foi a salvação”, afirmou Thomas Heller, de Stanford. Nesse contexto, os biocombustíveis são só uma ponta da revolução apregoada.

Especialistas pedem regras para biocombustíveis

A cobrança para que países desenvolvidos e emergentes definam rapidamente regras para a inclusão de biocombustíveis e outras fontes renováveis nas matrizes energéticas deu a tônica das discussões realizadas ontem durante a “Conferência Internacional sobre Biocombustíveis” em São Paulo.

Houve consenso entre os participantes de que a inclusão das energias renováveis nos programas de governo demandaria, além de discussões sobre a soberania energética, a criação de regras para mitigar as emissões de gases de efeito estufa, racionalizar o uso da terra e da água, garantir a segurança alimentar, gerar emprego e renda e preservar os ecossistemas.

O Brasil foi citado como o país que mais avançou na diversificação de sua matriz energética e na criação de políticas que integram o interesse energético à geração de emprego e à auto-suficiência em oferta de alimentos. “Produção não é o único critério a ser considerado ao se avaliar a sustentabilidade da produção energética”, resumiu o diretor da ONG Amigos da Terra - Amazônia Brasileira, Roberto Smeraldi.

Ele citou o programa Selo Social do governo federal, que certifica as usinas de biodiesel que utilizam pelo menos 10% de matérias-primas produzidas por agricultores familiares, como exemplo de iniciativa que une a diversificação da matriz energética à geração de emprego e renda.

A secretária-executiva da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) das Nações Unidas, Alicia Bárcena, citou um estudo realizado pelo Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas (Unep, sigla em inglês), que prevê a geração de 20 milhões de postos de trabalho até 2030 com o avanço dos programas de energia renovável.

Atualmente, 470 mil pessoas trabalham na geração de energia eólica e solar e mais 1,2 milhão de pessoas operam em usinas que geram energia a partir da biomassa. Em 2030, o número de contratados nessas usinas de biocombustíveis deve chegar a 12 milhões, sendo que o maior número de contratações ocorrerá no Brasil, nos Estados Unidos, na Alemanha e na China.

Alicia observou que outros países da América Latina também têm condições de incrementar a produção de biocombustíveis, sobretudo o etanol obtido do melaço da cana-de-açúcar, ampliando a geração de emprego sem comprometer o ambiente e a oferta de alimentos. Entre os países estão Cuba, Guiana, Nicarágua, Guatemala, El Salvador, Colômbia e Paraguai.

Hoje, disse, é possível que os países substituam 10% do consumo de gasolina por etanol sem grandes necessidades de modificação nos motores dos veículos. E essa ampliação seria possível utilizando, por exemplo, áreas de pastagem degradadas. “No Brasil, de cada três hectares de pastagem, dois hectares estão degradados ou são mal utilizados”, disse. Segundo Alicia, a maioria dos países da América Latina tem condições de produzir biocombustíveis em volume suficiente para consumo próprio e para exportação.

O presidente do grupo Sekab, maior importador europeu do etanol brasileiro, afirmou que é preciso estabelecer regras, metas e padrões para o mercado de biocombustíveis mas, antes disso, se faz necessário reduzir as emissões de gases de efeito estufa por meio da melhoria de eficiência no uso das energias convencionais.

“É preciso maximizar o uso das energias já existentes para que os biocombustíveis também sejam utilizados com sensatez. De nada adianta o mundo utilizar carros flexfuel [bicombustíveis] se as pessoas comprarem mais veículos e na somatória final a emissão de gases de efeito estufa continuar a mesma.”

O presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Enrique Iglesias, alertou para a necessidade de que cada país desenvolva políticas para alterar suas matrizes energéticas. “Independentemente da regularização de um mercado internacional de energia limpa, cada país deve desenvolver políticas públicas e definir a sua matriz energética. Exportar biocombustível deve ser uma preocupação posterior à necessidade ambiental de conter o aquecimento global”, afirmou Iglesias.

Ontem, durante o seminário, a representante da Cepal juntamente com o representante da FAO para América Latina e Caribe, José Graziano da Silva, e o diretor, e o gerente de biocombustíveis do BNDES, Paulo Faveret Filho, lançaram o livro “Bioetanol de cana-de-açúcar”. Idealizado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e apelidado por seus organizadores como “o livro verde”, a obra reúne uma série de estudos sobre a economicidade e competitividade do etanol de cana-de-açúcar enquanto alternativa ao uso de combustíveis fósseis líquidos.

Alicia citou, por exemplo, cálculos demonstrando que o etanol de cana é competitivo com o petróleo cotado a até US$ 45 por barril, enquanto o etanol a partir do milho só é economicamente viável com o petróleo acima de US$ 70 o barril. Além disso, a produção do etanol de cana permite reduzir em 89% as emissões de gases de efeito estufa, enquanto o etanol de milho reduz as emissões em no máximo 38%.
(Valor Econômico, 19/11)

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Liliana Lavoratti

Editora de Política da Gazeta Mercantil
19/11 - 00:00

Uma articulação global inédita

19 de novembro de 2008 - O senso de urgência provocado pelas previsões catastróficas para o planeta em decorrência das mudanças climáticas, principalmente do aquecimento global, acena com a possibilidade de novos acordos e formação de blocos internacionais. Quem sabe não virá daí uma maneira diferente das verificadas até hoje de organização dos povos em torno de um objetivo comum.
Nessas negociações pode prevalecer a velha regra do jogo - os países ricos venderem “tecnologias verdes” para os menos desenvolvidos. Mas alguma coisa deverá mudar pelas características do que está em questão. As tecnologias de ponta para uma economia de baixo carbono terão de ser acessadas por todos. Do contrário, o planeta continuará em risco.

Mas o jogo pode vir. O fato de as medidas de prevenção contra a destruição dos elementos essenciais à vida - comprometimento da água potável, diminuição da oferta de alimentos e riscos de epidemia de doenças - só surtirem efeito se adotadas em todo o planeta cria perspectivas interessantes nas relações Norte-Sul.
Os ensaios para essa inédita forma de articulação internacional ficarão mais explícitos à medida que se aproximam as conferências de Poznan (Polônia), em dezembro, de Copenhague, em 2009, com vistas a uma revisão realista do Protocolo de Kyoto. A eleição de Barack Obama, sob o signo de “mudança”, provoca esperança de uma nova atitude por parte do governo dos EUA, que tem ignorado as metas para limitar a emissão de gases de efeito estufa decididas em Kyoto. Não é por acaso que o presidente eleito vem dando declarações que presumem que seu país possa até mesmo assumir a liderança nesse processo de negociações.

As nações que investem pesado na prevenção contra os efeitos nocivos das medidas climáticas - como Reino Unido e Alemanha - buscam parceiros para Copenhague resultar numa versão de Kyoto mais eficiente, ou seja, assumida por todas as nações. Por isso, o pacote de ajuda ao setor automobilístico prometido por Obama deveria embutir um viés de negócio verde. Ou seja, que não se restrinja a salvar as montadoras da crise, mas em troca impusesse às indústrias a fabricação de automóveis menos poluidores.
Uma expectativa mais do que adequada, pois nessa gigantesca articulação está colocada inclusive a necessidade de os países emergentes - inclusive o Brasil, mas principalmente China e Índia - se comprometerem tanto quanto os desenvolvidos com metas de redução de emissão de gases de efeito estufa. Para isso, terá de ser superada a lógica das relações Norte-Sul que predominaram até agora - a de que os países ricos têm de pagar sozinhos por terem sido historicamente os responsáveis por grande parte do dano, corrigindo agora as conseqüências de uma industrialização “suja”. Os países em desenvolvimento não teriam de ser submetidos a limites que possam inibir seu processo de crescimento.

Tudo indica que essa visão de que os pobres devem ser poupados do sacrifício de uma ação global de combate às mudanças climáticas terá de ser abandonada em nome de outra que reflita a complexidade do tema. Até mesmo porque de pouco adiantará as nações que tiverem mais condições de construir uma economia de baixo carbono - incluindo novas tecnologias - agirem sozinhas.

Nesse jogo, até agora o Brasil ficou alinhado à posição dos emergentes e subdesenvolvidos, de fazer os ricos pagarem o custo de um modelo de crescimento destruidor da natureza. Tudo indica que essa política tenha como alvo alcançar melhores condições nas negociações, incluindo a mudança de regras de comércio internacional na Rodada de Doha. Embora ainda marcado pelo desmatamento e pelos baixíssimos investimentos em tecnologias verdes, os brasileiros têm tudo para entrar nesse jogo em boas condições. A Amazônia e a produção de biocombustíveis são moedas de troca valiosíssimas. Resta saber usá-las.
(Liliana Lavoratti - Editora de Política. E-mail: llavoratti@gazetamercantil.com.br)


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18/11/2008 - 08h33

EUA vão liderar pós-Kyoto, diz analista

ANDRÉ LOBATO
colaboração para a Folha de S.Paulo

Não está claro quão difícil será para o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, cumprir sua promessa de tornar o país o líder mundial no debate ambiental. Um sinal de vontade política, pelo menos, já foi emitido: os EUA estão de volta à mesa de discussões sobre a crise climática mundial.

