Arquivo da categoria 'Sustentabilidade'

Energias renováveis

29/08/11

Condomínio adota geração eólica e solar

Por Chico Santos

25/08/2011

Lima, diretor da Ecoglobal, explica que o projeto não visa autonomia energética, mas economia com a conta de luz

Um condomínio residencial com oito prédios e 512 apartamentos cujas partes comuns são abastecidas com energia de origem eólica, o estacionamento é equipado com tomadas para carregar carros elétricos e a água para uso sanitário (descargas domésticas) vem de captação pluvial.

É o que promete entregar em 2016 a construtora carioca Calper, a partir de um projeto desenvolvido em conjunto com a Ecoglobal, responsável pelo projeto de sustentabilidade, e a Cintrax, que está começando a produzir no país um tipo de aerogerador de uso doméstico que se adapta ao propósito da construtora. Ao menos no Rio de Janeiro, eles garantem que é o primeiro projeto com tamanho grau de sustentabilidade.

O engenheiro Davidson Meira Jr., da Calper, um dos responsáveis pelo projeto, explica que cada edifício do condomínio será equipado com um aerogerador de 1.000 a 1.600 watts/hora e com uma bateria de placas de captação solar com a mesma capacidade. O objetivo é que haja sempre a disponibilidade de alguma energia de origem limpa para uso nas partes comuns, como portaria, corredores e até para alimentar a máquina do exaustor central do edifício, explica o engenheiro José Luiz Bastos, da Cintrax.

Como a produção será limitada, o sistema de geração própria será conectado a uma rede que, de forma automática, passa a utilizar energia da Light sempre que a demanda for superior à geração alternativa. Bastos explica que a energia produzida será convertida diretamente para consumo residencial, sem necessidade de subestações, graças a um aparelho chamado inversor de conexão à rede.

Conectada em um ponto após o relógio que marca o gasto de energia vinda de fonte externa, o sistema de geração própria poderá trazer uma economia de até 50% na conta de luz condominial, estima Bastos. Meira, da Calper, estima em até 20% a economia no custo condominial para o condomínio que será construído no Recreio dos Bandeirantes (zona oeste do Rio).

Meira explica que o projeto de geração de energia elétrica própria vai custar cerca de R$ 400 mil, com impacto de apenas R$ 800 no custo de cada apartamento. Com isso, a construtora pode vender as unidades, de dois e três dormitórios, a preços que não diferem das construções convencionais.

O ambientalista Walter Lima, diretor da Ecoglobal, disse que do ponto de vista energético o projeto não visa a autonomia, mas economia de energia, incluindo o uso de lâmpadas de LED (mais econômicas) e de motores mais econômicos nos equipamentos, como aparelhos de ar condicionado.

Sobre as tomadas para carros elétricos, Lima disse que elas serão baseadas nas especificações de recarga utilizadas por um carro que a montadora Nissan já está trazendo para o Brasil e que é utilizada também por outras montadoras, como a GM. O acesso à tomada será feito com o cartão de acesso do morador ao condomínio, de modo que o custo da recarga será debitado da cota condominial.

O ambientalista disse também que o uso de água pluvial para as descargas domésticas é inédito no Brasil e que a água da chuva será utilizadas também para regar plantas e para outras atividades de uso geral do condomínio, como lavagem de dependências, de veículos, etc. Será usado um sistema de microdrenagem do solo, de tal modo que a captação continua mesmo após a chuva.

Bastos, especializado em eletrônica, disse que até agora a Cintrax só forneceu poucos aerogeradores: para uma fazenda em Santa Catarina, para uma casa em Belo Horizonte, um prédio em Salvador e para o condomínio Via Barra, na Barra da Tijuca (zona oeste do Rio). Como a demanda é pequena, ele terceiriza a fabricação, mas o plano é montar uma fábrica própria.

Bastos avalia que a fábrica vai se viabilizar quando for votado no Congresso Nacional o projeto 630/2003, regulamentando a microprodução privada de energia elétrica. Com a nova lei, segundo ele, será possível produzir energia em casa e vender o eventual excedente para a distribuidora.

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Energia solar passa a ter incentivo e deve seguir o rastro da eólica

Folha de S. Paulo

23/08/11 – Mais cara entre as principais fontes alternativas, a energia solar começa a receber incentivos no país para que seu potencial finalmente possa ser tirado do papel.

