Arquivo de junho, 2010

BIOCOMBUSTÍVEIS

21/06/10

Petrobras acelera avanço em biocombustíveis

Mauro Zanatta, de Brasília
18/06/2010

A Petrobras Biocombustível (PBio) está pronta para ampliar sua presença nos mercados de etanol e de biodiesel no país. A empresa decidiu acelerar a compra de participação em novas usinas de etanol e elevar aportes em unidades próprias de biodiesel, informou o presidente do conselho de administração da PBio, o ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, ao Valor.

A empresa prevê ocupar uma fatia de 20% do mercado de etanol por meio de participação acionária e liderar em biodiesel com 25% da produção nacional. “Vamos avançar rápido e comprar participação em outras empresas de etanol. Vamos comprar 49% das ações e fazer a gestão compartilhada”, afirmou Cassel.
O planejamento da PBio inclui gerir as áreas de finanças, administração ou logística das novas aquisições para “dominar e apropriar-se da tecnologia” desenvolvida pelas parceiras. “É um setor de alta complexidade para nós. Mas já somos uma empresona do setor, estamos grandes em etanol e biodiesel e já mudamos esses mercados”, disse. “Vamos trabalhar no vermelho por três a cinco anos, mas depois disso teremos um lucrinho”.

Em maio, a PBio anunciou a compra de participação na Açúcar Guarani, controlada pela francesa Tereos. Nos próximos cinco anos, a empresa investirá R$ 1,6 bilhão na Guarani, que processa 16 milhões de toneladas de cana por safra. “Já estamos no coração do setor com a Guarani e já estamos aprendendo muito”, declarou o ministro.

A subsidiária integral da gigante brasileira do petróleo começou a investir pesado em etanol no fim de 2009 com a compra de 40,4% da ações da usina Total, de Bambuí (MG), por R$ 150 milhões. Até então, negociava adquirir parte da usina Itarumã (GO) em parceria com a japonesa Mitsui. A opção pelo etanol busca “equilibrar” o jogo com o interesse de grupos multinacionais no setor e evitar o domínio absoluto do capital estrangeiro em usinas brasileiras. “A presença da Petrobras equilibra um pouco as coisas”, avaliou Cassel.

Nas diretrizes da PBio, comandada pelo ex-ministro Miguel Rossetto, estão pesados investimentos de US$ 530 milhões em pesquisas de biocombustíveis até 2014. A empresa já domina a tecnologia do biodiesel de mamona e banca pesquisas para adequar outras matérias-primas às exigências técnicas. “Percebemos que o biodiesel estará na matriz energética do futuro. Por isso, vamos estabilizar o programa”, acrescentou.

A empresa se esforça para estimular e organizar a produção familiar. Fez acordo com o Banco do Brasil para avalizar financiamentos, transferir pacote tecnológico integrado de insumos e assegurar a compra da matéria-prima.

Em 2009, firmou convênio com o BB para avalizar R$ 90 milhões a 60 mil produtores de mamona, soja e girassol de Minas Gerais, Ceará, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Piauí, Bahia e Sergipe. A produção, que deve ser ampliada para 120 mil hectares nessas áreas, abastecerá as usinas de Quixadá (CE), Candeias (BA) e Montes Claros (MG). Uma delas já dobrará sua capacidade de processamento.

No ano passado, a PBio também adquiriu metade das ações da usina de biodiesel BSBios, de Marialva (PR), por R$ 55 milhões. “Estamos fazendo uma inclusão bem feita, de Primeiro Mundo”, disse Cassel. 

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Regra da UE busca assegurar biocombustível sustentável

Bloomberg News/ Valor Econômico
14/06/10
A União Europeia criou controles para evitar que o comércio de biocombustíveis provoque danos às florestas e outras áreas, dentro de seus esforços para reduzir a dependência dos meios de transporte com o petróleo.

