Sustentabilidade e Negócios
13/11 – 05:00
Mercado de carbono e o “cap-and-trade”
13 de novembro de 2008 – A implementação de um sistema “cap-and-trade” (sistema de comércio de licenças de emissões) nos EUA introduziria mudanças significativas nos mercados de carbono no mundo todo. O mercado não apenas cresceria, como também os projetos de redução de emissão subjacentes teriam uma base mais diversificada. Isso aconteceria com a aprovação da Lieberman-Warner Climate Security Act (lei de segurança climática dos EUA) de 2008, conforme proposta por um projeto de lei enviado ao Senado norte-americano pela senadora Barbara Boxer em 20 de maio de 2008.
A lei proposta estabelece um programa para diminuir substancialmente as emissões dos EUA de gases de efeito estufa entre 2007 e 2050 por intermédio da criação de um sistema “cap-and-trade” aplicável a determinadas entidades poluentes. Se o teto de poluição estipulado, que diminuirá anualmente, não for cumprido pelas entidades poluentes, elas terão de comprar créditos no mercado.
O projeto estabelece três diferentes tipos de créditos: 1) créditos para emissões, que são estabelecidas anualmente e distribuídas pelo Administrador da Agência de Proteção Ambiental; 2) créditos de compensação, que são emitidos e certificados para reduções de emissão de gás de efeito estufa sob um projeto base; e 3) créditos internacionais de emissões, que são créditos obtidos em um mercado de comércio de emissões de gases de efeito estufa.
O sistema “cap-and-trade” a ser estabelecido segundo a Lei Lieberman-Warner criaria uma ampla variedade de novas oportunidades de negócios para os participantes do mercado, pois expandiria a possibilidade de compensar emissões de gases de efeito estufa com créditos de carbono gerados por determinados tipos de projetos que não são cobertos pelo Protocolo de Kyoto, como é o caso de projetos que evitam o desmatamento.
Conseqüentemente, seria possível desenvolver projetos de conservação florestal que gerariam créditos de carbono. Investidores brasileiros são potenciais beneficiários dessa situação, já que o Brasil possui uma das maiores áreas florestais do mundo. Investidores americanos também poderiam se beneficiar associando-se aos brasileiros na criação de projetos de conservação florestal, cujos custos de implementação seriam menores do que nos EUA.
Duas outras áreas que poderiam chamar a atenção tanto de americanos quanto de brasileiros, à luz dos vastos desenvolvimentos tecnológicos no Brasil nos últimos anos, são a produção de biocombustíveis e o setor agrícola. O Brasil tem liderado o grupo de produção agrícola mundial, devido às suas extensas porções de terras agrícolas altamente produtivas e boas condições climáticas.
Um outro tipo de projeto que poderia contribuir com a captura de carbono da atmosfera é o chamado “fazenda de carbono”. Estudos na Austrália comprovaram que a criação de animais alimentados por pastagem ajuda a fixar dióxido de carbono no solo por meio da grama, sendo mais eficiente do que aquela resultante de árvores e florestas. O Brasil poderá se beneficiar dessa nova técnica, pois grande parte do gado criado no Brasil se alimenta de pastagens.
A possibilidade de utilizar créditos internacionais de emissões (tais como créditos do Protocolo de Kyoto, do Mecanismo de Comércio de Emissões da UE e também de mercados voluntários) para cumprir as metas nos termos da Lei Lieberman-Warner poderá também contribuir com o crescimento do mercado. Contudo, segundo uma disposição da Lei Lieberman-Warner, o proprietário ou operador de entidades poluentes poderá satisfazer até no máximo 15% da sua quota de créditos com créditos internacionais.
Caso a Lei Lieberman-Warner seja promulgada, os projetos que atualmente visam gerar reduções voluntárias de emissões se tornarão mais atraentes para os investidores. Assim, os primeiros a agir nesse campo poderão se beneficiar do seu pioneirismo. Esses projetos deverão ser estruturados com certa flexibilidade para permitir eventual migração futura para os padrões da Lei Lieberman-Warner.
Investidores em diversos projetos de recursos naturais, inclusive projetos relativos à energia, devem ficar atentos aos desenvolvimentos mundiais na regulamentação referente a mudanças climáticas. A continuidade do Protocolo de Kyoto e as discussões em torno da Lei Lieberman-Warner poderão representar oportunidades reais a serem capitalizadas no futuro próximo.