A ideia é que o custo de geração a partir da luz do Sol siga o mesmo caminho da energia eólica. A geração com a força dos ventos parecia, a exemplo da energia solar, a velha promessa que nunca vingava. O governo passou, então, a fazer leilões, criando demanda e baixando o custo.

O primeiro movimento para tentar baixar o custo da energia solar vem do Ceará, que detém o maior parque de geração eólica do país. O governo local criou um fundo de incentivo à energia solar. Ele consiste em garantir a compra da energia e criar demanda para que produtores de equipamentos se instalem na região.

O governo garantirá, por meio do mercado livre, a compra da energia solar pelo período de um a dois anos.

A energia comprada será direcionada para prédios públicos. As indústrias serão incentivadas, com entrega de selos de sustentabilidade a quem adquirir energia gerada a partir da luz do Sol.

O governo cearense estuda ainda conceder incentivos fiscais a quem adquirir essa energia alternativa. Atualmente, o custo de 1 MWh (megawatt-hora) de energia solar é estimado entre R$ 400 e R$ 600.

Gerar a partir dos ventos tinha custo parecido, mas, atualmente, só perde para as usinas hidrelétricas. O custo médio do MWh no leilão realizado na semana passada ficou em torno dos R$ 99.

“A energia eólica parecia inconcebível. Hoje é realidade”, diz Zuza de Oliveira, diretor da Adece (Agência de Desenvolvimento do Ceará).

Apenas neste mês, o Brasil passou a ter sua primeira usina a produzir em escala comercial. Com 1 MW de capacidade instalada, a usina solar de Tauá, instalada na cidade cearense homônima, foi construída pela MPX, do grupo EBX, de Eike Batista.

A companhia já tem autorização para quintuplicar a produção da usina. “Acreditamos no potencial da energia solar e achamos que ela pode ter grande aproveitamento, à medida que os custos caírem”, diz Eduardo Karrer, presidente da MPX.

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Biocombustíveis

22/08/11

Petrobras e São Martinho terão a maior usina de etanol do mundo

Nova Fronteira, joint venture entre as duas companhias, vai investir R$ 520,7 milhões para ampliar a capacidade de processamento da Usina Boa Vista, em Goiás, dos atuais 3 milhões para 8 milhões de toneladas de cana por ano

18 de agosto de 2011

Eduardo Magossi – O Estado de S.Paulo

A Nova Fronteira, joint venture entre o Grupo São Martinho e a Petrobrás Biocombustível, vai investir R$ 520,7 milhões para transformar a Usina Boa Vista, localizada em Quirinópolis, Goiás, na maior produtora de etanol de cana-de-açúcar no mundo. O anúncio foi feito pelos presidentes da São Martinho, Fábio Venturelli, e da Petrobrás Biocombustível, Miguel Rossetto.

Segundo Venturelli, a expansão permitirá que a capacidade instalada de moagem de cana-de-açúcar saia dos atuais 3 milhões de toneladas para 8 milhões de toneladas em três anos, até a safra 2014/15. “A cana será toda revertida para a produção de 700 milhões de litros de etanol e 600 mil megawatt/hora de energia elétrica excedente”, disse o executivo. O volume de etanol a ser produzido pela Boa Vista será equivalente à produção de oito usinas médias. Os investimentos realizados serão da ordem de US$ 70 por tonelada de cana.

Este será o primeiro investimento em produção de um novo ciclo de “retomada”, depois que os recursos destinados à expansão de canaviais secaram após a crise de 2008, na opinião de Rossetto. Segundo ele, esse novo investimento é só o primeiro a ser realizado na Nova Fronteira com o objetivo de acabar com a atual crise de oferta de etanol.

“Estamos estudando novos investimentos na Nova Fronteira. Acreditamos na competência da São Martinho na gestão da produção de etanol e queremos contribuir para acabar com a agenda de crise e começar outra, de retomada no crescimento sustentável da produção”, disse. Rossetto afirma que esses investimentos vão servir como um estímulo virtuoso para que novos aportes sejam feitos por outras empresas em etanol e também em infraestrutura, como, por exemplo, em logística.