Daniel Esty, membro da equipe de transição de Obama para energia e ambiente, afirmou que o grupo acompanhará a conferência do clima deste ano em Poznan, Polônia, que debate um novo acordo global para limitar a emissão dos gases do efeito estufa. Os EUA, diz, pressionarão para que países emergentes, como o Brasil, assumam metas obrigatórias de redução de emissões. Esty –professor de direito na Universidade Yale e criador de um índice que ordena países de acordo com suas políticas verdes– falou à Folha na semana passada, logo antes de ser chamado para o grupo de transição de Obama. Leia a entrevista.
*

Folha - Obama disse muitas vezes que o desafio energético dos EUA é como mandar o homem à Lua. E o sr. que o povo americano está pronto para mudar sua base energética.

Daniel Esty - Eu acho que o povo americano está pronto para a mudança para um futuro de energia limpa, por múltiplas razões. Há um aumento de preocupação sobre mudanças climáticas. Mais de 75% da população diz que a hora de agir chegou. Mas há mais do que isso. O público americano não tinha uma idéia clara do quadro das mudanças climáticas até recentemente. Era algo longe, talvez não tão urgente. Mas o furacão Katrina começou a dar um rosto ao problema da mudança climática e mostrou que não fazer nada não era boa opção. Na segurança, também, há uma grande frustração com a situação no Iraque e no Oriente Médio. E o público americano concluiu que uma economia de combustíveis fósseis significará mais do mesmo. E há um terceiro elemento nesta lógica: o povo americano anseia por uma nova economia, que vá criar novos empregos.

Folha - O plano de energia de Obama quer ajudar consumidores na bomba de gasolina, construir um novo oleoduto e criar um sistema federal de comércio de emissões. Essas não são direções contrárias?

Esty - Não. A chave para o progresso de uma energia limpa é ter incentivos para a comunidade dos negócios criar novas soluções, para desenvolver novas tecnologias e testar novos bens, novos serviços. Um sistema de comércio de emissões (’cap and trade’) ajuda a criar uma sinalização do preço que diz: se você continuar com o modelo de queimar combustíveis fósseis, criando gases do efeito estufa, você vai pagar pelo mal que está causando. O comércio de emissões cria incentivo para mudança, para que as pessoas sejam mais focadas em eficiência, e cria oportunidade para energia alternativa.

Folha - Haverá participação do novo governo nas conferências do clima de Poznan, no mês que vem, e de Copenhague, em 2009?

Esty - Sim. A equipe de transição de Obama estará representada em Poznam.

Folha - Não há perspectiva de ratificação do Protocolo de Kyoto.

Esty - Não. A nova administração quer olhar para o pós-Kyoto, que será antecipado na reunião de Copenhague em dezembro de 2009.

Folha - O novo governo é mais flexível sobre a adoção de metas pelos países emergentes?

Esty - Eu acredito que o próximo tratado terá de ter várias coisas bem diferentes de Kyoto. Começando por uma revitalização do princípio central, o das responsabilidades comuns, mas diferenciadas. Comuns porque cada país deve assinar compromissos obrigatórios. Então, eu acredito que espera-se que não só China, Índia e Brasil, como outros principais países em desenvolvimento, adotem compromissos obrigatórios de controle das emissões. Agora, as responsabilidades diferenciadas significam que o nível de redução varia de país a país. Nos EUA e na União Européia eu esperaria uma redução substancial de emissões em relação aos dias atuais. No que diz respeito aos países em desenvolvimento, eu espero que a trajetória de crescimento seja reduzida. Então, em vez de China, talvez, crescendo 60% em emissões na próxima década eu esperaria 20% ou 30%. Os países ricos foram historicamente responsáveis por grande parte do dano. Hoje a China é quem mais emite gases do efeito estufa. Países em desenvolvimento têm de entender que eles são fundamentais ao problema e vitais para a solução e eles terão de partir para a ação real no próximo período.

Folha - Esse será um ponto do novo recomeço?

Esty - Esse é um ponto fundamental do recomeço que eu acho que você vai ver nas negociações. É bem claro que a convenção de Kyoto foi profundamente falha porque não exigiu que o mundo em desenvolvimento fosse parte da solução.

Folha - Os EUA terão liderança em Copenhague?

Esty - Uma das coisas com que a nova administração tem se comprometido claramente é voltar a um papel de liderança. E, realmente, não há história de uma cooperação ambiental bem sucedida em que os EUA estivessem de fora.

Folha - Mas muita conversa já foi feita sem os Estados Unidos, as bases do acordo foram firmadas e os EUA disseram que não iriam fazer parte. Agora vocês vão chegar e tomar a liderança do processo?

Esty - Sim. A conversa começa nova.

Folha - Então o que vão propor?

Esty - Não sei dizer. Ainda está em construção. Se a pergunta é se conseguiremos ter o trabalho pronto até Copenhague, a resposta é que provavelmente não estará definido até lá.

Folha - Então haverá resquícios de Bush em Copenhague?

Esty - Não. Você terá, bastante, uma nova perspectiva. Mas o ponto é que o sucesso, do ponto de vista dos Estados Unidos, requer movimento em paralelo do processo político doméstico com o das negociações internacionais. Para o Congresso americano aprovar um plano de mudanças climáticas é preciso um sinal claro da negociação internacional de que as fraquezas críticas do Protocolo de Kyoto serão tratadas. Principalmente o comprometimento de ações de países em desenvolvimento. E é claro que a não ser que se veja os EUA comprometidos com a ação, países em desenvolvimento ficarão preocupados em se comprometerem também.

Folha - O plano energético de Obama é uma ‘estatização’ na qual o governo diz que as empresas devem inovar rumo à ecoeficiência?

Esty - Acho que o que você verá é um novo estilo de regulação que vai requerer, em algum grau, uma abordagem econômica em que se paga pelo dano causado. Nos EUA você verá não só incentivo econômico, mas também o que pode se chamar de uma regulação de estilo mais tradicional, algo vital para a construção de padrões.

Folha - O sr. apóia a redução da tarifa para o álcool de cana nos EUA?

Esty - Eu pessoalmente acho que deveria ser reduzida a zero. Há um cálculo político complicado nos EUA em saber se isso acontecerá. Mas acredito que deveríamos encorajar as positivas finalidades do espectro de biocombustíveis, incluindo o etanol da cana. Já disse publicamente que o etanol do milho não é uma boa solução para nossos problemas ambientais.


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16/11/2008

Soluções para clima e economia andam juntas

FOLHA DE SP

Al Gore

A inspiradora e transformadora escolha feita pelo povo americano ao eleger Barack Obama como nosso 44º presidente estabelece os fundamentos para outra escolha decisiva que ele - e nós - teremos de fazer em janeiro para dar início a um resgate da civilização humana, em caráter emergencial, da iminente e cada vez maior ameaça representada pela mudança climática.

A eletrizante redenção da revolucionária declaração feita pelos EUA afirmando que todos os seres humanos nascem iguais prepara o palco para a renovação da liderança americana num mundo que precisa desesperadamente proteger seu dote primário: a integridade e as condições de vida do planeta.

A autoridade mundial sobre a crise climática, o Painel Intergovernamental de Mudança Climática (IPCC), depois de 20 anos de estudos detalhados e da publicação de quatro relatórios unânimes, diz agora que as provas são “inequívocas”. Para aqueles que ainda se sentem tentados a ignorar os alarmes cada vez mais urgentes emitidos pelos cientistas de todo o mundo, a fechar os olhos para o derretimento da calota de gelo sobre o pólo norte e para todas as outras advertências apocalípticas feitas pelo próprio planeta, e para aqueles que dão mostras de tédio à menor menção desta ameaça existencial ao futuro da espécie humana, por favor, acordem. Nossos filhos e netos precisam que vocês nos dêem ouvidos e reconheçam a verdadeira natureza da nossa situação, antes que seja tarde demais.

Eis as boas notícias: os ousados passos necessários para resolver a crise climática são os mesmos que precisam ser tomados para resolver a crise econômica e a crise de segurança energética.

Os economistas de todas as orientações - incluindo Martin Feldstein e Lawrence Summers - concordam que investimentos rápidos e de grande valor numa iniciativa de infra-estrutura capaz de criar muitos empregos são a melhor maneira de reanimar nossa economia de maneira ágil e sustentável. Muitos também concordam que nossa economia enfrentará dificuldades se continuarmos a gastar centenas de bilhões de dólares todos os anos com petróleo importado. Além disso, especialistas em segurança nacional de ambos os partidos concordam que enfrentaremos uma perigosa vulnerabilidade estratégica caso o mundo perca subitamente o acesso ao petróleo do Oriente Médio.

Conforme disse Abraham Lincoln no momento mais sombrio pelo qual a América já passou, “a ocasião nos apresenta uma montanha de dificuldades, e precisamos corresponder à ocasião. Por ser novo o nosso problema, nós também precisamos inovar nas nossas idéias, e agir de maneira inovadora”. No nosso caso atual, pensar de maneira inovadora exige rejeitar uma definição superada e fatalmente equivocada do problema que enfrentamos.

