Arquivo de janeiro, 2009

Sustentabilidade e Negócios

6/01/09

Elogios internacionais ao etanol produzido no Brasil

6 de Janeiro de 2009 – Em novembro, a cidade de São Paulo foi palco da Conferência Internacional sobre Biocombustíveis, promovida pelo governo federal. Com a presença de delegados de 92 países, o encontro teve como meta a promoção dos benefícios do etanol e a quebra de barreiras internacionais para a comercialização do combustível. Desta forma, caminha-se rumo à transformação do etanol em uma commodity mundial.

O interesse de diversos países em nosso combustível não é novidade. Há algumas semanas, o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, telefonou para Luiz Inácio Lula da Silva e elogiou o programa de biocombustíveis do Brasil. Os Estados Unidos é o maior mercado do brasileiro para a exportação do etanol. Na ocasião, a menção quase tímida de Obama à nossa energia renovável foi encarada como um grande avanço nas negociações para a quebra de barreiras internacionais ao etanol do Brasil, além de sinalizar uma disposição dos norte-americanos em rever as políticas de comércio exterior entre os dois países.
Com diferenciais competitivos de alto valor agregado, o etanol brasileiro representa a possibilidade de distribuir ao mundo uma fonte limpa, sustentável e economicamente viável. Vale ressaltar ainda queo resíduo do processo das usinas sucroalcooleiras ainda reforça a matriz energética brasileira, com a possibilidade de gerar energia elétrica, por meio do bagaço e da palha da cana-de-açúcar.

Os pontos positivos do etanol do Brasil despertam ainda o interesse de países como Japão, Suécia, Arábia Saudita, Holanda, Alemanha, México e Estados Unidos. Neste ano, as usinas brasileiras receberam diferentes delegações internacionais, que vieram conhecer o processo produtivo aplicado na área agrícola e industrial. Exemplo deste potencial e reconhecimento foi à distribuição para a Suécia, em julho, do primeiro embarque de etanol com a verificação de importantes critérios de sustentabilidade. A operação comercial foi resultado de um contrato pioneiro firmado entre as usinas brasileiras Alcoeste, Cosan, Guarani e NovAmérica com a empresa sueca Sekab – a maior compradora de etanol brasileiro na Europa.

O acordo demonstrou a iniciativa das companhias envolvidas no contrato em dar um primeiro passo para um processo de melhoria contínua para atender a um dos mais exigentes consumidores do mundo. É importante notar que as usinas foram capazes de atender às exigências do consumidor europeu sem alterar práticas correntes de operação.

Todos esses atributos do etanol brasileiro devem ser valorizados não apenas na Conferência Internacional sobre Biocombustíveis, mas principalmente no dia-a-dia do nosso presidente Lula – caso queira continuar ressaltando nossas potencialidades.

No momento em que se encontra a economia atual, serão necessários fortes investimentos no setor para que ele não perca a competitividade e seu desempenho frente ao mercado externo.
A morosidade na homologação e repasse dos recursos financeiros por parte do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) irá implicar tanto descrédito como baixa contribuição para a economia nacional.

Um dos pontos mais carentes de investimento do governo está na ampliação da matriz energética nacional por meio do setor sucroalcooleiro. Com a crescente demanda do País por energia elétrica, as usinas surgem como importante alternativa para garantir o desenvolvimento e equilíbrio brasileiros na cogeração de energia.

Além de ser renovável, a energia produzida pelo bagaço e palha da cana-de-açúcar tem a virtude de ampliar o fornecimento de eletricidade justamente num período de escassez de chuvas, quando os reservatórios das hidrelétricas e represas alcançam seus níveis mais baixos. Caso houvesse incentivo do governo, as usinas brasileiras poderiam gerar energia equivalente a hidrelétrica de Itaipu.

Com os devidos repasses, o setor ganha fôlego para dar andamento aos projetos de construção, ampliação e manutenção das usinas, além de gerar novas e boas oportunidades de comércio no exterior e no País. O governo federal também sai ganhando, porque pode potencializar sua liderança regional e global e firmar-se como exportador de know-how e tecnologia de produção.

(Gazeta Mercantil/Caderno A – Pág. 3) PEDRO MIZUTANI* – Vice-presidente geral da Cosan )

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ANP quer investir em pesquisas na área de biodiesel

Patrick Cruz, de São Paulo
05/01/2009

A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) pretende usar em 2009 parte de sua dotação para pesquisa também em projetos de biodiesel. A intenção da ANP é acelerar o processo de redução da dependência que o Brasil ainda tem da soja para a produção do biocombustível.
Entre os focos das pesquisas estará o uso do pinhão-manso com matéria-prima. “Ele não é usado para nada, não serve como alimentação nem disputa área com os alimentos”, diz Edson Silva, diretor de abastecimento da ANP. “O que o pinhão-manso precisa é escala”.

Por lei, as empresas petroleiras destinam à agência 1% da receita com a exploração de grandes campos. Os recursos são reservados para projetos de pesquisa e desenvolvimento na área de combustíveis. Metade dessa verba é utilizada em projetos de pesquisa desenvolvidos pelas próprias companhias. A outra metade destina-se a estudos que têm universidades e institutos de pesquisa à frente.
Hoje, apenas projetos ligados à cadeia petrolífera têm sido financiados por essa verba, segundo Silva. “Mas não há impedimento para o uso dos recursos também no biodiesel. A agência é de petróleo, gás natural e biocombustíveis”, diz. Em 2008, o 1% recolhido pela ANP representou cerca de R$ 950 milhões.

