Arquivo da categoria 'Energia Renovável'

Biocombustíveis

27/11/11

Projetos na área de etanol têm bom potencial

Por Fernanda Nunes | Para o Valor, de São Paulo

Com identidades culturais e geográficas e ainda parceiros no campo econômico, o Brasil e os países do continente africano caminham para compartilhar também projetos na área de etanol, um negócio promissor para ambos. Duas empresas brasileiras de grande porte planejam investimento na produção de álcool a partir de 2012. A Açúcar Guarani, uma parceria da Tereos Internacional (68,6%) com a Petrobras Biocombustíveis (31,4%), produzirá etanol em Moçambique. E a ETH Bioenergia, do grupo Odebrecht, em Angola.

Para as empresas brasileiras produtoras de álcool e açúcar, esta é uma oportunidade de diversificação de portfólio para além do território nacional, uma chance de precaver-se de riscos climáticos e de alcançar novos mercados consumidores. Oportunidade também para fornecedores brasileiros de bens e serviços. Para a África, o investimento significa geração de renda, qualificação de mão-de-obra e aproveitamento do solo para um novo cultivo.

“A África guarda um grande potencial para o etanol, por conta da vegetação e do clima, parecidos com os do Nordeste do Brasil, principalmente na África Subsaariana (ao sul do deserto do Saara). A vegetação de savana é semelhante ao cerrado brasileiro. O álcool é, certamente, uma oportunidade”, argumenta Eduardo Leão de Sousa, diretor-executivo da União de Indústria de Cana-de-açúcar (Unica).

Para a ETH, o foco do investimento é o mercado consumidor angolano. A empresa espera concluir neste ano a negociação com a holding para assumir a operação da Biocom, usina formada pela associação da Construtora Norberto Odebrecht com a estatal petroleira Sonangol e sócios privados locais.

O plantio da cana-de-açúcar será iniciado em 2012, em terreno concedido pelo governo local. A partir do segundo semestre de 2013, serão processadas anualmente 2 milhões de toneladas do insumo, para a produção de 30 milhões de litros de etanol, 200 mil toneladas de açúcar e 200 mil megawatt-hora de energia. Serão investidos US$ 400 milhões. Dependendo do sucesso do projeto e do amadurecimento do mercado angolano, uma nova unidade poderá ser construída, revela o presidente da ETH, José Carlos Grubisich. Técnicos da empresa ainda avaliam oportunidades em Moçambique. “A cana é uma planta tropical. Na América Latina, há poucas áreas disponíveis. O grande potencial é a África”, diz Grubisich.

Para a Tereos, os negócios de açúcar em Moçambique ajudou a compensar a retração na produção brasileira, no segundo trimestre deste ano. O presidente da Petrobras Biocombustível, Miguel Rosseto, diz que analisa oportunidades de investimentos para atender a demanda de Moçambique, que disciplinou o uso de etanol a partir de 2012.

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Energias renováveis

21/11/11

No sertão do Nordeste, nova tecnologia para transformar sol em energia

O Globo – 13/11/2011

Ramona Ordoñez

Maior usina solar do país promete reduzir custos em 66% com coletores parabólicos, tornando a indústria competitiva e atraindo novos projetos para a região

O sertão pode não virar mar, mas vai transformar o forte sol que castiga a Região Nordeste em energia elétrica. A Rio Alto Energia, que trabalha com fontes renováveis, vai construir uma usina solar no município de Coremas, no semiárido da Paraíba. A usina, que terá 50 megawatts (MW) de capacidade, suficientes para abastecer uma cidade com 850 mil habitantes, além de ser a maior do país, segundo a empresa, utilizará uma tecnologia inédita no Brasil. O sistema promete revolucionar o setor, ao reduzir drasticamente os custos, tornando a energia solar competitiva. A Usina Termosolar Coremas exigirá investimentos de R$350 milhões.

Um dos três sócios fundadores da Rio Alto, Sergio Reinas, disse que o projeto vai usar uma tecnologia chamada Concentrated Solar Power (CSP), ou seja, energia solar concentrada. Esta é bem diferente dos tradicionais painéis coletores fotovoltaicos, usados principalmente para aquecimento da água e geração de energia elétrica em fazendas, casas e clubes.

