Sustentabilidade e Negócios
9/12/08Preservação gera ‘lucro’ no AM
Reserva do Juma evita desmate da floresta amazônica e, em troca, tem benefícios, como internet e obra em escola
Herton Escobar, Novo Aripuanã (AM)
7 dezembro de 2008
A professora Deise dos Santos Buzaglo, de 29 anos, viu a internet pela primeira vez no mês passado. O local da conexão era no mínimo improvável: uma sala de aula recém-construída com madeiras nobres à beira do Rio Aripuanã, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Juma, no meio da selva amazonense.
Deise mantém os olhos fixos no monitor – uma tela de cristal líquido, de 42 polegadas – enquanto um funcionário prepara o equipamento. “O que você quer aprender na internet?”, pergunto a ela. “Tudo que for possível”, responde a professora.
Um aglomerado de crianças também observa tudo do fundo da sala, meio hipnotizadas, até que a imagem de uma pessoa aparece na tela do Skype, dando tchauzinho de Manaus, a 230 quilômetros de distância. A maioria delas nunca tinha ouvido falar da internet. Muito menos de aquecimento global ou de créditos de carbono. Mas é graças a isso que a tela de cristal brilha diante delas, conectada ao mundo por uma antena parabólica do lado de fora, próxima ao escorregador e às gangorras.
Enquanto cientistas e diplomatas engravatados discutem o futuro climático do planeta na conferência de Poznan, na Polônia, a criançada suada e descalça do Juma (no município de Novo Aripuanã) se diverte no parquinho, construído com recursos oriundos de um projeto de créditos de carbono. A contrapartida é que seus pais se comprometem a não derrubar mais a floresta para fazer roça – evitando, com isso, que milhares de toneladas de carbono sejam lançadas na atmosfera.
Segundo a Fundação Amazônia Sustentável (FAS), trata-se do primeiro projeto certificado brasileiro de Redução de Emissões de Desmatamento e Degradação (REDD), que é um dos pontos cruciais nas negociações do acordo climático que vai substituir o Protocolo de Kyoto.
A história do projeto começa com o Bolsa-Floresta, um programa lançado em 2007 pelo governo do Amazonas que dá assistência financeira a famílias e comunidades que se comprometem a não desmatar. Com base nesse compromisso, estima-se que 366 mil hectares de floresta deixarão de ser desmatados na reserva do Juma até 2050.
Convertido para carbono, isso significa que 210 milhões de toneladas de CO2 deixarão de ser lançadas na atmosfera neste período. A metodologia e os cálculos foram certificados pela auditora alemã Tuv Sud e validados nos padrões da Climate Community and Biodiversity Alliance.
O projeto atraiu a atenção da rede de hotéis Marriott, que vai investir US$ 2 milhões nos próximos quatro anos em obras para melhorar a qualidade de vida na reserva (como a escola de Deise). Em troca, terá preferência na compra dos créditos de carbono. Além disso, campanha global vai incentivar os hóspedes a doar US$ 1 por noite ao projeto, como forma de compensar as emissões de carbono da estadia. Com 500 mil leitos e 80% de ocupação, a campanha pode arrecadar US$ 400 mil/dia.
Água, um bem fundamental
Autor(es): Roberto Rodrigues
Folha de S. Paulo – 06/12/2008
Até 90% da água de irrigação volta rapidamente ao ciclo hidrológico, até mais pura do que era antes
TODO MUNDO sabe que um dos fatores mais importantes para o desenvolvimento sustentável da humanidade é a água.
Embora seja um recurso renovável, seu uso mal orientado já vem provocando escassez pelo mundo afora, especialmente nos maiores centros urbanos, como a Grande São Paulo. Portanto, a boa gestão desse recurso natural é fundamental para o bem-estar dos povos.
Cerca de dois terços da água doce do planeta é utilizada para produzir alimentos irrigados. Isso pode parecer que a agricultura consome água que poderia ser utilizada para fins mais nobres, mas não é bem assim: a irrigação usa a água, não a consome. Até 90% da água de irrigação volta rapidamente ao ciclo hidrológico, até mais pura do que era antes. As plantas usam a água para retirar nutrientes do solo e produzir alimentos. Quando a planta completa seu ciclo e o produto é colhido, ela está seca e suas folhas e ramos devolvem a água à natureza. Só o alimento produzido retém a parte restante.
