Mudanças Climáticas
26/01/09Quinta-feira, 22 de janeiro de 2009, 17:21
União Europeia quer taxa do clima para países ricos
PETE HARRISON E GERARD WYNN – REUTERS
BRUXELAS – Os países ricos podem arrecadar 200 bilhões de dólares em fundos do clima por meio de uma taxação sobre os gases-estufa emitidos por eles entre 2013 e 2020 a fim de ajudar os países pobres a se preparar para o aquecimento global, defenderá a União Europeia na semana que vem.
O plano está previsto em um documento da UE definindo a posição do bloco antes da reunião sobre o clima em Copenhague, em dezembro, promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU). O encontro tem como objetivo chegar a um acordo sobre um novo tratado sobre o clima global.
A idéia para arrecadação de fundos é a mais específica até agora vinda de um bloco ou país rico no que diz respeito a como persuadir os países em desenvolvimento a concordar com passos concretos a fim de evitar as emissões de gases-estufa — um dos obstáculos-chave das negociações climáticas até agora.
O projeto, que deve ser publicado na semana que vem e ao qual a Reuters teve acesso, pede que os países ricos paguem para que os países em desenvolvimento cortem as suas emissões de gases-estufa, no processo chamado de mitigação, e se preparem para o aquecimento inevitável, chamado de adaptação.
“Todos os países desenvolvidos precisarão contribuir com os recursos financeiros para a adaptação e a mitigação nos países em desenvolvimento via financiamento público e uso de mecanismos de crédito de carbono”, diz o documento.
Os países ricos devem se comprometer com limites obrigatórios sobre emissões de gases-estufa até 2020. Eles poderão então pagar um preço estabelecido para cada tonelada de emissão, diz o documento, sob uma de “duas opções principais para gerar os fundos”.
A outra opção seria pagar proporcionalmente por tonelada em um mercado de carbono global, e portanto não ter preço garantido.
Se tiver ampla aprovação, o plano poderia estimular o principal emissor de carbono do mundo, a China, a concordar com medidas climáticas internacionais obrigatórias. Por sua vez, isso poderia satisfazer uma pré-condição geral exigida pelo segundo maior emissor, os Estados Unidos, para assinar um sucessor do Protocolo de Kyoto.
Os EUA não ratificaram o Protocolo de Kyoto porque o pacto não continha nenhuma obrigação concreta para os países em desenvolvimento, posição que provavelmente será mantida pelo novo governo de Obama com relação ao novo pacto depois de 2012.
O documento da UE disse que se os principais países desenvolvidos pagassem 1 euro por tonelada de gás-estufa a partir de 2013, subindo para 3 euros até 2020, isso arrecadaria 164 bilhões de euros (213 bilhões de dólares) ao longo do período.
Projeto de Minc expande cultivo de cana-de-açúcar até 2017
da Folha de S.Paulo
Após reunião com o presidente Lula, o ministro Carlos Minc (Meio Ambiente) anunciou ontem que será apresentado em fevereiro o projeto de zoneamento da cana-de-açúcar, cujo cultivo se expandirá de 7 milhões para 13 milhões de hectares até 2017. A novidade, segundo Minc, é a proibição da queima da palha nas lavouras de cana.
O ministro também anunciou o zoneamento para o plantio de dendê, inclusive na Amazônia, mas, segundo ele, em áreas degradadas. A meta é ampliar o cultivo de oleaginosas destinado à produção de biodiesel.
Para ONGs, a introdução do dendê na Amazônia na prática muda o Código Florestal, cuja alteração está em discussão no Congresso, e reduz a reserva legal de 80% para 50%.
A proibição da queima na lavoura de cana será imediata nos 6 milhões de hectares que serão abertos até 2017, disse Minc.
Para os que já existem, o fim das queimadas será gradativo.
A queima da palha produz emissões poluentes para a atmosfera e causa problemas respiratórios.