O programa brasileiro de biodiesel surgiu com a bandeira de incentivo à adoção da mamona como matéria-prima, alternativa então tida pelo governo como a ideal para a participação da agricultura familiar na recém-nascida indústria. No entanto, a baixa produtividade e a produção concentrada na agricultura de pequena escala mantiveram as usinas afastadas da oleaginosa. A própria ANP editou em 2008 uma resolução em que considerou a viscosidade da mamona imprópria para a produção de biodiesel sem a adição do óleo de outras matérias-primas.

A redução da dependência da soja, matéria-prima de mais de 70% da produção nacional de biodiesel, é um dos dois desafios do setor neste ano, avalia Silva. “É natural que a soja tenha surgido como fonte principal: ela tem uma estrutura bem montada, profissional e tem escala, mas precisamos diversificar as matérias-primas”.

O segundo desafio, diz o executivo, é o da redução dos custos. O recurso exigido para a produção de um litro de biodiesel é mais alto que o de um litro de diesel convencional. “Mas é um preço que, acredito, a sociedade está disposta a pagar. O biodiesel é um combustível renovável, agride menos o meio ambiente – o que pode reduzir os gastos do Estado com saúde – e, por ser produzido aqui, diminui nossa dependência do diesel importado”, disse. “O custo não pode inibir o aumento do percentual de adição obrigatória”.
No dia 1º de janeiro, a mistura compulsória de biodiesel com diesel à base de petróleo completou um ano. Com obrigatoriedade inicialmente estabelecida em 2%, a adição passou a 3% em julho, embora a indústria tenha mantido a expectativa de elevação para 5% ainda em 2008. O cronograma prevê elevação a esse patamar apenas em 2013.

De forma surpreendente, avalia Silva, os maiores entraves do programa ocorreram na primeira metade do ano, quando ainda vigorava a mistura de 2%. “Os seis primeiros meses foram razoáveis. Não houve problemas de abastecimento, mas de entrega e de pagamento. O programa era muito recente e o mercado ainda estava se adaptando a ele”.
No primeiro semestre, foi necessária a realização de quatro dos chamados leilões de segurança – diferentemente dos leilões convencionais, realizados pela ANP, os de segurança são feitos pela Petrobras para recomposição de estoques. No segundo semestre, apenas duas dessas rodadas adicionais foram exigidas, afirma Silva.

Já em seu primeiro ano, o uso obrigatório de biodiesel no Brasil foi marcado também pelos problemas financeiros da Agrenco e da Brasil Ecodiesel, então a maior empresa do setor no país. “No começo houve uma canibalização de preços muito grande. Não é juízo de valor, mas uma constatação: quem foi mais arrojado se deu pior e as mais cautelosas, muitas vezes, até anteciparam entregas”, disse. Apesar dos problemas, no intervalo de 12 meses, o número de usinas autorizadas a operar passou de 43 para 62 e a capacidade instalada do setor cresceu de 2,42 bilhões para 3,76 bilhões de litros.

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Caixa só financiará quem usa madeira legal

SÃO PAULO, 2 de janeiro de 2009 – A partir de hoje, a Caixa Econômica Federal vai exigir o uso de madeira de origem comprovada nos empreendimentos imobiliários que for financiar. Acordo entre a Caixa, o Ministério do Meio Ambiente e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) pretende coibir o uso de madeira ilegal, geralmente retirada em desmatamentos na Amazônia.
Nas construções imobiliárias, há utilização de grandes quantidades de madeira em andaimes, forros e esquadrias, por exemplo.

A Caixa vai incluir nos contratos firmados com as construtoras um cláusula que torna obrigatória a apresentação do Documento de Origem Florestal (DOF) – documento virtual que comprova a origem, a quantidade e finalidade da madeira consumida. A regra não vai atingir pessoas físicas que financiem material para compra ou reforma de imóveis.

De acordo com o Ibama, o DOF garante que a madeira tem origem em desmatamentos autorizados – quando proprietários de terra derrubam os 20% de sua propriedade a que têm direito, no caso da Amazônia – ou de manejos florestais – quando apenas as grandes árvores de valor comercial são retiradas da floresta.

O instituto vai treinar funcionários da Caixa para consulta ao Sistema DOF para que tenham acesso à informações da madeira usada pelas construtoras. Para as empresas, a orientação é procurar uma das unidades do Ibama nos estados para inscrição ou regularização em um cadastro federal para movimentação de madeiras.

Até 30 de junho, a ação terá caráter educativo, segundo a Caixa. Após essa data, as empresas que não apresentarem os documentos não terão acesso a novos financiamentos do banco e serão investigadas pelo Ibama.

As informações são da Agência Brasil.
(Redação – InvestNews)

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Vereadores aprovam a criação de taxa ambiental

RIBEIRÃO PRETO, 30 de dezembro de 2008 – A Câmara de Ribeirão aprovou ontem, em sessão extraordinária, a criação de uma taxa de análise e licenciamento ambiental. A taxa vai ser cobrada pela prefeitura dos empreendimentos que ofereçam baixo impacto ambiental e cujos licenciamento e fiscalização dependam do município.

O valor da taxa varia de 10 a 30.000 Ufesps (Unidades Fiscais do Estado de São Paulo), segundo o grau de complexidade das atividades do empreendimento, o que vai exigir maior ou menor número de técnicos da prefeitura envolvidos na análise de pedidos de licenciamento. A Ufesp vale R$ 14,88.
Já as regras sobre como a cobrança será feita vão ser estabelecidas só no próximo ano, por exigência dos vereadores. Gilberto Abreu (PV) apresentou emenda exigindo que a administração crie uma tabela apontando os valores das taxas de acordo com os tipos de empreendimento. Também ficou garantido que todo valor arrecadado seja destinado ao Fundo Municipal do Meio Ambiente, existente desde 2004. “Nós precisamos aprovar a criação da taxa este ano para que ela possa ser cobrada no próximo.”