Por outro lado, os campos cultivados sem irrigação aproveitam a água das chuvas que não seriam disponibilizadas de outra forma à humanidade. A grande maioria da água da chuva é absorvida pelo solo e apenas uma pequena parte escorre para abastecer rios, lagos e oceanos. Essa porção absorvida pelo solo só fica disponível para plantas e apenas elas a usam. A irrigação complementa a necessidade de água nos períodos secos, garantindo a produção e até o aumento de produtividade por área.
No Brasil, somente 5% da área agricultada é irrigada, mas produz cerca de 16% do volume de alimentos, porque alguns cultivos como feijão, batata, frutas, verduras e legumes só são viáveis com irrigação.
Como esses produtos têm valor agregado maior, as áreas irrigadas geram renda alta e, adicionalmente, usam mais mão-de-obra. O valor da produção irrigada corresponde a mais de 30% do valor total da agricultura, em nosso país.
Desde que corretamente gerenciados, os mananciais para irrigação serão mantidos, aumentando a produtividade agrícola, reduzindo a pressão por mais desmatamento e garantindo alimentação sustentável.
Sendo assim, é absolutamente essencial que se planeje bem o uso da água, para não faltar comida, mas também para os indispensáveis outros fins nas áreas urbanas.
Podemos aumentar bastante a área irrigada no Brasil, mas devemos fazê-lo com muito juízo e equilíbrio. O Estado tem papel básico na gestão da água, e já há no país órgãos responsáveis por ela.
Aprimorar seu funcionamento e reduzir a burocracia melhorarão o acesso às modernas tecnologias de irrigação, permitindo mais áreas irrigadas e maior segurança alimentar.
É preciso agilizar o funcionamento do Plano Nacional de Recursos Hídricos (postergado por dez anos) e dar maior clareza aos processos de concessão de Outorga de Recursos Hídricos. Acontece que, dependendo da fonte da água, sua gestão pode ser municipal, estadual ou federal.
Como as regras e prioridades são diferentes entre os agentes públicos, cria-se uma rede de exigências complexas e pouco transparentes, dificultando os projetos e até os inibindo.
Simplificar todo esse sistema é imperioso e há boa vontade para isso, dos diferentes responsáveis. Não se pode permitir o uso indiscriminado de um bem tão maravilhoso. Mas também não se deve inviabilizar o aumento da produção de alimentos. O equilíbrio não é tão difícil.
ROBERTO RODRIGUES, 66, coordenador do Centro de Agronegócio da FGV, presidente do Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp e professor do Departamento de Economia Rural da Unesp – Jaboticabal, foi ministro da Agricultura (governo Lula). Escreve aos sábados, a cada 15 dias, nesta coluna.
Inglaterra faz lição de casa e cobra ação
Preocupado com o clima, país adota metas ousadas e pede o mesmo comportamento do resto do mundo

Giovana Girardi, LONDRES
Talvez por ser uma ilha e sofrer com a elevação do nível do mar, ou porque é uma das responsáveis históricas pelo aquecimento global, uma vez que foi o berço da Revolução Industrial, a Inglaterra está adotando o discurso mais rigoroso da União Européia em termos de redução das emissões de gases de efeito estufa. E defende que o mesmo seja seguido por todo o continente.
No discurso dos membros de diversos níveis de governo, há um tom de urgência que no Brasil ainda só é percebido entre ambientalistas e cientistas que acompanham a questão. E não é exagero, apesar de causar surpresa em brasileiros que não estão acostumados a ver esse tipo de comprometimento oficial. Os britânicos simplesmente se convenceram de que “ao menos alguma mudança climática é agora inevitável”, como afirmou Alex Nickson, gerente estratégico de Adaptação às Mudanças Climáticas da prefeitura de Londres a um grupo de jornalistas sul-americanos.
No mês passado, foi aprovada no Parlamento a Lei de Mudanças do Clima, que determina a redução de pelo menos 80% das emissões dos gases de efeito estufa pelo Reino Unido até 2050. Já para 2020, a meta estabelecida é reduzir 26% das emissões dos gases, na comparação com os níveis de 1990.
