MUDANÇAS CLIMÁTICAS

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FOLHA DE S. PAULO – SP Editoria:
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21/11/2008

O enxofre, a omissão e a demagogia

CARLOS MINC

No impasse do teor de enxofre no diesel, sofremos fortes pressões para adiar, alterar ou criar exceções para a resolução. Não cedemos

EM ARTIGO publicado neste espaço (“Sentença de morte”, 13/ 11), o sr. Oded Grajew omite informações e faz ataques infundados, com a fúria típica de um recém-convertido à causa ambiental.
Ele ofende o Ministério Público Federal, o Ministério do Meio Ambiente e a Petrobras com o destempero de quem jogou para a platéia, querendo faturar politicamente no impasse no caso do teor de enxofre no diesel.
Ele omitiu que o governo do Estado de São Paulo e a Cetesb, co-autores da ação judicial, assinaram o TAC (termo de ajustamento de conduta) após participar de dezenas de reuniões com o Ministério Público, no que se supõe que suas demandas, ao menos na maior parte, foram contempladas.

A não-assinatura do TAC levaria o caso para a Justiça, sabe-se por quantos anos, com prejuízos ambientais, econômicos e sociais. As medidas compensatórias não seriam exercidas, oito fábricas de ônibus e caminhões seriam fechadas, 10 mil trabalhadores seriam demitidos e a qualidade do ar não melhoraria.
A resolução 315/02 do Conama determinou que os novos ônibus e caminhões, em 2009, teriam emissão equivalente à dos motores Euro 4 e do diesel S-50 (com 50 partes por milhão de enxofre). Mas nada vinha sendo feito para seu cumprimento.

No primeiro mês de nossa gestão, porém, reunimos cinco ministérios, ANP, Anfavea, Petrobras, Sindicato de Distribuidoras de Combustível, governos do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e São Paulo e Ministério Público Federal. Uma fundação independente elaborou metodologia de cálculo para avaliar as conseqüências para a saúde da população geradas pelo atraso no cumprimento da resolução.
Sofremos fortes pressões para adiar, alterar ou criar exceções técnicas para a resolução. Não cedemos e anunciamos que nenhum caminhão ou ônibus novo a diesel sairia das fábricas em 2009 sem atender à resolução ou obter acordo judicial com o Ministério Público Federal.

Propusemos ainda uma nova etapa do Proconve (Programa de Controle de Poluição do Ar por Veículos Automotores), instituindo um padrão, para 2012, equivalente ao do Euro 5 e do S-10, cinco vezes menos poluidor do que o S-50. O atraso da resolução 315/02 não poderia justificar um recuo, e sim um salto para nos igualarmos ao padrão europeu, já que os pulmões são idênticos.
Apresentamos então nova resolução ao Conama, que a aprovou, incorporando emendas dos ambientalistas. Estamos elaborando um Plano Nacional de Qualidade do Ar, envolvendo vistoria veicular obrigatória das emissões, como a que existe há nove anos no Rio de Janeiro, por causa de lei estadual de nossa autoria. O Rio é o único Estado com esse procedimento, que reduz as emissões.

A decisão do TAC ficou por conta do MPF de São Paulo. A procuradora da República Ana Cristina Bandeira Lins ouviu durante três meses as partes, criou um núcleo técnico de alto nível com profissionais da Cetesb, do Ibama e de fundações e realizou 20 reuniões de avaliação técnica das emissões e das medidas compensatórias apresentadas pela Petrobras e pela Anfavea, incluindo a importação de milhões de litros de diesel S-50, a regulagem de dezenas de milhares de ônibus e caminhões e a antecipação da fase do S-10.
Sem demagogia: todos sabiam que a resolução não seria cumprida devido a omissões de cinco anos. O que se avizinhava era um desastre ambiental, institucional e social. O Conama seria desrespeitado, e o ambiente, agredido por emissões sem nenhuma compensação. A não-assinatura do TAC implicaria a importação de 200 mil novos ônibus e caminhões a diesel, o fechamento de fábricas e a demissão de trabalhadores.
Na assinatura do TAC, a Cetesb e o governo de São Paulo exigiram medidas suplementares, como a ampliação das regulagens de outros milhares de ônibus e caminhões pela Petrobras e Anfavea, além do fornecimento de S-50, em 2009, às regiões metropolitanas do país e às frotas cativas de ônibus. O Ibama exigiu cronograma para a substituição definitiva do S-2.000 no interior e do S-500 em todas as regiões metropolitanas.