(Vladimir Miranda Abreu – Sócio-responsável pela área de Mercado de Carbono)
Mudança no clima é desafio maior que a crise
Daniela Chiaretti, de São Paulo
12/11/2008
O mundo deve enfrentar agora, ao mesmo tempo, três enormes problemas: recessão, segurança energética e aquecimento global. Mas se crises econômicas são passageiras, a mudança climática é o grande desafio do século. Imaginar que a desaceleração econômica acabará sendo benéfica ao clima porque se emitirá menos, é “duplamente tacanho”, reage o economista José Eli da Veiga. “Ao custo do desemprego?”, continua, procurando apontar que a eventual desaceleração econômica deve correr pelo trilho da busca de tecnologias limpas. Davilym Dourado/valor
José Eli da Veiga: “A crise mostra que o FMI e toda a estrutura montada em Bretton Woods já estão batendo pino”
O professor do Departamento de Economia da USP está em Londres desde fevereiro mergulhado nos dois grandes temas que lhe são caros: a pesquisa de indicadores de desenvolvimento sustentável que “possam ajudar a acabar com a ditadura do PIB per capita como barômetro do progresso” e o estudo das estratégias de combate ao aquecimento global. No Reino Unido, que junto com a Alemanha ocupa a vanguarda do debate ambiental atual, Eli da Veiga é pesquisador-associado do Capability & Sustainability Centre, centro ligado à Universidade de Cambridge.
É impossível saber agora, registra ele, o quanto a crise financeira pode atingir o debate ambiental. Os pessimistas passaram a olhar para a questão como se fosse um artigo de luxo; os otimistas falam num “Green New Deal”, espécie de salvação verde global. Com o foco na negociação internacional, que deve esquentar no mês que vem com a reunião das Nações Unidas sobre clima, na Polônia, e desembocar no fim de 2009 com novo acordo global em reunião marcada para Copenhague, Eli da Veiga defende que os 30 países responsáveis por 80% das emissões de gases-estufa do mundo acertem seus ponteiros antes de qualquer coisa, e depois convençam os outros 170 a segui-los. “Nesse caso, sairá um regime internacional muito melhor que o Protocolo de Kyoto. Mas se esses 30 países continuarem a brincar de queda-de-braço, é melhor tirar o cavalo da chuva.”
Não é de hoje que os economistas acreditam que para reduzir emissões de gases-estufa é preciso criar novos impostos. Eli da Veiga aponta uma proposta inovadora, que surgiu nos EUA e inverte o caminho tradicional de tentar fixar tetos para as emissões – a idéia é limitar a produção da energia fóssil. O professor explica como consumidores com estilo de vida de baixo consumo de energia e carbono sairiam ganhando, em entrevista feita por telefone e e-mail.
Valor: Como a crise financeira pode atingir o debate ambiental?
José Eli da Veiga: Por enquanto é impossível saber. Difícil responder, agora, qual vai ser a resultante da combinação entre os vetores que tendem a promover recuo e os que, ao contrário, podem gerar aceleração da já iniciada busca de inovações limpas, verdes, sustentáveis. Pelo menos três grandes incógnitas impedem que se saiba se estão certos os que estão tirando a conclusão mais óbvia, ou, ao contrário, se têm razão os otimistas, aqueles que estão dizendo que essa crise é simultaneamente uma grande oportunidade para que surja um “Green New Deal”, como estava na capa da “Newsweek” de duas semanas atrás, uma espécie de salvação verde.
Valor: Quais são os três pontos em aberto?
Eli da Veiga: A primeira incógnita é a profundidade e a extensão das recessões que mal começaram. A perspectiva no Reino Unido é de alto desemprego no fim do ano que vem. Nos EUA não está muito diferente. O segundo ponto é a natureza da articulação da cúpula que poderia levar ao que está sendo chamado de um novo Bretton Woods. A crise mostra que o FMI e toda a estrutura montada em Bretton Woods já estão batendo pino e seria hora de repensar tudo. E ainda a importância que os problemas ambientais globais acabarão tendo na pauta desta cúpula. No meu ponto de vista, este é o ponto principal. Aqui na Inglaterra já se notam recuos em certas áreas da construção civil, por exemplo, mas ao mesmo tempo incentivos inéditos para que a indústria automobilística acelere a viabilização de veículos elétricos e híbridos.
Valor: No caso específico do combate à mudança climática, os países do Leste Europeu e a Espanha já disseram que agora não vai dar para pensar nisso…
Eli da Veiga: Como já existe um amplo consenso de que o aquecimento global é um fenômeno irreversível – ao contrário das recessões econômicas, sempre passageiras – não é provável que prevaleçam os apelos em favor de uma involução. A crise evidentemente abre espaço para as lideranças mais recalcitrantes, mas elas parecem minoritárias na Europa. E é difícil imaginar que a posição do governo dos EUA possa vir a ser pior que a da gestão Bush. Então, não parece haver motivo para desespero. O mundo terá que enfrentar três gravíssimos problemas: recessão, segurança energética e aquecimento global. Aqui no Reino Unido o tema da mudança climática não saiu da pauta.
Valor: Não houve nenhum recuo?
Eli da Veiga: O governo deu uma tremenda recuada em relação ao plano de construção das chamadas “eco-towns”. Eram umas dez e agora anunciaram que só poderão fazer uma ou duas, por várias questões, não só a crise. Mas no mesmo dia havia outra notícia dizendo que o governo inglês irá dar tremendos créditos para a indústria automobilística investir na busca do carro elétrico, do carro híbrido. Tenho lido sinais que vão nas duas direções. Desde indícios de que, com a crise, essas coisas vão parecer luxo, a outras que dizem o contrário, que a saída da crise será investir cada vez mais nos mercados abertos pela economia verde.