A Usina Boa Vista está localizada de forma estratégica próxima ao alcoolduto que está sendo construído pela Logum (que tem participação tanto da Petrobrás como da São Martinho), e também da rodovia Norte-Sul e de hidrovias que estão sendo construídas pela Transpetro. “Poderemos escoar o etanol para os mercados consumidores do Sudeste, por meio do alcoolduto, ou até o Maranhão, via ferrovia, e, de lá, exportar o etanol ou levá-lo para os mercados das regiões Norte e Nordeste”, afirma Venturelli.

Rossetto lembra que a própria oferta de 700 milhões de litros vai impulsionar os trabalhos do alcoolduto para que ele esteja pronto na safra 2014/15. “O etanol da Nova Fronteira será importante para que a Logum atualize seus investimentos na região e mantenha seu cronograma”, disse.

Recursos, Do total de R$ 520,7 milhões, R$ 430,5 milhões serão investidos na parte industrial e R$ 90,2 milhões na parte agrícola. Nesse montante não estão incluídos os recursos para o plantio de cana. Venturelli pretende elevar a participação de fornecedores de cana da Nova Fronteira. “Atualmente, temos 20% de cana vindo de fornecedores e queremos elevar esse volume para até cerca de 40%”, disse. Os recursos serão buscados no BNDES e a expectativa é de que o banco financie até 80% do projeto, com os outros 20% vindo dos sócios. O projeto também contará com benefício do governo de Goiás, por meio do programa Produzir.

O cronograma dos investimentos prevê o aporte de R$ 179,6 milhões na safra 2012/13, com a expansão da capacidade instalada da Boa Vista de atuais 3 milhões para 3,4 milhões de cana. Em 2013/14, serão investidos R$ 326,1 milhões, e a capacidade será expandida para 4 milhões de toneladas. Em 2014/15, serão realizados mais R$ 15 milhões para totalizar as 8 milhões de toneladas. A expectativa é criar 3 mil novos postos de trabalho diretos e indiretos na região de Quirinópolis até 2014/15.

Na safra atual, a Boa Vista deve moer 2,35 milhões de toneladas de cana e produzir 210 milhões de litros de etanol e 220 mil megawatts/hora de energia excedente. Essa energia já está vendida. O Grupo São Martinho possui o controle da Nova Fronteira, com 51% do capital, e a Petrobrás Biocombustível detém os 49% restantes.

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EUA querem parceria com Brasil para criar mercado global de etanol

Daniel Rittner | De Brasília

18/08/2011

Jay Mallin/Bloomberg

Daniel Poneman: “Podemos encontrar mais mercados no mundo para o etanol e expandir a demanda”

Os Estados Unidos querem acelerar projetos de cooperação com o Brasil na área de biocombustíveis para explorar terceiros mercados e criar um mercado global de etanol. Apesar da recente crise de oferta no Brasil e das incertezas que ainda cercam a manutenção dos subsídios nos EUA, o governo americano buscará a transformação do etanol em commodity, assegura Daniel Poneman, número 2 do Departamento de Energia.

“É nosso objetivo ver a sua ‘commoditização’. Podemos encontrar mais mercados no mundo e expandir a demanda”, disse o secretário-adjunto de Energia, após reuniões com autoridades brasileiras, que encerraram visita de três dias ao país.

Poneman e o secretário-executivo de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, lançaram um Diálogo Estratégico de Energia que engloba quatro áreas: biocombustíveis e energias renováveis; petróleo e gás natural; eficiência energética; e energia nuclear. Esse mecanismo aprofunda o memorando de entendimentos na área de etanol, assinado em 2007, que previa cooperação em pesquisa, padronização do produto e desenvolvimento de produção em terceiros mercados. Os presidentes Barack Obama e Dilma Rousseff, no encontro que tiveram em março, prometeram dar novo impulso ao acordo.

Poneman diz que os dois países devem expandir, para outros países, a cooperação que já têm para desenvolver a produção de etanol na América Central e no Caribe. Também pediu ênfase na definição de padrões e normas técnicas. Sem isso, acredita, será difícil colocar biocombustíveis no mercado internacional. “Uma das questões importantes que devemos levar em conta é estabelecer normas e padrões para que, por exemplo, veículos flex fuel possam aceitar diferentes biocombustíveis”, diz.