Mas não comemoramos. A resolução 315/02 deveria ter sido cumprida.

Do ponto em que enfrentamos o problema, não cedemos à postergação da resolução e ainda avançamos com o S-10. O TAC é de responsabilidade dos que o assinaram. Vamos fiscalizar o cumprimento integral do TAC e da nova resolução do Conama; aprovar a vistoria obrigatória nos Estados e ampliar a participação do etanol e do biodiesel na matriz energética, num crescimento de 11% ao ano. Em defesa do clima e dos pulmões.

CARLOS MINC é ministro de Estado do Meio Ambiente.

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Data: 19/11/2008 -Fonte: Gazeta Mercantil

Brasil terá centro de mudanças climáticas

O Brasil terá um novo status nos acordos de cooperação internacional. Na próxima semana o Diário Oficial da União publicará a portaria de criação do Centro de Ciências do Sistema Terrestre, que focará suas pesquisas para a área de mudanças climáticas globais. O novo núcleo científico será ligado ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e promoverá acordos internacionais para avançar nos estudos sobre as ações naturais e antrópicas no aquecimento global e suas conseqüências no futuro do planeta.

Esse centro será dirigido pelo cientista Carlos Nobre, um dos mais reconhecidos e respeitados pesquisadores sobre aquecimento global em todo mundo e com trânsito nas principais entidades científicas do primeiro mundo.

“O Inpe e o Hadley Centre, da Inglaterra, assinarão um acordo de colaboração científica em modelagem climática. Um dos aspectos trata do uso pelo Inpe do modelo climático global do instituto britânico, que representa o estado da arte mundial na área de modelagem climática”, especificou Nobre.

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19 de Novembro de 2008

Entidades cobram do Brasil adoção de metas para redução de gases

Especialistas pedem regras para biocombustíveis

Lançada no ano passado pelo governo Lula como forma de promover o etanol brasileiro ao mundo, a Conferência Internacional de Biocombustíveis, iniciada esta semana em São Paulo, por pouco não foi um tiro pela culatra. No segundo dia de encontro, o tema foi sombreado em vários momentos por alfinetadas sobre a atuação do Brasil nas discussões internacionais sobre mudanças climáticas.

No grande salão de conferências do Hotel Hyatt – esvaziado pela ausência de chefes de Estado -, especialistas brasileiros e estrangeiros trouxeram à tona a proposta que levanta arrepios em várias salas de ministérios em Brasília: a adoção de metas para redução das emissões de gases-estufa nos países em desenvolvimento. Na lista, Brasil, Índia, China e México, os grandes emissores na categoria.

“Lanço um desafio aqui para o Brasil: ponham de lado o argumento da responsabilidade histórica. O custo da mudança climática será alto para todos nós, e os países pobres serão os que mais sofrerão”, disse Christopher Flavin, presidente do respeitado Worldwatch Institute, dos Estados Unidos. “Está na hora [de os países em desenvolvimento] pararem de pensar na mudança climática como problema insolúvel”, continua, “e os biocombustíveis são só parte da solução. A discussão é muito mais ampla”.

Foi o início de um mal-estar que apareceu outras vezes nas apresentações e nos bastidores do evento organizado pelo Itamaraty. O governo brasileiro tem dito e repetido a seus interlocutores externos que não abre mão do princípio, acordado no Protocolo de Kyoto, das emissões históricas – isto é, a responsabilidade dos países desenvolvidos pelas toneladas de gases-estufa emitidas desde a Revolução Industrial, no século XIX. Nos moldes atuais, somente os países ricos devem atingir as metas de redução – e a maioria esmagadora não conseguiu sequer cumpri-las.

“Estamos ouvindo um discurso cínico aqui”, rebateu José Domingo Miguez, secretário-executivo da Comissão Interministerial de Mudança Global do Clima, composta por 11 ministérios. Presente como convidado especial ao evento, Miguez é uma das vozes contrárias ao estabelecimento de metas de redução de gases-estufa e defensores da diferenciação de responsabilidades. “As emissões do Brasil em 2004 foram as mesmas que o Reino Unido registrou em 1888. Por que temos que pagar por isso?”

Sua posição vai de encontro ao ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, que recentemente anunciou a possibilidade de redução em 20% das emissões brasileiras sobre os níveis de 2004 – uma mudança de posição significativa, mas que, segundo muitos, não reflete a opinião oficial do governo.