Segundo o convênio celebrado entre a prefeitura e a Secretaria de Estado do Meio Ambiente neste mês, passarão a ser licenciados pelo município e não mais pela Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental) empreendimentos como fábricas de sorvetes, biscoitos e calçados, além de serralherias.
Já entre as licenças que eram emitidas pelo DEPRN (Departamento Estadual de Proteção aos Recursos Naturais), passam para o município as obras de ampliação de vias urbanas, desassoreamento de córregos e lagoas, construção e ampliação de pontes e implantação de corredores de transporte. (Folha de S.Paulo)

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Energia sustentável movimenta canaviais

SÃO PAULO, 26 de dezembro de 2008 – O aumento do consumo de etanol em veículos leves bicombustíveis (flex fuel) e o crescente uso do bagaço e da palha na geração de energia imprimem nova configuração à matriz energética brasileira. A cana-de-açúcar e seus co-produtos são a segunda fonte de energia no País e representam 16% da oferta, atrás apenas do petróleo.

Apesar dos efeitos da crise financeira internacional sobre o setor, a produção de cana-de-açúcar deverá continuar aumentando. Espera-se que a safra 2009/2010 seja mais alcooleira, com a cana sendo destinada, principalmente, para a produção de etanol hidratado. As novas unidades que entram em operação no próximo ano vão produzir mais etanol e o desempenho da indústria automotiva continuará aquecido. Para os brasileiros o etanol hidratado deverá ser a melhor alternativa de combustível em detrimento da gasolina. 

De acordo com Alexandre Strapasson, diretor do Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), o interesse pela produção de energia renovável por meio da agricultura influenciou o setor agropecuário, porém a área utilizada ainda é pequena perto da disponibilidade de terras no Brasil. Atualmente, a cana-de-açúcar ocupa 8,4 milhões de hectares, menos de 1% do território nacional, enquanto a pecuária abrange mais de 170 milhões de hectares. “O aproveitamento dos co-produtos da cana como o bagaço e a palha estão sendo pesquisados como fonte de celulose para a produção de etanol de 2ª geração, além de papel, polímeros, ração animal e outros produtos. As usinas se transformarão em biorefinarias geradoras de açúcar, etanol, eletricidade, produtos de alcoolquímica e créditos de carbono”, disse Strapasson.

Strapasson informou ainda que as exportações de etanol deverão alcançar cerca bilhões de litros em 2008 contra os 3,5 bilhões de 2007. (Redação – InvestNews)

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Mudanças climáticas

6/01/09

Termelétricas vão triplicar a emissão de CO2

Daniel Rittner, de Brasília
06/01/2009

Na contramão dos esforços para minimizar o aquecimento global, as emissões brasileiras de gases do efeito estufa a partir da geração de energia elétrica vão praticamente triplicar nos próximos dez anos. Mesmo com a entrada em funcionamento das usinas do Rio Madeira (Santo Antônio e Jirau) e de Belo Monte, a participação da fonte hídrica na matriz elétrica nacional cairá de 85,9% no início de 2008 para 75,9% em 2017, segundo o Plano Decenal de Energia (PDE), em consulta pública desde 23 de dezembro.

 

Senadora Marina Silva: O plano está em contradição com as metas internas de redução do desmatamento

Senadora Marina Silva: O plano está em contradição com as metas internas de redução do desmatamento

 

 

O plano aponta a necessidade de expandir a capacidade instalada dos atuais 99,7 mil para 154,7 mil megawatts (MW) e garante que isso é suficiente para afastar o risco de déficit no abastecimento. Mas deixa claro que o país continuará dependendo de mais energia cara e poluente se quiser livrar-se dos fantasmas de apagões. Para atender ao crescimento da demanda, será necessário acrescentar 81 termelétricas ao sistema interligado – 41 movidas a óleo combustível, 20 a diesel, 8 a gás natural, 7 a biocombustíveis e 4 a carvão. Elas deverão gerar 13.685 MW, excluindo a usina nuclear de Angra 3, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), estatal do Ministério de Minas e Energia encarregada de planejar o setor.

As novas térmicas despejarão na atmosfera 39,3 milhões de toneladas de CO2 em 2017 – um aumento de 172% em relação ao valor das emissões de 2008, estimadas em 14,4 milhões de toneladas. “O plano está em contradição com as metas internas de redução do desmatamento”, afirma a senadora Marina Silva (PT-AC), ex-ministra do Meio Ambiente, referindo-se a um dos objetivos do Plano Nacional sobre Mudança do Clima, lançado em dezembro.

As queimadas de florestas são responsáveis por cerca de três quartos das emissões brasileiras de gases causadores do efeito estufa e o governo espera diminuir o desmatamento da Amazônia em mais de 70% até 2017. A participação do setor elétrico continuará sendo minoritária no total de emissões, mas a entrada em operação de tantas usinas térmicas será mais do que suficiente para eliminar os ganhos ao meio ambiente com a adoção do biodiesel, por exemplo. A mistura de 3% do biocombustível ao diesel convencional evitará o despejo de 62 milhões de toneladas de dióxido de carbono ao longo dos próximos dez anos, mas esse esforço será perdido com o funcionamento das termelétricas por apenas um ano e sete meses.

O plano prevê mais 71 usinas hidrelétricas até 2017, mas a própria EPE indica que 26 delas têm “potencial identificado de atraso superior a seis meses” na execução do projeto. Esses empreendimentos “deverão ser objeto de maiores esforços e ações mais intensas para a sua viabilização, sem que essa classificação signifique impossibilidade de atendimento das datas do plano”. As hidrelétricas vão expandir em 28.938 MW – o equivalente a duas Itaipus – a potência instalada do parque gerador.