Há 35 anos, o presidente Richard Nixon criou o Projeto Independência, estabelecendo uma meta nacional que esperava, no prazo de sete anos, desenvolver nos EUA “o potencial para satisfazer nossas próprias necessidades energéticas sem depender de fontes estrangeiras de energia”. Essa declaração foi feita três semanas após o embargo árabe ao petróleo ter provocado uma aguda elevação nos preços e obrigado a América a acordar para os perigos da dependência em relação ao petróleo estrangeiro. E - não é coincidência - isso ocorreu apenas três anos depois de a produção de petróleo dos EUA ter atingido o seu ápice.

Na época, os EUA importavam de outros países menos de um terço do total de petróleo consumido. E hoje, depois de todos os seis sucessores de Nixon terem repetido alguma versão dessa meta, nossa dependência dobrou, chegando a importação de quase dois terços do petróleo que consumimos - e muitos crêem que a produção mundial de petróleo esteja no seu ápice, ou muito próxima disso.
Alguns ainda enxergam isso como um problema de produção doméstica. Se ao menos conseguíssemos aumentar nossa produção de petróleo e carvão, argumentam eles, assim não teríamos de depender de importações do Oriente Médio. Outros inventaram maneiras ainda mais sujas e caras de obter os mesmos velhos combustíveis, como o carvão líquido, o petróleo de xisto, a areia alcatroada e a tecnologia do “carvão limpo”. Mas em cada um desses casos, os recursos em questão são caros demais ou poluentes demais.

Eis o que podemos fazer agora: um investimento elevado e imediato para empregar as pessoas na substituição das tecnologias energéticas do século XIX, que dependem de combustíveis perigosos e caros de matriz carbônica, pelas tecnologias do século XXI, que utilizam combustível gratuito e abundante: o sol, o vento e o calor natural da terra. Segue-se um plano de cinco partes para restaurar o poder energético da América com o compromisso de produzir 100% da nossa energia a partir de fontes livres do carbono em um prazo de dez anos. É um plano que nos aproximaria de soluções para a crise climática e econômica - e criaria milhões de novos empregos que não poderiam ser terceirizados.

Em primeiro lugar, Obama e o novo congresso deveriam oferecer incentivos de larga escala ao investimento na construção de instalações solares e térmicas concentradas nos desertos do sudoeste, instalações eólicas no corredor que vai do Texas até as Dakotas e instalações avançadas em pontos de grande geração de calor geotérmico capazes de produzir boa quantidade de eletricidade.

Em segundo lugar, devemos começar o planejamento e construção de uma rede nacional inteligente e unificada para o transporte da energia renovável, desde as zonas rurais onde ela é gerada na sua maior parte até as zonas urbanas onde ela é consumida. Nova fiação subterrânea de alta voltagem e grande eficiência pode ser projetada com recursos “inteligentes” , eliminando o desperdício. O custo dessa rede moderna - US$ 400 bilhões ao longo de dez anos - não se compara à perda anual das empresas americanas (cerca de US$ 120 bilhões) provocada pelo efeito cascata de falhas que são endêmicas à nossa rede elétrica.

Em terceiro lugar, devemos ajudar a indústria automobilística americana (não apenas as três grandes, mas também as novas empresas, mais inovadoras) na rápida conversão para modelos híbridos capazes de funcionar alimentados com a energia renovável que estará disponível conforme este plano amadurecer.

Em quarto lugar, devemos embarcar num esforço nacional pela adaptação de melhores sistemas de isolamento e janelas e sistemas de iluminação de maior eficiência energética. Aproximadamente 40% das emissões de dióxido de carbono nos EUA vêm dos prédios - e combater esta poluição economiza o dinheiro dos proprietários de apartamentos e de estabelecimentos comerciais. Esta iniciativa deve ser acompanhada no Congresso por uma proposta de ajuda aos americanos prejudicados pelas hipotecas cujo valor excede o de seus lares.

Em quinto lugar, os EUA devem mostrar o caminho adotando um preço doméstico para o carbono, e liderando, no ano que vem, o esforço mundial em Copenhague pela substituição do Tratado de Kyoto por um pacto mais eficaz, que limite as emissões globais de dióxido de carbono e encoraje os países a investir juntos, de maneira eficiente, na rápida redução da poluição responsável pelo aquecimento global, e na redução do desmatamento.

É claro que a melhor maneira - na verdade a única maneira - de garantir um acordo global para proteger nosso futuro é por meio do restabelecimento dos EUA como um país detentor da autoridade moral e política para liderar o mundo na direção de uma solução.
Olhando para o futuro, tenho grande esperança de que teremos a coragem de abraçar as mudanças necessárias para salvar nossa economia, nosso planeta e, afinal, a nós mesmos.

Numa era anterior de transformação na história americana, o presidente John F. Kennedy desafiou nosso país a colocar um homem na lua dentro de dez anos. Oito anos e dois meses mais tarde, Neil Armstrong pôs os pés na superfície lunar. A média de idade entre os engenheiros de sistemas que comemoraram o sucesso da missão da Apollo 11 na sala de controle de Houston naquele dia era de 26 anos, o que significa que sua média de idade quando o presidente Kennedy anunciou o desafio era de 18 anos.

Este ano viu igualmente a ascensão dos jovens americanos, cujo entusiasmo eletrizou a campanha de Barack Obama. Não há muita dúvida de que este mesmo grupo de jovens desempenhará um papel essencial neste projeto para garantir o futuro do nosso país, novamente transformando metas aparentemente impossíveis em sucessos inspiradores.

Sustentabilidade e Negócios

19/11/08

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13/11 - 05:00

Mercado de carbono e o “cap-and-trade”

13 de novembro de 2008 - A implementação de um sistema “cap-and-trade” (sistema de comércio de licenças de emissões) nos EUA introduziria mudanças significativas nos mercados de carbono no mundo todo. O mercado não apenas cresceria, como também os projetos de redução de emissão subjacentes teriam uma base mais diversificada. Isso aconteceria com a aprovação da Lieberman-Warner Climate Security Act (lei de segurança climática dos EUA) de 2008, conforme proposta por um projeto de lei enviado ao Senado norte-americano pela senadora Barbara Boxer em 20 de maio de 2008.

A lei proposta estabelece um programa para diminuir substancialmente as emissões dos EUA de gases de efeito estufa entre 2007 e 2050 por intermédio da criação de um sistema “cap-and-trade” aplicável a determinadas entidades poluentes. Se o teto de poluição estipulado, que diminuirá anualmente, não for cumprido pelas entidades poluentes, elas terão de comprar créditos no mercado.

O projeto estabelece três diferentes tipos de créditos: 1) créditos para emissões, que são estabelecidas anualmente e distribuídas pelo Administrador da Agência de Proteção Ambiental; 2) créditos de compensação, que são emitidos e certificados para reduções de emissão de gás de efeito estufa sob um projeto base; e 3) créditos internacionais de emissões, que são créditos obtidos em um mercado de comércio de emissões de gases de efeito estufa.

O sistema “cap-and-trade” a ser estabelecido segundo a Lei Lieberman-Warner criaria uma ampla variedade de novas oportunidades de negócios para os participantes do mercado, pois expandiria a possibilidade de compensar emissões de gases de efeito estufa com créditos de carbono gerados por determinados tipos de projetos que não são cobertos pelo Protocolo de Kyoto, como é o caso de projetos que evitam o desmatamento.

Conseqüentemente, seria possível desenvolver projetos de conservação florestal que gerariam créditos de carbono. Investidores brasileiros são potenciais beneficiários dessa situação, já que o Brasil possui uma das maiores áreas florestais do mundo. Investidores americanos também poderiam se beneficiar associando-se aos brasileiros na criação de projetos de conservação florestal, cujos custos de implementação seriam menores do que nos EUA.

Duas outras áreas que poderiam chamar a atenção tanto de americanos quanto de brasileiros, à luz dos vastos desenvolvimentos tecnológicos no Brasil nos últimos anos, são a produção de biocombustíveis e o setor agrícola. O Brasil tem liderado o grupo de produção agrícola mundial, devido às suas extensas porções de terras agrícolas altamente produtivas e boas condições climáticas.

Um outro tipo de projeto que poderia contribuir com a captura de carbono da atmosfera é o chamado “fazenda de carbono”. Estudos na Austrália comprovaram que a criação de animais alimentados por pastagem ajuda a fixar dióxido de carbono no solo por meio da grama, sendo mais eficiente do que aquela resultante de árvores e florestas. O Brasil poderá se beneficiar dessa nova técnica, pois grande parte do gado criado no Brasil se alimenta de pastagens.

A possibilidade de utilizar créditos internacionais de emissões (tais como créditos do Protocolo de Kyoto, do Mecanismo de Comércio de Emissões da UE e também de mercados voluntários) para cumprir as metas nos termos da Lei Lieberman-Warner poderá também contribuir com o crescimento do mercado. Contudo, segundo uma disposição da Lei Lieberman-Warner, o proprietário ou operador de entidades poluentes poderá satisfazer até no máximo 15% da sua quota de créditos com créditos internacionais.

Caso a Lei Lieberman-Warner seja promulgada, os projetos que atualmente visam gerar reduções voluntárias de emissões se tornarão mais atraentes para os investidores. Assim, os primeiros a agir nesse campo poderão se beneficiar do seu pioneirismo. Esses projetos deverão ser estruturados com certa flexibilidade para permitir eventual migração futura para os padrões da Lei Lieberman-Warner.