Em conversas paralelas no intervalo do evento, a ex-ministra e senadora Marina Silva personificava a divisão sobre o assunto no Executivo. Ela cobrou de representantes da Casa Civil a necessidade de o governo estabelecer metas para redução de gases e reforçar a fiscalização dos desmatamentos. “Já se passaram 20 anos da morte [do ambientalista] Chico Mendes e o PT chega à segunda metade do seu segundo mandato sem avanços na preservação ambiental”, dizia ela.

O argumento central de ambientalistas e outros especialistas é que o mundo mudou desde 1997, quando Kyoto foi assinado. A China ultrapassou os Estados Unidos na emissão de gases-estufa. O Brasil, com seu desmatamento sem controle, já figura entre os cinco maiores emissores mundiais. Por essas e outras razões, cresce a pressão para que a obrigatoriedade de metas inclua esse bloco de países.

“Para mim, está claro que é preciso mais adesões”, afirmou Raúl Estrada-Oyuela, embaixador argentino que preside o Processo Negociador do Protocolo de Kyoto.

A expectativa é que viradas importantes ocorram a partir de 2009, com a chegada de Barack Obama na presidência americana – alegando razões econômicas, Bush não se comprometeu com Kyoto. “Este é um período extraordinário da história”, disse Flavin. “Mas se os EUA entrarem e os outros não, não adiantará nada”.

Outra unanimidade no evento: a crise financeira pode ser o pontapé decisivo para que o mundo repense seu sistema energético e sua agricultura, transformando-se em uma economia de baixo carbono.

“A capacidade de alocação à indústria automobilística com a crise financeira é impressionante, inclusive no Brasil. Isso teria de ser uma oportunidade para se desenvolver uma nova arquitetura de economia mundial, incorporando as mudanças climáticas”, disse Fábio Feldman, secretário-executivo do Fórum Paulista de Mudanças Climáticas Globais e Biodiversidade.

Esse esforço global de políticas públicas deveria ser pensado nos moldes do New Deal, a resposta econômica à Grande Depressão iniciada em 1929. “Precisamos do Deal Global Verde”, disse Flavin.

“Se formos sérios, precisaremos de investimentos maciços em tecnologia limpa”, disse Sir David King, da Universidade de Oxford. “Temos que reconhecer: Kyoto não foi a salvação”, afirmou Thomas Heller, de Stanford. Nesse contexto, os biocombustíveis são só uma ponta da revolução apregoada.

Especialistas pedem regras para biocombustíveis

A cobrança para que países desenvolvidos e emergentes definam rapidamente regras para a inclusão de biocombustíveis e outras fontes renováveis nas matrizes energéticas deu a tônica das discussões realizadas ontem durante a “Conferência Internacional sobre Biocombustíveis” em São Paulo.

Houve consenso entre os participantes de que a inclusão das energias renováveis nos programas de governo demandaria, além de discussões sobre a soberania energética, a criação de regras para mitigar as emissões de gases de efeito estufa, racionalizar o uso da terra e da água, garantir a segurança alimentar, gerar emprego e renda e preservar os ecossistemas.

O Brasil foi citado como o país que mais avançou na diversificação de sua matriz energética e na criação de políticas que integram o interesse energético à geração de emprego e à auto-suficiência em oferta de alimentos. “Produção não é o único critério a ser considerado ao se avaliar a sustentabilidade da produção energética”, resumiu o diretor da ONG Amigos da Terra – Amazônia Brasileira, Roberto Smeraldi.

Ele citou o programa Selo Social do governo federal, que certifica as usinas de biodiesel que utilizam pelo menos 10% de matérias-primas produzidas por agricultores familiares, como exemplo de iniciativa que une a diversificação da matriz energética à geração de emprego e renda.

A secretária-executiva da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) das Nações Unidas, Alicia Bárcena, citou um estudo realizado pelo Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas (Unep, sigla em inglês), que prevê a geração de 20 milhões de postos de trabalho até 2030 com o avanço dos programas de energia renovável.

Atualmente, 470 mil pessoas trabalham na geração de energia eólica e solar e mais 1,2 milhão de pessoas operam em usinas que geram energia a partir da biomassa. Em 2030, o número de contratados nessas usinas de biocombustíveis deve chegar a 12 milhões, sendo que o maior número de contratações ocorrerá no Brasil, nos Estados Unidos, na Alemanha e na China.