Para ele, dificuldades momentâneas em suprir a demanda – como a recente crise de oferta na entressafra brasileira – não devem ser vistas como impedimento para transformar o etanol em commodity negociada internacionalmente. Poneman destaca a importância de desenvolver formas mais competitivas de produção, especialmente com a nova geração de etanol, e estimular novas demandas, como a aplicação de biocombustíveis na aviação, alvo de parceria entre Embraer e Boeing.

De acordo com ele, os EUA acabaram de entrar na segunda rodada de aumento dos padrões de eficiência exigidos da indústria de veículos, que elevarão o gasto de combustível para cerca de 23 quilômetros por litro até 2025. Isso também pode gerar demanda adicional para biocombustíveis que possam ser misturados à gasolina.

Nesta semana, Obama anunciou a distribuição de subsídios no valor de US$ 510 milhões para estimular a produção de biocombustíveis que não sejam processados a partir do milho. Os recursos cobrirão os custos de construção e readequação de refinarias para os chamados biocombustíveis avançados, produzidos a partir de resíduos de animais, algas e outros materiais. O produto resultante poderá ser usado em aeronaves, navios e outros equipamentos.

Para Poneman, o Brasil será um “grande fornecedor” de petróleo dos EUA, com o desenvolvimento do pré-sal. Ele garante que as regras do setor agradam às petrolíferas americanas. “As empresas estão muito entusiasmadas com as oportunidades que veem aqui.”

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Reino Unido vai fundar banco “verde”

30/05/11

Associated Press

24/05/2011

O governo britânico divulgou ontem planos para criar o primeiro banco de investimento “verde” com apoio estatal do mundo – uma plataforma política essencial na transição do país para uma economia de baixa emissão de gás carbônico.

O vice-primeiro-ministro do Reino Unido, Nick Clegg, disse que o banco começará a funcionar em abril e de início se concentrará em investimentos em áreas como energia eólica na plataforma continental, tratamento de lixo e eficiência energética não residencial.

O banco será capitalizado com injeção inicial de 3 bilhões de libras esterlinas (US$ 4,8 bilhões) dos cofres do Tesouro britânico, mas terá independência do órgão e poderá captar nos mercados de capitais e do setor privado a partir de 2015.

Clegg disse esperar que o banco invista cerca de 15 bilhões de libras na economia “verde” nos próximos quatro anos.

“O banco tem por objetivo servir de ponte entre o capital de risco e a economia verde, fornecer investimento para financiar infraestrutura de baixa emissão de carbono e preparar as fundações para crescimento equilibrado de longo prazo”, afirmou Clegg, líder do partido Liberal Democrata, que integra a coalizão de governo liderada pelos conservadores.

“Em menos de dois anos, o banco de investimento verde passará de [apenas] uma ideia a [uma fonte de] fluxos de investimento e crescerá rapidamente para tornar-se uma instituição independente de investimento e, então, de captação”, acrescentou, destacando que a instituição representa “um compromisso político extraordinário”, em um momento no qual o governo corta bilhões de dólares em gastos para reduzir a pesada dívida nacional.

Clegg disse que o mercado mundial para bens e serviços ambientais e de baixa emissão de gás carbônico valia 3,2 trilhões de libras em 2008/2009 e a previsão é de que continue a mostrar forte crescimento.

Muitos países possuem bancos de desenvolvimento, mas o Reino Unido será o primeiro a ter um banco nacional dedicado à economia verde.

Os planos anunciados por Clegg incluem algumas concessões importantes aos críticos, que temiam ver o banco excessivamente controlado pelo Tesouro, cuja ideia era dar permissão para a instituição captar apenas do governo.

Os críticos diziam que se o banco não pudesse captar dos mercados de captais não teria condições de oferecer o investimento necessário em tecnologias de baixas emissões.

Clegg disse que o banco terá independência operacional total “o mais breve possível” e poderá captar a partir de abril de 2015, desde que as metas de redução de endividamento do governo sejam alcançadas.

O diretor-executivo do Greenpeace, Johan Sauven, elogiou o compromisso do governo com a independência do banco, mas ressaltou que estará “reprimido desde o início ao manter a restrição aos poderes de captação até, pelo menos, 2015″.

O diretor-geral da Confederação da Indústria Britânica, John Cridland, afirmou que o banco precisa dar segurança aos investidores para conseguir gerar a escala e ritmo de investimentos necessários para transformar o Reino Unido em uma economia de baixas emissões.