Redução de custos deve atrair novos projetos

Reinas explicou que a tecnologia consiste em coletores parabólicos, semelhante às antenas parabólicas de televisão. Esses coletores captam a radiação solar, que é convertida em calor usado em uma usina termelétrica convencional para geração de energia. Esse sistema se assemelha ao de uma usina nuclear, onde o calor gerado pela fissão nuclear é transformado em energia nas instalações convencionais de uma usina térmica.

- Assim como está ocorrendo o boom da geração eólica, com a redução de custos, essa tecnologia tornará viável a geração de energia solar, que, pela tecnologia de painéis fotovoltaicos, é inviável economicamente – garantiu Reinas.

Ele afirmou que, com essa tecnologia, utilizada principalmente nos Estados Unidos e na Espanha, será possível gerar energia solar a um custo médio de R$150 o megawatt/hora (MWh). Isso representa uma redução da ordem de 66% em relação aos custos nas usinas solares com painéis fotovoltaicos, que são da ordem de R$450 o MWh.

Com esse custo, segundo Reinas, a energia solar começará a ser competitiva no país, atraindo novos projetos e fabricantes de equipamentos, assim como está acontecendo com a energia eólica. Atualmente o custo de energia térmica a gás e de eólica está na faixa de cem reais o MWh, e o das hidrelétricas está um pouco abaixo. Projetos de energia eólica atingiram esse patamar no último leilão da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), realizado no mês passado.

Na fase de construção, usina vai gerar 2 mil empregos

O executivo destacou que a usina com essa tecnologia de coletores parabólicos tem um custo de tarifa bem menor, porque os painéis fotovoltaicos usam o silício, que é um material caro.

- A geração com os painéis só é viável para casos pontuais, tanto para a geração de energia como para o aquecimento da água. Para geração de energia em maiores volumes, a CSP é que se torna viável economicamente – ressaltou Reinas.

O projeto vai gerar cerca de dois mil empregos diretos e indiretos durante a construção e cerca de 50 na fase de operação.

A Rio Alto pretende entrar no próximo leilão que será realizado no próximo ano pela EPE, para oferta de energia para 2015.

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Geração eólica já gira bilhões de reais

18/11/11

André Borges e Tarso Veloso | De Brasília

08/02/2011

Os ventos trouxeram uma nova leva de investimentos ao país. De executivos novatos ingressos no mercado de geração de energia a uma sequência de multinacionais à frente de construções de fábricas de equipamentos, o mercado da energia eólica é uma realidade no Brasil, uma indústria que só começou a girar agora, mas que já movimenta dezenas de bilhões de reais por ano. E ainda traz a vantagem dos ventos soprarem forte na época de seca, quando as hidrelétricas tendem a reduzir a produção.

Essencialmente novo, esse mercado tem sido formado por histórias como a de Ricardo Delneri, executivo que tinha apenas 29 anos de idade quando, em 2000, decidiu abandonar o mercado financeiro para montar, com o amigo Renato Amaral, a Renova Energia. A motivação inicial dos sócios era explorar as Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs), usinas com capacidade de até 30 megawatts (MW). Fizeram isso até 2006, quando as eólicas chamaram a atenção. O interesse redundou na criação de um portfólio de projetos e na disputa do primeiro leilão exclusivo de eólicas, realizado em dezembro de 2009, quando a Renova Energia ganhou a disputa para instalar 14 parques de aerogeradores na Bahia. “Aquilo foi decisivo, alí vimos que algo tinha mudado nos nossos planos”, conta Delneri, hoje com 40 anos e diretor co-presidente da Renova Energia. A instalação das 184 turbinas com capacidade de 294 MW contratados em 2009 começa a ser entregue em agosto. O investimento total é de R$ 1,2 bilhão. No leilão de 2010, a companhia voltou a concorrer e levou mais seis parques com potência total de 163 MW. Vai desembolsar mais R$ 620 milhões. “A força das eólicas nos levou a congelar os projetos de PCHs para os próximos dois anos.”

Por trás da aposta dos empresários do setor está a inclinação do governo em manter na pauta a realização regular de leilões específicos para as eólicas. Em 2009, quando o mercado surpreendeu o governo com a realização de projetos na casa de R$ 150 o MW/hora – era esperada uma média de R$ 200 -, foram arrematados 1.800 MW. No ano passado, com um preço ainda mais competitivo, na casa dos R$ 135 o MW/hora, foram contratados mais 2.050 MW. Para o leilão previsto para acontecer em maio, a previsão da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica) é de que pelo menos mais 2 mil MW sejam contratados. Nesta semana, em evento que acontece em São Paulo, empresários do setor, associações e governo se reúnem na mesma mesa para discutir o futuro da energia eólica no país. “Vamos debater diversas questões. Uma delas é essa capacidade anual de pelo menos 2 mil MW para que possamos incentivar e consolidar os investimentos no país”, comenta Ricardo Simões, presidente da Abeeólica.

