ENERGIA EÓLICA
Aneel fixa em R$ 189 preço-teto do MWh para leilão de eólicas
César Felício e Murillo Camarotto, de Belo Horizonte e do Recife
12/11/2009
A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) divulgou ontem o edital para o leilão de energia eólica que irá ocorrer dia 14 de dezembro, para o qual já há projetos que representariam uma geração da ordem de 13 mil MWh, 73% deste total no Nordeste. O preço-teto para a energia, que servirá como reserva do sistema, será de R$ 189 o MWh. Não há definição sobre qual será o volume de energia a ser contratada. As estimativas variam entre 1 mil e 3 mil MWh. Atualmente, o parque eólico instalado no Brasil é capaz de gerar 500 MWh.
O valor está próximo do mínimo que o mercado estima para viabilizar os projetos, de R$ 180. Em valores corrigidos, representa uma redução em relação à energia contratada nos primeiros projetos do Proinfra, programa emergencial de fontes alternativas de energia lançado pelo governo federal logo após o racionamento de 2001, que estava em torno de R$ 247 o MWh. Ainda assim, é um valor consideravelmente superior ao negociado hoje no mercado livre pela energia de matriz hidrelétrica. Para contratos superiores a um ano, a cotação é de R$ 135 o MWh.
Entre as empresas participantes, no entanto, o valor não foi bem recebido. Disposta a vender 400 MW no leilão, a Siif Énergies, sediada no Ceará, acredita que o teto torna suas margens apertadas. “É muito baixo o valor”, disse por telefone o diretor-presidente da empresa, Marcelo Picchi, no momento em que entrava em uma reunião com o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima. Após o encontro, no qual tratou de “outros projetos do setor”, o executivo disse que a empresa trabalhava com preço maior, de R$ 200 por MWh. Segundo Picchi, sua maior preocupação é de que empresas que não estão interessadas em implantar projetos eólicos – mas apenas ganhar as concessões para depois negociá-las no mercado – saiam vencedoras. Na sua avaliação, um preço-teto considerado baixo favorece esse tipo de situação. “O ideal é que ganhe quem vai efetivamente implementar os projetos. Com preços baixos, essas empresas perdem a motivação.”
A Siif pretende comercializar no leilão a energia produzida em 20 parques eólicos que deverão ser construídos no Ceará (250 MW) e no Piauí (150 MW). De acordo com Picchi, os novos projetos custarão cerca de R$ 2 bilhões, se considerado o custo médio de R$ 5 milhões para se gerar 1 MW de energia eólica. Atualmente, a Siif, que tem como acionistas o Citigroup, Liberty Mutual e Black River, conta com quatro usinas eólicas em funcionamento, todas no Ceará, com capacidade para gerar 207 MW.
O leilão terá um sentido estratégico para o governo federal, ao acontecer na mesma época que a conferência internacional de Copenhague, que poderá impor metas de redução de emissões ao Brasil. “A contratação de um alto volume de energia eólica poderá contrabalançar a possível compra de energia proveniente de carvão mineral que talvez ocorra no leilão A-5″, afirmou Walter Fróes, diretor da comercializadora de energia CMU, de Belo Horizonte. O leilão A-5 irá acontecer em 17 de dezembro, para a contratação de energia a ser fornecida a partir de 2014.
Para Buffett, dinheiro está no vento
Scott Patterson, The Wall Street Journal, de Adair, EUA
10/11/2009
O acordo bilionário de Warren Buffett para comprar a empresa ferroviária Burlington Northern Santa Fe Corp. se baseou em parte na visão de que quando o petróleo está em alta as ferrovias são mais eficientes do que os caminhões.
Mas outra empresa no portfólio de Buffett, a MidAmerican Energy Holdings Co., também aposta no “verde” com a construção de moinhos de vento e investimento em baterias de alta tecnologia, numa das iniciativas de energia limpa mais abrangentes já feitas por uma energética americana de grande porte.