Investidores em diversos projetos de recursos naturais, inclusive projetos relativos à energia, devem ficar atentos aos desenvolvimentos mundiais na regulamentação referente a mudanças climáticas. A continuidade do Protocolo de Kyoto e as discussões em torno da Lei Lieberman-Warner poderão representar oportunidades reais a serem capitalizadas no futuro próximo.

(Vladimir Miranda Abreu - Sócio-responsável pela área de Mercado de Carbono)

 

 

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Mudança no clima é desafio maior que a crise

Daniela Chiaretti, de São Paulo

12/11/2008

O mundo deve enfrentar agora, ao mesmo tempo, três enormes problemas: recessão, segurança energética e aquecimento global. Mas se crises econômicas são passageiras, a mudança climática é o grande desafio do século. Imaginar que a desaceleração econômica acabará sendo benéfica ao clima porque se emitirá menos, é “duplamente tacanho”, reage o economista José Eli da Veiga. “Ao custo do desemprego?”, continua, procurando apontar que a eventual desaceleração econômica deve correr pelo trilho da busca de tecnologias limpas. Davilym Dourado/valor

José Eli da Veiga: “A crise mostra que o FMI e toda a estrutura montada em Bretton Woods já estão batendo pino”

O professor do Departamento de Economia da USP está em Londres desde fevereiro mergulhado nos dois grandes temas que lhe são caros: a pesquisa de indicadores de desenvolvimento sustentável que “possam ajudar a acabar com a ditadura do PIB per capita como barômetro do progresso” e o estudo das estratégias de combate ao aquecimento global. No Reino Unido, que junto com a Alemanha ocupa a vanguarda do debate ambiental atual, Eli da Veiga é pesquisador-associado do Capability & Sustainability Centre, centro ligado à Universidade de Cambridge.

É impossível saber agora, registra ele, o quanto a crise financeira pode atingir o debate ambiental. Os pessimistas passaram a olhar para a questão como se fosse um artigo de luxo; os otimistas falam num “Green New Deal”, espécie de salvação verde global. Com o foco na negociação internacional, que deve esquentar no mês que vem com a reunião das Nações Unidas sobre clima, na Polônia, e desembocar no fim de 2009 com novo acordo global em reunião marcada para Copenhague, Eli da Veiga defende que os 30 países responsáveis por 80% das emissões de gases-estufa do mundo acertem seus ponteiros antes de qualquer coisa, e depois convençam os outros 170 a segui-los. “Nesse caso, sairá um regime internacional muito melhor que o Protocolo de Kyoto. Mas se esses 30 países continuarem a brincar de queda-de-braço, é melhor tirar o cavalo da chuva.”

Não é de hoje que os economistas acreditam que para reduzir emissões de gases-estufa é preciso criar novos impostos. Eli da Veiga aponta uma proposta inovadora, que surgiu nos EUA e inverte o caminho tradicional de tentar fixar tetos para as emissões - a idéia é limitar a produção da energia fóssil. O professor explica como consumidores com estilo de vida de baixo consumo de energia e carbono sairiam ganhando, em entrevista feita por telefone e e-mail.

Valor: Como a crise financeira pode atingir o debate ambiental?
José Eli da Veiga: Por enquanto é impossível saber. Difícil responder, agora, qual vai ser a resultante da combinação entre os vetores que tendem a promover recuo e os que, ao contrário, podem gerar aceleração da já iniciada busca de inovações limpas, verdes, sustentáveis. Pelo menos três grandes incógnitas impedem que se saiba se estão certos os que estão tirando a conclusão mais óbvia, ou, ao contrário, se têm razão os otimistas, aqueles que estão dizendo que essa crise é simultaneamente uma grande oportunidade para que surja um “Green New Deal”, como estava na capa da “Newsweek” de duas semanas atrás, uma espécie de salvação verde.

Valor: Quais são os três pontos em aberto?
Eli da Veiga: A primeira incógnita é a profundidade e a extensão das recessões que mal começaram. A perspectiva no Reino Unido é de alto desemprego no fim do ano que vem. Nos EUA não está muito diferente. O segundo ponto é a natureza da articulação da cúpula que poderia levar ao que está sendo chamado de um novo Bretton Woods. A crise mostra que o FMI e toda a estrutura montada em Bretton Woods já estão batendo pino e seria hora de repensar tudo. E ainda a importância que os problemas ambientais globais acabarão tendo na pauta desta cúpula. No meu ponto de vista, este é o ponto principal. Aqui na Inglaterra já se notam recuos em certas áreas da construção civil, por exemplo, mas ao mesmo tempo incentivos inéditos para que a indústria automobilística acelere a viabilização de veículos elétricos e híbridos.

Valor: No caso específico do combate à mudança climática, os países do Leste Europeu e a Espanha já disseram que agora não vai dar para pensar nisso…
Eli da Veiga: Como já existe um amplo consenso de que o aquecimento global é um fenômeno irreversível - ao contrário das recessões econômicas, sempre passageiras - não é provável que prevaleçam os apelos em favor de uma involução. A crise evidentemente abre espaço para as lideranças mais recalcitrantes, mas elas parecem minoritárias na Europa. E é difícil imaginar que a posição do governo dos EUA possa vir a ser pior que a da gestão Bush. Então, não parece haver motivo para desespero. O mundo terá que enfrentar três gravíssimos problemas: recessão, segurança energética e aquecimento global. Aqui no Reino Unido o tema da mudança climática não saiu da pauta.

Valor: Não houve nenhum recuo?
Eli da Veiga: O governo deu uma tremenda recuada em relação ao plano de construção das chamadas “eco-towns”. Eram umas dez e agora anunciaram que só poderão fazer uma ou duas, por várias questões, não só a crise. Mas no mesmo dia havia outra notícia dizendo que o governo inglês irá dar tremendos créditos para a indústria automobilística investir na busca do carro elétrico, do carro híbrido. Tenho lido sinais que vão nas duas direções. Desde indícios de que, com a crise, essas coisas vão parecer luxo, a outras que dizem o contrário, que a saída da crise será investir cada vez mais nos mercados abertos pela economia verde.

Valor: A recessão global pode significar menos emissões de gases-estufa, embora esta seja uma conclusão tacanha?
Eli da Veiga: Ao preço do desemprego? É duplamente tacanha. Primeiro, porque é preciso encontrar maneiras de planejar a desaceleração econômica que será benéfica aos países centrais, e evitar a todo custo que esse caminho seja um desastre, com os horríveis impactos sociais causados pelo aumento do desemprego. Segundo, porque as recessões não estarão todas atreladas umas às outras e isso permite que muitos países da semiperiferia, e até da periferia, possam ter surtos de crescimento tão sujos quanto os do passado, em vez de começarem a encontrar novas vias, mais limpas, de crescimento.

Valor: O senhor é um crítico das análises econômicas que se baseiam no PIB. O IDH é um bom índice? O que há de novidade na discussão do IDH?
Eli da Veiga: O PIB, como indicador de desempenho econômico, é uma coisa obsoleta, que só continua a ser usada devido a uma fortíssima inércia institucional e às dificuldades de se encontrar um substituto que supere suas deficiências. E é isso que também explica a precariedade do IDH, um índice sintético de desenvolvimento e não de crescimento. Ele resulta de uma média de três indicadores referentes à saúde, à educação e ao nível de vida material. Infelizmente, para avaliar este último usa-se uma versão ligeiramente corrigida do PIB per capita, o que gera brutais distorções. Por exemplo, segundo o IDH, haveria o mesmo grau de desenvolvimento entre países tão diversos quanto os Emirados Árabes Unidos e o Chile. Isso só ocorre porque o PIB per capita dos Emirados é muitas vezes superior ao do Chile, o que compensa a sua péssima situação educacional, motivada, como se sabe, pela discriminação cultural contra as mulheres. Não parece haver cabimento em dizer que um país como esse é tão desenvolvido quanto o Chile. O que há de novidade é que o PNUD está preparando uma completa reformulação do IDH, assim como dos índices de pobreza, para que tais problemas sejam superados a partir do relatório de 2010.

Valor: A Islândia está no topo do IDH mundial. E é um país que quebrou na crise financeira atual. Dá para fazer alguma relação?
Eli da Veiga: Um país que tem um IDH muito alto, como é o caso da Islândia, é certamente muito desenvolvido. Seus habitantes têm altíssima expectativa de vida, são muito cultos e bem ricos. É apenas isso que mostra o IDH. Mas qualquer país muito desenvolvido está agora sujeito a quebrar, se tiver feito apostas erradas na maluquice financeira global das últimas décadas. Uma coisa pouco ou nada tem a ver com a outra.

Valor: O que o sr. está fazendo em Londres?
Eli da Veiga: Desenvolvendo uma pesquisa sobre indicadores de desenvolvimento sustentável que possam ajudar a acabar com a ditadura do PIB per capita como barômetro de progresso.

Valor: Como o tema mudança climática é percebido no Reino Unido?
Eli da Veiga: Esse talvez seja o país onde existe maior consciência social sobre a necessidade de combater o aquecimento global e ajudar as nações que terão mais dificuldade em se adaptar a ele. Por aqui chega a ser comum passar pela frente de uma igreja e notar uma placa convidando a participar de reuniões semanais sobre o problema da mudança climática.