Para a ex-ministra, a área ambiental não pode servir de “bode expiatório” para o aumento das térmicas. Marina atribui o crescimento da produção de energia por fontes mais poluentes a falhas no planejamento do setor elétrico. Segundo ela, metade dos projetos de hidrelétricas listados no plano decenal não tem estudos de viabilidade técnica e econômica (EVTE) e “alguns sequer estão inventariados”. “Desses projetos, apenas cinco estão em processo de análise pelos órgãos ambientais: Ipueiras (no Rio Tocantins) já foi rejeitada pelo Ibama e outras quatro usinas que somam 313 MW aguardam a licença prévia. Precisamos acabar com a lenda de que é do setor ambiental a culpa pelo aumento das térmicas”, protesta Marina.

O diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Jerson Kelman, lamenta a perda de qualidade da matriz brasileira. Sem atribuições de planejamento, ele elaborou uma estimativa a partir do resultado dos últimos leilões de energia. O número de térmicas com contrato de fornecimento saltará de 14 em janeiro de 2008 para 63 em janeiro de 2013. Para fazê-las funcionar por um mês inteiro, o que é comum nos períodos de estiagem para preservar o nível dos reservatórios, as emissões de gases do efeito estufa vão subir de 186 mil toneladas para 4 milhões de toneladas de CO2 equivalente.

Comparativamente à maioria dos países ricos e em desenvolvimento, o Brasil ainda não faz tão feio. Nos Estados Unidos, o campeão das emissões, a produção de eletricidade gera 2,5 bilhões de toneladas por ano de dióxido de carbono. Em 2017, mesmo com a proliferação das térmicas, o Brasil emitirá no setor elétrico apenas 20% dos gases despejados na atmosfera pela África do Sul e 64 vezes menos que os EUA.

Marina sugere a maior aposta na energia eólica para manter a qualidade da matriz. Hoje os ventos são responsáveis por somente 0,3% da geração total de energia no país, ou 219 MW, e vão chegar a 0,9% em 2017. Marina sublinha, porém, que o aproveitamento ainda é muito baixo diante do potencial brasileiro.
Kelman diz que a energia eólica é cara e inconstante, pois não pode ser armazenada sequer por algumas horas, e não permite ao operador do sistema trabalhar com previsibilidade. Também acha “irrisório” o efeito de uma estratégia insistentemente defendida por ONGs ambientalistas: a repotenciação das hidrelétricas existentes.

O diretor-geral da Aneel, que deixa o cargo na próxima semana, aponta a eficiência energética como uma das áreas em que se podem colher resultados. As perdas totais são de 17% de toda a eletricidade produzida no Brasil.

Kelman divide essas perdas em três segmentos. O desperdício na rede básica de alta tensão (as grandes linhas de transmissão) chega a 4% – número elevado em comparação com países europeus, mas que ele considera baixo levando em conta a dimensão do território nacional. Já as perdas na distribuição alcançam 7% – menos do que muitos emergentes, mas índice bastante alto em relação aos países desenvolvidos, segundo ele. Kelman indica que o custo-benefício de reduzir significativamente esse desperdício pode ser desvantajoso. “Para chegar à perda zero, poderíamos fazer fios de ouro (condutores perfeitos de energia) na distribuição, mas isso levaria a tarifa a níveis inimagináveis”, afirma.

De acordo com ele, o mais viável é combater as perdas que correspondem a 6% da geração total de energia: os furtos de eletricidade. Kelman lembra que consumidores que roubam energia, além de aumentar o custo do produto para todos os usuários regulares, tendem a gastar mais eletricidade. “Se por um passe de mágica conseguíssemos que os brasileiros parassem de furtar energia, reduziríamos em 2,4% o consumo no país. Isso as ONGs não costumam mencionar porque desconhecem a realidade brasileira.”

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02 de Janeiro de 2009.

A perspectiva de longo prazo

Ban Ki-Moon

“Durante 2009 é preciso que atuemos num espírito de solidariedade global. As medidas que tomarmos para fazer frente à crise financeira precisam atender aos interesses de todos os países, tanto dos mais pobres quanto dos mais ricos e poderosos”

O próximo ano [2009] será uma narrativa de tensão: uma série de escolhas difíceis entre os imperativos do presente e os do amanhã. Como resolveremos essa tensão dará a medida de nossa visão e nossa liderança.

Como comunidade de nações, enfrentamos três provas imediatas. A primeira já começou. Não é a crise financeira global, por mais importante ela seja. Eu me refiro às mudanças climáticas, a única ameaça verdadeiramente existencial.

Temos apenas 12 curtos meses até a cúpula crucial em Copenhague, onde os líderes mundiais vão se reunir em dezembro para chegar a um acordo para reduzir o processo de aquecimento global. Precisamos de um acordo que amplie, aprofunde e fortaleça o Protocolo de Kyoto. Precisamos de um novo tratado para o século 21 que seja equilibrado, inclusivo e abrangente -e um que possa conquistar a adesão de todos os países.

Demos um passo importante em Poznan, Polônia, onde ministros e especialistas da área climática se reuniram para traçar um plano de trabalho para o futuro. As negociações foram difíceis. Elas prometem se tornar ainda mais difíceis. Alguns dos participantes argumentaram que não podemos nos dar ao luxo de tratar de mudanças climáticas em meio a nossas dificuldades atuais. Eu afirmo que não podemos nos dar ao luxo de deixar de fazê-lo.

Nossa segunda prova é econômica. Está claro que precisamos de um estímulo global. As grandes economias responderam à crise atual com ambiciosos planos de resgate fiscal e monetário. A cúpula emergencial do G-20, em novembro, mostrou que os governos estão cooperando para coordenar suas políticas. Esses esforços foram ampliados numa reunião mais recente em Doha.