Alicia observou que outros países da América Latina também têm condições de incrementar a produção de biocombustíveis, sobretudo o etanol obtido do melaço da cana-de-açúcar, ampliando a geração de emprego sem comprometer o ambiente e a oferta de alimentos. Entre os países estão Cuba, Guiana, Nicarágua, Guatemala, El Salvador, Colômbia e Paraguai.

Hoje, disse, é possível que os países substituam 10% do consumo de gasolina por etanol sem grandes necessidades de modificação nos motores dos veículos. E essa ampliação seria possível utilizando, por exemplo, áreas de pastagem degradadas. “No Brasil, de cada três hectares de pastagem, dois hectares estão degradados ou são mal utilizados”, disse. Segundo Alicia, a maioria dos países da América Latina tem condições de produzir biocombustíveis em volume suficiente para consumo próprio e para exportação.

O presidente do grupo Sekab, maior importador europeu do etanol brasileiro, afirmou que é preciso estabelecer regras, metas e padrões para o mercado de biocombustíveis mas, antes disso, se faz necessário reduzir as emissões de gases de efeito estufa por meio da melhoria de eficiência no uso das energias convencionais.

“É preciso maximizar o uso das energias já existentes para que os biocombustíveis também sejam utilizados com sensatez. De nada adianta o mundo utilizar carros flexfuel [bicombustíveis] se as pessoas comprarem mais veículos e na somatória final a emissão de gases de efeito estufa continuar a mesma.”

O presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Enrique Iglesias, alertou para a necessidade de que cada país desenvolva políticas para alterar suas matrizes energéticas. “Independentemente da regularização de um mercado internacional de energia limpa, cada país deve desenvolver políticas públicas e definir a sua matriz energética. Exportar biocombustível deve ser uma preocupação posterior à necessidade ambiental de conter o aquecimento global”, afirmou Iglesias.

Ontem, durante o seminário, a representante da Cepal juntamente com o representante da FAO para América Latina e Caribe, José Graziano da Silva, e o diretor, e o gerente de biocombustíveis do BNDES, Paulo Faveret Filho, lançaram o livro “Bioetanol de cana-de-açúcar”. Idealizado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e apelidado por seus organizadores como “o livro verde”, a obra reúne uma série de estudos sobre a economicidade e competitividade do etanol de cana-de-açúcar enquanto alternativa ao uso de combustíveis fósseis líquidos.

Alicia citou, por exemplo, cálculos demonstrando que o etanol de cana é competitivo com o petróleo cotado a até US$ 45 por barril, enquanto o etanol a partir do milho só é economicamente viável com o petróleo acima de US$ 70 o barril. Além disso, a produção do etanol de cana permite reduzir em 89% as emissões de gases de efeito estufa, enquanto o etanol de milho reduz as emissões em no máximo 38%.
(Valor Econômico, 19/11)

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Liliana Lavoratti

Editora de Política da Gazeta Mercantil
19/11 – 00:00

Uma articulação global inédita

19 de novembro de 2008 – O senso de urgência provocado pelas previsões catastróficas para o planeta em decorrência das mudanças climáticas, principalmente do aquecimento global, acena com a possibilidade de novos acordos e formação de blocos internacionais. Quem sabe não virá daí uma maneira diferente das verificadas até hoje de organização dos povos em torno de um objetivo comum.
Nessas negociações pode prevalecer a velha regra do jogo – os países ricos venderem “tecnologias verdes” para os menos desenvolvidos. Mas alguma coisa deverá mudar pelas características do que está em questão. As tecnologias de ponta para uma economia de baixo carbono terão de ser acessadas por todos. Do contrário, o planeta continuará em risco.

Mas o jogo pode vir. O fato de as medidas de prevenção contra a destruição dos elementos essenciais à vida – comprometimento da água potável, diminuição da oferta de alimentos e riscos de epidemia de doenças – só surtirem efeito se adotadas em todo o planeta cria perspectivas interessantes nas relações Norte-Sul.
Os ensaios para essa inédita forma de articulação internacional ficarão mais explícitos à medida que se aproximam as conferências de Poznan (Polônia), em dezembro, de Copenhague, em 2009, com vistas a uma revisão realista do Protocolo de Kyoto. A eleição de Barack Obama, sob o signo de “mudança”, provoca esperança de uma nova atitude por parte do governo dos EUA, que tem ignorado as metas para limitar a emissão de gases de efeito estufa decididas em Kyoto. Não é por acaso que o presidente eleito vem dando declarações que presumem que seu país possa até mesmo assumir a liderança nesse processo de negociações.