Na segunda-feira, no entanto, no primeiro dia da conferência do clima em Poznan, o Comitê de Mudanças Climáticas (CCC) do Reino Unido – um órgão independente que aconselha, entre outras coisas, sobre quanto o país deve reduzir de suas emissões – recomendou que em 2020 a contenção já seja de 34%, podendo subir para 42% se um novo acordo global for assinado. Isso seria necessário para que se alcance a meta dos 80% em 2050.
O país sabe que isso deve trazer impactos financeiros importantes para a população em um momento de crise econômica, visto que a principal frente de ataque é a energia suja, obtida a partir de carvão, responsável por dois terços das emissões do Reino Unido. Uma das metas é que 20% da energia elétrica do país venha de fontes renováveis em 2020. Mas estima-se que essa troca possa provocar uma elevação significativa na conta de luz das residências. Cerca de 1,7 milhão de famílias passariam a gastar mais de 10% de sua renda com energia, informou o comitê na segunda-feira.
Isso talvez fosse evitado se houvesse um crescimento econômico junto com um programa bem-sucedido de estabilização da quantidade de gases-estufa na atmosfera. Mas, para tal, seria necessário haver um aumento de produtividade semelhante ao visto na Revolução Industrial, aponta estudo da consultoria McKinsey. Lançado em julho, portanto antes de a crise se instalar, o trabalho apontou que, para a economia mundial continuar crescendo em média 3% ao ano, a produtividade de carbono (unidades de PIB por tonelada de CO2 equivalente emitida) teria de aumentar dez vezes.
Apesar das dificuldades, o Reino Unido insiste que não é hora de afrouxar o combate ao aquecimento, sabendo que ele ainda traz oportunidades econômicas a médio e longo prazos. E pede um acordo global que tenha isso em mente. “Sabemos que teremos tempos difíceis pela frente. Mas, se falharmos nessa meta, aí teremos um problema realmente sério”, diz Joan Ruddock, ministra do recém-criado Departamento de Energia e Mudanças Climáticas.
O Reino Unido espera que ao menos a União Européia concorde com a redução de 80% das emissões em 2050 na reunião que ocorre paralelamente à COP. Mas defende que essa meta seja global, a fim de evitar que a temperatura não suba mais do que 2ºC, patamar já considerado inevitável.
ADAPTAÇÃO LONDRINA
Por isso, ao mesmo tempo em que tenta mitigar o aquecimento global, o Reino Unido já busca se adaptar para os impactos que muito provavelmente vai sofrer nos próximos anos.
O primeiro passo foi estudar suas vulnerabilidades. A capital já sabe, por exemplo, exatamente onde estão seus pontos mais sensíveis ao impacto das mudanças e criou uma estratégia para se adaptar a isso, ainda em discussão. Pelos cálculos da prefeitura, 1,25 milhão de pessoas podem sofrer com enchentes provocadas pelo aumento do nível do mar e dos rios, pelo incremento da precipitação e porque o sistema de esgoto foi planejado para receber menos chuva.
Na área de inundações, a cidade mapeou a presença de mais de 481 mil imóveis, 441 escolas, 75 estações de metrô, 49 de trem, 46 delegacias, 25 terminais de ônibus, 20 quartéis dos bombeiros, 10 hospitais, 1 aeroporto e 1 prisão. Londres já conta com uma barreira móvel no Rio Tâmisa, desenvolvida para conter tradicionais enchentes, e uma defesa no Mar do Norte contra a subida da maré, mas avalia se elas continuarão eficientes até o fim do século. Impossível não pensar que São Paulo não tem nada parecido com isso, apesar de sofrer com chuvas de verão todos os anos. Se bem que a capital paulista nem sequer sabe como será atingida pelo aquecimento.
Os londrinos também temem a freqüência cada vez maior de ondas de calor, como a que atingiu a Europa em 2003 e matou cerca de 20 mil pessoas – 15 mil só em Paris. Em Londres, 600 morreram. Estudos mostram que o pico de temperatura apresentado naquele ano deve se tornar algo relativamente comum a partir de 2050, quando dois entre três verões na Inglaterra devem ser tão quentes quanto o de 2003.
A repórter viajou a convite da Embaixada Britânica
UE destrava caminho para biocombustíveis
Assis Moreira, de Genebra
A União Européia encerrou na quinta-feira a batalha interna que travava sobre o futuro dos biocombustíveis – etanol e biodiesel – em seus planos de maior utilização de energias renováveis. A conclusão do impasse, menos restritiva à agroenergia, foi comemorada pelo Brasil e deverá ajudar na criação do mercado global para o etanol.