Valor: A recessão global pode significar menos emissões de gases-estufa, embora esta seja uma conclusão tacanha?
Eli da Veiga: Ao preço do desemprego? É duplamente tacanha. Primeiro, porque é preciso encontrar maneiras de planejar a desaceleração econômica que será benéfica aos países centrais, e evitar a todo custo que esse caminho seja um desastre, com os horríveis impactos sociais causados pelo aumento do desemprego. Segundo, porque as recessões não estarão todas atreladas umas às outras e isso permite que muitos países da semiperiferia, e até da periferia, possam ter surtos de crescimento tão sujos quanto os do passado, em vez de começarem a encontrar novas vias, mais limpas, de crescimento.
Valor: O senhor é um crítico das análises econômicas que se baseiam no PIB. O IDH é um bom índice? O que há de novidade na discussão do IDH?
Eli da Veiga: O PIB, como indicador de desempenho econômico, é uma coisa obsoleta, que só continua a ser usada devido a uma fortíssima inércia institucional e às dificuldades de se encontrar um substituto que supere suas deficiências. E é isso que também explica a precariedade do IDH, um índice sintético de desenvolvimento e não de crescimento. Ele resulta de uma média de três indicadores referentes à saúde, à educação e ao nível de vida material. Infelizmente, para avaliar este último usa-se uma versão ligeiramente corrigida do PIB per capita, o que gera brutais distorções. Por exemplo, segundo o IDH, haveria o mesmo grau de desenvolvimento entre países tão diversos quanto os Emirados Árabes Unidos e o Chile. Isso só ocorre porque o PIB per capita dos Emirados é muitas vezes superior ao do Chile, o que compensa a sua péssima situação educacional, motivada, como se sabe, pela discriminação cultural contra as mulheres. Não parece haver cabimento em dizer que um país como esse é tão desenvolvido quanto o Chile. O que há de novidade é que o PNUD está preparando uma completa reformulação do IDH, assim como dos índices de pobreza, para que tais problemas sejam superados a partir do relatório de 2010.
Valor: A Islândia está no topo do IDH mundial. E é um país que quebrou na crise financeira atual. Dá para fazer alguma relação?
Eli da Veiga: Um país que tem um IDH muito alto, como é o caso da Islândia, é certamente muito desenvolvido. Seus habitantes têm altíssima expectativa de vida, são muito cultos e bem ricos. É apenas isso que mostra o IDH. Mas qualquer país muito desenvolvido está agora sujeito a quebrar, se tiver feito apostas erradas na maluquice financeira global das últimas décadas. Uma coisa pouco ou nada tem a ver com a outra.
Valor: O que o sr. está fazendo em Londres?
Eli da Veiga: Desenvolvendo uma pesquisa sobre indicadores de desenvolvimento sustentável que possam ajudar a acabar com a ditadura do PIB per capita como barômetro de progresso.
Valor: Como o tema mudança climática é percebido no Reino Unido?
Eli da Veiga: Esse talvez seja o país onde existe maior consciência social sobre a necessidade de combater o aquecimento global e ajudar as nações que terão mais dificuldade em se adaptar a ele. Por aqui chega a ser comum passar pela frente de uma igreja e notar uma placa convidando a participar de reuniões semanais sobre o problema da mudança climática.
Valor: Que expectativa se pode ter do próximo encontro sobre clima na Polônia e da esperada conferência em Copenhague, em 2009? O sr. é cético em relação às negociações internacionais dentro da ONU?
Eli da Veiga: O problema das negociações internacionais no quadro da convenção do clima, da ONU, é que elas dependem de barganhas bizantinas no âmbito da imensa diversidade de responsabilidades, riscos e interesses que afetam quase 200 países. Por isso, parece necessário que um grupo de nações-chave consiga chegar a uma boa base de acordo antes da reunião de 2009. Quais os critérios que permitem apontar essas nações-chave? Há três básicos que levam a listas diferentes. O primeiro é o das responsabilidades históricas sobre o aquecimento global, que prevaleceu em Kyoto. O segundo é o da capacidade de enfrentamento do problema, que se refere mais ao presente do que ao passado: quem pode mais deve assumir mais e fazer mais. E o terceiro se refere ao futuro: a tão falada sustentabilidade. Penso que este terceiro é de longe o mais importante dos três. Mostra que 30 países, entre os quais 10 centrais e 20 semiperiféricos, são responsáveis por 80% do problema. O aquecimento global não será resolvido em uma assembléia de 200, não tem jeito.
Valor: Que países são esses?
Eli da Veiga: São os que estão emitindo muito. Alguns são surpreendentes. Tem os desenvolvidos, os emergentes, e mais Tailândia, Turquia, Filipinas, Argélia. Então, esta é a saída: se esses 30 conseguirem se acertar antes da reunião de Copenhague, terão condições de persuadir os demais 170. Nesse caso, de Copenhague sairá um regime internacional muito melhor que o Protocolo de Kyoto. Mas se esses 30 continuarem a brincar de queda-de-braço, é realmente o caso de se tirar o cavalo da chuva.