A Comissão Europeia divulgou as diretrizes para assegurar que os biocombustíveis – feitos basicamente de culturas como colza, trigo, milho e açúcar – não tenham origem em áreas de florestas, terras pantanosas e reservas naturais. O objetivo é esclarecer partes da lei europeia que exige um mínimo de 10% de fontes renováveis nos combustíveis para o transporte ferroviário e rodoviário até 2020 em todo o bloco.

Aprovada em 2008, a lei determina padrões de proteção ambiental para os biocombustíveis que entrarão nessa meta de fontes renováveis, para que a expansão no comércio desses produtos não chegue à custa do desmatamento em países exportadores, como o Brasil. “Temos de assegurar que os biocombustíveis também sejam sustentáveis”, disse o comissário de Energia da UE, Guenther Oettinger. “Temos o critério mais rigoroso do mundo.”

Os biocombustíveis oferecem a perspectiva de reduzir o uso de combustíveis fósseis, aos quais se atribuem as mudanças climáticas. Também ajudam a União Europeia a diversificar suas fontes de energia e diminuir a dependência de petróleo e gás natural.

Em 2008, os biocombustíveis representaram 3,4% do consumo em meios de transporte na UE, segundo informações do bloco econômico. Em 2007, 26% do biodiesel e 31% do etanol consumidos na UE foram importados, principalmente do Brasil e EUA.

Grupos ambientais haviam considerado os padrões de sustentabilidade pouco estritos e acusavam a UE de não prestar a atenção adequada à “mudança indireta no uso da terra”, ou seja, a possibilidade de que o maior cultivo de culturas usadas em biocombustíveis desloque a produção de alimentos. Tal tendência ameaçaria estimular a conversão de florestas e terras pantanosas (que armazenam CO2) em terras para agricultura.

Este é “talvez o problema mais perigoso dos biocombustíveis”, segundo o Greenpeace. “Os impactos da mudança indireta no uso da terra continuarão causando perda significativa na biodiversidade e mais emissões de gases causadores do efeito estufa.”

A Comissão Europeia, responsável pelas regulamentações dos 27 países da UE, está concluindo quatro estudos sobre a questão e pretende realizar um período de consultas com as partes interessadas. Até o fim do ano quer ter um documento normativo que poderia impor regras adicionais de sustentabilidade, segundo Marlene Holzner, uma das porta-vozes da CE. Até essa data, o foco é colocar em vigor a atual lei sobre biocombustíveis de forma harmoniosa, segundo Oettinger.

A Comissão Europeia de Biodiesel, que representa cerca de 60 companhias, incluindo a Verbio da Alemanha e a Neste Oil Oyj da Finlândia, bem como as divisões europeias da Archer Daniels Midland e Cargill, saudaram as diretrizes como “esclarecimentos essenciais” da legislação da UE.

Uma exigência ambiental na lei europeia é que a produção de biocombustíveis conduza a uma economia nas emissões de gás-estufa de pelo menos 35% inicialmente e de 50% a partir de 2017. O menor nível de economia para biocombustíveis a partir de novas plantas é de 60% em 2018.

As diretrizes explicam como calcular essas economias de gás estufa. O documento normativo também procura esclarecer artigos sobre proteção da natureza.

A orientação “explica que biocombustíveis não devem ser produzidos a partir de matérias-primas de florestas tropicais ou de áreas recentemente desmatadas, turfa, pantanais ou áreas de extrema biodiversidade – e a forma como isso deve ser avaliado”. Ela esclarece que a conversão de florestas para plantação de óleo de palma poderá conflitar com exigências de sustentabilidade.

A legislação da UE com a meta de 10% para energia renovável no transporte também visa elevar a parcela de energia verde, incluindo energia eólica e solar na UE, a uma média de 20% até 2020.