As nações que investem pesado na prevenção contra os efeitos nocivos das medidas climáticas – como Reino Unido e Alemanha – buscam parceiros para Copenhague resultar numa versão de Kyoto mais eficiente, ou seja, assumida por todas as nações. Por isso, o pacote de ajuda ao setor automobilístico prometido por Obama deveria embutir um viés de negócio verde. Ou seja, que não se restrinja a salvar as montadoras da crise, mas em troca impusesse às indústrias a fabricação de automóveis menos poluidores.
Uma expectativa mais do que adequada, pois nessa gigantesca articulação está colocada inclusive a necessidade de os países emergentes – inclusive o Brasil, mas principalmente China e Índia – se comprometerem tanto quanto os desenvolvidos com metas de redução de emissão de gases de efeito estufa. Para isso, terá de ser superada a lógica das relações Norte-Sul que predominaram até agora – a de que os países ricos têm de pagar sozinhos por terem sido historicamente os responsáveis por grande parte do dano, corrigindo agora as conseqüências de uma industrialização “suja”. Os países em desenvolvimento não teriam de ser submetidos a limites que possam inibir seu processo de crescimento.

Tudo indica que essa visão de que os pobres devem ser poupados do sacrifício de uma ação global de combate às mudanças climáticas terá de ser abandonada em nome de outra que reflita a complexidade do tema. Até mesmo porque de pouco adiantará as nações que tiverem mais condições de construir uma economia de baixo carbono – incluindo novas tecnologias – agirem sozinhas.

Nesse jogo, até agora o Brasil ficou alinhado à posição dos emergentes e subdesenvolvidos, de fazer os ricos pagarem o custo de um modelo de crescimento destruidor da natureza. Tudo indica que essa política tenha como alvo alcançar melhores condições nas negociações, incluindo a mudança de regras de comércio internacional na Rodada de Doha. Embora ainda marcado pelo desmatamento e pelos baixíssimos investimentos em tecnologias verdes, os brasileiros têm tudo para entrar nesse jogo em boas condições. A Amazônia e a produção de biocombustíveis são moedas de troca valiosíssimas. Resta saber usá-las.
(Liliana Lavoratti – Editora de Política. E-mail: llavoratti@gazetamercantil.com.br)


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18/11/2008 – 08h33

EUA vão liderar pós-Kyoto, diz analista

ANDRÉ LOBATO
colaboração para a Folha de S.Paulo

Não está claro quão difícil será para o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, cumprir sua promessa de tornar o país o líder mundial no debate ambiental. Um sinal de vontade política, pelo menos, já foi emitido: os EUA estão de volta à mesa de discussões sobre a crise climática mundial.

Daniel Esty, membro da equipe de transição de Obama para energia e ambiente, afirmou que o grupo acompanhará a conferência do clima deste ano em Poznan, Polônia, que debate um novo acordo global para limitar a emissão dos gases do efeito estufa. Os EUA, diz, pressionarão para que países emergentes, como o Brasil, assumam metas obrigatórias de redução de emissões. Esty –professor de direito na Universidade Yale e criador de um índice que ordena países de acordo com suas políticas verdes– falou à Folha na semana passada, logo antes de ser chamado para o grupo de transição de Obama. Leia a entrevista.
*

Folha – Obama disse muitas vezes que o desafio energético dos EUA é como mandar o homem à Lua. E o sr. que o povo americano está pronto para mudar sua base energética.

Daniel Esty – Eu acho que o povo americano está pronto para a mudança para um futuro de energia limpa, por múltiplas razões. Há um aumento de preocupação sobre mudanças climáticas. Mais de 75% da população diz que a hora de agir chegou. Mas há mais do que isso. O público americano não tinha uma idéia clara do quadro das mudanças climáticas até recentemente. Era algo longe, talvez não tão urgente. Mas o furacão Katrina começou a dar um rosto ao problema da mudança climática e mostrou que não fazer nada não era boa opção. Na segurança, também, há uma grande frustração com a situação no Iraque e no Oriente Médio. E o público americano concluiu que uma economia de combustíveis fósseis significará mais do mesmo. E há um terceiro elemento nesta lógica: o povo americano anseia por uma nova economia, que vá criar novos empregos.