Valor: Que expectativa se pode ter do próximo encontro sobre clima na Polônia e da esperada conferência em Copenhague, em 2009? O sr. é cético em relação às negociações internacionais dentro da ONU?
Eli da Veiga: O problema das negociações internacionais no quadro da convenção do clima, da ONU, é que elas dependem de barganhas bizantinas no âmbito da imensa diversidade de responsabilidades, riscos e interesses que afetam quase 200 países. Por isso, parece necessário que um grupo de nações-chave consiga chegar a uma boa base de acordo antes da reunião de 2009. Quais os critérios que permitem apontar essas nações-chave? Há três básicos que levam a listas diferentes. O primeiro é o das responsabilidades históricas sobre o aquecimento global, que prevaleceu em Kyoto. O segundo é o da capacidade de enfrentamento do problema, que se refere mais ao presente do que ao passado: quem pode mais deve assumir mais e fazer mais. E o terceiro se refere ao futuro: a tão falada sustentabilidade. Penso que este terceiro é de longe o mais importante dos três. Mostra que 30 países, entre os quais 10 centrais e 20 semiperiféricos, são responsáveis por 80% do problema. O aquecimento global não será resolvido em uma assembléia de 200, não tem jeito.

Valor: Que países são esses?
Eli da Veiga: São os que estão emitindo muito. Alguns são surpreendentes. Tem os desenvolvidos, os emergentes, e mais Tailândia, Turquia, Filipinas, Argélia. Então, esta é a saída: se esses 30 conseguirem se acertar antes da reunião de Copenhague, terão condições de persuadir os demais 170. Nesse caso, de Copenhague sairá um regime internacional muito melhor que o Protocolo de Kyoto. Mas se esses 30 continuarem a brincar de queda-de-braço, é realmente o caso de se tirar o cavalo da chuva.

Valor: Emitir ficará mais caro ?
Eli da Veiga: Kyoto não ajudou, continua baratíssimo emitir. Por isso, há hoje três propostas básicas em discussão. O bem conhecido “cap-and-trade”, que já mostrou que não funciona para o aquecimento global, mesmo que tenha funcionado muito bem para a chuva ácida. Naquele caso, eram poucos os causadores do problema, e as soluções tecnológicas estavam na prateleira. Para os gases-estufa ocorre o inverso: são inúmeros os poluidores e ainda não há inovações que realmente resolvam. Não pode haver melhor evidência que o mercado europeu de carbono: serviu para muita maracutaia entre a burocracia e as grandes empresas geradoras de energia, sem resultado significativo. Todos os economistas que analisaram a questão, dos mais caretas aos mais alternativos, chegaram à conclusão que para o caso do carbono seria muito melhor um bom imposto sobre as emissões. Toda e qualquer emissão seria taxada, desde as termelétricas até a dona-de-casa, passando pelos transportes.

Valor: É isso que está na mesa de negociações?
Eli da Veiga : Surgiu no debate americano uma terceira e interessantíssima proposta, que foi chamada de “cap-and-dividend” ou “cap-and-return”. Em vez de fixar tetos para as emissões, o que é muito complexo, pois é imenso o número de emissores, melhor seria limitar a própria produção de energia fóssil. Petróleo, gás e carvão passariam a ter cotas de oferta. Isso encareceria bastante o consumo de todas as energias sujas. Para evitar que as altíssimas margens extraordinárias geradas pelo racionamento caíssem no colo do pequeno oligopólio de empresas que produzem energias de origem fóssil, o governo as taxaria e devolveria à população tudo o que arrecadasse, de forma igualitária. Um esquema que já funciona bem para os royalties do petróleo, tanto no Alasca, quanto na província canadense de British Columbia. Ou seja, o governo daria violenta mordida nos lucros extras do setor de energia suja, e a arrecadação geraria transferências para os domicílios. Obviamente sairiam ganhando os que já tivessem um estilo de vida ecoeficiente em termos energéticos. E surgiria um incentivo para que mudassem de estilo de vida as famílias perdulárias em termos energéticos. No lugar de milhares de torneirinhas para tentar monitorar os principais emissores, bastariam algumas válvulas para um efetivo controle dos que fornecem as energias sujas.

 

 

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“Economia verde” mexe com dogmas no Reino Unido

De Exeter e Londres

12/11/2008

O arquipélago das Maldivas, um paraíso na Terra a sudoeste da Índia, nunca cravou ao certo o número de suas ilhotas - sempre foi “algo próximo” a 1.200. A oscilação do nível do mar explica a imprecisão: a altura média das ilhas é de 1,5 metros, a porção mais alta de terra mede 2,4 metros. Se o mar subir 59 cm até 2100, confirmando as previsões dos cientistas, o país some do mapa. Ontem, o presidente das Maldivas Mohamed Nasheed tomou posse anunciando sua primeira medida: investir boa parte da bilionária receita que o país consegue com turismo comprando terras na Índia, no Sri Lanka e na Austrália. A idéia é contornar o inevitável: que seus 380 mil habitantes se tornem refugiados ambientais sem terra em conseqüência do aquecimento global.

A história estava na primeira página do “The Guardian”, um dos principais jornais do Reino Unido, abrindo a semana e dividindo espaço com a notícia dos próximos passos do novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Mudança climática é tema constante no noticiário inglês, ao lado da forte preocupação com a crise financeira e a expectativa de recessão.

Nos corredores do departamento de Relações Exteriores, o Foreign Commonwealth Office, políticos acreditam que uma nova economia verde pode produzir emprego num momento em que a crise financeira global dispara processos recessivos. No Reino Unido a discussão não parece ser marginal, sinaliza um processo transformador. Mexe, inclusive, com dogmas econômicos. “Não há uma atitude não intervencionista em resposta à mudança climática”, reconhece John Ashton, um dos parlamentares mais reconhecidos pelo trabalho com o tema. “É preciso que exista um novo tipo de economia política”, continua.
Há novos índices aparecendo. “Se quisermos estabilizar as emissões de carbono e continuar com o crescimento econômico só temos uma escolha”, diz um relatório detalhado sobre combater a mudança do clima e ao mesmo tempo sustentar a economia, elaborado pela consultoria McKinsey. “Trata-se de aumentar dramaticamente o nível da ‘produtividade de carbono’ na economia”, prossegue o relatório. A produtividade do carbono é o resultado da divisão do Produto Interno Bruto (PIB) pelas emissões de gases-estufa de um país. A previsão é a seguinte: para conseguir reduzir emissões e manter o crescimento econômico a tal da produtividade do carbono terá que crescer dez vezes entre 2005 e 2050. Isso para responder ao que a ciência sugere - que será necessário reduzir as emissões em 76% em 2050, em relação a 2000, para minimizar os riscos do aumento da temperatura.

“O desafio da revolução do carbono é similar à transformação econômica que o mundo viveu com a Revolução Industrial”, diz Ed Petter, gerente de relações exteriores e de mudança climática da McKinsey. “Mas teremos que fazer em 40 anos o que, na Revolução Industrial, se fez em 120″.
Na semana que vem, Richard Betts, o chefe da divisão de impactos climáticos do Hadley Centre do Met Office, um dos mais respeitados centros meteorológicos do mundo, baseado em Exeter, a quatro horas de Londres, encontrará representantes do Ministério da Ciência e Tecnologia e das Relações Exteriores esclarecendo resultados de estudos que vem fazendo junto com os brasileiros Carlos Nobre e José Marengo, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE-CpTEC). Não levará nenhuma boa notícia na maleta. “O consenso científico parece ser que a Amazônia ficará cada vez mais seca”, diz ele, com cautela e reticência. “Isto aumenta o risco de incêndios na floresta”, prossegue, comentando o potencial explosivo da combinação entre um ambiente mais seco e o tradicional uso do fogo para limpar áreas que serão ocupadas por gado ou por agricultura.

A parceria britânica com o Brasil rumo a economias de baixo carbono, pode se ampliar com a troca de tecnologias limpas ou de seqüestro de carbono, mas não chega à doação de recursos financeiros para o Fundo Amazônia, como fez a Noruega. Já ocorreram conversas entre os dois governos, mas não deve se esperar nada para já. (DC)

A repórter viajou a Londres a convite do governo do Reino Unido

 

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quarta-feira, 12 de novembro de 2008, 09:40 |

Zona leste de São Paulo vai ganhar seis parques

SÃO PAULO - São Mateus, na zona leste de São Paulo, deverá ganhar seis parques - um deles com mais de 2,4 milhões de metros quadrados - como compensação pela construção de mais um aterro sanitário. A entrega está prevista para o segundo semestre de 2009. O Aterro São João deve encerrar as atividades em abril. A maior das áreas verdes, porém, o Parque Natural, será de preservação integral e fechada ao público - a intenção é preservar o ecossistema, que tem vegetação nativa e será enriquecido com mais árvores.

 

A criação e a manutenção dos parques ficarão sob responsabilidade da Ecourbis - que faz a coleta de 6 mil toneladas de lixo por dia, de 6 milhões de habitantes das regiões sul e leste da capital. A desapropriação das duas áreas que vão compor o Parque Natural estará a cargo da Secretaria de Serviços.