Nos EUA, “petróleo verde” atrai apostas de Bill Gates
Roberta Campassi, de São Paulo
22/01/2009
Nos EUA, as microalgas atraíram o dinheiro até de Bill Gates, o fundador da Microsoft. Seu braço de investimentos Cascade e mais três investidores aplicaram US$ 50 milhões na Sapphire Energy, empresa pioneira de San Diego que diz já ter a tecnologia para produzir o que chama de “petróleo verde” (green crude, em inglês), uma fonte de energia renovável feita sobretudo a partir de microalgas.
A Sapphire clama que o produto é ao mesmo tempo capaz de substituir o petróleo e reduzir as emissões de gás que resultam do uso de combustíveis. O petróleo verde também não requer terras agrícolas para ser fabricado, ao contrário de outras matérias-primas.
Tim Zenk, vice-presidente de assuntos corporativos da Sapphire, afirma que o petróleo verde, quando refinado, dá origem aos mesmos combustíveis que o petróleo tradicional: gasolina, querosene e diesel, entre outros derivados. A diferença é que, quando os produtos que resultam desse processo forem queimados, o carbono liberado será em parte absorvido pelas algas, que posteriormente vão gerar novos litros de combustível.
A Sapphire não revela a fórmula do seu petróleo, mas a simplifica da seguinte forma: água não potável + gás carbônico + luz solar + microorganismos, sendo a maioria algas. O silêncio da empresa é ainda maior sobre a sua tecnologia de refino. Esta chama atenção justamente por permitir a obtenção de vários subprodutos, enquanto outras tecnologias existentes viabilizam a produção de apenas um tipo de combustível. A Petrobras, por exemplo, criou a H-Bio, para transformar óleo vegetal em óleo diesel. A UOP, empresa americana especializada em técnicas de refino, pretende licenciar neste ano um processo para produção de querosene de aviação a partir de matérias-primas vegetais.
Em três anos, a Sapphire planeja inaugurar uma planta industrial no Estado americano do Novo México para testar a produção em escala de alga. Nesse estágio, a produção diária do petróleo verde pode chegar a 300 barris, diz Zenk. Em cinco anos, a companhia estima que o volume saltará para 10 mil barris ao dia – pouco menos do que a produção diária de 11,6 mil barris do Chile em 2007. Com esse volume de produção, o barril de “green crude” custaria entre US$ 40 e US$ 80. “Os custos serão similares ao da exploração de petróleo tradicional”, afirma Zenk. “Temos absoluta certeza de que a produção de algas pode alcançar uma escala impressionante”, diz.
Confiante de que vai solucionar o problema de escala e custo, a grande batalha da Sapphire deverá ser com o governo americano e os incentivos bilionários dados aos produtores de etanol de milho do país, por exemplo. “Queremos tratamento igual”, diz Zenk. “O governo não pode determinar quais são as matérias-primas de biocombustível vencedoras e perdedoras. Isso é o mercado que vai mostrar.”
Criada em 2007, a Sapphire tem entre seus investidores o Wellcome Trust, órgão que financia pesquisas científicas, e os fundos de capital de risco Venrock e ARCH, além da própria Cascade.
Gigantes do petróleo também já mostraram interesse na produção de combustível a partir de algas. A Chevron, segunda maior petrolífera dos EUA, fez uma parceria no início de 2008 com a americana Solazyme, que já desenvolve produtos à base de algas para a indústria química e farmacêutica e agora pesquisa seu uso energético.
Alga entra no “menu” dos biocombustíveis
Bettina Barros, de São Paulo
22/01/2009
Com alguns anos de atraso, o governo brasileiro começa a dar sinais concretos de que incluirá em sua política energética pesquisas com microalgas para a produção de biocombustíveis.
Estudadas há pelo menos 20 anos em iniciativas independentes de pesquisadores brasileiros, esses vegetais microscópicos entraram no foco do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). Se antes as pesquisas se limitavam aos setores de cosméticos e fármacos, o interesse volta-se agora para a produção do biocombustível em escala comercial e viável do ponto de vista econômico.