Cridland prevê a necessidade de investimentos de 450 bilhões de libras até 2025 para criar oportunidades e empregos “verdes” no Reino Unido e preveniu que o banco “não funcionará se precisar de permissão do Tesouro para assoar o nariz”.

“O banco precisa ter condições de acessar os mercados por conta própria e fazer o que deve fazer”, acrescentou Cridland.

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Sustentabilidade

2/05/11

Rio+20 deve achar meios de financiar tecnologias

Célia Rosemblum | De São Paulo

25/04/2011

Achim Steiner: “A economia verde embute muito mais oportunidades de gerar empregos do que o modelo atual”

A preparação da Rio+20, conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre desenvolvimento sustentável marcada para junho de 2012, ganha ritmo a partir de hoje, com a chegada ao Brasil do diretor executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), Achim Steiner. Nos próximos cinco dias ele vai cumprir uma agenda intensa em que estão previstos encontros com os ministros do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, e Relações Exteriores, Antônio Patriota.

Steiner, que é também subsecretário geral da ONU, vai participar ainda da reunião do Fórum Econômico Mundial na América Latina, de 27 a 29, no Rio. “É uma oportunidade única para mim e para o Pnuma de engajamento com o país sede da conferência e para encontrar os principais grupos, do governo, da sociedade e também do setor privado.”

O evento no Brasil, país onde viveu até os dez anos de idade, será o palco ideal, avalia Steiner, para acelerar e dar escala a um processo global de transição para uma economia verde, que emita menos carbono, seja mais amigável ao ambiente, otimize a eficiência no uso de recursos e ofereça meios de reduzir a pobreza e a desigualdade. “A conferência do Rio precisa examinar como a comunidade internacional pode criar um sistema que auxilie essa transição a partir da articulação de uma agenda clara para acesso a financiamento e a tecnologia.”

Para o diretor executivo do Pnuma, fazer com que novos padrões de produção ganhem escala é um movimento possível mesmo em um quadro de dificuldade para firmar acordos internacionais para enfrentar as mudanças climáticas. A seguir, os principais trechos da entrevista que ele concedeu, por telefone, de Nairóbi (Quênia), onde o Pnuma está sediado.

Valor: O Pnuma tem trabalhado o conceito de economia verde há cerca de dois anos e meio. Quais são os resultados alcançados até agora? Qual é o ritmo das mudanças?

Achim Steiner: O Pnuma começou o trabalho relacionado à economia verde com o objetivo específico de vincular, globalmente e localmente, o consumo de recursos e os padrões de poluição na economia hoje, de forma que as questões ambientais não representassem uma obstrução ao desenvolvimento, mas que sustentassem o desenvolvimento. Queríamos ligar as questões ambientais, da poluição à escassez de recursos, ao conceito de resultados sociais e econômicos. Nós precisamos que a economia global cresça para abrigar 2 bilhões de pessoas nos próximos 40 anos. E para a agenda do desenvolvimento sustentável precisávamos avançar do estágio de apenas resolver um problema após o outro para o foco da tomada de decisões, seja em relação aos consumidores, aos fabricantes ou ao governo. O conceito de economia verde é uma tentativa de fornecer exemplos; estudar, em diferentes partes do mundo, onde podemos achar essas transições menos poluidoras e mais eficientes em uso de recursos. Para nossa surpresa achamos muitos, muitos exemplos. Também era preciso achar projetos que tivessem ganhado escala e progredido, que não fossem apenas opções teóricas. E documentamos vários, o que nos fez acreditar que de fato a transição para uma economia verde começou em todas as partes do mundo. O problema é que elas ainda não estão abrigadas no ambiente ideal de políticas públicas e nós precisamos que elas ganhem escala, para que não permaneçam como simples experimentos.

Valor: Esses exemplos são suficientes para comprovar que a economia mundial está mudando do marrom para o verde?

