BIOCOMBUSTÍVEIS

23/10/2009

Governo antecipa mistura obrigatória de 5% de biodiesel ao diesel

SOFIA FERNANDES
colaboração para a Folha Online, em Brasília

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anuncia hoje a obrigatoriedade de adição de 5% de biodiesel ao diesel derivado de petróleo. A medida entraria em vigor só em 2013, mas o governo decidiu antecipar para 2010. Passa a vigorar a partir de 1º de janeiro.

O governo decidiu antecipar a medida porque, segundo o Ministério de Minas e Energia, o Brasil tem capacidade para atender à medida desde já.

No Brasil há 43 usinas de biodiesel, com capacidade instalada para produzir 3,6 bilhões de litros. Com a medida anunciada hoje pelo presidente Lula, serão demandados 2,4 bilhões de litros por ano do combustível.

A produção de biodiesel no Brasil em 2009 vai fechar em 1,8 bilhões, segundo o ministério. Para 2010, a previsão é que o país produza de 2,4 bilhões a 2,6 bilhões de litros.

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23/10/2009

Biocombustível será bom para o clima, indica simulação

RAFAEL GARCIA
da Folha de S.Paulo

O medo de que uma economia mundial baseada em biocombustíveis seja um tiro pela culatra no combate ao aquecimento global não tem muito fundamento, indica um novo estudo. Simulando um futuro em que os combustíveis fósseis seriam substituídos, pesquisadores concluíram que o cenário mais provável é um em que álcool e biodiesel possam mesmo ajudar a evitar emissões de gases do efeito estufa.

O novo trabalho, publicado pela revista “Science”, indica que a atual política para uso da terra com biocombustíveis está no caminho certo, mas alerta que uma mudança poderia provocar, sim, efeitos indesejáveis.

Luiz Carlos Murauskas -17.set.09/Folha Imagem

Medo de que uma economia mundial baseada em biocombustíveis seja fracassada no combate ao aquecimento não tem fundamento

Liderado por Jerry Melillo, do Laboratório de Biologia Marinha de Woods Hole (EUA), o trabalho mostra, primeiro, um cenário pessimista. Efeitos “indiretos” da ampliação de produção de biocombustíveis seriam capazes de emitir até duas vezes mais CO2 que o uso direto de terras para plantar vegetais necessários ao produto.

Isso ocorrerá se pastagens desalojadas para a produção de cana, por exemplo, restabelecerem-se em áreas de floresta, provocando desmatamento. O uso irrefreado de fertilizantes nitrogenados também seria nocivo por produzir óxido nitroso, um gás de efeito estufa.

A relação entre agricultura e ambiente observada nos últimos dez anos, porém, aponta para um caminho diferente. Segundo os pesquisadores, a tendência é que as políticas antidesmatamento atuais, mesmo longe de ser perfeitas, consigam dar conta de frear esse problema. Biocombustíveis, nesse caso, têm vantagem inquestionável sobre petróleo, pois plantas absorvem CO2.

“Se as coisas continuarem como são hoje, vão gerar o que está no segundo caso, mais otimista”, diz Angelo Gurgel, economista da USP que participou do estudo. “Mas, se a pressão por bioenergia e alimentos for grande a ponto de os governos flexibilizarem a proteção ambiental, o cenário muda.”

O modelo matemático da simulação de Gurgel e colegas é possivelmente o mais completo já usado para ver o impacto dos biocombustíveis na mudança do uso de terra. Seu resultado otimista, com alguma surpresa, contrariou projeções sombrias obtidas por outros.

Esse tipo de simulação vinha sendo criticado por cientistas como José Goldemberg, também da USP, pioneiro do planejamento econômico para o álcool. “Um modelo geral para o mundo não se aplica em situações particulares, como a do Brasil”, diz o cientista. Um dos problemas, explica, é que o álcool de cana brasileiro produz muito mais energia por área cultivada do que o álcool de milho americano, por exemplo.

O trabalho de Gurgel, porém, evita isso ao se esquivar do debate sobre quais vegetais são melhores. “No longo prazo, o mercado vai selecionar naturalmente aqueles que tiverem potencial”, afirma.

O medo de que a valorização de terras viáveis para essas plantas as façam “empurrar” o gado para cima da floresta, diz, também não parece ter muita sustentação. Segundo Gurgel, porém, será preciso reforçar no futuro os mecanismos que, por enquanto, impedem isso.

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