quinta-feira, 14 de maio de 2009
Ideia é melhorar a metodologia
Para especialista, novo cálculo de riqueza de um país deve considerar recursos humanos e patrimônio natural
Andrea Viallii, de O Estado de S. Paulo
Antonio Milena/AE
José Eli da Veiga: economista e professor da USP
SÃO PAULO – O PIB como medida do desempenho econômico é precário e limitado e a grande inovação do século será sua superação. A defesa dessa ideia, que causa arrepios na maior parte dos economistas, tem feito de José Eli da Veiga uma espécie de estranho no ninho nos círculos acadêmicos. Estudioso há três décadas do desenvolvimento sustentável, o economista e professor titular da FEA-USP vê com um misto de esperança e ceticismo as tentativas de reformular as métricas da economia. A seguir, os principais trechos de sua entrevista ao Estado.
Qual é a sua expectativa em relação aos trabalhos da Comissão Stiglitz-Sen? Teremos uma nova métrica?
Nunca ficou claro que eles lançariam um ‘novo PIB’. A Comissão, que tem 27 membros, foi subdividida em três grupos. Um deles ficou com os problemas clássicos do PIB. Outro ficou com sustentabilidade; outro grupo vai trabalhar qualidade de vida, que envolve essa discussão sobre felicidade, um debate subjetivo. O relatório da comissão, previsto para sair em junho, deve conter recomendações. Acredito que não haja tempo útil para que eles saiam da crítica para uma proposta pronta. Mas a ideia é que surja alguma medida de desempenho econômico que não seja tão ruim quanto o PIB.
Então isso deve se prolongar por mais alguns anos?
A comissão provavelmente encerra os trabalhos com recomendações nesse relatório final, que serão endereçadas à ONU. Claro que organizações internacionais, como o FMI e a OCDE, terão um papel importantíssimo. Qualquer acordo para mudar a contabilidade nacional implicará uma reforma. E essa reforma seria de grandes proporções, já que desde que o PIB emplacou, nos anos 1950, e os países começaram a montar suas contabilidades, nunca houve uma revisão.
Nos últimos anos, as críticas ao PIB vêm ganhando coro. Quais são as principais limitações da métrica?
As limitações são muitas. Uma das principais é o fato de que ela não contém nenhum tipo de amortização. O PIB envolve capital físico construído e também humano. No que tange os recursos naturais, o PIB simplesmente não contempla a questão. Por exemplo, se eu tiver uma mina, eu exploro a mina e tudo o que sair de lá será colocado como produto. O PIB não contabiliza o que estou degradando do meu capital natural. Outra falha: uma das primeiras críticas ao PIB é de que o trabalho doméstico não é considerado. Essa crítica vem dos anos 1970 e esteve ligada ao feminismo. Depois veio a problemática ambiental. Agora imagine um grave acidente de avião, com mortes. Fazendo a contabilidade, você pode chegar à conclusão de que esse acidente ajudou a aumentar o PIB, o que é um contrassenso.
É possível passar a considerar os passivos socioambientais no PIB?
Aí não será mais PIB, será outra coisa. Vai ser uma nova maneira de se fazer a contabilidade nacional que vai permitir que os resultados do desempenho econômico sejam medidos de uma maneira melhor do que a atual.
De qualquer forma vai continuar a divisão? Uma medida para riqueza, uma de sustentabilidade e uma de bem-estar? Unir as três coisas é impossível?
Unir as três coisas em um indicador só é impossível. Eu acho que sobretudo as duas primeiras vão estar como dois lados de uma moeda. A terceira é algo diferente. Porque não estamos falando nem de desempenho econômico nem se ele é sustentável ou não. Estamos falando de o que isso resulta para a vida das pessoas. Uma medida de desenvolvimento sustentável vai ter sempre dois indicadores, um do desempenho econômico e outro da sua sustentabilidade.
Então elas vão caminhar juntas, mas sem ser uma coisa só?
A gente vai ter de se acostumar a dizer o seguinte: um país teve um desempenho econômico muito bom neste ano, mas não é sustentável, porque foi à custa da dilapidação dos seus recursos naturais. Então não resolve. Um caso muito citado é o da Indonésia. O PIB lá aumentou de uma maneira vertiginosa enquanto eles estavam acabando com as florestas. Depois, parou de aumentar.
Essa nova medida de desempenho vai contabilizar estoques também, além de fluxo?
Esse problema vai ser colocado. Para fazer uma contabilidade real do desempenho econômico, a geração de renda não poderá ficar completamente independente do que são os estoques, o patrimônio. Porque, se a renda estiver sendo gerada com prejuízo do patrimônio, não é a mesma coisa do que gerar uma renda conservando o patrimônio. Você pode pensar tanto no patrimônio natural quanto nos recursos humanos. Se eu consigo gerar uma renda altíssima, mas ao custo do aumento dos acidentes de trabalho, da mortalidade, isso não é sustentável. No tempo do milagre econômico, o Brasil cresceu a taxas altíssimas, chinesas, mas aumentou brutalmente o número de acidentes de trabalho. O mesmo raciocínio se aplica aos recursos naturais. De toda forma, medir desempenho econômico é medir fluxo. Só não podemos esquecer dos estoques, o que o PIB faz.