A briga envolvia a meta obrigatória proposta pela Comissão Européia de uso de 10% de energia renovável nos transportes até 2020 para combater o aquecimento global. Grande parte disso deve vir de etanol e biodiesel, criando um amplo mercado que deve ser atendido por exportadores como o Brasil.
Mantida a meta, vem a exigência de critérios de sustentabilidade para etanol e biodiesel, que pode se transformar em uma “armadilha ecológica”. Dai a importância do acordo, já que os critérios propostos pelo Parlamento Europeu eram tão restritivos que a produção de etanol só seria possível no deserto, pelos cálculos brasileiros.
Parlamentares queriam reduzir a parte de biocombustíveis e atribuir uma fatia maior da meta para a promoção de energia eólica e solar, entre outras. Mas na quinta-feira, enfim, as três grandes instituições do bloco – Comissão Européia (braço executivo da UE), Conselho (que reúne os governos), e Parlamento – chegaram a outro compromisso.
“Pelas informações de que dispomos, os resultados foram muito satisfatórios para os interesses do Brasil e de outros países em desenvolvimento”, afirmou o embaixador brasileiro junto à UE, Ricardo Neiva Tavares. Já o deputado Claude Turmes, negociador pelo Parlamento Europeu, disse que o percentual de 10% para os biocombustíveis foi “seriamente minado”, e que o “futuro dos carros será elétrico na Europa”.
Na verdade, o Parlamento chegou a propor acabar com a meta para uso de biocombustíveis, e depois tentou limitá-la a 6%. A novidade no acordo de quinta-feira é que nada disso prosperou. Foi mantida a meta de 10% de energia renovável, sem meta determinada para etanol. Ainda assim, a primeira grande ameaça contra o produto foi superada.
Energia renovável usada em trens será levada em conta, mas isso representa menos de 1%. E o espaço para etanol e biodiesel só será reduzido se as montadoras de fato conseguirem produzir um carro elétrico competitivo, o que na situação atual parece distante.
Ambientalistas tinham aberto uma guerra contra o etanol e o biodiesel também por causa do impacto sobre o uso da terra, apontando os produtos como culpados pela explosão do preço de alimentos e desmatamento de florestas.
Mas as emendas do Parlamento para restringir o uso da terra na produção do etanol no cerrado brasileiro, por exemplo, também foram excluídas do texto final. Está valendo a restrição original da Comissão Européia, de não produção de etanol nas áreas úmidas e florestais, para que ele seja considerado sustentável.
Só que aí também houve mudanças comemoradas pelo Brasil. A proposta do Parlamento sobre definição de floresta para produção sustentável de etanol era de área com 10% de cobertura de árvores. Em área com mais de 10%, a produção deveria ser proibida.
Esse conceito foi rejeitado. Prevaleceu a definição da Comissão Européia, que considera floresta tudo que tem pelo menos 30% de árvores com mais de cinco metros. Essa restrição não é considerada muito preocupante para o Brasil, porque vegetação com densidade maior não passaria em outro critério.
Para serem enquadrados nas exigências de sustentabilidade e combate ao aquecimento, os biocombustíveis têm de garantir um mínimo de redução de efeito de gases estufa. Assim, a exigência estabelecida é que o álcool tem de reduzir as emissões em 35% ou mais quando comparado à gasolina, passando para 50% em 2017. As fábricas novas que entrarem em operação a partir de 2018 terão de reduzir as emissões em 60%.
Para o etanol brasileiro, é algo tranqüilo, pois no mínimo o produto reduz as emissões em 70% – o percentual pode chegar a 90% -, segundo especialistas. A situação muda para o biodiesel de soja.
Outra preocupação envolvia restrições sobre mudança de uso da terra para biodiversidade. O Parlamento queria deixar em aberto a possibilidade de incluir novas exigências. Agora, a redação final veta a produção de etanol em áreas de de alto valor para biodiversidade, como florestas primárias, pradarias e parques nacionais.