 

O desativado Aterro Sapopemba será um dos parques. ?Fizemos toda a análise e ele não oferece nenhum risco?, disse o presidente da Ecourbis, Ricardo Acar. A empresa, que tem contrato com a Prefeitura por mais 16 anos, prevê investir R$ 35 milhões nas compensações ambientais. O Morro do Cruzeiro, com 5 mil m², além de parque ganhará centro de referência ambiental. ?A compensação é uma das maiores na cidade?, afirmou.

 

O prefeito Gilberto Kassab (DEM) definiu ontem, em publicação no Diário Oficial da Cidade, as responsabilidades para a compensação pelo aterro. Entre elas está a criação, pela Ecourbis, de cinco áreas verdes na borda do Parque Natural, com 20 mil m², abertas ao público. Trata-se de um conjunto grande de obrigações ambientais, que tendem a interromper o processo de degradação daquela área?, afirmou o chefe de gabinete da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, Hélio Neves.

 

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Quarta-feira, 12 novembro de 2008

‘Brasil pode ser líder em sustentabilidade’

Mas, para que isso aconteça, é preciso que governo assuma seu papel, diz professor de Yale

Renato Cruz

Para Daniel Esty, professor de Yale e autor do livro O verde que vale ouro (Editora Campus), quase nenhum país está tão bem preparado quanto o Brasil para assumir um papel global de liderança no desenvolvimento sustentado. “O País tem várias empresas que são líderes mundiais, e o ambiente é encarado muito seriamente pela comunidade empresarial, o que posiciona o Brasil como um líder global em potencial”, disse Esty, em entrevista ao Estado. Ele participou, na segunda-feira, do evento Expo Management, em São Paulo.

Para que isso aconteça, segundo o professor, o governo brasileiro precisa cumprir seu papel. “O governo não conseguiu desenvolver uma estrutura de políticas que aborde seriamente a necessidade de inovação e não conseguiu abordar seriamente a necessidade de o Brasil assumir um papel de liderança em termos de compromissos globais”, afirmou Esty.

O professor defendeu mudanças nas políticas de comércio exterior para energias limpas, para que as diversas alternativas possam concorrer entre si e haja um teste que mostre quais serão de interesse da sociedade no longo prazo. “Nesse contexto, o etanol brasileiro parece um competidor forte”, completou. Atualmente, os Estados Unidos e outros países impõem obstáculos comerciais ao etanol brasileiro, o que dificulta a sua exportação.

Esty criticou o pensamento de que sai mais caro ser ambientalmente responsável. “Uma parte importante de se adotar uma estratégia ambiental é alcançar uma eficiência ecológica, o que significa um uso mais cuidadoso da energia e dos recursos. As empresas podem reduzir o montante de energia que consomem para fabricar seus produtos. Ou podem reduzir o desperdício e os resíduos, diminuindo os custos”, disse.

O professor de Yale citou algumas empresas brasileiras como exemplos de estratégia ambiental. “Acho que o trabalho do Banco Real em tentar assegurar uma atenção maior ao ambiente e à sustentabilidade em suas práticas bancárias é um bom exemplo de uma empresa de ponta. E acho que a Natura é outra empresa que tornou as ofertas ambientais ao mercado uma parte central de sua estratégia de negócios.”

Mas entender que o mundo está se tornando verde não basta. Segundo Esty, o principal erro que pode ser cometido pelas empresas é achar que qualquer iniciativa ambiental dará resultado. “As empresas precisam ter muito cuidado ao escolher as iniciativas ambientais que irão tomar”, disse. “Como num novo plano de marketing ou numa nova campanha publicitária, é necessário que as empresas que querem se tornar verdes façam sua lição de casa e analisem com sofisticação onde as oportunidades verdes estão, e o que é preciso para executá-las com sucesso.”

Esty não acredita que a crise financeira irá prejudicar a busca por alternativas energéticas mais limpas, mesmo com a queda do preço do petróleo. “Ele ainda é hoje duas vezes maior do que há três anos. A lógica para a eficiência energética ainda é muito forte.”

 

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domingo, 9 de novembro de 2008

Desmatamento anula benefício climático do etanol

Um mês de derrubada na Amazônia emite tanto CO2 quanto o que foi economizado em 5 anos de carros flex

Herton Escobar - O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - Em cinco anos, desde que a tecnologia Flex Fuel chegou ao mercado de automóveis, o Brasil “economizou” 42,5 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2), que deixaram de ser emitidas para a atmosfera graças à substituição de gasolina por álcool combustível, segundo cálculos da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica). Isso equivale a três anos e meio de emissões de CO2 da cidade de São Paulo, como se todos os veículos e fábricas da metrópole tivessem parado de funcionar durante esse período.

Segundo o físico José Goldemberg, do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo, os 42,5 milhões de toneladas poupados representam quase 20% das emissões brasileiras do gás - excluindo o que é emitido via desmatamento e queimadas. “É um número muito significativo”, afirma Goldemberg. Essa é a boa notícia.

A má notícia é que, quando se leva em conta as emissões por desmatamento e queimadas na Amazônia, essa economia do álcool se desvaloriza quase que instantaneamente na atmosfera. Em um único mês, a combustão da floresta tropical lança na atmosfera a mesma quantidade de gás carbônico que deixou de ser emitida nos cinco anos de tecnologia Flex Fuel. A comparação foi feita pelo Estado, com base em informações fornecidas por especialistas da academia e da indústria.

Pesquisadores estimam que cada quilômetro quadrado de floresta derrubada e queimada na Amazônia libera para a atmosfera, em média, 44 mil toneladas de CO2. Em 2007, por exemplo, foram derrubados 11.532 km2 de floresta amazônica, segundo dados oficiais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Pelos cálculos dos cientistas, isso implicou na emissão de 507,4 milhões de toneladas de CO2, o que dá uma média de 42,3 milhões de toneladas por mês - quase o mesmo que os 42,5 milhões de toneladas evitadas pelo uso de álcool em motores Flex Fuel em cinco anos.

2007 foi o ano de desmatamento mais baixo no período. Se a comparação for feita com a média de anos anteriores, quando o desmatamento foi maior, o benefício climático do etanol desaparece ainda mais rapidamente. Em 2004, quando foram derrubados 27.423 km2 de floresta, a emissão média chegou a 100,5 milhões de toneladas de CO2/mês, ou 3,3 milhões de toneladas de CO2/dia. Ou seja: a economia de carbono dos motores Flex Fuel foi zerada naquele ano em menos de duas semanas.

“Os números mostram que não há saída para o Brasil. Se o País quiser mesmo contribuir para reduzir as mudanças climáticas, a única maneira de fazer isso é reduzir o desmatamento”, diz Paulo Moutinho, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), uma organização não-governamental.

Tendência de Alta

Após três anos em queda, o desmatamento voltou a crescer este ano na Amazônia. O cálculo oficial de área está sendo feito pelo Inpe, que deverá publicar as estatísticas no mês que vem.

A especialista Suzana Kahn, secretária de Mudanças Climáticas e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente (MMA), reconhece que o desmatamento é um problema seríssimo e que ainda está longe de ser resolvido, mas acredita que isso não invalida os resultados positivos obtidos com os esforços ambientais de conservação da floresta e na área energética, com o etanol.

Segundo ela, é importante olhar os dois lados da moeda. Além de contar o carbono que é emitido pela destruição da floresta, diz, é preciso contabilizar o que deixou de ser emitido pela redução do desmatamento.

“O esforço que o Brasil fez para reduzir o desmatamento é mais do que qualquer país conseguiu fazer até hoje para reduzir emissões”, afirma Suzana, que também é pesquisadora da Coordenação dos Programas de Pós-graduação de Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Segundo um cálculo que deverá ser apresentado pelo Brasil na próxima conferência de mudanças climáticas da Organização das Nações Unidas (mais informações nesta pág.), a redução das taxas anuais de desmatamento da Amazônia nos últimos anos evitou a emissão de mais toneladas de CO2 do que a soma de todas as reduções propostas pelo Protocolo de Kyoto nos países desenvolvidos.

Alguns ambientalistas e pesquisadores, porém, questionam o mérito do governo sobre a redução dos últimos anos, que teria sido fortemente influenciada pela redução momentânea dos preços de carne e soja no mercado internacional.

“Evidentemente, não há como o uso do etanol compensar o desmatamento da Amazônia em termos de gases do efeito-estufa e creio que esse propósito não está na cabeça do governo federal nem tampouco do setor produtivo, pois há o reconhecimento de que o desmatamento criminoso e descontrolado deve ser eliminado”, avalia o consultor de emissões e tecnologias da Unica, Alfred Szwarc. “O que deve ser considerado é que sem o uso do etanol, nas condições atuais de desmatamento, a emissão do Brasil seria ainda maior.”