Folha – O plano de energia de Obama quer ajudar consumidores na bomba de gasolina, construir um novo oleoduto e criar um sistema federal de comércio de emissões. Essas não são direções contrárias?

Esty – Não. A chave para o progresso de uma energia limpa é ter incentivos para a comunidade dos negócios criar novas soluções, para desenvolver novas tecnologias e testar novos bens, novos serviços. Um sistema de comércio de emissões (‘cap and trade’) ajuda a criar uma sinalização do preço que diz: se você continuar com o modelo de queimar combustíveis fósseis, criando gases do efeito estufa, você vai pagar pelo mal que está causando. O comércio de emissões cria incentivo para mudança, para que as pessoas sejam mais focadas em eficiência, e cria oportunidade para energia alternativa.

Folha – Haverá participação do novo governo nas conferências do clima de Poznan, no mês que vem, e de Copenhague, em 2009?

Esty – Sim. A equipe de transição de Obama estará representada em Poznam.

Folha – Não há perspectiva de ratificação do Protocolo de Kyoto.

Esty – Não. A nova administração quer olhar para o pós-Kyoto, que será antecipado na reunião de Copenhague em dezembro de 2009.

Folha – O novo governo é mais flexível sobre a adoção de metas pelos países emergentes?

Esty – Eu acredito que o próximo tratado terá de ter várias coisas bem diferentes de Kyoto. Começando por uma revitalização do princípio central, o das responsabilidades comuns, mas diferenciadas. Comuns porque cada país deve assinar compromissos obrigatórios. Então, eu acredito que espera-se que não só China, Índia e Brasil, como outros principais países em desenvolvimento, adotem compromissos obrigatórios de controle das emissões. Agora, as responsabilidades diferenciadas significam que o nível de redução varia de país a país. Nos EUA e na União Européia eu esperaria uma redução substancial de emissões em relação aos dias atuais. No que diz respeito aos países em desenvolvimento, eu espero que a trajetória de crescimento seja reduzida. Então, em vez de China, talvez, crescendo 60% em emissões na próxima década eu esperaria 20% ou 30%. Os países ricos foram historicamente responsáveis por grande parte do dano. Hoje a China é quem mais emite gases do efeito estufa. Países em desenvolvimento têm de entender que eles são fundamentais ao problema e vitais para a solução e eles terão de partir para a ação real no próximo período.

Folha – Esse será um ponto do novo recomeço?

Esty – Esse é um ponto fundamental do recomeço que eu acho que você vai ver nas negociações. É bem claro que a convenção de Kyoto foi profundamente falha porque não exigiu que o mundo em desenvolvimento fosse parte da solução.

Folha – Os EUA terão liderança em Copenhague?

Esty – Uma das coisas com que a nova administração tem se comprometido claramente é voltar a um papel de liderança. E, realmente, não há história de uma cooperação ambiental bem sucedida em que os EUA estivessem de fora.

Folha – Mas muita conversa já foi feita sem os Estados Unidos, as bases do acordo foram firmadas e os EUA disseram que não iriam fazer parte. Agora vocês vão chegar e tomar a liderança do processo?

Esty – Sim. A conversa começa nova.

Folha – Então o que vão propor?

Esty – Não sei dizer. Ainda está em construção. Se a pergunta é se conseguiremos ter o trabalho pronto até Copenhague, a resposta é que provavelmente não estará definido até lá.

Folha – Então haverá resquícios de Bush em Copenhague?

Esty – Não. Você terá, bastante, uma nova perspectiva. Mas o ponto é que o sucesso, do ponto de vista dos Estados Unidos, requer movimento em paralelo do processo político doméstico com o das negociações internacionais. Para o Congresso americano aprovar um plano de mudanças climáticas é preciso um sinal claro da negociação internacional de que as fraquezas críticas do Protocolo de Kyoto serão tratadas. Principalmente o comprometimento de ações de países em desenvolvimento. E é claro que a não ser que se veja os EUA comprometidos com a ação, países em desenvolvimento ficarão preocupados em se comprometerem também.

Folha – O plano energético de Obama é uma ‘estatização’ na qual o governo diz que as empresas devem inovar rumo à ecoeficiência?

Esty – Acho que o que você verá é um novo estilo de regulação que vai requerer, em algum grau, uma abordagem econômica em que se paga pelo dano causado. Nos EUA você verá não só incentivo econômico, mas também o que pode se chamar de uma regulação de estilo mais tradicional, algo vital para a construção de padrões.