Tudo isso é bem-vindo. Mas precisamos fazer mais. Sobretudo, precisamos pensar em termos novos e ousados. Se quisermos sair da crise financeira gastando, devemos fazê-lo de maneira inteligente. E isso significa que esses gastos precisam ser investimentos. Eles precisam ser sustentáveis, para que não nos limitemos a destinar dinheiro para resolver problemas mas, em lugar disso, utilizemos esses recursos para deitar as bases de um futuro mais estável e próspero.

Liderança chinesa

A China deu provas de liderança. Um terço de seu recentemente anunciado programa de estímulo econômico de US$ 586 bilhões será canalizado para o crescimento verde e a infra-estrutura. Os chineses aproveitaram uma oportunidade para fazer frente a vários desafios simultaneamente: gerar empregos, conservar a energia e combater as mudanças climáticas. Os EUA, sob Barack Obama, pretendem fazer o mesmo.

Esses formuladores de políticas públicas sabem que o investimento em combustíveis alternativos e tecnologias que não agridam o ambiente trarão recompensas futuras maciças em termos de um ambiente mais seguro, independência energética e crescimento sustentável.

Mas eles também sabem que o investimento verde pode gerar empregos e incentivar o crescimento aqui e agora. Outros países deveriam seguir esse exemplo. Não conseguiremos introduzir uma era de prosperidade sustentável sem um impulso global grande, que inclua todos os países. Se alguma vez houve um momento para uma visão ousada e ambiciosa -a oportunidade de traçar um caminho novo e melhor-, esse momento é agora.

Nossa terceira prova é uma questão de princípios pragmáticos. As mudanças climáticas e as finanças globais não são nossas únicas crises. Elas vêm agravar outras ameaças: insegurança alimentar, volatilidade nos mercados de energia e commodities, e a terrível persistência da pobreza. Nenhum país foi poupado. Mas são os mais pobres que sentem esses golpes com mais força.

Se não for corretamente tratada, a crise financeira de hoje se tornará a crise humana do amanhã. A turbulência social e a instabilidade política vão crescer, exacerbando todos os outros problemas. O perigo é que ocorra uma série de crises em cascata, cada uma delas surgindo a partir da anterior, com consequências potencialmente devastadoras para todos.

Assim, durante 2009 é preciso que atuemos num espírito de solidariedade global. As medidas que tomarmos para fazer frente à crise financeira precisam atender aos interesses de todos os países, tanto dos mais pobres quanto dos mais ricos e poderosos. Os programas de assistência a países em desenvolvimento devem ser vistos como parte de qualquer plano de estímulo global e recuperação econômica de longo prazo.

Metas do Milênio

No mínimo, isso significa não usar a crise financeira como desculpa para reduzir a ajuda internacional e a assistência ao desenvolvimento. Precisamos honrar os compromissos que assumimos sob as Metas de Desenvolvimento do Milênio, vendo-os como responsabilidade pragmática, além de moral.

Neste mundo interconectado, o desafio é enxergar o nexo entre esses três conjuntos de problemas. Com visão, encontraremos soluções para cada um que sejam soluções para todos. Mas será preciso liderança para traduzir essa visão em ação, assim como será preciso liderança para contrabalançar nossos interesses maiores de longo prazo com as urgências acirradas do agora.
(Tradução de Clara Allain)

Ban Ki-Moon é secretário-geral das Nações Unidas. Artigo distribuído pelo Project Syndicate e publicado na “Folha de SP”.
(Folha de SP, 2/1)

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23/12/2008 – 12h13

UE e Brasil assinam tratado para reduzir aquecimento global

da Lusa, no Rio de Janeiro

Brasil e União Européia (UE) vão trabalhar em conjunto para enfrentar a crise financeira internacional e tentar alcançar um “resultado ambicioso e global” até 2009, em relação às mudanças climáticas.

Estes foram os dois principais pontos acordados na declaração final da 2ª cúpula Brasil-UE, que ocorreu nesta segunda-feira no Rio de Janeiro com a presença dos Presidentes do Brasil e da França, Lula e Nicolas Sarkozy, e do Presidente da Comissão Européia, José Manuel Durão Barroso.
Lula comprometeu-se a reduzir o desmatamento de florestas do Brasil em 71% até 2017, em relação aos valores registrados entre 1996 e 2005.

“O Plano Brasileiro sobre Mudanças Climáticas pretende fazer o que eu considero revolucionário. Até 2020 queremos reduzir o desmatamento em até 80%”, disse.
Segundo o presidente brasileiro, esta meta representa menos 4,8 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa emitidos na atmosfera.

Para o presidente francês, que ocupa ainda a Presidência do Conselho da União Européia, é muito importante o compromisso do governo brasileiro com objetivos quantitativos de redução do desmatamento.
Os políticos assumiram também o compromisso de promover o uso de energias renováveis, principalmente os biocombustíveis.

As duas partes reconheceram ainda a necessidade da reforma da arquitetura financeira global, com regimes regulatórios e institucionais dos mercados, e acertaram levar uma posição comum para a cúpula do G20, que irá ocorrer em Londres, em abril de 2009.
Brasil e UE lamentaram a impossibilidade de concluir este ano a Rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio e manifestaram a sua disposição em relançar estas negociações e também as referentes a um acordo comercial entre UE e Mercosul.

Ambas as partes concordaram também sobre a necessidade da reforma dos principais órgãos das Nações Unidas, incluindo o Conselho de Segurança e a Assembléia Geral.
Brasil e UE trabalharão igualmente para o cumprimento das metas do milênio, reconhecendo que a erradicação da fome e da pobreza é um dos maiores desafios deste século.