Steiner: Acho que o mundo está longe de ter alcançado uma transição para a economia verde, está longe de atingir novos padrões econômicos tanto em termos de consumo de recursos quanto em relação à poluição. Metade da economia verde está baseada no conceito de que precisamos manter o crescimento de nossas economias, mas reduzindo a poluição, seja de substâncias perigosas ou dióxido de carbono ou que destroem o ozônio. A outra metade da equação é convencer-nos de que estamos dilapidando o capital natural de nosso planeta, que é fundamental para o futuro das economias. É um capital invisível e porque ele não tem valor econômico explícito atribuído, ou que não é capturado, é quase tratado como se não tivesse valor. Isso acaba implicando uma alocação equivocada do capital. Mas temos muitos exemplos de que a transição é viável. Nosso trabalho é ajudar países a estudar esses exemplos e revertê-los em termos de políticas públicas, mas também em instrumentos de mercado para acelerar e dar escala a essa transição. Temos muitos exemplos e evidências empíricos de como isso pode ser feito e é por isso que eu acredito que a conferência Rio + 20, que escolheu o tema da economia verde em um contexto de desenvolvimento sustentável e combate à pobreza, é um momento vital, não só como uma conferência internacional sobre o desenvolvimento sustentável, mas também como um encontro internacional sobre o paradigma econômico do futuro.

Valor: Quais são os maiores obstáculos e dificuldades para dar escala à economia verde?

Steiner: Os gargalos que enfrentamos são de natureza múltipla. O primeiro é que a infraestrutura econômica existente tem como base um modelo particular de produção e consumo em que a poluição quase sempre é uma externalidade. Não há preço para a poluição e portanto não há incentivo para as indústrias e consumidores para reduzir a poluição. Depois, temos vários subsídios que podem realmente se mostrar perversos. Combustíveis fósseis recebem hoje subsídios em vários lugares, em torno de US$ 400 bilhões a US$ 500 bilhões, alguns estimam que até mais. Em um momento em que os combustíveis fósseis têm se tornado de forma crescente fatores vulneráveis e voláteis em nossa economia, em que a poluição causada por combustíveis fósseis tem trazido custos crescentes para esta e para a futura geração, não é exatamente uma forma racional de se progredir. Também temos com certeza que olhar para as políticas públicas. Os incentivos para que se faça a transição para a economia verde muitas vezes não existem. Hoje, como consumidor, se você comprar um veículo mais eficiente em consumo de combustível você é na verdade punido, porque paga mais na verdade. A questão é como colocamos preços reais nessas fontes de energia? Outros exemplos são os sistemas de taxação. Não recompensamos com isenção de impostos quem polui menos ou usa os recursos de forma mais eficiente. Usualmente fazemos o contrário. Quando se refere a preços, quanto mais se consome, mais barato será o preço da unidade. Essas são claramente mudanças que precisamos fazer.

Valor: Qual impacto esse tipo de mudança pode trazer para as empresas em curto prazo?

Steiner: Negócios são relacionados a novas ideias, tecnologia e sistemas de produção. Quanto mais eficiente é a produção, mais lucrativo você pode ser em relação a seu concorrente. A questão é se o ambiente regulatório dos governos deve incluir políticas para encorajar os empreendedores a adotarem novas tecnologias e novos sistemas de produção e os colocarem no mercado. Podemos tornar a transição para a economia verde atrativa para empreendedores e investidores. A maioria das instituições financeiras e de investimentos que existem no mundo hoje têm uma grande quantidade de recursos que gostariam investir. Mas precisam achar os negócios, mercados, e produtos certos.

Valor: Quais seriam esses mercados no atual cenário?

Steiner: O Pnuma publica todo ano um relatório financeiro sobre energia sustentável. Nos últimos dois anos vimos o investimento em eficiência em energia renovável em todo o mundo crescer de 30% a 60% ao ano. Em 2010 o investimento no campo da nova energia ultrapassou provavelmente US$ 200 bilhões, o que é mais que a soma dos novos investimentos em petróleo, gás e carvão. Há dez anos essa tecnologia considerava-se que essa tecnologia fosse viável talvez em 2050, ou talvez 2100. A China se transformou hoje no maior produtor mundial de painéis fotovoltaicos no mundo. A Alemanha fez em sete ou oito anos, a fatia de renováveis na produção de energia elétrica crescer de 4% para 18% e nos próximos anos chegará a 40%. O setor de energia sozinho demonstra de que forma negócios e investidores podem evoluir rapidamente. A fórmula simples foi um imperativo de crescimento econômico sem a dependência futura de combustível fóssil e uma legislação regulatória que ajudou os consumidores e as empresas a superarem os custos iniciais de transição.