Folha – O sr. apóia a redução da tarifa para o álcool de cana nos EUA?

Esty – Eu pessoalmente acho que deveria ser reduzida a zero. Há um cálculo político complicado nos EUA em saber se isso acontecerá. Mas acredito que deveríamos encorajar as positivas finalidades do espectro de biocombustíveis, incluindo o etanol da cana. Já disse publicamente que o etanol do milho não é uma boa solução para nossos problemas ambientais.


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16/11/2008

Soluções para clima e economia andam juntas

FOLHA DE SP

Al Gore

A inspiradora e transformadora escolha feita pelo povo americano ao eleger Barack Obama como nosso 44º presidente estabelece os fundamentos para outra escolha decisiva que ele – e nós – teremos de fazer em janeiro para dar início a um resgate da civilização humana, em caráter emergencial, da iminente e cada vez maior ameaça representada pela mudança climática.

A eletrizante redenção da revolucionária declaração feita pelos EUA afirmando que todos os seres humanos nascem iguais prepara o palco para a renovação da liderança americana num mundo que precisa desesperadamente proteger seu dote primário: a integridade e as condições de vida do planeta.

A autoridade mundial sobre a crise climática, o Painel Intergovernamental de Mudança Climática (IPCC), depois de 20 anos de estudos detalhados e da publicação de quatro relatórios unânimes, diz agora que as provas são “inequívocas”. Para aqueles que ainda se sentem tentados a ignorar os alarmes cada vez mais urgentes emitidos pelos cientistas de todo o mundo, a fechar os olhos para o derretimento da calota de gelo sobre o pólo norte e para todas as outras advertências apocalípticas feitas pelo próprio planeta, e para aqueles que dão mostras de tédio à menor menção desta ameaça existencial ao futuro da espécie humana, por favor, acordem. Nossos filhos e netos precisam que vocês nos dêem ouvidos e reconheçam a verdadeira natureza da nossa situação, antes que seja tarde demais.

Eis as boas notícias: os ousados passos necessários para resolver a crise climática são os mesmos que precisam ser tomados para resolver a crise econômica e a crise de segurança energética.

Os economistas de todas as orientações – incluindo Martin Feldstein e Lawrence Summers – concordam que investimentos rápidos e de grande valor numa iniciativa de infra-estrutura capaz de criar muitos empregos são a melhor maneira de reanimar nossa economia de maneira ágil e sustentável. Muitos também concordam que nossa economia enfrentará dificuldades se continuarmos a gastar centenas de bilhões de dólares todos os anos com petróleo importado. Além disso, especialistas em segurança nacional de ambos os partidos concordam que enfrentaremos uma perigosa vulnerabilidade estratégica caso o mundo perca subitamente o acesso ao petróleo do Oriente Médio.

Conforme disse Abraham Lincoln no momento mais sombrio pelo qual a América já passou, “a ocasião nos apresenta uma montanha de dificuldades, e precisamos corresponder à ocasião. Por ser novo o nosso problema, nós também precisamos inovar nas nossas idéias, e agir de maneira inovadora”. No nosso caso atual, pensar de maneira inovadora exige rejeitar uma definição superada e fatalmente equivocada do problema que enfrentamos.

Há 35 anos, o presidente Richard Nixon criou o Projeto Independência, estabelecendo uma meta nacional que esperava, no prazo de sete anos, desenvolver nos EUA “o potencial para satisfazer nossas próprias necessidades energéticas sem depender de fontes estrangeiras de energia”. Essa declaração foi feita três semanas após o embargo árabe ao petróleo ter provocado uma aguda elevação nos preços e obrigado a América a acordar para os perigos da dependência em relação ao petróleo estrangeiro. E – não é coincidência – isso ocorreu apenas três anos depois de a produção de petróleo dos EUA ter atingido o seu ápice.

Na época, os EUA importavam de outros países menos de um terço do total de petróleo consumido. E hoje, depois de todos os seis sucessores de Nixon terem repetido alguma versão dessa meta, nossa dependência dobrou, chegando a importação de quase dois terços do petróleo que consumimos – e muitos crêem que a produção mundial de petróleo esteja no seu ápice, ou muito próxima disso.
Alguns ainda enxergam isso como um problema de produção doméstica. Se ao menos conseguíssemos aumentar nossa produção de petróleo e carvão, argumentam eles, assim não teríamos de depender de importações do Oriente Médio. Outros inventaram maneiras ainda mais sujas e caras de obter os mesmos velhos combustíveis, como o carvão líquido, o petróleo de xisto, a areia alcatroada e a tecnologia do “carvão limpo”. Mas em cada um desses casos, os recursos em questão são caros demais ou poluentes demais.