Ponto igualmente sensível e combatido pelo Brasil envolvia o efeito indireto do biocombustível por mudanças no uso da terra. Alguns deputados europeus consideram que a produção de etanol no Nordeste brasileiro, por exemplo, escasseia a terra para produzir alimentos e leva agricultores a desmatar a Amazônia. Dessa forma, o cálculo da eficiência ambiental do etanol importado do Brasil teria que incluir o volume de emissões de gases estufa no desmatamento da Amazônia, mesmo se não foi para produzir biocombustível.
Agora, foi aprovada uma sugestão para que a Comissão Européia apresente um relatório em 2010 primeiro analisando se o problema é importante e como lidar come ele, sem pré-julgamentos.
Com relação a critérios sociais na produção de biocombustíveis, o Parlamento queria introduzir uma lista enorme de exigências. O acordo podou boa parte. Sobraram duas exigências. Uma da Comissão Européia, que vai ter de analisar o impacto da produção de biocombustíveis – posse da terra, preços dos alimentos, condições de trabalho – a cada dois anos tanto nos países exportadores como nos países-membros do próprio bloco.
Nesse caso, o relatório deve indicar se os países exportadores ratificaram as principais convenções da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Só uma o Brasil não ratificou, sobre unicidade sindical. A Constituição brasileira estabelece que um município só pode ter um sindicato para uma categoria.
A Comissão Européia também deve relatar o impacto dos biocombustíveis em outros aspectos ambientais – água, solos e poluição do ar, queimada de canaviais na região etc. Para os brasileiros, isso é inofensivo comparado ao que os ambientalistas queriam.
Em contrapartida, o segundo relatório detalhado sobre critérios sociais deve vir dos produtores do combustível. Uma usina de álcool em Sao Paulo vai ter de explicar ponto por ponto se respeita – e como – as condições de trabalho. Resta uma cláusula atenuante, pela qual a Comissão Européia pode determinar quais informações são realmente relevantes.
Por um acordo na Rodada Doha, o Brasil terá entre 4% e 10% do mercado de etanol europeu ao longo de sete anos. Com regras claras de sustentabilidade, fica difícil para a UE dar com uma mão (as cotas) e tirar com a outra (por meio de exigências duras). Atualmente, o Brasil já tem 70% do mercado do velho continente. Com critérios de sustentabilidade considerados equilibrados, a tendência é de o comércio ter previsibilidade.
O diálogo do Brasil com a Comissão Européia é bom, comparado às dificuldades com o Parlamento. Uma recente reação do Brasil e outros seis países, que chegaram a ameaçar denunciar a UE na Organização Mundial do Comércio (OMC), teve efeito no acordo final, acreditam técnicos.
Na prática, as duas diretivas européias – de energias renováveis e qualidade de carburantes – são centrais para o desenvolvimento da política européia para o biocombustível e para o projeto do Brasil de tornar o etanol uma commodity global. O problema agora é nos Estados Unidos, com os planos da futura administração de Barack Obama de supostamente reduzir os subsídios para a produção americana.
Estudo diz que mercado de créditos de carbono cresceu 41% em 2008
da Efe, em Varsóvia
O mercado mundial de compra e venda de cotas de emissão de gases causadores do efeito estufa cresceu 41% na primeira metade deste ano, totalizando 38 bilhões de euros, segundo dados apresentados pela Associação Internacional de Comércio de Emissões (IETA).
As transações de cotas de CO2 (dióxido de carbono) também aumentaram nos primeiros seis meses de 2008, passando das 1,2 bilhão de toneladas de 2007 para aproximadamente 1,84 bilhão de toneladas neste ano.
O estudo da IETA, divulgado durante a conferência das Nações Unidas para a Mudança Climática, realizada desde segunda-feira (1º) na cidade polonesa de Poznan, diz que a compra e venda de poluentes poderia se desenvolver ainda mais, caso os EUA acreditassem em um mercado nacional de CO2.
Atualmente a União Européia centraliza a maior parte dessas operações relacionadas com direitos poluentes, com cerca de 70% do volume total global.
Os créditos de carbono vêm em compasso com o Protocolo de Kyoto, segundo o qual os países mais desenvolvidos devem reduzir progressivamente suas emissões de gases causadores do efeito estufa para os níveis do ano de 1990.
Entretanto, as dificuldades para conseguir essa diminuição fazem com que o mercado de compra de direitos de emissão se desenvolva, nos últimos anos, como fórmula para evitar sanções por excesso de poluição.