Valor: Emitir ficará mais caro ?
Eli da Veiga: Kyoto não ajudou, continua baratíssimo emitir. Por isso, há hoje três propostas básicas em discussão. O bem conhecido “cap-and-trade”, que já mostrou que não funciona para o aquecimento global, mesmo que tenha funcionado muito bem para a chuva ácida. Naquele caso, eram poucos os causadores do problema, e as soluções tecnológicas estavam na prateleira. Para os gases-estufa ocorre o inverso: são inúmeros os poluidores e ainda não há inovações que realmente resolvam. Não pode haver melhor evidência que o mercado europeu de carbono: serviu para muita maracutaia entre a burocracia e as grandes empresas geradoras de energia, sem resultado significativo. Todos os economistas que analisaram a questão, dos mais caretas aos mais alternativos, chegaram à conclusão que para o caso do carbono seria muito melhor um bom imposto sobre as emissões. Toda e qualquer emissão seria taxada, desde as termelétricas até a dona-de-casa, passando pelos transportes.
Valor: É isso que está na mesa de negociações?
Eli da Veiga : Surgiu no debate americano uma terceira e interessantíssima proposta, que foi chamada de “cap-and-dividend” ou “cap-and-return”. Em vez de fixar tetos para as emissões, o que é muito complexo, pois é imenso o número de emissores, melhor seria limitar a própria produção de energia fóssil. Petróleo, gás e carvão passariam a ter cotas de oferta. Isso encareceria bastante o consumo de todas as energias sujas. Para evitar que as altíssimas margens extraordinárias geradas pelo racionamento caíssem no colo do pequeno oligopólio de empresas que produzem energias de origem fóssil, o governo as taxaria e devolveria à população tudo o que arrecadasse, de forma igualitária. Um esquema que já funciona bem para os royalties do petróleo, tanto no Alasca, quanto na província canadense de British Columbia. Ou seja, o governo daria violenta mordida nos lucros extras do setor de energia suja, e a arrecadação geraria transferências para os domicílios. Obviamente sairiam ganhando os que já tivessem um estilo de vida ecoeficiente em termos energéticos. E surgiria um incentivo para que mudassem de estilo de vida as famílias perdulárias em termos energéticos. No lugar de milhares de torneirinhas para tentar monitorar os principais emissores, bastariam algumas válvulas para um efetivo controle dos que fornecem as energias sujas.
“Economia verde” mexe com dogmas no Reino Unido
De Exeter e Londres
12/11/2008
O arquipélago das Maldivas, um paraíso na Terra a sudoeste da Índia, nunca cravou ao certo o número de suas ilhotas – sempre foi “algo próximo” a 1.200. A oscilação do nível do mar explica a imprecisão: a altura média das ilhas é de 1,5 metros, a porção mais alta de terra mede 2,4 metros. Se o mar subir 59 cm até 2100, confirmando as previsões dos cientistas, o país some do mapa. Ontem, o presidente das Maldivas Mohamed Nasheed tomou posse anunciando sua primeira medida: investir boa parte da bilionária receita que o país consegue com turismo comprando terras na Índia, no Sri Lanka e na Austrália. A idéia é contornar o inevitável: que seus 380 mil habitantes se tornem refugiados ambientais sem terra em conseqüência do aquecimento global.
A história estava na primeira página do “The Guardian”, um dos principais jornais do Reino Unido, abrindo a semana e dividindo espaço com a notícia dos próximos passos do novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Mudança climática é tema constante no noticiário inglês, ao lado da forte preocupação com a crise financeira e a expectativa de recessão.
Nos corredores do departamento de Relações Exteriores, o Foreign Commonwealth Office, políticos acreditam que uma nova economia verde pode produzir emprego num momento em que a crise financeira global dispara processos recessivos. No Reino Unido a discussão não parece ser marginal, sinaliza um processo transformador. Mexe, inclusive, com dogmas econômicos. “Não há uma atitude não intervencionista em resposta à mudança climática”, reconhece John Ashton, um dos parlamentares mais reconhecidos pelo trabalho com o tema. “É preciso que exista um novo tipo de economia política”, continua.
Há novos índices aparecendo. “Se quisermos estabilizar as emissões de carbono e continuar com o crescimento econômico só temos uma escolha”, diz um relatório detalhado sobre combater a mudança do clima e ao mesmo tempo sustentar a economia, elaborado pela consultoria McKinsey. “Trata-se de aumentar dramaticamente o nível da ‘produtividade de carbono’ na economia”, prossegue o relatório. A produtividade do carbono é o resultado da divisão do Produto Interno Bruto (PIB) pelas emissões de gases-estufa de um país. A previsão é a seguinte: para conseguir reduzir emissões e manter o crescimento econômico a tal da produtividade do carbono terá que crescer dez vezes entre 2005 e 2050. Isso para responder ao que a ciência sugere – que será necessário reduzir as emissões em 76% em 2050, em relação a 2000, para minimizar os riscos do aumento da temperatura.