O novo item do cardápio de matérias-primas pesquisadas para a produção de biocombustíveis chega com alguns atrativos. Com rápida reprodução e boa produtividade de óleo, as microalgas são vistas como opção plausível de alternativa ao petróleo. Contam ainda com uma vantagem ainda imbatível: reproduzidas em tanques de água marinha, elas não entram em conflito na disputa por terras agrícolas, questão-chave no debate atual.
De olho nesse futuro mercado, o Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Tecnologia (CNPq), vinculado ao MCT e em parceria com o Ministério da Pesca e Aqüicultura, lançou em 2008 um edital inédito para a contratação de projetos com o objetivo de investigar a fundo o potencial das algas para finalidade energética. Sessenta e três projetos foram apresentados, 11 selecionados.
Paralelamente, a Petrobras também dá seus passos. Desde 2006, a estatal trabalha em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande (FURG), no Rio Grande do Sul, para desenvolver o novo biocombustível. O projeto já entra em sua segunda fase.
“Temos que suprir a necessidade de matéria-prima para a produção de biodiesel, que tire a dependência da soja. E o mais rápido possível”, diz Rafael Menezes, coordenador de ações de desenvolvimento energético do Ministério da Ciência e Tecnologia.
As pesquisas foram divididas em cinco áreas prioritárias: o estudo do potencial de cepas de microalgas; a avaliação das propriedades físico-químicas do biodiesel de algas; os processos mais econômicos e eficientes; a avaliação da viabilidade econômica do cultivo e o desenvolvimento de técnicas para maximizar a produtividade do óleo.
Em dois anos, o CNPq investirá o total de R$ 4,5 milhões em busca das respostas de ao menos parte das perguntas científicas. A primeira delas é também o maior desafio: como produzir combustível de algas a um baixo custo?
“Esse tem sido o maior entrave à produção, aqui e no exterior”, explica Armando Vieira, pesquisador da Universidade Federal de São Carlos e um dos selecionados no edital. Por isso, diz ele, é que ações recentes envolvendo o combustível de alga são simbólicas – marketing, acima de tudo.
Vieira refere-se ao vôo demonstrativo realizado no início deste ano pela companhia aérea americana Continental Airlines, que colocou no ar um avião com um quarto do combustível oriundo de uma mistura de pinhão-manso e algas. “O processo para a produção de combustível de algas ainda é muito caro. Não é viável hoje para realizar vôos. Se quiserem, eu também faço esse combustível. Mas vai ser uma fortuna. US$ 10 por litro”, especula.
As cifras proibitivas devem-se ao processo industrial de concentração, separação e secagem das algas. Por serem extremamente pequenas, com tamanhos que variam de 2 a 200 micrômetros (uma milionésima parte do metro), as algas necessitam ser primeiro aglutinadas para então serem separadas da água. Isso só é possível através de filtragem, centrifugação ou por uso de floculantes. Além de técnicas caras, consomem muita energia.
“Uma centrífuga grande chega a custar hoje algo como US$ 100 mil. Filtros, US$ 5 a unidade. E são necessários centenas”, afirma Paulo César Oliveira, da FURG.
Oliveira pertence à equipe de cientistas que desenvolve as pesquisas com algas para a Petrobras. Durante a primeira fase do projeto, os pesquisadores coletaram espécies nativas do Rio Grande do Norte e identificaram 40 espécies de microalgas. “Ainda estão sendo realizados estudos para verificar se entre elas há novas ocorrências em relação as 30 mil já catalogadas pela ciência”, afirma, em nota, a estatal.
Nos próximos 24 meses, o desafio do grupo será o escalonamento da produção, passando dos experimentos atuais com três mil litros de água para tanques maiores, de 10 mil litros. “A idéia é tirar até três quilos de algas por litro d’água, no período de dez dias”, diz o pesquisador.
A previsão de quando o combustível de algas estará no mercado é uma incógnita. Pesquisadores mais adiantados falam em uma década. No exterior, a corrida pelo “petróleo verde” dá passos mais largos. Nos Estados Unidos, a expectativa do setor privado é de produzir o biocombustível em metade desse tempo.