Dezenas de moinhos de ponta se agigantam nos campos de milho e soja desta cidade de Iowa, parte de um projeto de energia eólica da MidAmerican que abastece mais de 50.000 residências.
É um dos vários projetos de energia eólica que a MidAmerican, sediada em Des Moines, lançou desde 2004 ao custo de bilhões de dólares. Iowa se tornou o segundo Estado americano em capacidade de geração de energia eólica, atrás só do Texas, em parte graças à MidAmerican.
Quinta-feira, só uns dias depois de anunciado o acordo de Buffett para comprar a Burlington Northern, um conselho local aprovou um projeto de energia eólica de US$ 2 bilhões que deve dobrar a capacidade da MidAmerican nesse tipo de fonte, com entre 400 e 600 novas turbinas. A MidAmerican também tem parques eólicos no noroeste do país.
“Em Iowa havia vento, mas nada que o aproveitasse dez anos atrás”, disse Buffett ao Wall Street Journal. A MidAmerican mudou isso, disse ele, “e vamos fazer ainda mais”.
A motivação do lucro está claramente funcionando na empresa. Buffett acredita que esses investimentos vão beneficiar a MidAmerican e sua matriz, a holding Berkshire Hathaway Inc., controlada por ele.
“Claramente ele acha que a cotação do petróleo vai subir e a Burlington é uma maneira de ter um fornecedor barato, e você vê isso também na MidAmerican”, disse Justin Fuller, sócio da Midway Capital Research & Management, que acompanha a Berkshire de perto.
Os moinhos são uma jogada arriscada. A energia alternativa é um dos investimentos mais quentes e menos bem-sucedidos dos últimos anos.
O alto custo e obstáculos tecnológicos bloquearam o avanço de áreas que antes iam de vento em popa, como etanol e energia solar. Do magnata texano do petróleo T. Boone Pickens à gigante britânica BP PLC, o tal “dinheiro inteligente” recuou de alguns planos de energia limpa antes anunciados com empolgação.
“A única coisa que não vamos é nos meter em modismos”, disse David Sokol, presidente do conselho da MidAmerican, ao Wall Street Journal. “Queremos coisas que realmente têm potencial.”
Sokol é considerado um dos principais candidatos à sucessão de Buffett, e seu status crescente na Berkshire aumentou o interesse nos planos de energia eólica da empresa. A MidAmerican gastou uns US$ 4 bilhões em projetos de energia eólica e pretende investir outros bilhões no financiamento de projetos desse tipo e de outros tipos de energia alternativa em todo o país.
“A energia renovável sempre foi fascinante na minha perspectiva, onde quer que ela faça sentido economicamente”, disse Sokol.
Buffett e Sokol não integram nenhuma cruzada ambientalista. A MidAmerican tem várias termelétricas a carvão, uma das maiores fontes de gases do efeito estufa. As elétricas americanas produzem cerca de 40% das emissões de dióxido de carbono ligado a geração no país, segundo dados do Departamento de Energia.
Este ano, Sokol deu depoimento ao Congresso contra um projeto de lei apoiado por vários ambientalistas, que visa criar um mercado para a troca de créditos de carbono, argumentando que vai “impor um custo dobrado inaceitável para os clientes”.
Sokol, que já disse que a indústria da energia eólica precisa do apoio do governo, também vem tentando resolver uma das grandes questões da energia alternativa: como armazenar o excesso de carga quando o vento está soprando, e transmiti-lo quando ele para.
A MidAmerican investiu US$ 232 milhões para comprar 9,9% da fabricante chinesa de baterias BYD Co. Se a empresa conseguir produzir baterias que tornem a eletricidade mais portátil e armazenável, isso pode mudar o lado econômico da energia alternativa. A MidAmerican, que atualmente produz mais eletricidade que seus clientes precisam, se beneficiaria disso.
