Multinacionais investem em usinas de biodiesel no Brasil
Gigantes estão fazendo investimentos em várias regiões brasileiras, de olho na facilidade de obtenção da soja
04 de novembro de 2010 | 0h 00
Eduardo Magossi – O Estado de S.Paulo
As grandes tradings multinacionais de commodities estão descobrindo o mercado brasileiro de biodiesel. Em menos de duas semanas, gigantes como Cargill, ADM e Noble anunciaram investimentos na construção de usinas de biodiesel em várias regiões brasileiras. Também nas últimas semanas, a Brasil Ecodiesel anunciou que está unindo seus negócios com a Maeda Agroindustrial.
O ponto em comum entre todas essas operações é a facilidade de obtenção da soja. “Estas empresas não precisam buscar a soja fora de casa e não estão sujeitas às variações do mercado”, explica o presidente da União Brasileira do Biodiesel (Ubrabio), Odacir Klein. Hoje, o óleo de soja representa perto de 80% da matéria-prima utilizada na produção de biodiesel.
A verticalização dessas empresas também indica uma preocupação em relação ao escoamento do óleo de soja resultante do esmagamento da soja em grão. “Já é fato que o mercado de carnes, tanto bovina quanto suína, está crescendo de forma cada vez mais intensiva e a utilização do farelo de soja como ração animal tende a crescer”, informa Amaryllis Romano, economista da Tendências Consultoria.
Segundo ela, quanto mais farelo for produzido, mais óleo de soja ficará disponível. “A demanda doméstica por óleo é limitada e a entrada dessas tradings no mercado de biodiesel revela que elas estão montando uma estratégia para escoar este óleo de soja que, de outra forma, poderia ficar represado”, diz. As exportações de derivados de soja do Brasil são limitadas pela Lei Kandir, que penaliza com impostos as vendas externas de óleo e farelo e beneficia a exportação do grão.
Investimentos. A Cargill anunciou a construção de usina para produção de biodiesel no Mato Grosso do Sul, com investimentos de R$ 130 milhões. A unidade entrará em operação em 2012 e funcionará em anexo à fábrica de esmagamento de soja da empresa, devendo produzir 200 mil toneladas de biodiesel por ano.
O Noble Group vai investir US$ 200 milhões em sua primeira indústria de esmagamento de soja e produção de biodiesel no País. A fábrica será em Mato Grosso e deverá ter produção anual de 200 mil toneladas. Com início das operações também esperado para 2012, a ADM vai construir sua segunda usina de biodiesel no País em Santa Catarina, com produção estimada de 164 mil toneladas. O valor do investimento não foi revelado.
A Brasil Ecodiesel, que até meados deste ano estava comprando de fornecedores todo o óleo de soja usado em sua produção, vai contar, agora, com a matéria-prima da Maeda Agroindustrial, grande produtor de soja e algodão, duas matérias-primas importantes para o biodiesel.
Para Klein, os investimentos em novas usinas indicam também que essas empresas acreditam que o atual represamento do mercado interno vai acabar. Atualmente, é obrigatória por lei a adição de 5% de biodiesel no diesel mineral, o B5, embora a capacidade instalada hoje no País seja suficiente para adição de 10%. “Essas multinacionais esperam um aumento da mistura no mercado interno brasileiro.”
O Programa Nacional de Uso e Produção de Biodiesel do governo brasileiro previa inicialmente o B5 apenas em 2013. A adição de 5% foi adiantada em função da grande capacidade instalada do Brasil, hoje em torno de 5,1 bilhões de litros, mas demanda efetiva de apenas 2,4 bilhões de litros. “O setor precisa de um novo marco regulatório e esses investimentos externos indicam que a expectativa internacional é de que haverá um novo marco com aumento da mistura”, explica Klein.