E por uma razão simples. Ali, as microalgas são usadas há décadas na produção de encapsulantes e na aqüacultura, para alimentar peixes e outros animais. Com a crise do petróleo, nos anos 70, o governo adotou a estratégia de estimular a aplicação desses organismos marinhos para a produção de energia a partir da biomassa, na tentativa de reduzir a dependência pelo óleo. Linhas de investimento especiais foram criadas pelo Departamento de Energia, resultando em dezenas de pesquisas do setor privado e universidades .
A boa notícia é que, superado o problema do custo de produção, o combustível de alga terá, com efeito, uma vantagem competitiva. Diferentemente de outras oleaginosas, as microalgas se reproduzem de forma exponencial. Mantidas em tanques rasos, elas conseguem se duplicar em qualquer tipo de água, da salgada à salobra. Seu principal alimento é o dióxido de carbono (CO2), o que lhes confere um segundo papel de “comedoras” de gases que afetam o ambiente.
Outra vantagem, como já se disse, é que as microalgas não competem com outras culturas. Portanto, seu cultivo não exige o deslocamento de áreas tradicionalmente voltadas para a alimentação humana (um argumento forte sobretudo nos Estados Unidos, onde o milho é a matéria-prima para o etanol).
Pesa ainda a sua produtividade. A soja, principal base do biodiesel no Brasil, rende de 400 a 600 quilos de óleo por hectare e tem apenas um ciclo por ano. O girassol produz de 630 a 900 quilos. Mas uma pesquisa recente do Instituto de Biologia da Universidade Federal Fluminense indica que microalgas encontradas no litoral brasileiro têm potencial energético para produzir 90 mil quilos de óleo por hectare. É uma interessante nova frente de ação.
“Estamos falando de algo novo e que até pouco tempo atrás era totalmente ignorado. Muitas pessoas achavam que eu perdia tempo com estes assuntos ‘estranhos’. Agora tudo mudou”, conta Sergio Lourenço, pesquisador da Universidade Federal Fluminense, responsável pelo estudo. “Perdemos terreno por nunca ter investido o suficiente nessa frente”.
Terça-feira, 20 janeiro de 2009
A política energética de Obama
José Goldemberg
O novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que toma posse hoje, introduzirá, ao que tudo indica, inúmeras modificações nas problemáticas e controvertidas políticas seguidas pelo presidente George W. Bush, que vão desde o envolvimento nas guerras do Oriente Médio até a política econômica.
Entre elas, porém, figura, com destaque, a política energética seguida por aquele país, que é responsável pelo consumo de 25% de toda a energia consumida no mundo, apesar de ter apenas 5% da população mundial. Mais ainda, cerca de 80% desta energia se origina em combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás natural), tornando-o o maior emissor mundial de gases de efeito estufa – responsáveis pelo aquecimento da Terra e pelas mudanças climáticas.
O extraordinário progresso material dos Estados Unidos é baseado no consumo destes combustíveis, cuja comercialização movimenta aproximadamente US$ 2 trilhões por ano.
Os extravagantes padrões de consumo dos Estados Unidos exigem um consumo de energia per capita (predominantemente fóssil) que é o dobro do da Europa e cinco vezes maior que o da maioria dos países em desenvolvimento. Os interesses econômicos que se formaram em torno deste comércio são imensos e vão desde a indústria do carvão e a produção de eletricidade com ele até o petróleo e a indústria automobilística.
Não é surpreendente, portanto, que qualquer tentativa de reduzir o consumo de combustíveis fósseis encontre tanta resistência nos Estados Unidos, mesmo que o bom senso indique que isso deveria ser feito. Desde os tempos do presidente Richard Nixon, há mais de 30 anos, uma das metas do governo americano – nunca alcançada – é a de atingir a “independência energética”, reduzindo a importação de petróleo, uma vez que mais da metade dele vem do Oriente Médio, o que explica, aliás, em parte a forte presença militar dos Estados Unidos naquela região e os gastos decorrentes.
