China torna-se líder em tecnologia verde

Shai Oster, The Wall Street Journal, de Pequim

17/12/2009

Xu Shisen desligou o telefone e sorriu. Era um telefonema do Canadá, explicou o engenheiro- chefe de uma termelétrica a carvão localizada em meio às lojas de arte e de antiguidades falsificadas de um subúrbio de Pequim. Uma empresa canadense está interessada nos avanços tecnológicos de Xu para reduzir o custo de combater as emissões de gases do efeito estufa criadas pela queima de carvão.

Os engenheiros chefiados por Xu estão trabalhando para solucionar um dos problemas mais espinhosos do aquecimento global: como queimar carvão sem liberar carbono na atmosfera.

Xu é parte de um esforço maior da China para introduzir tecnologias verdes na economia industrial de mais rápido crescimento no mundo – uma missão tão ambiciosa que pode no final transformar a indústria inteira, como a China já fez com várias outras coisas, de guindastes a computadores.

A China é a grande sombra que paira sobre a conferência mundial do clima em Copenhague, onde autoridades chinesas vêm pressionando os Estados Unidos e outros países ricos a aceitar novos limites a suas emissões e continuar subsidiando os esforços dos países pobres para adotar tecnologias de energia limpa. A China é a maior fonte de emissões de carbono do mundo. Menos divulgado é como o país está se tornando a fonte de algumas soluções para o problema.

O vasto mercado e as economias de escala da China estão baixando o preço da energia solar e eólica, assim como de outras tecnologias mais ecológicas, como as baterias para carros elétricos. Isso pode ajudar a resolver um grande empecilho para a ampla adoção dessas tecnologias: elas precisam de altos subsídios para fazer sentido economicamente.

O chamado preço chinês – a combinação de mão de obra e capital baratos que reescreveu as regras do setor manufatureiro – está espalhando a tecnologia verde pelo mundo. “O preço chinês vai passar para o segmento de energia renovável, especialmente para fontes que precisam de projetos com uso intensivo de capital”, diz Jonathan Woetzel, diretor do escritório chinês da McKinsey & Co.

O governo chinês está apoiando a tendência. Ele quer reproduzir o sucesso das zonas econômicas especiais que transformaram cidades como Shenzhen de uma vila de pescadores perto de Hong Kong para um dos maiores centros industriais para exportação no mundo. Criadas quando a China começou suas reformas econômicas, nos anos 80, as zonas foram projetadas para atrair investimento estrangeiro em indústrias leves, para impulsionar as exportações. Elas acabaram se tornando os motores do boom econômico chinês.

As autoridades do país pretendem anunciar no ano que vem a criação de vários centros tecnológicos para pesquisar como controlar as emissões de carbono, com políticas preferenciais para promover a fabricação e exportação dessas tecnologias.

A China enfrenta grandes desafios para cumprir suas metas. O país pode simplesmente se tornar uma base manufatureira de baixo custo e não uma fonte de inovação. Pior, sua investida para baixar os custos pode impedir a inovação tecnológica no exterior.

E Pequim ainda está longe de reduzir a pegada de carbono da China. Para cada usina elétrica ultrapassada que fechou numa campanha recente de dois anos para limpar o país, a indústria expandiu a capacidade com duas outras. Mesmo as melhores usinas são administradas precariamente, porque os donos não querem pagar para limpar suas próprias emissões.

Na luta contra o efeito estufa, alguns dos maiores ganhos podem ser obtidos eliminando o carbono da termelétricas movidas a carvão. China e EUA têm juntos 44% das reservas de carvão e não devem dispensar tão cedo uma fonte de energia tão barata e confiável. Segundo projeções do governo americano, o uso mundial do carvão pode aumentar quase 50% até 2030.

“Se as emissões das usinas de eletricidade não forem reduzidas, o efeito estufa é inevitável”, diz Jonathan Lewis, especialista sobre clima na Clean Air Task Force, uma ONG americana que vem tentando unir energéticas americanas a empresas chinesas.

“A solução pode ser liderada pelos EUA e a China.”

A tecnologia de captura de carbono retém os gases do efeito estufa emitidos pelas usinas a carvão. O gás pode ser bombeado para o subterrâneo, geralmente cavernas de sal ou campos petrolíferos velhos. O carbono também pode ser separado antes ou depois de o carvão ser queimado. A captura pós-combustão é mais simples e pode ser instalada em usinas já existentes. As versões atuais desse sistema diminuem a produção de eletricidade em um quinto ou mais.

Já a captura do carbono antes da combustão é muito mais complicada e envolve redesenhar totalmente as usinas. O carvão é transformado em gás para separar o carbono, enquanto o resto é queimado para gerar energia. Chamadas de usinas de “ciclo combinado de gaseificação integrada”, elas custam bilhões de dólares e ainda não foram desenvolvidas em escala comercial.

A China tem a liderança tecnológica na transformação de carvão em gás natural. Ela tem usado a tecnologia amplamente para produzir petroquímicos e fertilizantes, substituindo gás natural, que é mais caro. A americana Future Fuels LLC, sediada em Houston, já licenciou tecnologia chinesa de gaseificação para uso numa usina da Pensilvânia.

Os críticos dizem que as atuais tecnologias de captura de carbono são meros band-aids contra o efeito estufa. Eles as consideram tão ineficientes porque aumentam a queima de carvão para produzir a mesma eletricidade. A tecnologia também usa muita água potável e o sequestro subterrâneo do carbono ainda não ficou comprovado.

Mesmo assim, alguns analistas calculam que a captura de carbono pode responder por 15% a 55% das reduções de gases do efeito estufa até 2100.Mas ainda levará pelo menos cinco a dez anos até que essa tecnologia se torne amplamente disseminada, dizem analistas.

Enquanto isso, a China já começa a modificar as duas maiores apostas em tecnologia verde já massificadas – a energia eólica e a solar.

Em 2004, firmas estrangeiras dominavam 80% do mercado chinês de turbinas eólicas, segundo a consultoria de energia IHS Cambridge Energy Research Associates. Hoje, as empresas chinesas detêm 75% do mercado nacional, graças a empreendimentos que produzem turbinas a um terço do preço dos concorrentes europeus.

A China também já domina 30% do mercado mundial de painéis de células fotoelétricas usados para gerar eletricidade. As fabricantes de painéis solares, como a Suntech Power Holdings Co., a Yingli Green Energy e a Trina Solar Ltd., exportam a maior parte de sua produção à Europa e aos EUA, contribuindo para um declínio de 30% no preço mundial dos equipamentos.

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