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A era da accountability socioambiental

6/01/09

São Paulo, 16 de Setembro de 2008 – O que um pequeno produtor brasileiro, uma grande rede varejista norte-americana, um consumidor e um ativista europeu podem ter um comum? No antigo paradigma de fazer negócios, pouca coisa. Mas no novo estágio de accountability socioambiental, defendido pelo economista norte-americano Michael Conroy, esses agentes nunca estiveram tão próximos. O autor de “Branded – How the certification revolution is transforming global corporations” (Marcado! – Como a revolução das certificações está transformando corporações globais, que será lançado no Brasil em outubro) defende que a adoção de sistemas de certificação representa uma nova fase na responsabilidade social corporativa.

“A certificação é, a meu ver, a base a partir da qual se pode saltar do estágio da responsabilidade social corporativa para o que chamo de accountability socioambiental. (…) A verificação de uma terceira parte independente, faz com que a companhia se comprometa com padrões negociados pelas várias partes interessadas”, ressalta.

Em entrevista exclusiva a repórter Juliana Lopes, de Idéia Socioambiental, Conroy avaliou as conquistas e avanços necessários em relação aos mecanismos de adesão voluntária.

Idéia Socioambiental – Como e por que as certificações estão revolucionando as corporações globais?

Michael Conroy – O que chamo de revolução das certificações está tomando forma por causa de três fatores. O primeiro consiste na realização de campanhas de marketing pelas organizações da sociedade civil para convencer as companhias a aumentar seus padrões sociais e ambientais. Segundo, a criação dos sistemas de certificação, como o do Marine Stewardship Council (MSC), o Forest Stewardship Council (FSC) e o Fairtrade (comércio justo). No passado, tivemos várias campanhas para as empresas mudarem suas práticas, mas não havia consenso entre os ativistas sobre qual direção elas deveriam tomar. Um sistema de certificação com a participação dos representantes de ONGs cria uma série muito clara de metas e alvos para as mudanças de hábitos que se quer ver nas corporações. Já o terceiro fator refere-se ao fato de que, dentro das companhias, quase sempre existe uma pessoa que se torna um campeão em altos padrões, alguém que lidera a empresa nesse caminho. Conheço poucos exemplos de grandes corporações com práticas mais sustentáveis sem um líder interno que acredita que a empresa pode se tornar mais lucrativa sendo mais responsável.

IS – As certificações contribuíram para aproximar a responsabilidade social da estratégia do negócio? Como?

MC – A certificação é, a meu ver, a base a partir da qual se pode saltar do estágio da responsabilidade social corporativa para o que chamo de accountability socioambiental. Penso que tenham existido três momentos diferentes na história da responsabilidade social corporativa. No século 19, companhias como a Standard Oil, criada por John D. Rockefeller, seguiam princípios de responsabilidade porque a sua fé religiosa os conduzia nessa direção. A responsabilidade corporativa do século 19 se baseava nos compromissos discursivos de um líder que não seguia nem mesmo o que pregava. No século 20, começa a emergir uma nova forma de RSC a partir do momento em que empresas criam padrões mais elevados. Vale lembrar, como marco, o desastre de Bophal, na Índia, na década de 1980, quando a refinaria da Union Carbide explodiu e matou milhares de pessoas. A partir desse episódio, a indústria química criou um programa transversal, chamado Atuação Responsável (Responsible Care). A associação das indústrias químicas estabeleceu novos padrões, o que se convencionou classificar como certificação de segunda parte ou garantia da segunda parte. Só que não havia responsabilização para as companhias que não seguissem esses princípios. A novidade no século 21 é que as certificações constituem a verificação de uma terceira parte independente, comprometendo a companhia com os padrões que são negociados por todos os públicos de interesse.

IS – O senhor acredita que as certificações impulsionaram parcerias entre o setor privado e organizações não-governamentais?

MC – Claro. Quando a empresa desiste de resistir às campanhas públicas contra ela, acaba encontrando nas ONGs um apoio para rever, por exemplo, suas cadeias produtivas. Há dois tipos de ONGs: as que apenas executam campanhas de propaganda contra alguma empresa e outras, como a WWF, que preferem ajudar as companhias a resolverem os problemas de cadeia produtiva ou facilitar a compra de madeira certificada e a criação de um mercado para esse produto. Ambas as estratégias são importantes: pressionar as empresas e ajudá-las a resolver os seus problemas.

IS – Quais são os principais fatores que levam as empresas a buscar certificações? Por quê?

MC – Cada vez mais as empresas tem buscado a certificação por vontade própria. Dou o exemplo da maior companhia de café dos Estados Unidos, a Green Mountain Coffee Roasters. É uma empresa de médio porte, que fica na região da Nova Inglaterra e já foi apontada pela CRO Magazine (Corporate Responsability Organization) como a mais ética dos EUA. Esse é um exemplo de empresa que não precisou de campanha contrária para ver nas ceritficações uma forma de validar suas práticas e gerar segurança para os clientes. No entanto, a maioria ainda toma a decisão como resposta a alguma campanha pública contra sua marca. Muitas se vêem forçadas pela pressão externa a rever eventuais práticas irresponsáveis em sua cadeia produtiva. Vejo como fator importante também a ação das empresas líderes. Ao adotarem um sistema de certificação, elas acabam forçando as concorrentes a pegarem a mesma estrada. São, portanto, indutoras de mudança. Se as grandes mudam, as pequenas também precisam mudar, até por razões de competitividade. Se só uma empresa se adapta a padrões éticos mais altos, a preocupações ambientais e ao rastreamento dos produtos, isso encarece o produto e torna a competição com os concorrentes muito difícil. Para serem bem-sucedidas, as certificações precisam transformar gradualmente todo segmento, evitando a competição injusta.

IS – Como o senhor avalia o avanço das certificações nos países em desenvolvimento?

MC – Na conferência da ONU sobre comércio e desenvolvimento, por exemplo, algumas nações mostraram-se preocupadas com as certificações voluntárias alegando que elas poderiam aumentar o custo de sua produção, prejudicando a sua competitividade. Mas começam a perceber que estão perdendo a oportunidade de mercado para novos produtos com maior valor agregado. Além disso, não encontram credibilidade para seus próprios critérios nos mercados internacionais.