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ENERGIAS RENOVÁVEIS

21/06/10

Projetos para venda de energia eólica somam uma Belo Monte

Sex, 18 de Junho de 2010
Zero Hora, DE PORTO ALEGRE

Estimulado por leilões e crédito do governo, volume dessa fonte deve quadruplicar até 2012

Setor espera que, no pregão, sejam vendidos 2.000 MW, ou 1/3 da capacidade das usinas do rio Madeira

Elevadas a cem metros de altura, turbinas que transformam vento em eletricidade estão se multiplicando no Sul e no Nordeste.

O país produz cerca 700 MW em parques eólicos (menos de 1% do gerado), mas esse volume deverá ser quadruplicado até 2012, segundo a Abeeólica (Associação Brasileira de Energia Eólica).

Dois fatores são fundamentais para a expansão do setor: os leilões de compra de energia do governo federal, que dão garantia de rentabilidade aos projetos, e a oferta de crédito oficial que cobre até 70% do investimento.

No último leilão em dezembro, o governo autorizou a compra de 1.808 MW. Segundo o presidente da Abeeólica, Ricardo Simões, a tendência é que essa marca seja ultrapassada em agosto, quando ocorre o próximo pregão para compra de energia de fontes alternativas.

Para o próximo leilão, há 399 projetos de geração eólica
cadastrados.

Juntos, eles totalizam 10.500 MW -praticamente o mesmo potencial de geração da hidrelétrica de Belo Monte (PA), alvo de contestação de ambientalistas por seus impactos no Alto Xingu.

Para Simões, o mercado trabalha com a compra de 2.000 MW no próximo leilão.

Energia eólica é mais cara do que a hidrelétrica, principal fonte de eletricidade da matriz brasileira. Em dezembro, a média do MW/h eólico custou R$ 148. O custo de geração em Belo Monte, por exemplo, foi estimado em R$ 78/MW, na proposta do consórcio vencedor do leilão.

INVESTIMENTO

A estimativa da Abeeólica é que, para entregar a energia vendida no último leilão, o setor invista R$ 8 bilhões até 2012. A expectativa é que a energia eólica chegue a mais de 2% do total gerado no país até 2012.
Entre 2003 e 2009, o BNDES aprovou 31 operações de financiamento a parques eólicos, somando 673 MW. O banco emprestou R$ 2 bilhões dos R$ 3,5 bilhões do custo total dos projetos.

O sistema eólico funciona por meio de gigantescas hélices movidas pelo vento, que acionam uma turbina no centro de um catavento. A energia eólica se transforma em eletricidade, que é transportada até uma estação no parque eólico e, depois, entra na rede de transmissão.
Sua maior vantagem é ambiental. Diferentemente das térmicas a gás, as eólicas não emitem dióxido de carbono, vilão do aquecimento global.

Investidores do setor afirmam que o vento complementa, mas não substitui, a energia hidráulica.
“A entrada da energia eólica representa verdadeiros reservatórios virtuais de água porque os ventos são mais fortes e constantes justamente no período seco, quando as barragens estão em níveis mais baixos”, diz Simões.

EXPANSÃO

A experiência da Ventos do Sul, joint venture das subsidiárias brasileiras dos grupos Elecnor (Espanha) e Enercon (Alemanha), é um termômetro do mercado.
Dona do maior parque eólico em atividade na América Latina, com 75 aerogeradores em Osório (RS), a empresa 150 MW de potência instalados. E vai expandir o parque em 104 MW, com investimento de R$ 470 milhões.

O presidente da Ventos do Sul, Telmo Magadan, diz que a energia eólica pode ajudar a evitar apagões no futuro.
“Independentemente das crises econômicas, o mundo cresce. Nós temos que ter segurança energética para fazer frente a esse crescimento num binômio com sustentabilidade”, afirma Magadan.