“O desafio da revolução do carbono é similar à transformação econômica que o mundo viveu com a Revolução Industrial”, diz Ed Petter, gerente de relações exteriores e de mudança climática da McKinsey. “Mas teremos que fazer em 40 anos o que, na Revolução Industrial, se fez em 120″.
Na semana que vem, Richard Betts, o chefe da divisão de impactos climáticos do Hadley Centre do Met Office, um dos mais respeitados centros meteorológicos do mundo, baseado em Exeter, a quatro horas de Londres, encontrará representantes do Ministério da Ciência e Tecnologia e das Relações Exteriores esclarecendo resultados de estudos que vem fazendo junto com os brasileiros Carlos Nobre e José Marengo, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE-CpTEC). Não levará nenhuma boa notícia na maleta. “O consenso científico parece ser que a Amazônia ficará cada vez mais seca”, diz ele, com cautela e reticência. “Isto aumenta o risco de incêndios na floresta”, prossegue, comentando o potencial explosivo da combinação entre um ambiente mais seco e o tradicional uso do fogo para limpar áreas que serão ocupadas por gado ou por agricultura.
A parceria britânica com o Brasil rumo a economias de baixo carbono, pode se ampliar com a troca de tecnologias limpas ou de seqüestro de carbono, mas não chega à doação de recursos financeiros para o Fundo Amazônia, como fez a Noruega. Já ocorreram conversas entre os dois governos, mas não deve se esperar nada para já. (DC)
A repórter viajou a Londres a convite do governo do Reino Unido
quarta-feira, 12 de novembro de 2008, 09:40 |
Zona leste de São Paulo vai ganhar seis parques
SÃO PAULO – São Mateus, na zona leste de São Paulo, deverá ganhar seis parques – um deles com mais de 2,4 milhões de metros quadrados – como compensação pela construção de mais um aterro sanitário. A entrega está prevista para o segundo semestre de 2009. O Aterro São João deve encerrar as atividades em abril. A maior das áreas verdes, porém, o Parque Natural, será de preservação integral e fechada ao público – a intenção é preservar o ecossistema, que tem vegetação nativa e será enriquecido com mais árvores.
A criação e a manutenção dos parques ficarão sob responsabilidade da Ecourbis – que faz a coleta de 6 mil toneladas de lixo por dia, de 6 milhões de habitantes das regiões sul e leste da capital. A desapropriação das duas áreas que vão compor o Parque Natural estará a cargo da Secretaria de Serviços.
O desativado Aterro Sapopemba será um dos parques. ?Fizemos toda a análise e ele não oferece nenhum risco?, disse o presidente da Ecourbis, Ricardo Acar. A empresa, que tem contrato com a Prefeitura por mais 16 anos, prevê investir R$ 35 milhões nas compensações ambientais. O Morro do Cruzeiro, com 5 mil m², além de parque ganhará centro de referência ambiental. ?A compensação é uma das maiores na cidade?, afirmou.
O prefeito Gilberto Kassab (DEM) definiu ontem, em publicação no Diário Oficial da Cidade, as responsabilidades para a compensação pelo aterro. Entre elas está a criação, pela Ecourbis, de cinco áreas verdes na borda do Parque Natural, com 20 mil m², abertas ao público. Trata-se de um conjunto grande de obrigações ambientais, que tendem a interromper o processo de degradação daquela área?, afirmou o chefe de gabinete da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, Hélio Neves.
Quarta-feira, 12 novembro de 2008
‘Brasil pode ser líder em sustentabilidade’
Mas, para que isso aconteça, é preciso que governo assuma seu papel, diz professor de Yale
Renato Cruz
Para Daniel Esty, professor de Yale e autor do livro O verde que vale ouro (Editora Campus), quase nenhum país está tão bem preparado quanto o Brasil para assumir um papel global de liderança no desenvolvimento sustentado. “O País tem várias empresas que são líderes mundiais, e o ambiente é encarado muito seriamente pela comunidade empresarial, o que posiciona o Brasil como um líder global em potencial”, disse Esty, em entrevista ao Estado. Ele participou, na segunda-feira, do evento Expo Management, em São Paulo.
Para que isso aconteça, segundo o professor, o governo brasileiro precisa cumprir seu papel. “O governo não conseguiu desenvolver uma estrutura de políticas que aborde seriamente a necessidade de inovação e não conseguiu abordar seriamente a necessidade de o Brasil assumir um papel de liderança em termos de compromissos globais”, afirmou Esty.
O professor defendeu mudanças nas políticas de comércio exterior para energias limpas, para que as diversas alternativas possam concorrer entre si e haja um teste que mostre quais serão de interesse da sociedade no longo prazo. “Nesse contexto, o etanol brasileiro parece um competidor forte”, completou. Atualmente, os Estados Unidos e outros países impõem obstáculos comerciais ao etanol brasileiro, o que dificulta a sua exportação.