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quinta-feira, 14 de maio de 2009, 21:04
Um ‘novo PIB’ em gestação
Especialistas buscam uma reformulação da medida de riqueza que leve em conta ambiente e qualidade de vida
Andrea Vialli, de O Estado de S. Paulo
SÃO PAULO – Após anos de críticas à forma usada para medir o Produto Interno Bruto (PIB), organismos internacionais devem receber no próximo mês um relatório com sugestões para mudar os parâmetros de cálculo do desempenho econômico dos países. Em época de crise financeira e desaceleração da economia no mundo, a proposta é elaborar um indicador que, além de somar a atividade econômica, considere as condições de vida da população e índices relacionados a sustentabilidade e preservação de recursos naturais.
“A crise colocou em xeque muitos conceitos, entre eles o de que crescimento econômico se traduz em bem-estar”, avalia Ricardo Young, presidente do Instituto Ethos.
Uma das ideias de revisão do PIB está em andamento desde meados do ano passado. O presidente da França, Nicolas Sarkozy, encomendou a um grupo de 27 renomados especialistas, entre eles os ganhadores do prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz (2001) e Amartya Sen (1998), uma reforma da métrica. Matemáticos, estatísticos, economistas ambientais e estudiosos da pobreza reforçam o time, que ficou conhecido como Comissão Stiglitz-Sen.
A comissão trabalha em três frentes. Uma delas busca atualizar o PIB padrão, de modo que a medida se torne mais abrangente e mais relevante para os formuladores de políticas públicas. Outra tenta incorporar novas medidas de sustentabilidade ambiental aos dados e, assim, mensurar o impacto da economia sobre os ecossistemas. Por último, o grupo trabalha na criação de novos indicadores para avaliar qualidade de vida e bem-estar.
As críticas ao PIB remontam à década de 1960 e, pela primeira vez desde o pós-guerra, ganha força a proposta de medir o progresso econômico em novas bases. O relatório que está sendo preparado deve ser entregue à Organização das Nações Unidas (ONU) e outros organismos internacionais, como a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional (FMI).
“Vai ser uma nova forma de fazer a contabilidade das nações, que permitirá que os resultados do desempenho econômico sejam medidos de uma maneira melhor que a atual. O PIB que conhecemos é precário”, afirma José Eli da Veiga, professor da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e autor do livro Desenvolvimento Sustentável – O Desafio do Século XXI.
Modelo Ultrapassado
As críticas ao PIB como medida do crescimento econômico existem desde que ele passou a ser amplamente utilizado pelos países, no Pós-Guerra. Um de seus formuladores, o economista Simon Kuznets, chegou a admitir as limitações da métrica na década de 1970.
Em 2004, um encontro internacional de estatísticos organizado pela OCDE lançou as bases para que o movimento anti-PIB, hoje conhecido como Beyound GDP (Além do PIB, em inglês) se disseminasse pelo mundo e culminasse no pedido de Sarkozy aos economistas.
“A discussão é irreversível e palpável porque é preciso encontrar instrumentos mais eficientes para medir o progresso e o nível de bem-estar dos países, que levem em consideração temas urgentes como saúde, pobreza, mudanças climáticas e a dilapidação dos recursos naturais”, avalia Young, do Instituto Ethos.
A economista americana Hazel Henderson levantou críticas ao modelo do PIB há pelo menos 20 anos. Segundo ela, o critério da riqueza per capita disfarça as desigualdades vigentes – pois a métrica do PIB apenas soma o resultado da atividade econômica sem levar em conta as chamadas externalidades – os custos social e ambiental envolvidos na produção da riqueza por um país.
Um exemplo claro do que fala Henderson é o caso das grandes catástrofes e desastres ambientais: hoje, eles acabam sendo positivos para o crescimento do PIB, porque a reconstrução das regiões afetadas por tais eventos extremos movimenta o setor de serviços e, consequentemente, gera empregos.
Outro exemplo é a natureza do negócio. Uma mineradora pode contribuir para o PIB com a extração de minério, mesmo às custas da degradação dos recursos naturais, o que pode comprometer para sempre uma cidade e as pessoas que vivem ali. Além disso, o PIB só contabiliza o fluxo de mercadorias, e não os estoques de bens já produzidos.
Além da França, o Reino Unido também reforçou o coro sobre a necessidade de uma nova métrica. No entanto, ainda deve levar algum tempo para que esses novos parâmetros sejam assimilados e adotados como padrão. “É muito difícil prever. A ONU terá de assumir a elaboração dos indicadores. A expectativa é de que o relatório da Comissão Stiglitz-Sen desencadeie um processo nas organizações internacionais”, explica Veiga.
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