A Conferência das Nações Unidas termina no próximo dia 12 de dezembro, quando se espera que governantes de todo o mundo entrem em acordo para alcançar um pré-pacto, que permita consolidar um protocolo pós-Kyoto na próxima reunião, em Copenhague, em 2009.
Chances de avanço na conferência do clima
Editorial
Há algumas boas razões para que se possa ter algum otimismo quanto aos resultados da 14ª Conferência do Clima das Nações Unidas, que se desenrola em Poznan, na Polônia. Uma delas é que o segundo maior emissor de gases do efeito-estufa, os EUA – foram ultrapassados pela China na liderança – têm um novo presidente, Barack Obama que reconhece a necessidade de atacar as causas do aquecimento global e que já deixou claro que aceita participar de acordos globais com essa finalidade. O presidente George W. Bush ignorou Kyoto e fez pouco caso ao admitir que as emissões de CO2 em seu país continuariam crescendo pelo menos até 2025. Um outro motivo é a atitude do governo Lula de estabelecer metas para a redução do desmatamento, que coloca o Brasil no quarto lugar dos países que mais contribuem para destruir o ambiente. É a primeira vez que um país emergente desse porte se compromete, ainda que para o público doméstico, a cumprir um plano com objetivos claros.
Ainda que as divergências se espalhem por todos os lados, é possível chegar-se a metas mais ambiciosas que as traçadas pelo protocolo de Kyoto – 5,2% de redução das emissões em relação a 1990 para 37 países desenvolvidos. Em primeiro lugar, porque estas metas tornaram-se absolutamente insuficientes diante da magnitude do problema. Depois porque vários países que aderiram ao protocolo estão se comprometendo, isolada ou regionalmente, a objetivos maiores que os de Kyoto até 2020, como o Reino Unido e – pelo menos como intenção – a União Européia. Há um claro esforço na direção de redução efetiva e relevante dos gases que arruínam a camada de ozônio.
Persistem, em um ambiente de negociações melhorado, as questões vitais: quem deve cortar quanto, de que forma e em que prazo. Países desenvolvidos e em desenvolvimento discordam principalmente em relação ao primeiro ponto. Os países em desenvolvimento pretendem que os países ricos se comprometam pelo menos com a redução de 25% a 40% das emissões até 2020, números que constam do relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas.
Os planos traçados ou aprovados por alguns países desenvolvidos mencionam 20% como meta, caso da União Européia, por exemplo. No caso americano, indicações dadas pelo presidente eleito Barack Obama apontam para a redução das emissões ao nível de 1990 em 2020. Até 2050, o corte seria de 80%. Desde 1990, as emissões americanas cresceram 14%. É um fato auspicioso que o governo americano tenha um plano nacional e persiga uma meta, mas ela certamente é insatisfatória. E mesmo os 20% considerados insuficientes não são garantidos, porque a recessão econômica que varre EUA e Europa levou vários países da UE a pedir uma revisão e defender objetivos mais modestos. Os argumento é o reverso do esgrimido pelos países em desenvolvimento para não rejeitarem qualquer meta de redução. Enquanto estes alegavam que metas os impediriam de crescer, aqueles agora dizem que 20% de corte nas emissões traz custos insuportáveis já que não estão crescendo.
Poznan seria uma repetição de Bali se o Brasil não entrasse com uma solução intermediária: metas mensuráveis, reportáveis e verificáveis, resultantes de decisões soberanas. Ainda que modesto em sua abrangência, o plano brasileiro quer reduzir o desmatamento de 2006 a 2010 em 40% em relação à média de 1996-2005 e, nos quatriênios seguintes, obter um corte de 30% em relação à média do quatriênio anterior. Entre 2000 e 2005, ocorreu no Brasil 48% da perda de cobertura florestal no mundo, segundo especialistas das Nações Unidas.
A posição de China e Índia de não aceitarem a incumbência de cortar suas emissões foi enfraquecida pelos planos do Brasil. Apesar disso, é muito difícil que grandes emissores como a China aceitem compromissos, o que tende a desestimular propostas mais ambiciosas e servir de pretexto a alguns países desenvolvidos para que tentem impedir outros de se moverem com mais rapidez neste terreno. Por outro lado, a gigantesca crise econômica tende a desfavorecer as chances de um financiamento externo constante e significativo para a manutenção das florestas, desvinculado do mercado de créditos de carbono – um alvo que o plano brasileiro levou muito em conta na sua elaboração.