Esty criticou o pensamento de que sai mais caro ser ambientalmente responsável. “Uma parte importante de se adotar uma estratégia ambiental é alcançar uma eficiência ecológica, o que significa um uso mais cuidadoso da energia e dos recursos. As empresas podem reduzir o montante de energia que consomem para fabricar seus produtos. Ou podem reduzir o desperdício e os resíduos, diminuindo os custos”, disse.
O professor de Yale citou algumas empresas brasileiras como exemplos de estratégia ambiental. “Acho que o trabalho do Banco Real em tentar assegurar uma atenção maior ao ambiente e à sustentabilidade em suas práticas bancárias é um bom exemplo de uma empresa de ponta. E acho que a Natura é outra empresa que tornou as ofertas ambientais ao mercado uma parte central de sua estratégia de negócios.”
Mas entender que o mundo está se tornando verde não basta. Segundo Esty, o principal erro que pode ser cometido pelas empresas é achar que qualquer iniciativa ambiental dará resultado. “As empresas precisam ter muito cuidado ao escolher as iniciativas ambientais que irão tomar”, disse. “Como num novo plano de marketing ou numa nova campanha publicitária, é necessário que as empresas que querem se tornar verdes façam sua lição de casa e analisem com sofisticação onde as oportunidades verdes estão, e o que é preciso para executá-las com sucesso.”
Esty não acredita que a crise financeira irá prejudicar a busca por alternativas energéticas mais limpas, mesmo com a queda do preço do petróleo. “Ele ainda é hoje duas vezes maior do que há três anos. A lógica para a eficiência energética ainda é muito forte.”
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domingo, 9 de novembro de 2008
Desmatamento anula benefício climático do etanol
Um mês de derrubada na Amazônia emite tanto CO2 quanto o que foi economizado em 5 anos de carros flex
Herton Escobar – O Estado de S. Paulo
SÃO PAULO – Em cinco anos, desde que a tecnologia Flex Fuel chegou ao mercado de automóveis, o Brasil “economizou” 42,5 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2), que deixaram de ser emitidas para a atmosfera graças à substituição de gasolina por álcool combustível, segundo cálculos da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica). Isso equivale a três anos e meio de emissões de CO2 da cidade de São Paulo, como se todos os veículos e fábricas da metrópole tivessem parado de funcionar durante esse período.
Segundo o físico José Goldemberg, do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo, os 42,5 milhões de toneladas poupados representam quase 20% das emissões brasileiras do gás – excluindo o que é emitido via desmatamento e queimadas. “É um número muito significativo”, afirma Goldemberg. Essa é a boa notícia.
A má notícia é que, quando se leva em conta as emissões por desmatamento e queimadas na Amazônia, essa economia do álcool se desvaloriza quase que instantaneamente na atmosfera. Em um único mês, a combustão da floresta tropical lança na atmosfera a mesma quantidade de gás carbônico que deixou de ser emitida nos cinco anos de tecnologia Flex Fuel. A comparação foi feita pelo Estado, com base em informações fornecidas por especialistas da academia e da indústria.
Pesquisadores estimam que cada quilômetro quadrado de floresta derrubada e queimada na Amazônia libera para a atmosfera, em média, 44 mil toneladas de CO2. Em 2007, por exemplo, foram derrubados 11.532 km2 de floresta amazônica, segundo dados oficiais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Pelos cálculos dos cientistas, isso implicou na emissão de 507,4 milhões de toneladas de CO2, o que dá uma média de 42,3 milhões de toneladas por mês – quase o mesmo que os 42,5 milhões de toneladas evitadas pelo uso de álcool em motores Flex Fuel em cinco anos.
2007 foi o ano de desmatamento mais baixo no período. Se a comparação for feita com a média de anos anteriores, quando o desmatamento foi maior, o benefício climático do etanol desaparece ainda mais rapidamente. Em 2004, quando foram derrubados 27.423 km2 de floresta, a emissão média chegou a 100,5 milhões de toneladas de CO2/mês, ou 3,3 milhões de toneladas de CO2/dia. Ou seja: a economia de carbono dos motores Flex Fuel foi zerada naquele ano em menos de duas semanas.
“Os números mostram que não há saída para o Brasil. Se o País quiser mesmo contribuir para reduzir as mudanças climáticas, a única maneira de fazer isso é reduzir o desmatamento”, diz Paulo Moutinho, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), uma organização não-governamental.
Tendência de Alta
Após três anos em queda, o desmatamento voltou a crescer este ano na Amazônia. O cálculo oficial de área está sendo feito pelo Inpe, que deverá publicar as estatísticas no mês que vem.
A especialista Suzana Kahn, secretária de Mudanças Climáticas e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente (MMA), reconhece que o desmatamento é um problema seríssimo e que ainda está longe de ser resolvido, mas acredita que isso não invalida os resultados positivos obtidos com os esforços ambientais de conservação da floresta e na área energética, com o etanol.