O mercado se prepara para a nova rodada de negociação. A Galvão Energia, empresa do grupo Galvão criada em 2007, montou um portfólio de 600 MW de projetos eólicos. No ano passado, a companhia arrematou a construção de quatro usinas no Rio Grande do Norte com potencial instalado de 94 MW, com investimento de R$ 400 milhões. Para este ano, no entanto, o plano é chegar a até 200 MW, com até oito projetos fechados. “É um ano importante para a energia eólica se firmar como alternativa importante e complementar à matriz nacional, concentrada nas hidrelétricas”, diz Otávio Silveira, presidente da Galvão Energia.

Competição não vai faltar. No leilão de 2009, segundo dados da Abeeólica, foram inscritos e habilitados 3 mil MW de projetos. No ano passado foram 11 mil MW. Com a contratação de 2 MW por ano, o investimento garantido apenas na instalação das usinas é de R$ 8 bilhões. Essa conta não inclui os recursos decorrentes da instalação de fábricas no país, da cadeia de fornecedores de componentes que se integram a elas e da contratação de mão de obra. As estimativas internacionais dão conta de que, para cada MW contratado, são gerados 13 empregos. Isso significa que, se forem contratados 4 mil MW entre 2009 e 2013, como se prevê, o setor tem capacidade de gerar cerca de 50 mil empregos.

“O país saiu um pouco atrasado nessa área em relação a outras nações, mas está recuperando o terreno rapidamente”, afirma Telmo Magadan, presidente da Ventos do Sul, companhia que possui o maior parque produtor de energia eólica da América Latina, em Osório (RS), com 150 MW. O grupo dobrou sua capacidade com os leilões de 2009 e 2010, adicionando mais 100 MW em Osório e 50 MW em Palmares (PE). Os investimentos vão chegar a R$ 800 milhões e as obras devem começar neste semestre, com previsão de entrada em operação até julho de 2012. “O Brasil deveria atingir entre 8% a 10% da matriz energética vinda dos ventos até o fim da década.”

Ainda está longe disso. A estimativa da Abeeólica é de que o país feche este ano com 1,4 mil MW de potência instalada, indo para 3,2 mil MW em 2012 e 5,25 mil MW, em 2013. “Isso é cinco vezes o que temos hoje, o que é um salto relevante, mas ainda é pouco se observada a participação relativa das eólicas em relação às demais fontes de energia”, diz Ricardo Simões, presidente da associação. “Teremos 4,3% da potência instalada no país, ou seja, há enorme potencial de crescimento.”

De fato. Os estudos mais recentes que mapearam os ventos do Brasil, elaborados em 2001, apontam que o potencial é de 143 mil MW. Isso equivale a duas vezes a potência hidrelétrica total do país gerada até 2009. Esse levantamento eólico, no entanto, está absolutamente defasado. O potencial do setor, na realidade, é muito maior. Dez anos atrás, quando os primeiros estudos foram feitos, só consideraram a captação feita por turbinas de até 50 metros de altura. Ocorre que hoje os cata-ventos chegam a 100 metros. “Não há números precisos, mas o potencial é gigantesco. No mercado já se fala numa capacidade superior a 300 mil MW”, comenta Simões.

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Biomassa poderá gerar até um terço da eletricidade

16/11/11

Por Carlos Vasconcellos | Para o Valor, do Rio

Fábrica da Veracel, no Sul da Bahia: empresa de celulose obtém autossuficiência energética com uso de biomassa

Os resíduos vegetais deixados no campo pelo agronegócio têm potencial para gerar de 120 milhões a 130 milhões de MW/h de energia ao ano – cerca de um terço de toda a energia consumida no país. Teoricamente, para transformar essa biomassa em energia, bastaria retirar 40% do material deixado nas plantações. “Com isso, não haveria nenhum tipo de dano do ponto de vista de recuperação do solo”, observa Luciano Basto, pesquisador do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ). No entanto, o alto custo do transporte dos resíduos torna o negócio pouco atraente.

