ENERGIAS RENOVÁVEIS
31/05/10País precisa de mais fontes renováveis
Evanildo da Silveira, para o Valor, de São Paulo
26/05/2010
Apesar da posição confortável de líder mundial no aproveitamento de biomassa para a geração de energia, o Brasil não está alheio ao desafio mundial de desenvolver novas fontes de energia sustentáveis para substituir os combustíveis fósseis. Órgãos governamentais, instituições de pesquisa e empresas públicas e privadas desenvolvem atualmente uma série de projetos, parte deles para melhorar o desempenho e o aproveitamento da cana-de-açúcar e parte para encontrar alternativas a essa planta.
Segundos o Balanço Energético Nacional de 2008, do Ministério das Minas e Energia, o mais recente disponível, do total da energia primária produzida no país, 51,6% provém de fontes não renováveis, com destaque para petróleo (38,7%) e gás natural (9,0%). Das fontes renováveis (48,4%), a principal contribuição é da cana com 19%, seguida das hidrelétricas (13,4%) e da lenha (12,4%).
É justamente para melhorar esse quadro, aumentando a oferta de energia renovável, que o país vem investindo em pesquisa. Entre os gastos públicos estão os do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), que prevê, em quatro anos, R$ 304,47 milhões para apoio a pesquisas em biocombustíveis. O MCT coordena ainda a Rede Brasileira de Tecnologia de Biodiesel (RBTB), que conta com cerca de 300 pesquisadores e 80 instituições. Entre as plantas estudadas, as mais promissoras para a produção desse tipo de combustível são a soja e a mamona.
O ministério também investe no desenvolvimento de novas fontes de energia a partir de biomassas alternativas. Para isso, criou, em 2003, a Rede de Tecnologias de Combustão (RNC), que recebeu nos últimos cinco anos cerca de R$ 15 milhões. “Entre os seus projetos mais promissores está um combustor, criado na Universidade Federal do Pará (UFPA), para a geração de energia a partir da queima da serragem oriunda das madeireiras”, diz Ronaldo Mota, secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do MCT.
Como não poderia deixar de ser no país maior produtor mundial de açúcar e álcool a partir de cana, é essa planta que recebe a maior atenção e sobre a qual existem mais projetos de pesquisa. “A principal fonte de biomassa para a geração de energia no Brasil é a cana-de-açúcar, da qual são colhidas mais de 500 milhões de toneladas por ano, que é equivalente em termos de energia a cerca de 4 milhões de barris de petróleo por dia”, diz o físico José Goldemberg. “Os grandes desafios para a pesquisa no momento são dois: modificar geneticamente a planta para produzir mais açúcar e álcool e desenvolver tecnologias de segunda geração, usando celulose no lugar dela para a produção de etanol.”
Segundo Goldemberg, é esta segunda linha que os Estados Unidos estão explorando, mas com desvantagem em relação ao Brasil. “Se os problemas técnicos forem resolvidos, será possível usar o bagaço como fonte de celulose e no nosso país ele já está disponível nas usinas”, explica. “Nos Estados Unidos, ele terá que ser produzido e recolhido nos campos para processamento.” Para Goldemberg, o Brasil tem boas chances de sucesso seguindo essa rota. “O governo federal está investindo pesado num centro dedicado à pesquisa tecnológica de segunda geração em Campinas.”
Ele se refere ao Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), criado no início deste ano, com o objetivo de contribuir para a liderança brasileira no setor de fontes renováveis de energia e, principalmente, para o desenvolvimento da cadeia produtiva do álcool de cana-de-açúcar. “Os investimento iniciais no CTBE foram de R$ 69 milhões”, informa seu diretor científico, o botânico Marcos Buckeridge. “Agora, ainda estamos investindo o dinheiro na contratação de pesquisadores.”
As empresas também participam desse esforço em busca de energia renovável. Um exemplo é a Petrobras. A companhia vai investir, no período 2009-2013, US$ 530 milhões para pesquisas em biocombustíveis e o desenvolvimento de projetos para o aproveitamento de resíduos celulósicos agroindustriais, como o bagaço de cana. Para isso, já há uma planta piloto desde 2007. Outra linha em desenvolvimento na empresa é a produção de biodiesel a partir de microalgas. Atualmente, seus técnicos estão trabalhando na identificação e cultivo daquelas que produzam óleo com qualidade adequada e em grande quantidade.
Apesar de todos esses investimentos, os primeiros resultados concretos e economicamente viáveis na produção de etanol de segunda geração, isto é, pela rota bioquímica, devem demorar dez anos ou mais. Por isso, há quem considere mais promissor o caminho termoquímico. Hoje, muitas usinas produzem energia dessa forma, queimando o bagaço para gerar eletricidade. Segundo Zilmar José de Souza, assessor de bioenergia da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), das 437 usinas existentes no país, pelo menos 100 produzem energia elétrica excedente e exportam para a rede de transmissão do país. “Em 2009, foram 5,8 GW, o que representa 7% do que Itaipu produziu no mesmo ano”, diz. “O potencial dos canaviais brasileiros para 2017/2018 chega 10 GW.”
Isso poderá ocorrer porque hoje apenas um terço do potencial da cana-de-açúcar é aproveitado, que é a sacarose, da qual se faz o açúcar e o álcool. Do restante, um terço é bagaço, do qual é aproveitada uma fração mínima, e um terço é palha, que hoje é desperdiçada. Por isso, o pesquisador Luiz Augusto Barbosa Cortez, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), acredita que atualmente a melhor maneira de aproveitar a cana como fonte de energia é pela rota termoquímica. “Por esse caminho, ela pode gerar energia de duas maneiras, pela pirólise (ou carvoamento) e pela gaseificação de sua biomassa”, explica. “No primeiro caso, dá origem a um sólido, o carvão, ou a um líquido, o alcatrão, que é um bio-óleo. No segundo, pode se obter eletricidades e combustíveis líquidos, como biogasolina e biodiesel.”