Segundo ela, é importante olhar os dois lados da moeda. Além de contar o carbono que é emitido pela destruição da floresta, diz, é preciso contabilizar o que deixou de ser emitido pela redução do desmatamento.
“O esforço que o Brasil fez para reduzir o desmatamento é mais do que qualquer país conseguiu fazer até hoje para reduzir emissões”, afirma Suzana, que também é pesquisadora da Coordenação dos Programas de Pós-graduação de Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Segundo um cálculo que deverá ser apresentado pelo Brasil na próxima conferência de mudanças climáticas da Organização das Nações Unidas (mais informações nesta pág.), a redução das taxas anuais de desmatamento da Amazônia nos últimos anos evitou a emissão de mais toneladas de CO2 do que a soma de todas as reduções propostas pelo Protocolo de Kyoto nos países desenvolvidos.
Alguns ambientalistas e pesquisadores, porém, questionam o mérito do governo sobre a redução dos últimos anos, que teria sido fortemente influenciada pela redução momentânea dos preços de carne e soja no mercado internacional.
“Evidentemente, não há como o uso do etanol compensar o desmatamento da Amazônia em termos de gases do efeito-estufa e creio que esse propósito não está na cabeça do governo federal nem tampouco do setor produtivo, pois há o reconhecimento de que o desmatamento criminoso e descontrolado deve ser eliminado”, avalia o consultor de emissões e tecnologias da Unica, Alfred Szwarc. “O que deve ser considerado é que sem o uso do etanol, nas condições atuais de desmatamento, a emissão do Brasil seria ainda maior.”
País tem o maior programa de energia limpa
Fonte O Estado de S. Paulo
Autor Herton Escobar
Data de Edição 09/11/2008
Cadeia produtiva do etanol tem potencial para virar sorvedouro de carbono, diz especialista da indústria
A tecnologia Flex Fuel, que permite usar álcool ou gasolina no mesmo motor, foi lançada no mercado automotivo brasileiro em março de 2003. Rapidamente, a tecnologia ganhou a preferência dos consumidores e da indústria, de modo que, hoje, 25% da frota circulante e 70% dos veículos que saem das montadoras no País são do tipo flex, segundo dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). A produção de álcool combustível (etanol) avançou no vácuo dos motores, pulando de 14,8 bilhões de litros na safra de cana 2004 para 22,4 bilhões de litros, na safra 2008, segundo estatísticas da União da Indústria de Canade-Açúcar (Unica). Na próxima colheita, a expectativa é produzir 27 bilhões de litros de etanol, o que proporcionaria uma economia de 53 milhões de toneladas de CO2 em emissões evitadas, comparado ao que seria emitido com o uso de gasolina. E mais ou menos o que a Suécia emite em um ano, segundo dados oficiais das Nações Unidas. A conta inclui tanto o álcool anidro (puro) quanto o hidratado, que émisturado àgasolina – diferentemente da conta de 42,5 milhões de toneladas, que inclui só o combustível usado em motores flex. “Nenhum país do mundo tem um programa de energia renovável da dimensão do nosso”, diz o consultor de emissões e tecnologia da Unica, Alfred Szwarc, responsável pelo “carbonômetro”, uma ferramenta do site www. etanolverde.cóm.br que mostra quanto CO„ está sendo economizado com o uso da tecnologia Flex Fuel. “Os Estados Unidos consomem mais álcool do que o Brasil, mas isso não passa de 3% da matriz energética americana”, diz. No Brasil, a cana-de-açúcar já supre 16% das necessidades energéticas do País, segundo Szwarc. “Estamos descarbonizando o nosso. setor de transportes.” O etanol é um combustível chamado “renovável” porque o CO, que ele emite é reabsorvido pelas lavouras de cana que estão crescendo no campo (veja gráfico na página ao lado). Apenas uma pequena parte – cerca de 3% – fica na atmosfera. Segundo Swarc, a cadeia do álcool só não é 100% renovável por causa do CO_ emitido pelo diesel que é usado para movimentar as máquinas agrícolas e os caminhões que transportam o etanol para distribuição. Com a substituição desse diesel por biodiesel ou outras formas de transporte menos poluentes, é possível que o setor se torne até um sorvedor de carbono. “Em cinco anos, acho que esse porcentual que fica na atmosfera já deixará de existir”, diz Swarc. “Vamos ter um sistema que absorve mais CO, do que emite.”
Szwarc lembra ainda que o etanol tem outras vantagens ambientais. A fumaça produzida pela combustão do álcool é bem menos tóxica do que a dos derivados de petróleo. Por exemplo, contém pouquíssimo enxofre e nenhum benzeno.
08/11/2008 – 16h21
Estabilizar clima pode ser inviável, diz agência
da Folha de S.Paulo
A Agência Internacional de Energia tem uma má notícia para o planeta: na melhor das hipóteses, o aquecimento global neste século deverá ser de trágicos 3ºC em relação à era pré-industrial. A redução de emissões de gases-estufa necessária para evitar a mudança climática perigosa pode não ser tecnicamente viável.