Valor: O Pnuma calcula que 2% do PIB mundial ao ano seriam suficientes para sustentar a transição para a economia verde. Como se chegou a esse número? De onde virão os recursos necessários?

Steiner: O número que nós temos, de aproximadamente US$ 1,3 trilhão ao ano, vem de um modelo econômico global que tem sido usado para diferentes propósitos e essencialmente o aplicamos na tentativa de avaliar uma injeção catalisadora de investimentos que aliassem inovação tecnológica e também reforçassem políticas de gestão e sistemas de incentivo. O relatório diz que se redirecionássemos cerca US$ 1,3 trilhão ao ano para investimentos verdes nos dez setores chave que identificamos, poderíamos capitalizar e acionar os mecanismos de mudanças de mercado e tecnologias que acreditamos podem gerar uma transição que se auto-alimente.

Valor: De onde viria o dinheiro?

Steiner: Em termos globais haveria um elemento de financiamento público, mas a parte mais significativa virá dos mercados de capitais e de investimentos. Nós temos uma grande quantidade de recursos nos sistemas financeiros que estão em busca de investimentos na economia de hoje e na de amanhã. A questão é se podemos criar as políticas e sistemas de incentivos econômicos corretos para que esses investimentos sejam atrativos para o mercado. Mas há um ponto muito importante: particularmente sob a perspectiva dos países em desenvolvimento, o acesso ao capital e à tecnologia será crítico para essa transição. E aí que a conferência Rio+20 é importante, porque é em muitas das economias menores em desenvolvimento que está o desafio de conseguir acesso ao capital. Por isso a conferência do Rio precisa examinar como a comunidade internacional pode criar um sistema que auxilie essa transição a partir da articulação de uma agenda clara para acesso a financiamento e a tecnologia. A transição desses países para a economia verde é ainda mais vital, porque eles não têm acesso à energia, nem capital, nem existe interesse internacional político em financiar para eles o que pode fazer uma diferença entre avançar ou não.

Valor: É possível juntar os países em torno de um acordo nesse sentido? Não haverá dificuldades como na questão climática?

Steiner: Se formos além do estreito corredor de negociações do acordo sobre mudanças climáticas – que no momento não estão conseguindo avançar basicamente porque existe uma percepção de falta de justiça e igualdade em como diferentes grupos de países estão dispostos a investir em seus programas de redução de emissão de carbono – acredito que sim. Sob uma perspectiva mais ampla da economia verde, existem investimentos em energia renovável, eficiência energética, conceitos de mobilidade, gestão de edificações para compartilhamento e redução de emissões. Para os países que têm recursos e tecnologia, as iniciativas para manter a vantagem competitiva por meio de investimentos em economia verde já estão em curso. Nossa preocupação no Pnuma é que essa transição precisa agora ser um paradigma para as políticas nacionais nos países em desenvolvimento, para assegurar que eles não fracassem em uma economia global em que as tecnologias verdes sejam realmente mais eficientes e competitivas.

Valor: Existe uma forma de medir como as economias estão fazendo essa transição? Ou isso depende de algum acordo?

Steiner: Acho que nesse momento o mundo vive o processo de desenvolvimento dos indicadores corretos e dos dados que vão permitir avaliar o quão eficiente o país está sendo ao fazer essa transição. A primeira parte a ser levada em conta são os sistemas de contas nacionais. A maior parte dos países não contabiliza atualmente a depreciação de seu capital natural. Os ativos florestais têm uma função muito consistente e estão de certa forma sendo traduzidos em dinheiro quando o PIB é calculado e houve um corte de árvore. Mas não existe uma forma de contabilizar que quando se corta uma árvore também há reflexos em uma série de sistemas ambientais que não podem ainda ser traduzidos em valores econômicos. O sistema de contas é a porta de entrada para uma abordagem de política macroeconômica que deve valorizar adequadamente e realmente os serviços do país relacionados à infraestrutura ecológica.

Valor: Em termos sociais, qual é o principal apelo da economia verde?

Steiner: Emprego. Enfrentamos hoje no mundo uma situação dramática de desemprego e subemprego. O conceito de economia verde embute oportunidades de gerar muito mais empregos do que o modelo corrente de crescimento. E acredito que para os 2 bilhões de pessoas que irão se juntar a nós nos próximos 20 anos, para os jovens que não acham emprego, isso é essencial.

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