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Energia planejada dá conta de um PIB forte

Cláudia Schüffner, do Rio
18/06/2010

O crescimento do consumo de energia elétrica no Brasil – 9,5% nos primeiros quatro meses de 2010 em relação a igual período do ano passado – resultou do forte aquecimento econômico. As estimativas da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) mostram que será necessário acrescentar anualmente 6.300 megawatts (MW) de geração nova até 2019 para atender ao aumento do consumo. A pergunta que se faz é como será possível adicionar o equivalente a meio Belo Monte – maior usina em construção, com 11.233 MW – de geração nova a cada ano para não comprometer o suprimento do país. “Vai ser tranquilo”, responde o presidente da EPE, Maurício Tolmasquim.

O planejamento do governo prevê que mais da metade da demanda até 2019 seja atendida por hidrelétricas (55,5%), mas a novidade é a previsão de atender 23% com fontes alternativas, como eólica e bagaço de cana. Combustíveis fósseis, como carvão e gás, respondem por 19% do planejamento – que não prevê a contratação de nenhuma térmica a gás a partir de 2015 – enquanto as usinas nucleares, incluída Angra 3, em construção, ficariam com 2%.

“O que dá tranquilidade é que praticamente não há limite no que se pode acrescentar de geração térmica a carvão e a gás (no país), além do grande potencial disponível de biomassa e eólica. Nesses dois casos o preço não é nenhuma barbaridade. Não vai faltar energia. Costumo dizer que existe o plano A, que é aumentar a geração hidrelétrica, e o plano B, que é aumentar a participação da geração termelétrica ou renovável. Mas faltar, não vai. Angra 3 já começou a ser construída e ela já está contabilizada”, diz Mário Veiga, presidente da PSR Consultoria.

Especialistas e representantes de associações de consumidores concordam. A preocupação é com o preço e com a possibilidade de se “sujar” a matriz com energia térmica a carvão, por exemplo, no caso de atraso das hidrelétricas. “Eu acho difícil atender a essa demanda com uma expansão limpa a custo baixo e ambientalmente viável”, pondera Paulo Pedrosa, presidente da Associação Brasileira dos Agentes Comercializadores de Energia Elétrica (Abraceel).

Luciano Pacheco, diretor da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace), também acha possível adicionar essa quantidade de energia por ano, mas reclama que o setor não tem acesso aos projetos e aos processos de inventário.

Veiga, da PSR, acha factível essa previsão, mas diz que o desafio do governo é viabilizar a oferta prevista de hidrelétricas, considerando-se as dificuldades de licenciamento ambiental. “Se me perguntam se existem opções para garantir a demanda do país, a resposta é sim. Se vai ser possível garantir a demanda com predominância hidrelétrica, vamos ver”, acrescenta.

Nas últimas semanas outra dúvida cresceu diante do desempenho da economia brasileira no início deste ano. Enquanto as projeções do governo e dos economistas apontam para um PIB 7% maior no ano, o planejamento da EPE embute uma expansão da economia de 5,1% em 2010 e igual percentual para o aumento do consumo.

Mesmo assim, analistas do setor não veem riscos dessa aceleração do crescimento consumir antes do tempo a folga existente na geração desse insumo. Para Veiga, o Brasil tem alternativas para suprir o aumento da atividade econômica caso a previsão de entrada de novas hidrelétricas não se efetive ou o PIB cresça acima do previsto.

O Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) 2019 indica a entrada em operação de 63.482 MW de energia nova nos próximos dez anos. Desses, 39.740 MW (ou 63%) já foram contratados, como as usinas Jirau e Santo Antonio, e outros 23.742 MW estão planejados.

Segundo o presidente da EPE, quando se consideram os “excedentes” na geração, a oferta de energia vai suportar um crescimento de 7% a 7,5% do PIB. Segundo ele, os dados da EPE são conservadores, porque o planejamento não considera as usinas listadas como “sem previsão” pela superintendência de fiscalização de serviços de geração da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Ali, as novas usinas que vão entrar até 2014 somam 41 mil MW. A EPE, contudo, considera apenas 29,7 mil MW, dos quais 27 mil já contratados e 2,1 mil a serem contratados de fontes alternativas.

