Mudanças climáticas

Estados Unidos e Brasil: de Copenhague a Genebra

Por Carlos A. Cavalcanti e Diego Z. Bonomo
27/04/2009

Para o Brasil, o risco iminente é a transferência do passivo ambiental dos EUA, estimulada pelos lobbies protecionistas

Os Estados Unidos voltarão à mesa de negociações para a construção do novo regime multilateral de combate às mudanças climáticas. A integração ao regime será traduzida por significativo esforço de descarbonização de sua economia por meio de mudanças na matriz energética e na adaptação do parque industrial. Ao Brasil, interessa acompanhar esse esforço e preparar-se para as oportunidades que serão abertas em iniciativas de cooperação bilateral, regional e multilateral, com ênfase na área de energia.

Três fatos recentes apontam para o rompimento da posição do governo Obama com aquela do presidente Bush. O primeiro foi o enunciado feito em seu discurso ao Congresso dos Estados Unidos: as prioridades do novo governo serão energia, educação e saúde. O presidente deixou claro, também, a meta de criar um mercado de carbono no país. O segundo foi a materialização dessas prioridades no orçamento enviado pela Casa Branca ao Legislativo. O terceiro foi a apresentação, pela senadora Barbara Boxer, presidente do Comitê de Meio Ambiente e Obras Públicas, de seis “princípios” que devem nortear a redação da lei que estabelecerá o novo regime americano de controle e redução de gases causadores do efeito estufa. Ação complementada por projeto de lei do deputado Henry Waxman, presidente do Comitê de Energia e Comércio da Câmara.

Há, portanto, clareza por parte do establishment político americano sobre a necessidade de descarbonização da economia do país, mesmo diante da crise econômica. Obama, em particular, crê que o esforço poderá traduzir-se na própria solução para a situação atual. Esforços de mudança na matriz energética criarão oportunidades de investimento e de geração de empregos. De forma complementar, a adoção de regime nacional de combate às mudanças climáticas, com a consequente adaptação do parque industrial doméstico, poderá permitir aos Estados Unidos assistirem a um rejuvenescimento de sua indústria, assim como à manutenção de seu edge tecnológico frente à União Europeia, ao Japão e às economias emergentes. O desejo final, quase utópico, é criar uma nova classe média de “colarinhos verdes”.

Embora a Casa Branca esteja disposta a implementar esse ambicioso plano, o Congresso deverá enfrentar longo e turbulento debate, sobretudo no que diz respeito à construção do regime nacional de combate às mudanças climáticas. Hoje, assim como no final da legislatura anterior, as posições encontram-se polarizadas. De um lado, estão os defensores do sistema de cap-and-trade, que criaria um mercado de carbono baseado no comércio de licenças. De outro, os apoiadores da carbon tax, isto é, da imposição de impostos que desestimulem a produção intensiva em carbono. Os críticos da primeira opção alegam que o sistema de cap-and-trade será demasiado oneroso para as indústrias intensivas em energia e carbono, constituindo-se em risco para a competitividade da produção americana. Já os opositores da segunda opção, afirmam que a criação de novos impostos resultará apenas na incorporação de custos pelas indústrias dos Estados Unidos sem efeito real positivo para o meio ambiente.

Para o Brasil, o risco iminente é o da tentativa de transferência dos custos do passivo ambiental americano, sobretudo quando estimulada pelos lobbies protecionistas. Em outras palavras, o risco de os EUA adotarem mudanças em sua matriz energética e na construção do regime nacional de combate às mudanças climáticas que afetem, de forma negativa, o comércio exterior e os investimentos brasileiros por meio da criação de novas barreiras tarifárias e não tarifárias.

De fato, o fortalecimento do regime multilateral de combate às mudanças climáticas terá de buscar sua harmonização com o sistema multilateral de comércio. Ainda não há clareza sobre como o tema das mudanças climáticas - e o da energia - poderão ser incorporados às regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), mas a política externa e comercial americana já os trata como pilares de uma estratégia comum. O novo mantra, que parece surgir tanto no Congresso, como no USTR, é composto por três elementos: energia, meio ambiente e padrões trabalhistas. Ao menos de Washington, as negociações multilaterais sobre mudanças climáticas que levarão a um potencial acordo em Copenhague, no final do ano, parecem relacionadas àquelas de Genebra, que determinarão o futuro da Rodada Doha, da própria OMC e do multilateralismo, de modo geral.

O governo e o setor privado brasileiros não devem temer a agenda de meio ambiente e padrões trabalhistas, antiga demanda do governo Clinton, mas agora imbuída da urgência causada pelas mudanças climáticas e pela integração de China e Índia à economia mundial.