No Brasil, existe uma companhia chamada Bom Dia, cujo principal produto é o Café Bom Dia. Há anos a empresa vinha tentando crescer no mercado internacional associando o café e a marca à responsabilidade socioambiental. A partir do momento em que passou a ser certificada com o Fairtrade, conquistou a confiança de um dos maiores compradores nos Estados Unidos, o Sam’’s Club, agora Wal-Mart. E agora, além do reconhecimento nos EUA, expandiu os negócios e está exportando até açaí.

IS – Qual o papel de grandes companhias na promoção de mercados sustentáveis?

MC – A partir de uma campanha lançada em 2005 contra o Wal-Mart, a rede – pelo menos nos EUA – está mudando dramaticamente a responsabilidade empresarial das suas cadeias de fornecedores. Não há duvida que empresas muito grandes como o Wal-Mart têm poder considerável sobre seus fornecedores. Essa é outra dimensão da revolução das certificações. Antes eram os fabricantes que mantinham esse poder e podiam vender qualquer coisa para os consumidores com propaganda. Agora, os revendedores são os que têm o poder e podem especificar o que querem do produto.

IS – Em que setores as certificações enfrentam mais dificuldades para avançar?

MC – Os padrões trabalhistas têm sido decepcionantes.

No livro, cito o caso da Nike, que, em 1996, recebeu denúncias de jornadas exaustivas de trabalho e exploração de mão-de-obra infantil em fornecedores mundiais. E termino com a discussão sobre as mudanças promovidas pela companhia depois desse episódio. Diante dos danos causados pela crise à sua reputação, a Nike adotou padrões trabalhistas e sistemas de monitoramento que excedem as exigências da FLA – Fair Labor Association (Associação de Trabalho Justo). A companhia estabeleceu um departamento de responsabilidade social composto por 85 profissionais para monitorar as condições sociais e ambientais dos seus fornecedores. No entanto, esses esforços não foram suficientes para produzir mudanças significativas. Em 2003, Richard Locke, professor do MIT, analisou os processos da Nike. Depois de avaliar o sistema interno de “compliance rating”, Locke e sua equipe descobriram que as condições de trabalho em quase 80% dos fornecedores se mantiveram iguais ou até mesmo pioraram. Como estabelece um desempenho médio, o sistema permite que algumas fábricas estejam em total atendimento ao Código de Ética da companhia, enquanto outras apresentam sérios problemas como baixos salários e jornadas de trabalho exaustivas. A ausência de certificação trabalhista nos segmentos de vestuário e calçados potencializa as críticas e possíveis danos a reputação e performance financeira das empresas.
(Gazeta Mercantil/Caderno A – Pág. 14)(Revista Idéia Socioambiental)

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O exercício de criar um futuro sustentável

6/01/09

30 de Setembro de 2008 – Parece haver um consenso entre especialistas de que as universidades ainda não estão preparando profissionais em quantidade e com competência suficiente para enfrentar os desafios globais da sustentabilidade. Prova disso é que os mais brilhantes cérebros da atualidade não têm conseguido desenvolver modelos econômicos, políticos e científicos eficientes para a solução de questões complexas como, por exemplo, as mudanças climáticas ou as desigualdades sociais.

Segundo Jane Nelson, diretora do Centro de Iniciativa para Responsabilidade Social Empresarial da Universidade de Harvard, o sistema formal de ensino não evolui na mesma velocidade com que ocorrem as mudanças na sociedade. “Há cerca de seis anos, o aquecimento global não tinha o destaque de hoje. Foi só nos últimos dois anos que o mundo acordou para o problema. Mas a maioria das universidades ainda não dispõe de programas de pesquisa e aulas voltadas para as mudanças climáticas. Não há especialistas suficientes para dar conta dessa tarefa porque se trata de um campo totalmente novo. Cientistas, políticos e empresários estão tendo que aprender à medida que trilham o caminho”, ressalta Jane.

As instituições de ensino não estão sozinhas nesse desafio. Formar profissionais capacitados para enfrentar os desafios da sustentabilidade é uma tarefa a ser compartilhada com as empresas. No entanto, há uma confusão acerca do papel de cada um desses segmentos da sociedade e sobre como eles podem unir esforços na formação dos indivíduos. Esta é a opinião de Ricardo Young, presidente do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social.

“As organizações entendem que precisam ser espaços de aprendizado permanente, produtores de saberes e de inteligência. Por isso, criam suas universidades corporativas. Do outro lado, as universidades refletem sobre a sua função na sociedade e chegam à conclusão de que precisam formar pessoas para o mercado. Aí o que elas fazem? Tecnicizam a educação e repassam a alma para a segunda ou terceira prioridade no processo educacional. Assim, temos um belo diálogo de surdos e mudos: empresas que querem aprender, buscando emular o papel da universidade e universidades que querem servir ao mercado emulando empresas e se despindo da sua função tradicional e educadora”, contextualiza Young.

No livro “Higher education and the challenge of sustainability” (Educação superior e o desafio da sustentabilidade, ainda sem tradução para o português), Peter Blaze Corcoran e Arjen E.J. Wals defendem que a sustentabilidade, mais do que assunto adicional no já sobrecarregado currículo, representa a oportunidade de abertura para uma visão diferente das disciplinas, da pedagogia, da mudança organizacional e, particularmente, da ética.
Jane, de Harvard, endossa a opinião dos dois autores. “As escolas de negócio e as empresas devem criar um sistema de ensino que favoreça a compreensão dos sistemas globais, desenvolva o pensamento sistêmico e a capacidade de reconhecer, identificar e valorizar a interdependência. Esse sistema precisa estimular o empreendedorismo, a inovação, a liderança e a convergência de saberes entre os diferentes segmentos da sociedade”, ressalta.