Por causa da extrema dependência americana do consumo de combustíveis fósseis, o governo dos Estados Unidos não aderiu ao Protocolo de Kyoto, cuja finalidade era a de levar à redução dos gases de efeito estufa. As emissões americanas, em lugar de serem reduzidas, como ocorreu em vários países da Europa, aumentaram muito desde 1990.
A política energética da administração George W. Bush em relação ao Protocolo de Kyoto foi sistematicamente uma política hostil, mobilizando até funcionários públicos capazes de alterar documentos – oriundos de laboratórios científicos do próprio governo – alertando para as consequências do aquecimento global, com a finalidade de minimizar os riscos decorrentes.
Na prática, a política do governo federal dos Estados Unidos era apenas a de estimular o desenvolvimento de tecnologias que permitissem continuar a usar combustíveis sólidos, tornando-os, porém, “mais limpos”, como, por exemplo, capturando o carbono emitido pelas chaminés das usinas que geram eletricidade a partir do carvão e armazenando-o em cavernas profundas.
Outra opção do governo Bush foi a de tentar – sem sucesso até agora – reativar a indústria nuclear americana, paralisada desde 1985.
A atenção dedicada ao uso de fontes renováveis de energia foi pequena, apesar de elas não emitirem carbono e serem produzidas localmente – o que contribui para a independência energética -, exceto em alguns Estados, como o Texas.
O novo governo americano deve mudar substancialmente essas políticas, como indica a nomeação do novo secretário de Energia (correspondente ao nosso ministro de Minas e Energia), o dr. Steven Chu, Prêmio Nobel de Física (1997) e professor da Universidade da Califórnia.
As ideias do presidente Barack Obama sobre energia foram expressas com clareza na cerimônia em que anunciou a escolha do novo secretário. Ao agradecer a indicação, o dr. Steven Chu repetiu suas opiniões já bem conhecidas e publicadas mais de um ano atrás.
Que opiniões são essas?
Em primeiro lugar, reduzir o consumo de energia sem abrir mão dos serviços que ela oferece, isto é, usar energia de forma mais eficiente. Isso não apenas é possível como foi feito com sucesso na Califórnia desde 1980, onde a grande maioria dos equipamentos não pode ter um consumo enérgico maior do que o fixado pelo governo do Estado.
Em segundo lugar, aumentar a produção das energias renováveis já bem desenvolvidas, como a eólica (dos ventos) e a solar, para geração de eletricidade e aquecimento de água para usos domésticos e industriais; e, mais significativamente, o uso de biomassa. O aperfeiçoamento das tecnologias usadas hoje para o uso de biomassa (incluindo modificações genéticas) oferece grandes perspectivas. Esta é uma área em que o Brasil está muito avançado – em particular, com os programas de pesquisa financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) -, na produção de etanol (e eletricidade) com cana-de-açúcar. As possibilidades de cooperação dos Estados Unidos com o Brasil nesta área são muito boas.
Em terceiro lugar, estimular o desenvolvimento de novas tecnologias até torná-las competitivas no mercado.
Se implementadas, estas políticas permitirão aos Estados Unidos reduzir suas emissões de carbono (e de outros poluentes), diminuir suas importações de petróleo e, eventualmente, exportar tecnologias “limpas”. Elas fazem, portanto, mais sentido do que as políticas – ou a ausência de políticas – adotadas até agora no governo Bush.
José Goldemberg, professor da USP, copresidiu em 2007, com o dr. Steven Chu, um relatório preparado pelas Academias de Ciências de vários países intitulado O Caminho para um Futuro Energético Sustentável (www.interacademycouncil.net)
Setor de biocombustível dos EUA espera retomada este ano
Dirk Lammers, Associated Press
19/01/2009
O etanol de celulose, a próxima esperança da indústria de biocombustível, afetado no último ano pela volatilidade das commodities e redução de margens, continua sua lenta marcha à comercialização.