O veredicto está no “Panorama Global de Energia 2008″, documento que apresenta as tendências do cenário energético mundial. O período analisado vai de 2006 a 2030.
Segundo o relatório, a estabilização da concentração de gás carbônico (CO2) em 450 ppm (partes por milhão) na atmosfera –que produziria um aumento “seguro” da temperatura global de 2ºC– dificilmente será obtida. O máximo a que o mundo pode aspirar, e a um custo alto, é a estabilização em 550 ppm, o que produziria um aquecimento de 3ºC.
“Mesmo sem considerar a viabilidade política, é incerto se a escala da transformação vislumbrada é tecnicamente alcançável”, diz o relatório.
Segundo a AIE, o mundo pode ficar até 6ºC mais quente se o cenário atual de emissões for mantido. O primeiro passo para reverter essa tendência é alcançar um acordo global significativo de redução de emissões no ano que vem, na conferência do clima de Copenhague.
“As conseqüências para o clima da inação política são chocantes”, continua a agência. As dificuldades para alcançar uma estabilização em 450 partes por milhão de CO2 são de diversas ordens. Primeiro, a demanda por energia deve crescer 45% entre 2006 e 2030. Os combustíveis fósseis, como o petróleo, continuarão respondendo por 80% da demanda.
Mesmo com o pico dos preços em 2008 e com a redução da taxa de crescimento do PIB global devido à crise financeira, as emissões projetadas neste ano pela agência para 2030 são apenas 1 bilhão de toneladas de CO2 mais baixas que o projetado em 2007. Elas devem crescer 45%, das atuais 28 bilhões de toneladas por ano para 41 bilhões de toneladas por ano.
Por fim, continua o relatório, há um problema estrutural do setor de energia, que é sua taxa lenta de substituição de capital. Uma tecnologia nova demora muitos anos para se espalhar pelo setor. Mesmo com o crescimento das energias renováveis, como eólica e solar –que devem se tornar a segunda fonte de geração de eletricidade no planeta em 2010–, três quartos da eletricidade em 2020 virá de usinas já existentes.
“Se todas as usinas construídas de hoje em diante fossem livres de carbono, as emissões de CO2 do setor de energia seriam apenas 25% menores em 2020 que em 2006″, diz a AIE.
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Leia na fonte
08/11/2008 – 09h38
Billings tem poluentes até 100 vezes acima do limite
TALITA BEDINELLI
colaboração para a Folha
JOSÉ ERNESTO CREDENDIO
da Folha de S.Paulo
Estudo realizado por técnicos da USP (Universidade de São Paulo), a pedido do Ministério Público, detectou que as represas Billings e Guarapiranga têm poluentes, alguns deles potencialmente tóxicos e cancerígenos, acima do permitido pela legislação ambiental.
A água das duas represas ajuda no abastecimento dos municípios da região metropolitana de São Paulo e é utilizada como lazer, para pesca, nado ou vela.
Análises feitas de setembro de 2007 a maio de 2008 observaram que, das 95 substâncias examinadas, 25 estavam fora de conformidade em pelo menos 10% dos testes em um dos pontos de monitoramento.
Havia níveis altos de substâncias como alumínio, que pode estar associado ao mal de Alzheimer; cianetos, que podem causar perda de peso e danos à tireóide e ao sistema nervoso; clorofórmio, suspeito de ser cancerígeno; coliformes termotolerantes, que contêm vírus e bactérias; entre outras.
O poluente mais preocupante, diz o relatório, é o chumbo. Numa amostra da Billings, havia uma quantidade 100 vezes superior ao permitido. Outra, na Guarapiranga, detectou-o em quantidade 23 vezes maior do que o limite. O chumbo, em altos valores, pode causar anemia e problemas neurológicos.
Segundo a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), as substâncias não representam risco à população, pois a água é tratada antes do consumo. A empresa diz que a poluição se concentra em pontos específicos, perto de manchas urbanas, e é causada por despejo de esgoto sem tratamento. Nas áreas usadas como lazer, perto de São Bernardo do Campo e Ribeirão Pires, há monitoramento diário e a água possui a qualidade exigida pelo Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente).
As análises da água foram pedidas pelo Ministério Público porque o governo paulista pretende bombear a água dos rios Pinheiros e Tietê para a Billings. A água passaria por um processo de limpeza denominado flotação –tratamento com produtos químicos que levam a sujeira para a superfície.
O processo ajudaria a despoluir o Pinheiros e a aumentar a quantidade de água da represa, o que seria revertido em energia, segundo a Emae (Empresa Metropolitana de Águas e Energia). Dos 17 pontos de análise, 2 foram detalhados no relatório: um antes da flotação e outro depois. Segundo o estudo, as amostras após a flotação ainda detectaram poluentes em níveis acima do limite e isso é jogado na Billings.
O Ministério Público diz que ainda não se sabe se o sistema é falho, pois são necessários cálculos para avaliar se, após a adoção do projeto –o fluxo de água será cinco vezes maior que no período de testes– a poluição após a flotação será prejudicial ao reservatório.