 

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País tem o maior programa de energia limpa

Fonte O Estado de S. Paulo
Autor Herton Escobar
Data de Edição 09/11/2008

Cadeia produtiva do etanol tem potencial para virar sorvedouro de carbono, diz especialista da indústria

A tecnologia Flex Fuel, que permite usar álcool ou gasolina no mesmo motor, foi lançada no mercado automotivo brasileiro em março de 2003. Rapidamente, a tecnologia ganhou a preferência dos consumidores e da indústria, de modo que, hoje, 25% da frota circulante e 70% dos veículos que saem das montadoras no País são do tipo flex, segundo dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). A produção de álcool combustível (etanol) avançou no vácuo dos motores, pulando de 14,8 bilhões de litros na safra de cana 2004 para 22,4 bilhões de litros, na safra 2008, segundo estatísticas da União da Indústria de Canade-Açúcar (Unica). Na próxima colheita, a expectativa é produzir 27 bilhões de litros de etanol, o que proporcionaria uma economia de 53 milhões de toneladas de CO2 em emissões evitadas, comparado ao que seria emitido com o uso de gasolina. E mais ou menos o que a Suécia emite em um ano, segundo dados oficiais das Nações Unidas. A conta inclui tanto o álcool anidro (puro) quanto o hidratado, que émisturado àgasolina - diferentemente da conta de 42,5 milhões de toneladas, que inclui só o combustível usado em motores flex. “Nenhum país do mundo tem um programa de energia renovável da dimensão do nosso”, diz o consultor de emissões e tecnologia da Unica, Alfred Szwarc, responsável pelo “carbonômetro”, uma ferramenta do site www. etanolverde.cóm.br que mostra quanto CO„ está sendo economizado com o uso da tecnologia Flex Fuel. “Os Estados Unidos consomem mais álcool do que o Brasil, mas isso não passa de 3% da matriz energética americana”, diz. No Brasil, a cana-de-açúcar já supre 16% das necessidades energéticas do País, segundo Szwarc. “Estamos descarbonizando o nosso. setor de transportes.” O etanol é um combustível chamado “renovável” porque o CO, que ele emite é reabsorvido pelas lavouras de cana que estão crescendo no campo (veja gráfico na página ao lado). Apenas uma pequena parte - cerca de 3% - fica na atmosfera. Segundo Swarc, a cadeia do álcool só não é 100% renovável por causa do CO_ emitido pelo diesel que é usado para movimentar as máquinas agrícolas e os caminhões que transportam o etanol para distribuição. Com a substituição desse diesel por biodiesel ou outras formas de transporte menos poluentes, é possível que o setor se torne até um sorvedor de carbono. “Em cinco anos, acho que esse porcentual que fica na atmosfera já deixará de existir”, diz Swarc. “Vamos ter um sistema que absorve mais CO, do que emite.”

Szwarc lembra ainda que o etanol tem outras vantagens ambientais. A fumaça produzida pela combustão do álcool é bem menos tóxica do que a dos derivados de petróleo. Por exemplo, contém pouquíssimo enxofre e nenhum benzeno.

 

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08/11/2008 - 16h21

Estabilizar clima pode ser inviável, diz agência

da Folha de S.Paulo
A Agência Internacional de Energia tem uma má notícia para o planeta: na melhor das hipóteses, o aquecimento global neste século deverá ser de trágicos 3ºC em relação à era pré-industrial. A redução de emissões de gases-estufa necessária para evitar a mudança climática perigosa pode não ser tecnicamente viável.

O veredicto está no “Panorama Global de Energia 2008″, documento que apresenta as tendências do cenário energético mundial. O período analisado vai de 2006 a 2030.
Segundo o relatório, a estabilização da concentração de gás carbônico (CO2) em 450 ppm (partes por milhão) na atmosfera –que produziria um aumento “seguro” da temperatura global de 2ºC– dificilmente será obtida. O máximo a que o mundo pode aspirar, e a um custo alto, é a estabilização em 550 ppm, o que produziria um aquecimento de 3ºC.

“Mesmo sem considerar a viabilidade política, é incerto se a escala da transformação vislumbrada é tecnicamente alcançável”, diz o relatório.

Segundo a AIE, o mundo pode ficar até 6ºC mais quente se o cenário atual de emissões for mantido. O primeiro passo para reverter essa tendência é alcançar um acordo global significativo de redução de emissões no ano que vem, na conferência do clima de Copenhague.

“As conseqüências para o clima da inação política são chocantes”, continua a agência. As dificuldades para alcançar uma estabilização em 450 partes por milhão de CO2 são de diversas ordens. Primeiro, a demanda por energia deve crescer 45% entre 2006 e 2030. Os combustíveis fósseis, como o petróleo, continuarão respondendo por 80% da demanda.

Mesmo com o pico dos preços em 2008 e com a redução da taxa de crescimento do PIB global devido à crise financeira, as emissões projetadas neste ano pela agência para 2030 são apenas 1 bilhão de toneladas de CO2 mais baixas que o projetado em 2007. Elas devem crescer 45%, das atuais 28 bilhões de toneladas por ano para 41 bilhões de toneladas por ano.

Por fim, continua o relatório, há um problema estrutural do setor de energia, que é sua taxa lenta de substituição de capital. Uma tecnologia nova demora muitos anos para se espalhar pelo setor. Mesmo com o crescimento das energias renováveis, como eólica e solar –que devem se tornar a segunda fonte de geração de eletricidade no planeta em 2010–, três quartos da eletricidade em 2020 virá de usinas já existentes.
“Se todas as usinas construídas de hoje em diante fossem livres de carbono, as emissões de CO2 do setor de energia seriam apenas 25% menores em 2020 que em 2006″, diz a AIE.

 

 

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08/11/2008 - 09h38

Billings tem poluentes até 100 vezes acima do limite

TALITA BEDINELLI
colaboração para a Folha
JOSÉ ERNESTO CREDENDIO
da Folha de S.Paulo

Estudo realizado por técnicos da USP (Universidade de São Paulo), a pedido do Ministério Público, detectou que as represas Billings e Guarapiranga têm poluentes, alguns deles potencialmente tóxicos e cancerígenos, acima do permitido pela legislação ambiental.

A água das duas represas ajuda no abastecimento dos municípios da região metropolitana de São Paulo e é utilizada como lazer, para pesca, nado ou vela.

Análises feitas de setembro de 2007 a maio de 2008 observaram que, das 95 substâncias examinadas, 25 estavam fora de conformidade em pelo menos 10% dos testes em um dos pontos de monitoramento.
Havia níveis altos de substâncias como alumínio, que pode estar associado ao mal de Alzheimer; cianetos, que podem causar perda de peso e danos à tireóide e ao sistema nervoso; clorofórmio, suspeito de ser cancerígeno; coliformes termotolerantes, que contêm vírus e bactérias; entre outras.

O poluente mais preocupante, diz o relatório, é o chumbo. Numa amostra da Billings, havia uma quantidade 100 vezes superior ao permitido. Outra, na Guarapiranga, detectou-o em quantidade 23 vezes maior do que o limite. O chumbo, em altos valores, pode causar anemia e problemas neurológicos.

Segundo a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), as substâncias não representam risco à população, pois a água é tratada antes do consumo. A empresa diz que a poluição se concentra em pontos específicos, perto de manchas urbanas, e é causada por despejo de esgoto sem tratamento. Nas áreas usadas como lazer, perto de São Bernardo do Campo e Ribeirão Pires, há monitoramento diário e a água possui a qualidade exigida pelo Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente).

As análises da água foram pedidas pelo Ministério Público porque o governo paulista pretende bombear a água dos rios Pinheiros e Tietê para a Billings. A água passaria por um processo de limpeza denominado flotação –tratamento com produtos químicos que levam a sujeira para a superfície.
O processo ajudaria a despoluir o Pinheiros e a aumentar a quantidade de água da represa, o que seria revertido em energia, segundo a Emae (Empresa Metropolitana de Águas e Energia). Dos 17 pontos de análise, 2 foram detalhados no relatório: um antes da flotação e outro depois. Segundo o estudo, as amostras após a flotação ainda detectaram poluentes em níveis acima do limite e isso é jogado na Billings.
O Ministério Público diz que ainda não se sabe se o sistema é falho, pois são necessários cálculos para avaliar se, após a adoção do projeto –o fluxo de água será cinco vezes maior que no período de testes– a poluição após a flotação será prejudicial ao reservatório.

Clima e pobreza desafiam os modelos de negócios

12/11/08

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 Célia Rosemblum
12/09/2008

Algumas expressões muito usadas em mesas de negócios nos últimos tempos nasceram na mente de John Elkington. O sociólogo inglês que transita, há 30 de seus 58 anos, nos campos ambientalistas e, mais recentemente, no terreno da sustentabilidade, cunhou expressões como “triple bottom line”- com a idéia de que as empresas devem medir o valor que geram, ou destroem, nas dimensões econômica, social e ambiental - e sua versão popular, “PPP - people, planet and profit” (pessoas, planeta e lucro).