Quarta-feira, 3 dezembro de 2008
Cana certificada já é realidade
Agricultores e usina de Bariri (SP) modificam sistemas para produzir, a partir de 2009, o álcool ‘politicamente correto’

Chico Siqueira
Pequenos e médios produtores de Bariri, região de Jaú (SP), serão os primeiros do País a fornecer cana-de-açúcar certificada para a fabricação do álcool, já na safra 2009/2010. A produção deverá ser de 36 milhões de litros, parte deles possivelmente exportada para a Europa. Baseada num protocolo de gestão de normas agrícolas, sociais e ambientais adotado pela Associação dos Fornecedores de Cana da Região de Bariri (Assobari), a certificação abrangerá 4 mil hectares de cana, cultivada por 50 produtores, muitos agricultores familiares.
A partir de maio, eles começam a fornecer para a usina Della Coletta, de Bariri, 400 mil toneladas de cana certificada para a produção de 36 milhões de litros de álcool, processado dentro das exigências nacionais e internacionais de sustentabilidade. O protocolo foi possível a partir de uma parceria entre a Assobari, o Sebrae, a certificadora Organização Internacional Agropecuária (OIA) e a Usina Della Coletta.
TRABALHO COORDENADO
Os produtores seguem as normas de um sistema socioambiental introduzido pela OIA; o Sebrae fornece técnicos e cursos de qualificação e a usina processa e vende o álcool, tudo sob auditoria. O resultado final deverá ser um álcool diferenciado, com mais valor agregado e, futuramente, com maior preço de mercado e lucros divididos entre todos.
“Antecipamos as exigências européias para comprar o álcool brasileiro. Estamos comprovando que o Brasil pode ter um álcool sustentado, ao contrário do que foi apregoado no exterior”, diz o presidente da Assobari, Fernando César Gregório. Ele explica que, além da parceria, o projeto só foi possível porque há cinco anos os produtores associados vêm perseguindo e cumprindo a legislação ambiental e de segurança no trabalho. “Com isso, foi mais fácil adotar a gestão de qualidade nas propriedades.”
Segundo Gregório, a gestão prevê a introdução de boas práticas agrosocioambientais, que vão desde preparo do solo e preservação ambiental, passando pelo plantio e pela colheita até o acompanhamento final do produto a ser processado e vendido pela usina.
“Mais do que certificar, o nosso sistema ensina aos produtores como devem ser as mudanças na propriedade e a maneira de conduzir as atividades para cumprir as normas socioambientais brasileiras e internacionais”, diz o diretor da OIA, Edegar de Oliveira Rosa. As práticas também tiveram de ser adotadas na própria Assobari, com novas técnicas de administração e de pessoal.
READEQUAÇÃO
A usina também se adaptou. O diretor-superintendente da usina, Roberto Della Coletta, diz que foi preciso readequar o controle ambiental e a gestão administrativa conforme o protocolo. “Na parte ambiental, foram R$ 10 milhões para destinação correta da vinhaça e mais R$ 2 milhões para reaproveitamento de água”, diz.
O protocolo também prevê, na usina, uma auditoria para acompanhar o recebimento e processamento da cana e a fabricação e comercialização do álcool produzido. “Mas o mais importante foi o relacionamento estreito entre indústria e fornecedores, essencial para o sucesso do projeto”, diz Coletta.
Na última terça-feira, Coletta se reuniu com compradores internacionais interessados no álcool sustentado. “Estamos em contato com certificadoras internacionais, sobretudo da Europa.” Neste ano, a usina exportou 4 milhões de litros de álcool. Para a próxima safra, deve exportar 7 milhões de litros, sendo 4 milhões de álcool sustentado. Segundo o usineiro, dos 2 milhões de toneladas de cana que a usina vai processar na próxima safra, 400 mil toneladas serão certificadas. Na safra deste ano, a Coletta processou 1,7 milhão de toneladas, sendo 900 mil fornecidas pela Assobari, 700 mil de plantio próprio e 100 mil de produtores independentes.