Maior produtora de etanol dos EUA, a Poet abriu as torneiras de uma biorrefinaria de US$ 8 milhões em seu centro de pesquisas em Dakota do Sul, que produzirá por ano 76 mil litros de combustível de sabugo e fibras de milho normalmente deixados sem uso no campo. A usina-piloto servirá como precursora da biorrefinaria maior, de escala comercial, de US$ 200 milhões, prevista para operar em Iowa, em 2011.
A Poet é uma das várias usinas sustentadas por centenas de milhões de dólares em concessões do Departamento de Energia americano, idealizada para ajudar a evolução dos combustíveis de matérias-primas como gramíneas, palha de trigo e aparas de madeira. A indústria faz etanol de milho há mais de 20 anos. Jeff Broin, CEO da empresa, prevê que agregar o sabugo à composição elevará o rendimento de etanol em 11% por bushel de milho e 27% por acre plantado.
A expansão das duas formas de produção ajudará os EUA a atingir suas ambiciosas metas de uso de combustíveis renováveis, que exigirão a mistura de 136 bilhões de litros de biocombustíveis à gasolina até 2022, segundo Broin. “Há potencial, tanto no etanol de celulose como no de grãos, para reduzir a dependência do nosso país por energia”, diz.
Quase todo o etanol nos EUA é feito de milho, e 2008 foi um ano difícil para o setor. A VeraSun Energy, segunda maior produtora do país, entrou com pedido de recuperação judicial após o aperto no crédito tê-la impossibilitado enfrentar as oscilações no preço dos combustíveis e do milho. As ações da Aventine Renewable Energy, Pacific Ethanol e BioFuel Energy perderam em torno de 95% do valor durante o ano.
A florescente indústria de etanol celulósico, porém, provavelmente já se depararia com a inquietude dos investidores mesmo se o país não estivesse enredado entre a letargia do mercado de crédito e a recessão da economia, advertiu Cole Gustafson, economista especialista em biocombustíveis na Universidade Estadual de Dakota do Norte, em Fargo.
As atuais usinas de etanol de milho possuem referenciais de desempenho consistentes, que se encaixam bem no balanço financeiro, enquanto a indústria de etanol celulósico testa uma ampla variedade de matérias-primas, o que poderia confundir os investidores. As empresas trabalham com múltiplos processos de conversão, tanto biológicos como termomecânicos, e a indústria precisa determinar seus mercados para matérias-primas e descobrir como transportá-las, afirmou Gustafson.
“Como conseqüência será muito difícil conseguir capital de Wall Street e de outros investidores que estão à margem da agricultura”, disse.
Embora nenhuma biorrefinaria de etanol de celulose tenha alcançado escala comercial até agora, a usina da Poet é uma entre as várias fábricas em fase experimental que foram abertas nos últimos 12 meses.
A KL Energy Crop, na Dakota do Sul, começou a operar uma usina em janeiro de 2008, com capacidade para produzir 5,7 milhões de litros de etanol por ano a partir de restos de madeira. A Verenium inaugurou em abril uma usina na Louisiana que transformará resíduos agrícolas e de madeira 5,3 milhões de litros de combustível por ano. E a AE Biofuels, na Califórnia, abriu uma usina de provas em agosto, com mais de 800 metros quadrados, em Montana, na qual testará a criação de combustíveis a partir de produtos não comestíveis, como palha de trigo e grama.
Produzir etanol de materiais diversos não é tarefa fácil. A celulose é densa e difícil de desmembrar do resto dos vegetais. As matérias-primas normalmente precisam passar por tratamento prévio. As empresas continuam aperfeiçoando as enzimas necessárias para extrair açúcares complexos e derrubar o custo.
O fermento usual que quebra os açúcares simples não funciona com açúcares complexos, portanto, são necessários mais microorganismos avançados durante a fermentação.
O Departamento de Energia, decidido a tornar o etanol celulósico competitivo até 2012, concedeu US$ 385 milhões a seis empresas em 2007, para o desenvolvimento das primeiras usinas que transformem biomassa em combustível em grande escala. “O que interessa é quando o setor privado para esses empreendimentos decolará. E isso está um pouco longe”, disse Gustafson.