Para 2010 a EPE trabalha com a perspectiva de leiloar quatro novas hidrelétricas de 150 MW a 300 MW em julho. Até o fim do ano a lista inclui Cachoeira (63 MW), Castelhano (64 MW) e a maior delas, São Luiz do Tapajós, de 6.133 MW, em fase de licenciamento. No rio Tapajós, essa usina está prevista para entrar em operação em 2016 e seria leiloada apenas em 2011, mas a EPE vai antecipar para 2010, adiantou Tolmasquim ao Valor.

Se depender do número de empresas (480) inscritas para os leilões para compra de energia de reserva marcados para agosto deste ano, não faltará energia renovável no país.

Os projetos somam 14.529 MW, sendo 10.569 MW apenas de energia eólica. Mesmo assim, Ruberval Baudini, presidente da Associação Brasileira de Energias Alternativas e Meio Ambiente (Abeama), reclama da pouca participação de energias renováveis na matriz energética. “Temos a maior matriz energética do mundo baseada em hidreletricidade e também a maior insolação, mas não vemos a energia solar com essa força”, diz Baudini.

Um fato incontestável é que no período de 2009 a 2015 o preço da energia no Brasil vai subir, como resultado dos contratos já firmados nos leilões principalmente de usinas térmicas. Recentemente em um fórum em São Paulo a PSR mostrava que nesse período (2009-2015) haverá um aumento real de 22% na tarifa de energia.

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Energia solar no Brasil

15/06/10

Por Paulo Henrique Assis Feitosa
24/03/2010

Proinfa não contemplou o financiamento da geração de energia fotovoltaica

O fato de possuir uma matriz energética limpa faz com que o Brasil corra o risco de perder grandes oportunidades geradas pelas tecnologias que permitirão a transição para uma economia de baixo carbono, como as células fotovoltaicas que transformam a radiação solar em eletricidade. A energia solar fotovoltaica desempenha um importante papel nessa transição se observado seu potencial de abatimento de emissões. Outros papéis fundamentais são o suprimento de parte da crescente demanda mundial de energia, na diversificação de matrizes energéticas nacionais e no aumento da segurança energética dos países, diante dos riscos de fornecimento das energias convencionais.

Ao longo das três últimas décadas, a energia solar fotovoltaica apresentou um aumento significativo da sua eficiência e rentabilidade por meio de inovações e experiências adquiridas na sua produção, entretanto, ainda possui um custo maior em relação às principais fontes de energia. Nos próximos anos, os custos de produção alcançarão um nível de US$ 1 por watt, tornando-a competitiva em relação a fontes convencionais na geração de eletricidade como, por exemplo, o carvão. Essa tendência de queda nos preços é guiada pelo amadurecimento de uma nova geração de células fotovoltaicas baseadas em nanomateriais, que vem sendo desenvolvidas por uma série de companhias dotadas de capital de risco e dispostas a concorrer com o design dominante do mercado mundial de petróleo.

Em relação a outras fontes igualmente renováveis, a vantagem competitiva da energia fotovoltaica é dada pela ampla gama de possibilidades de aplicações a partir de inovações tecnológicas. Avanços recentes permitem o surgimento de diversos equipamentos eletrônicos dotados de células fotovoltaicas que geram a energia que consomem. Na emergente indústria de carros elétricos, com a crescente necessidade de desenvolver combustíveis de baixo carbono, o desafio é que os veículos produzam sua energia a partir dessas células. Outra perspectiva está na construção civil com o desenvolvimento de edifícios, telhados e janelas com painéis integrados, seguindo as diretrizes estabelecidas pelas green buildings.

Experiências de países como Alemanha, Dinamarca e Espanha mostram que apesar da existência de barreiras financeiras a adoção de fontes renováveis de energia é plenamente viável com a criação de programas bem estruturados de incentivos governamentais, lembrando que sua concepção exige uma mudança radical na forma usar, distribuir e consumir energia. Esses esforços tem se materializado em ações práticas de eliminação gradual das fontes poluidoras e não sustentáveis de energias, na implementação de constantes soluções renováveis e na desvinculação gradual do crescimento econômico do consumo de combustíveis fósseis.