Ana Paula Paiva/Valor

John Elkington, que criou o termo "triple bottom line": o atual modelo está freqüentemente ligado a algum dano

John Elkington, que criou o termo triple bottom line: o atual modelo está freqüentemente ligado a algum dano

Co-fundador da empresa de consultoria e pesquisa SustainAbility, que mantém uma seleta e influente carteira de clientes, Elkington é um dos gurus do movimento de responsabilidade social e sustentabilidade no mundo. Tem 17 livros publicados, entre eles fenômenos como o Guia do Consumidor Verde, que vendeu mais de 1 milhão de exemplares. Em fevereiro de 2009, ele virá ao Brasil para o evento final do Prêmio Itaú de Finanças Sustentáveis, que pretende estimular a produção acadêmica e jornalística sobre o tema, em um projeto apoiado pela SustainAbility. Veja a seguir trechos da entrevista que ele concedeu ao Valor, por telefone, de Londres.

Valor: Que tipo de mudanças o senhor identifica nas empresas desde a criação do conceito de “triple bottom line”, em 1994? As companhias progrediram nesse campo?

John Elkington: Sim, eu acho que elas progrediram muito. Olho para países como o Brasil e vejo um número crescente de empresas, negócios e empreendedores nesse caminho. Mas com certeza temos ainda muito pela frente.

Valor: Por que, em sua opinião, as empresas usam a linguagem da sustentabilidade mas ainda não incorporam suas práticas?

Elkington: É algo muito humano no sentido de que quando surge uma moda, ou uma linguagem, as pessoas brincam com a idéia por um tempo. Usam algumas das novas roupas, experimentam as palavras. Acredito que ocorra o mesmo com a sustentabilidade. Quando o conceito foi criado, a maioria das empresas líderes no campo da cidadania corporativa estava focada principalmente em meio ambiente e algumas só pensando em quanto poderiam economizar com redução de consumo de energia. Usavam o termo ecoeficiência, que era adotado pelo World Business Council for Sustainable Development. Ecoeficiência é realmente importante, mas existe não apenas um lado financeiro, mas também um lado econômico. Isso é sobre como construir economias, mas também existe um lado social. Muitas companhias, particularmente nos EUA, consideram a dimensão social do desenvolvimento sustentável ou do “triple bottom line” muito difícil. Só para dar um exemplo, a varejista Wal-Mart, uma das maiores do mundo, adotou recentemente uma série de medidas ambientais e está falando sobre sustentabilidade, mas não está fazendo muito no aspecto social.

Valor: Por que isso acontece?

Elkington: Há 21 anos, quando foi adotado o termo sustentabilidade, nós passamos os primeiros dois ou três anos soletrando a palavra, que ninguém havia ouvido até então. E agora, o Wal-Mart usa, a General Electric usa e muitas outras companhias de diversos tipos, em todo o mundo, usam. Elas, que costumavam ser pouco amigáveis com os ambientalistas ou ativistas sociais, hoje usam a linguagem. Acho que existem muitas razões para isso além do fato de estar na moda. Um dos motivos é a seriedade e importância das questões envolvidas. A mudança climática é um deles, toda a questão da pobreza - os desafios de obter acesso à água limpa e a produtos farmacêuticos para mais pessoas, conseguir energia a um custo que as pessoas possam encarar. Esses problemas não preocupam apenas candidatos, ativistas ou os governos. Existe uma expectativa, decorrente da globalização, de que o mundo corporativo desempenhe um papel em relação a essas questões. É por isso que eu acredito que as companhias estão começando a usar de forma crescente a sustentabilidade para rotular esses grandes desafios que no passado eram responsabilidade dos governos e não nossos. Estão começando a reconhecer que existe uma responsabilidade corporativa das companhias também.

Valor: Em termos práticos, quais são as implicações do uso dessa linguagem pelas empresas?

Elkington: Quando as pessoas usam a linguagem da sustentabilidade nós devemos dizer: “É maravilhoso que você tenha se comprometido com a sustentabilidade, mas você realmente entende o significado?” Não se trata de apenas limpar uma fábrica em particular, ou fazer um trabalho filantrópico. É uma agenda global. Uma agenda que não é voltada apenas para proteger ou salvar coisas. É sobre mudanças econômicas, sobre mudanças políticas. É em relação a isso que o conceito do “triple bottom line” pode ser útil.
Valor: Essa mudança incluiria uma nova abordagem para o lucro?
Elkington: É difícil. Não acho que iremos ver uma redifinição radical de lucro nos próximos cinco anos. Acho que nossas economias precisam ser capazes de medir e gerar lucros para poder investir no futuro. O que acontece de forma paralela é que as pessoas começam a perceber que o atual modelo econômico e o atual modelo de negócios estão freqüentemente ligados a algum tipo de dano social ou ambiental que o modo tradicional de medir resultados ou lucratividade não leva em conta. E começamos a ver algumas companhias de ponta que buscam retornos sociais e ambientais como dividendos.

Valor: Como o senhor imagina que esse processo irá evoluir?

Elkington: Alguns empreendedores sociais e algumas novas fundações começam a fazer um trabalho muito interessante de mensuração dos retornos e dividendos sociais. O verdadeiro desafio é que se as empresas fizerem isso só por conta própria, o mercado financeiro não permitirá que a longo prazo as companhias busquem retornos sociais se ninguém pagar por eles. Existem argumentos sobre como eles ajudam uma empresa a sobreviver, como ajudam a legitimar o negócio. Mas o mercado financeiro não gosta dessas coisas. E acho que novamente precisaremos da ajuda do governo para moldar os mercados do futuro e colocar preços em sistemas ecológicos, recursos naturais, comunidades saudáveis, ou o que for, de modo que os mercados possam entender que as empresas não devem apenas atender as tendências e necessidades do mercado. Mas acho que na maior parte do mundo estamos muito longe disso e ainda há um longo caminho pela frente.

Valor: Mas depois de anos de domínio da lógica do poder de mercado, como isso ocorreria?

Elkington: É difícil saber. Acredito que as falhas do mercado, os problemas que o sistema bancário enfrenta agora, significam que haverá sim em muitos países ações governamentais para regulamentação de determinados setores da economia. Muitos irão tentar limpar problemas do passado em lugar de serem inovadores e construir novas formas e valores. Estive nos últimos sete anos nas reuniões do Fórum Econômico Mundial e foi extraordinário ver como as novas e grandes questões ambientais e sociais entram na agenda. E os líderes políticos e de negócios sendo quase forçados a prestar atenção a essa nova agenda. Acho que essa agenda será um pouco apertada pela recessão, mas voltará com mais ímpeto em alguns anos. E os mercados financeiros são centrais para assegurar que o capitalismo responda da maneira certa.
Valor: Como o mercado de capitais e o sistema financeiro podem contribuir de forma efetiva?
Elkington: Na Suíça, uma das maiores companhias resseguradoras do mundo, a SuissRe, está extremamente preocupada com a tendência dos desastres naturais. Mas o mais amedrontador para eles é a mudança climática. A maioria dos terremotos ocorre em lugares onde as pessoas não são muito ricas - se ocorressem no Japão ou na Califórnia seria diferente - portanto o risco de seguro não é tão alto. Mas a mudança climática ocorre em partes do mundo onde as pessoas são ricas, onde elas têm seguro e onde o risco para companhias como SuissRe está cada vez maior. Eles estão começando a registrar os padrões ambientais que as companhias que resseguram devem preencher. É um jeito de tentar a mudança. Ao mesmo tempo, a SuissRe é uma investidora de grande peso e agora, por conta da mudança climática, começa a pensar em uma estratégia de investimentos. Diversas grandes instituições financeiras têm se engajado à essa agenda ampla.

Valor: E quais são os reflexos desse engajamento na vida real?

Elkington: Hoje os presidentes e conselheiros executivos dessas companhias defendendo em público atenção para esses desafios. Não é mais discurso do Greenpeace, a campanha é de líderes empresariais. E ultimamente eles também têm convocado líderes políticos a agir. Há três quatro anos isso seria inimaginável. Os líderes empresariais estão acordando, não em todo o mundo, mas estão.

Valor: Na prática, o que essas grandes empresas podem fazer?

Elkington: As grandes companhias estão de forma crescente pedindo a seus fornecedores, a sua cadeia de valor, que sigam padrões ambientais, de eficiência, de direitos humanos, comércio justo. A diferença é que se um político tenta introduzir uma nova norma, as companhias tendem a se juntar para contestar essa regulamentação. Se a Wal-Mart decide que dentro de seis meses vai vender apenas lâmpadas eficientes; se diz que não vai mais vender ou manter em estoque lâmpadas incandescentes, não há nada que os fornecedores possam fazer a respeito. É uma dinâmica complexa de mercado que está fazendo a coisa andar.

Valor: Seu último livro ["The Power of Unreasonable People: How Social Entrepreneurs Create Markets that Change the World"] é dedicado a empreendedores sociais que inspiram novos modelos de negócios. Isso vale para as empresas convencionais?

Elkington: Boa parte das pessoas que trabalham nas grandes empresas não são muito inovadoras e acreditam que o modo como os negócios funcionam hoje está assegurado. Esquecem que as economias nacionais e global passam por períodos de mudanças drásticas, que os economistas chamam de destruição criativa. Acho que estamos em um desses momentos. Os empreendedores sociais olham para áreas em que os mercados falharam, em que eles simplesmente não atendem as necessidades das pessoas - água potável, medicamentos para aids, malária, tuberculose. O mercado não está funcionando e eles fazem ali um negócio social. As empresas podem usar essas pessoas como lentes, como microscópio, para ver as oportunidades de negócios do futuro.