Trading belga Alcotra deverá investir US$ 400 milhões em usinas no Brasil
Mônica Scaramuzzo, de São Paulo
03/12/2008
O grupo belga Alcotra, uma das maiores tradings globais de etanol, prepara-se para fazer investimentos no Brasil. Os planos da companhia são processar até 2011 cerca de 10 milhões de toneladas de cana no país, grande parte voltada para a produção de álcool.
Em meio à crise que afeta agudamente as usinas sucroalcooleiras, o grupo belga enxerga oportunidade nessa área. “Temos consciência de que o momento [de investir] é agora. Em três meses, olhamos cerca de 30 empresas. Selecionamos cinco usinas que estamos dispostos a levar adiante”, disse ao Valor François Legleye, CEO da Alcotra Bio Energy.
Os acionistas do grupo devem fazer aportes de US$ 400 milhões neste primeiro momento, segundo o executivo. Esse valor não inclui as dívidas que a Alcotra deverá assumir das usinas que poderão ser adquiridas.
Em janeiro, a Alcotra vai inaugurar seu escritório em São Paulo. “Vamos concentrar os negócios de produção de álcool aqui [São Paulo]. Já os executivos da trading vão permanecer sediados no Rio de Janeiro”, afirmou Legleye, que desde agosto deste ano é responsável pela expansão da Alcotra como produtora de álcool no país.
Com faturamento global de cerca de US$ 1 bilhão, o grupo tem entre seus principais acionistas a companhia francesa EDF Energies Nouvelles e a trading Trafigura . A gigante é presidida pelo belga Philippe Meeus, o acionista majoritário do grupo. A trading negocia cerca de 2 bilhões de litros de álcool por ano, dos quais 1 bilhão de litros do Brasil. As exportações de álcool da Alcotra a partir do Brasil respondem por cerca de 25% dos embarques do país.
Presente no país há cerca de 20 anos, a Alcotra quer se tornar uma grande usina. Fora do Brasil, o grupo já tem experiência na área. Na Bélgica, sede da companhia, a empresa produz álcool a partir do trigo. O grupo também produz álcool nas Ilhas Maurício e na África do sul. Nesses países, a produção é a partir do melaço da cana. Nos Estados Unidos, o grupo controla uma distribuidora de combustíveis renováveis.
No Brasil, a experiência na produção de álcool ainda é pequena. O grupo tem participação de 49% na usina Tabu, na Paraíba. Essa unidade produz álcool para fins industriais. No início deste ano, o grupo achou que daria seu grande passo ao negociar a compra da Triálcool, usina instalada no Triângulo Mineiro, controlada pelo grupo João Lyra, do ex-senador João Lyra, e que no dia 20 de novembro entrou com pedido de recuperação judicial. No entanto, o negócio não foi levado adiante porque um dos credores da usina barrou a negociação. Mas, segundo Legleye, a Alcotra ainda não desistiu de comprar a Triálcool. Apenas aguarda o desenrolar do plano de recuperação judicial do grupo para voltar a discutir a aquisição.
Além da Triálcool, que continua no foco da Alcotra, a trading quer negociar a compra dos 51% da usina Tabu, da qual já é sócio. “Há conversas com outras três usinas, mas nada ainda foi fechado”, disse. A meta da empresa é que até o fim do primeiro semestre de 2009 novas usinas já façam parte do portfólio do grupo.
“Queremos ter o controle dessas usinas. O foco do grupo é buscar empresas no Centro-Sul e que estejam endividadas. Fica mais fácil negociar com os bancos”, disse Legleye, que já possui longa experiência nesta área, uma vez que atuou por vários anos como executivo do banco francês BNP Paribas. Em agosto, Legleye foi convidado a assumir os negócios de álcool da Alcotra.
No Brasil há cerca de 18 anos, o francês François Legleye se naturalizou brasileiro em 2002. “Senti que tinha que fazer isso pelas minhas filhas”, afirmou. E agora com cidadania brasileira fica mais à vontade para criticar o protecionismo europeu. “Todo mundo sabe que os mais baixos custos estão aqui [no Brasil] e que não adianta tentar boicotar o álcool brasileiro.”
Para o executivo, a turbulência global financeira não deverá ser um empecilho para a expansão do grupo no Brasil. “A crise deverá continuar nos próximos meses, mas não vai barrar os nossos negócios.”