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Butamax cria base de exportação de biobutanol no país
Mônica Scaramuzzo | De São Paulo
03/11/2010
Claudio Belli/Valor

Tim Potter, presidente global da Butamax, joint venture entre BP e DuPont: foco na exportação para EUA, UE e Ásia
A Butamax, joint venture entre a companhia petrolífera inglesa British Petroleum (BP) e a americana DuPont , anuncia hoje a criação de seu primeiro laboratório no Brasil para o desenvolvimento e produção de biobutanol, biocombustível renovável que concorrerá com o etanol e a gasolina no mercado global de combustíveis. Em entrevista ao Valor, Tim Potter, principal executivo da companhia, disse que a unidade de Paulínia terá capacidade para exportar o produto para os EUA a partir de 2013.
O laboratório de pesquisa e desenvolvimento de Paulínia, que estará nas dependências de uma das unidade produtoras da DuPont, vai utilizar a cana-de-açúcar como principal matéria-prima e terá capacidade para produção em escala industrial entre 2012 e 2013. “A cana é a matéria-prima mais eficiente e tem custo menor que os grãos, também utilizados na produção do biocombustível”, disse Potter. A empresa tem laboratórios de tecnologia em Hull, na Inglaterra, e em Delaware, nos EUA, além de pesquisas conduzidas na Alemanha e na Índia. A companhia não informou o valor do investimento em Paulínia.
A empresa começou há alguns anos pesadas pesquisas para a produção de biobutanol, de olho nos mercados americano, europeu e asiático. O biobutanol é a grande aposta da companhia para substituir os combustíveis fósseis, como a gasolina, e o produto concorrerá com o etanol. A diferença básica entre o biobutanol e o etanol é que o primeiro, de densidade energética maior, conta com quatro moléculas de carbono, e o segundo, duas. O processo de fermentação do biocombustível também difere do etanol.
O primeiro mercado para o biobutanol no mundo serão os EUA. “As refinarias americanas serão os nossos principais clientes”, afirmou o executivo. Não será necessária nenhuma adaptação aos veículos para o consumo de biobutanol nos tanques, de acordo com o executivo.
A expectativa da Butamax é ter escala para produzir cerca de 2 bilhões de galões (ou 7,5 bilhões de litros) de biobutanol por ano, a partir de 2020, no mercado internacional. Antes desse período, a empresa vai produzir o biocombustível em menor escala no Brasil e Inglaterra, onde tem uma unidade de demonstração, utilizando cana e grãos (milho e trigo), como principais matérias-primas, além de microalgas e celulose. A empresa tem registrado mais de 70 patentes do produto no mercado global.
Potter disse que a Butamax deverá dar início nos próximos meses a negociações com usinas sucroalcooleiras do Brasil para o produção do biocombustível por meio de parcerias, com a utilização da tecnologia desenvolvida pela companhia. “Para as usinas, a vantagem dessa parceria será a diversificação do seu negócio, uma vez que o biobutanol será um produto voltado para o mercado externo. No país, essas empresas poderão negociar o etanol para atender ao mercado doméstico”, afirmou.
Com expertise em bioctenologia, a DuPont uniu-se à petrolífera BP, que passou recentemente por um grande revés, por conta do vazamento de óleo no Golfo do México, que tem feito grandes apostas em biocombustíveis de segunda geração no mercado internacional. A joint venture entre as duas companhias foi formalizada no ano passado, mas as duas empresas já trabalhavam juntas desde 2003 para o desenvolvimento desse produto.
Grandes petrolíferas globais estão fazendo apostas nos biocombustíveis renováveis, como alternativa aos produtos de origem fóssil. Esses combustíveis renováveis dificilmente terão escala para substituir a gasolina, mas estão ganhando espaço, uma vez que o apelo por produtos renováveis cresce. Um dos exemplos mais recentes foi o da Shell, que firmou joint venture com a companhia brasileira Cosan, a maior produtora de açúcar e álcool do mundo. Nessa joint venture, além dos negócios de distribuição de combustíveis, a Shell terá acesso à produção de etanol da Cosan e o grupo nacional terá acesso à produção de biocombustíveis de segunda geração da petrolífera.
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