Fato em comum dessas experiências é ser resultado de leis de incentivo, como as “feed-in tariff”, que tem se transformado no principal mecanismo de desenvolvimento de tecnologias para geração de energia renovável na Europa, especialmente a solar fotovoltaica interligada à rede elétrica. Com esse mecanismo o governo estabelece uma tarifa para que a concessionária de distribuição de energia elétrica pague por kWh de energia limpa produzida, suportando grandes mercados de energia renovável a um custo que acaba sendo distribuído entre todos os consumidores de eletricidade.

Até o momento o Brasil não dispõe de mecanismos institucionais efetivos para o desenvolvimento de um mercado de energia solar fotovoltaica e o Proinfa – principal programa federal de incentivo à promoção de fontes alternativas de energia elétrica – não contemplou a possibilidade de financiar a geração de energia fotovoltaica. Essa decisão ignorou o acesso privilegiado do Brasil a essa fonte de energia, tendo em vista que o país está localizado numa faixa de latitude na qual a incidência de radiação solar é muito superior à verificada no restante do mundo. Essa radiação garante que a região mais favorecida em termos de radiação solar na Alemanha apresente, aproximadamente, 1,4 vezes menos radiação do que a região menos ensolarada do Brasil.

Dentre outras oportunidades identificadas para o país ao propiciar o surgimento de um mercado de energia fotovoltaica, destaca-se a redução dos impactos ambientais na produção de energia e a universalização do acesso à energia por meio da geração distribuída, considerando que sua implantação é ideal para localidades remotas ou de difícil acesso, pois sua instalação em pequena escala desobriga os grandes investimentos em linhas de transmissão.

No plano macroeconômico, o desafio é conceber um sistema nacional de ciência, tecnologia e inovação que seja capaz de aproveitar as oportunidades geradas pela próxima onda longa de desenvolvimento do capitalismo de baixo carbono. A partir desse sistema será possível estabelecer uma estratégia nacional de pesquisa e desenvolvimento que tenha como objetivo a redução da dependência de transferências tecnológicas dos países desenvolvidos. No presente, a ausência de ações efetivas já é capaz de comprometer uma maior capacitação da indústria local para suprir de forma competitiva os componentes, sistemas e softwares relacionados à tecnologia para produção de energia fotovoltaica.

Nos próximos anos, a manutenção do status quo baseada na justificativa de já possuir uma matriz energética limpa além de ser o pior cenário para a energia fotovoltaica no Brasil, reafirmaria no futuro o nosso reconhecimento como país das oportunidades perdidas. Posicionar-se nesse movimento global é constituir as bases da transição tecnológica para uma economia de baixo carbono, reduzindo externalidades negativas ao meio ambiente e proporcionando uma maior sustentabilidade do desenvolvimento econômico.

Paulo Henrique Assis Feitosa , é economista e mestrando em Economia da UFES.

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Na refinaria de biomassa, tudo se transforma

15/06/10

Resíduos são convertidos em produtos nobres como energia, biocombustíveis e químicos

24 de março de 2010

Andrea Vialli – O Estadao de S.Paulo

Parece coisa de alquimista: transformar resíduos indesejáveis como lixo urbano, bagaço de cana, casca de arroz, pneus e até lodo de esgoto em combustíveis, plástico e inúmeras matérias-primas de uso industrial. A transformação não só é possível como o Brasil já tem tecnologia disponível para isso.

O conceito de biorrefinaria ou refinaria de biomassa ainda pode soar novo aos ouvidos brasileiros. A lógica de funcionamento é semelhante à de uma refinaria de petróleo, de onde saem vários produtos, como nafta, combustíveis e gás natural.