O aproveitamento do bagaço de cana é praticamente uma exceção. “Como a produção de açúcar e álcool inclui o transporte da cana até a área de processamento, e o resíduo fica lá mesmo, isso facilita o aproveitamento da biomassa. Nas outras culturas, o resíduo é deixado no solo da plantação ou queimado no local”, explica Basto. “Já gerar energia a partir dos restos do milho ou da soja sai bem mais caro.”

Para gerar energia, a biomassa vegetal passa por processo de queima de material orgânico para a geração de calor e de vapor, que movimenta uma turbina geradora. “Toda queima de material gera uma quantidade de CO2, mas nesse caso, esse total é anulado pela fotossíntese do CO2 na fase de crescimento da planta”, informa Basto.

O potencial brasileiro para geração de biomassa atrai empresas e institutos de pesquisas no exterior. A Coppe/UFRJ firmou convênio com a universidade chinesa de Tsinghua e a companhia dinamarquesa Novozymes, maior produtora mundial de enzimas, para testar matérias-primas brasileiras em processo de produção de biocombustíveis de 2ª geração. “Os chineses detêm tecnologia que usa enzimas para reaproveitar a borra gerada por plantas usadas na produção de biodiesel”, diz Ricardo Villela, pesquisador da Coppe/UFRJ.

Segundo ele, se tudo der certo, a tecnologia será licenciada no Brasil pela Coppe/UFRJ, com royalties compartilhados com a universidade chinesa. O uso da borra, diz ele, pode viabilizar novos projetos de biodiesel. “O óleo de palma é mais caro que o biodiesel, e muitas vezes ele não compensa para o agricultor”, explica. “Mas se ele produzir o combustível a partir da borra, ganha um novo produto e se livra de um passivo ambiental.”

Outro projeto da Coppe/UFRJ visa a produção de etanol a partir da hidrólise da celulose no bagaço de cana. “Com isso podemos aumentar em até 50% o aproveitamento energético da cana”, diz Villela. No processo normal, apenas um terço da energia contida na planta é aproveitada. A pesquisa vem sendo realizada em parceria com o Instituto de Química da UFRJ e conta com o financiamento da Jica, agência de cooperação tecnológica do Japão.

Há também grande potencial energético no uso de dejetos de aves, suínos e bovinos. Há décadas, esses resíduos provocam graves problemas ambientais no Oeste do Paraná, onde os rebanhos confinados contam com 1,5 milhão de suínos e 500 mil cabeças de gado leiteiro e se produz 40 milhões de aves. O problema é que a receita gerada pela carne e pelo leite não paga o tratamento desse resíduo.

A solução é usar o material para geração de energia e produção de biofertilizantes. Com o apoio da Itaipu Binacional, grandes, médios e pequenos produtores da região geram quase 7 mil m3 de biogás por dia, atendendo suas próprias necessidades energéticas, reduzindo a emissão de CO2 e a poluição nos rios. Em quatro anos e meio, foram investidos R$ 6,5 milhões no projeto. “A potência instalada é de apenas 700 KVa, mas para esses produtores é como ter uma Itaipu particular”, diz Cícero Bley Jr., superintendente de energias renováveis da companhia geradora. E os pecuaristas e avicultores podem vender o excedente para a Companhia Paranaense de Energia (Copel), segundo Bley Jr. “Uma das granjas, a Colombari, que tem 4,2 mil suínos, vem obtendo receita adicional de quase R$ 30 mil por ano com o excedente de energia.”

Reaproveitar a biomassa ajuda a garantir a autossuficiência energética da Veracel. A fabricante de celulose gera até 15 mil MW/h, suficiente para atender a uma cidade com 50 mil habitantes. E, apesar de operar com cerca de 30% de capacidade ociosa nas plantas de geração, gera a própria energia e vende excedentes a clientes cativos e para o mercado spot. “A maior parte da nossa energia é gerada a partir do ‘licor’, resíduo que mistura elementos orgânicos e inorgânicos formados pelo cozimento do material para fabricação de celulose”, diz Ari Medeiros, diretor de operações da empresa baiana. “A biomassa de eucalipto responde por 7% do total gerado.” Os US$ 25 milhões investidos na planta de biomassa foram amortizados em cinco anos, informa o executivo.

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