Eis o que podemos fazer agora: um investimento elevado e imediato para empregar as pessoas na substituição das tecnologias energéticas do século XIX, que dependem de combustíveis perigosos e caros de matriz carbônica, pelas tecnologias do século XXI, que utilizam combustível gratuito e abundante: o sol, o vento e o calor natural da terra. Segue-se um plano de cinco partes para restaurar o poder energético da América com o compromisso de produzir 100% da nossa energia a partir de fontes livres do carbono em um prazo de dez anos. É um plano que nos aproximaria de soluções para a crise climática e econômica – e criaria milhões de novos empregos que não poderiam ser terceirizados.

Em primeiro lugar, Obama e o novo congresso deveriam oferecer incentivos de larga escala ao investimento na construção de instalações solares e térmicas concentradas nos desertos do sudoeste, instalações eólicas no corredor que vai do Texas até as Dakotas e instalações avançadas em pontos de grande geração de calor geotérmico capazes de produzir boa quantidade de eletricidade.

Em segundo lugar, devemos começar o planejamento e construção de uma rede nacional inteligente e unificada para o transporte da energia renovável, desde as zonas rurais onde ela é gerada na sua maior parte até as zonas urbanas onde ela é consumida. Nova fiação subterrânea de alta voltagem e grande eficiência pode ser projetada com recursos “inteligentes” , eliminando o desperdício. O custo dessa rede moderna – US$ 400 bilhões ao longo de dez anos – não se compara à perda anual das empresas americanas (cerca de US$ 120 bilhões) provocada pelo efeito cascata de falhas que são endêmicas à nossa rede elétrica.

Em terceiro lugar, devemos ajudar a indústria automobilística americana (não apenas as três grandes, mas também as novas empresas, mais inovadoras) na rápida conversão para modelos híbridos capazes de funcionar alimentados com a energia renovável que estará disponível conforme este plano amadurecer.

Em quarto lugar, devemos embarcar num esforço nacional pela adaptação de melhores sistemas de isolamento e janelas e sistemas de iluminação de maior eficiência energética. Aproximadamente 40% das emissões de dióxido de carbono nos EUA vêm dos prédios – e combater esta poluição economiza o dinheiro dos proprietários de apartamentos e de estabelecimentos comerciais. Esta iniciativa deve ser acompanhada no Congresso por uma proposta de ajuda aos americanos prejudicados pelas hipotecas cujo valor excede o de seus lares.

Em quinto lugar, os EUA devem mostrar o caminho adotando um preço doméstico para o carbono, e liderando, no ano que vem, o esforço mundial em Copenhague pela substituição do Tratado de Kyoto por um pacto mais eficaz, que limite as emissões globais de dióxido de carbono e encoraje os países a investir juntos, de maneira eficiente, na rápida redução da poluição responsável pelo aquecimento global, e na redução do desmatamento.

É claro que a melhor maneira – na verdade a única maneira – de garantir um acordo global para proteger nosso futuro é por meio do restabelecimento dos EUA como um país detentor da autoridade moral e política para liderar o mundo na direção de uma solução.
Olhando para o futuro, tenho grande esperança de que teremos a coragem de abraçar as mudanças necessárias para salvar nossa economia, nosso planeta e, afinal, a nós mesmos.

Numa era anterior de transformação na história americana, o presidente John F. Kennedy desafiou nosso país a colocar um homem na lua dentro de dez anos. Oito anos e dois meses mais tarde, Neil Armstrong pôs os pés na superfície lunar. A média de idade entre os engenheiros de sistemas que comemoraram o sucesso da missão da Apollo 11 na sala de controle de Houston naquele dia era de 26 anos, o que significa que sua média de idade quando o presidente Kennedy anunciou o desafio era de 18 anos.

Este ano viu igualmente a ascensão dos jovens americanos, cujo entusiasmo eletrizou a campanha de Barack Obama. Não há muita dúvida de que este mesmo grupo de jovens desempenhará um papel essencial neste projeto para garantir o futuro do nosso país, novamente transformando metas aparentemente impossíveis em sucessos inspiradores.

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