Transformação de modelos mentais

Como desencadear esse processo de mudança no ritmo exato com que se apresentam os desafios relacionados à sustentabilidade constitui um grande dilema para pesquisadores, especialistas e empresas.
Em busca de respostas, um grupo de pesquisadores da Society for Organizational Learning (SOL), entrevistou líderes de diferentes segmentos para saber que fatores determinaram, de modo específico, o seu aprendizado. A organização foi fundada pelo consultor Peter Senge, o famoso guru da gestão do conhecimento, como forma de dar continuidade aos trabalhos de aprendizagem organizacional iniciados no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

As conclusões desse estudo resultaram no livro Presença – Propósito humano e o campo do futuro, escrito a oito mãos por Peter Senge, Otto Scharmer, Joseph Jaworski e Betty Sue Flowers. Os especialistas perceberam que as grandes descobertas eram quase sempre conseqüência de um momento de introspecção e ruptura com padrões e pensamentos pré-concebidos.

“Após uma bateria de cerca de 150 entrevistas com executivos, pesquisadores e cientistas chegou-se à conclusão de que os grandes insigths de inovação na vida dessas pessoas estavam relacionados a um exercício radical de autoconhecimento e percepção, tarefa para a qual precisaram abrir mão do que já sabiam. Da sensação de colocar-se disponível surgiram novas formas de ação, novos produtos e abordagens para a própria empresa ou para uma teoria científica”, explica Maria Cristina d”Arce, coordenadora da Society for Organizational Learning Brasil.
Juntos, os autores criaram a chamada Teoria U que propõe uma fonte mais profunda de aprendizagem associada à capacidade de “presenciar”, isto é de sentir, de perceber intimamente e de se integrar ao objeto proposto pela mudança. Essa habilidade decorre de um estado de mente, coração e vontade francamente abertos para a possibilidade de aprender não apenas usando a experiência anterior, mas a partir da construção prática de uma visão de futuro.
“A transformação dos modelos mentais está na essência da Teoria U. Ela sugere o mergulho em um espaço muito profundo de percepção e a abertura para o futuro que deseja emergir. Isso não é exatamente o que está no modelo mental, mas sim algo que decorre das descobertas proporcionadas pelo movimento de descida do U”, afirma Cristina d”Arce.

Na opinião dos criadores da Teoria U, enfrentar os desafios atuais exige das pessoas parar de “fazer download” de antigos padrões. Isso significa deixar de reafirmar julgamentos habituais para desacelerar e aprender a escutar de forma mais profunda, aberta e coletiva, a fonte suprema de toda a grande liderança – sua autoconsciência e autoconhecimento. “Em um mundo complexo, no qual a colaboração intersetorial e a inovação constituem fatores de sobrevivência, não existe liderança possível se não houver um profundo processo de autoconhecimento”, concorda Young, do Instituto Ethos.

A grande novidade da teoria não está, como pode parecer, no processo de introspecção individual, bastante comum nas diferentes tradições, mas na apropriação coletiva do objeto da mudança para alcançar a inovação social. Segundo Cristina, esse processo costuma se observar nas jornadas de aprendizagem, em que grupos de pessoas são convidados a refletir sobre uma determinada questão, tomando contato com a realidade e buscando respostas a partir de experiências e descobertas conjuntas.

“A mesa do escritório é o pior lugar para olhar o mundo. A experiência da descida do U precisa ser vivenciada em jornadas de aprendizagem. Por meio delas, mergulha-se em uma determinada realidade, sem julgamentos, convive-se com outras pessoas de modo que a inteligência que vai brotar não é individual, mas coletiva”, destaca Cristina.
“Depois de desacelerar, escutar e sentir, o próximo passo na descida do U é fazer o que chamamos de prototipar, que significa concretizar as possibilidades futuras, transformando intenções em ações. Quando a pessoa deixa de agir a partir do seu downloading, emerge um outro universo sobre o qual ela jamais tinha pensado. Assim o futuro surge a partir dela mesma”, afirma Cristina.

Teoria U nos negócios

Apesar de se escorar em métodos à primeira vista distantes da realidade de negócios, como, por exemplo a mentalização, a teoria U está longe de ser apenas filosófica. Na publicação “Adressing the blind spot of our time”, Otto Scharmer relata experiências de implementação da Teoria U em empresas ao redor do mundo.
A partir do aprendizado do U, corporações importantes estão buscando, por exemplo, formas de tornar a produção de alimentos mais sustentável. Carrefour, General Mills, Nutreco, Organic Valley Cooperative, Rabobank, Costco, US Food Service, Sysco, Unilever e a brasileira Sadia compõem o Sustainable Food Lab. O grupo conta ainda com o apoio da International Finance Corporation (IFC), ligada ao Banco Mundial, e de organizações não-governamentais como o World Wildlife Fund (WWF) e The Nature Conservancy para estimular inovações na cadeia produtiva de alimentos, o aumento da demanda por produtos sustentáveis, mudanças nos padrões de consumo e políticos.

A Shell também se utilizou de alguns elementos da teoria U em uma de suas unidades na Holanda. Lá, a planta industrial vinha enfrentando problemas em seu processo produtivo, atribuídos à implementação de um novo software SAP. Depois de uma série de entrevistas com os funcionários, percebeu-se que a origem dos problemas era, na verdade, o descontentamento com o clima organizacional. Ao invés de buscar novas metas especificamente de negócios, a corporação optou por criar um ambiente favorável ao aprendizado e à inovação. A mudança na cultura organizacional acabou sendo o elemento-chave para a melhoria dos indicadores de desempenho.

(Gazeta Mercantil/Caderno A – Pág. 14)(Juliana Lopes)

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