O Brasil é uma potência verde inegável: 85% da geração de energia elétrica do país vem das águas; 45% da matriz é de fontes renováveis (contra a média de apenas 6% dos países da OCDE); e mais de 50% do combustível consumido pela frota de veículos leves é produzido de biomassa. Além disso, o Brasil possui reservas (e tecnologia de enriquecimento) de urânio e 90% do estoque mundial de silício, utilizado na produção de células fotovoltaicas.

Em matéria de produção de energia, não há parâmetro de comparação do país com qualquer outro. No entanto, o Brasil terá de enfrentar, com serenidade e disposição, o problema do desmatamento da Amazônia, responsável por 75% das emissões brasileiras de CO2.

No que diz respeito aos padrões trabalhistas, o país possui extensa legislação para proteção dos direitos sociais - e não abrirá mão da herança construída desde os anos 1930 e consolidada na Constituição de 88. O Brasil já assinou as principais convenções da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e faz avanços, ano a ano, em matéria de implementação das leis domésticas - entre elas, o combate ao trabalho infantil. O exemplo brasileiro, portanto, assemelha-se ao da União Europeia, diferenciando o país dos Estados Unidos, da Índia e da China.

Se houver compromisso de convergência entre governo, empresários, trabalhadores e ambientalistas em torno de uma estratégia nacional e de política externa que incorpore esses desafios, o Brasil poderá liderar o esforço internacional de criação de uma economia verde com justiça social. Para tanto, a diplomacia e o empresariado brasileiros deverão cumprir com três requisitos fundamentais: pragmatismo nas alianças; responsabilidade no reconhecimento do sentido de urgência das oportunidades; e ecumenismo no tratamento dos desafios a serem enfrentados pelo país. Nesse caso, não há melhor inovação do que a tradição.

Carlos A. Cavalcanti é industrial, diretor titular de Energia, Vice-Presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior (COSCEX) e do Conselho Superior de Infraestrutura (COINFRA) da Fiesp.
Diego Z. Bonomo é diretor executivo do Brazil Information Center (BIC), entidade de representação de empresas brasileiras em Washington D.C. (EUA).

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23/04/2009

ONU pede que G8 atue mais na defesa do clima

Siracusa (Itália), 23 de Abril de 2009 - Os Estados Unidos e outros países ricos precisam ser mais atuantes para ajudar a fechar um acordo histórico sobre mudança climática este ano, disse uma importante autoridade da Organização das Nações Unidas (ONU) em um encontro de ministros do Meio Ambiente.

A reunião de três dias dos países do Grupo dos Oito e das principais economias em desenvolvimento, inaugurada nesta quarta-feira na Sicília, tem sido saudada como o ponto de partida para um acordo sobre mudança climática patrocinado pela ONU, previsto para ser aprovado em dezembro em Copenhague.
Todos os olhos se voltaram para a delegação norte-americana, uma vez que o presidente Barack Obama prometeu reduzir as emissões de gases-estufa dos EUA para os níveis de 1990 até 2020, injetando ânimo às negociações de Copenhague.

Seu antecessor, George W. Bush, rejeito o Protocolo de Kyoto, que será substituído pelo novo acordo deste ano. “Não é suficiente e os EUA precisam fazer mais”, disse à Reuters Yvo de Boer, a principal autoridade da ONU para mudança climática. “Sem a liderança dos países do G8, não haverá uma resposta internacional à mudança climática. Esse encontro precisa mostrar o caminho”.

Cientistas dizem que os países industrializados como um todo precisam reduzir as emissões de carbono para entre 24 e 40 por cento dos níveis de 1990 a fim de evitar um impacto severo da mudança climática.
De Boer afirmou que existe vontade política para fechar um acordo em Copenhague e que a crise econômica dá a chance de promover a tecnologia verde como parte dos pacotes de estímulo — algo que países em desenvolvimento como China e Coréia fizeram, segundo ele.

O encontro do G8, inaugurado no Dia da Terra, reuniu pela primeira vez nove economias em desenvolvimento, incluindo Brasil, Índia e China, num esforço para pressionar por um consenso mundial.
De Boer pediu que a conferência aprove um pacto de cooperação tecnológica entre os membros do G8 e países em desenvolvimento. Ele disse que se encontraria com autoridades de países industrializados a fim de pressionar por dinheiro para ajudar a financiar a mudança tecnológica do mundo em desenvolvimento, uma das principais demandas dos países mais pobres do mundo.
(Reuters)

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