Em uma biorrefinaria é possível ter biocombustíveis, biopolímeros e biogás, além de geração de energia elétrica, tendo resíduos variados como matéria-prima.

Os estudos sobre seu funcionamento vêm sendo conduzidos no País há pelo menos duas décadas. Mas agora estão saindo da esfera acadêmica. Há pelo menos dois empreendimentos com esse perfil, um no Polo de Camaçari, na Bahia, e outro em Lorena, no interior de São Paulo.
Há ainda um projeto semelhante, em fase de estudos, no Paraná.

Em Lorena, a 180 quilômetros da capital paulista, um dos expoentes da tendência é a RM Materiais Refratários. Há 21 anos a empresa vem trabalhando na tecnologia que chamou de Probem – sigla para Programa de Biomassa, Energia e Materiais -, capaz de transformar, por meio de processos termoquímicos, a biomassa, tanto vegetal quanto oleaginosa, em uma gama extensa de produtos químicos de grande uso na indústria.

Os resíduos sólidos são, na primeira etapa do processo, inseridos em um reator, que faz a “quebra” das moléculas da biomassa. Desse processo resulta um componente sólido, a celulignina, um pó que dá origem a um tipo de gás, que pode ser queimado em uma caldeira para cogeração de energia elétrica. O gás pode também ser usado como matéria-prima para a transformação em produtos químicos, como amônia, ureia, metanol e cinza fertilizante, por meio de uma tecnologia conhecida como GTL (Gas to Liquid), largamente empregada nas refinarias de petróleo. Nesse caso, o produto varia conforme o catalisador utilizado no processo.

“Para cada tipo de biomassa, há uma rota tecnológica. Mas todas têm como ponto de partida a pré-hidrólise, que é feita em um reator que emprega finas chapas de material refratário em seu interior”, explica João Carlos Ferreira, engenheiro químico que trabalha no aperfeiçoamento da tecnologia Probem. O intrincado sistema (mais informações nesta página) também é objeto de estudo de sua tese de doutorado.
Até mesmo resíduos de natureza oleaginosa, como pneus, lodos de estações de tratamento de esgoto e dejetos de animais, podem ser transformados em matérias-primas nobres.

A alquimia começa pela hidrólise dos materiais, em um processo de conversão a uma temperatura de aproximadamente 400°C, que dá origem a um componente sólido (espécie de carvão) e um óleo. Ambos dão origem a novos produtos: fertilizante para uso agrícola, negro-de-fumo (insumo para corantes) e óleos aromáticos. “Não há resíduo que não possa ser transformado”, diz Ferreira.

Solução para o lixo. A tecnologia chamou a atenção de um investidor, a Senergen Energia Renovável, que adquiriu 50% de participação na empresa. “O desenvolvimento e a expansão da tecnologia podem resolver definitivamente o problema do lixo urbano e reduzir a dependência do petróleo”, diz Roberto Paschoali, sócio da Senergen.

Atualmente, um reator funciona em Alegrete (RS), onde processa 90 toneladas por dia de casca de arroz, resíduo abundante na região. Como resultado do processo, há geração de energia elétrica e produção de pó de sílica, vendido para a indústria de cosméticos. Paschoali já negocia a venda da tecnologia para cerca de 30 indústrias – 10 estão em estágio avançado. “O momento é de transição para uma nova ordem econômica e ecológica. Em alguns anos, as biorrefinarias serão mais comuns do que pensamos”, diz.
GLOSSÁRIO

Celulignina
Material sólido (pó) que resulta da quebra de moléculas da biomassa
vegetal realizada no reator. Esse pó tem alto poder combustível e, acionado por uma chama de maçarico(foto), permite a geração de energia elétrica.

GTL (Gas to Liquid)
Tecnologia, amplamente usada nas refinarias de petróleo, que permite a conversão química de gases em líquidos. Na refinaria de biomassa, o processo permite produzir produtos químicos como
amônia, ureia e metanol.

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