Obama destaca incentivo a energias limpas
23/04/2010
The Guardian e EFE
Presidente dos EUA promete investimentos e leis para a área, mas estudo do governo mostra que ainda é pouca a participação da ‘economia verde’
WASHINGTON – O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, destacou ontem, no 40.º aniversário do Dia da Terra, o uso de energia ambientalmente correta para a preservação do planeta. Ele também lembrou dos avanços feitos pelo país nessa área, nas últimas quatro décadas. Mas um novo relatório do governo mostrou que a participação dos produtos e serviços “verdes” na economia dos EUA não passou de 2% em 2007.
O Dia da Terra é celebrado desde 1970, ano em que o senador democrata Gaylord Nelson, representante do Estado de Wisconsin, no norte do país, chamou a atenção para a necessidade de ações a favor do meio ambiente. Hoje, esse chamado em defesa do planeta é celebrado em todo o mundo, mas os resultados práticos dessa preocupação ainda estão por aparecer.
“Devemos continuar trabalhando para tornar realidade o sonho de uma economia baseada nas energias limpas e entregar às nossas crianças um mundo mais limpo e seguro que aquele que encontramos”, disse Obama em comunicado difundido pela Casa Branca.
O presidente americano também citou progressos no período, como a aprovação de leis que reprimem a contaminação da água, do ar e das paisagens naturais. Também prometeu aprovar uma legislação “exaustiva” sobre energia e ambiente, que “mantenha a salvo o nosso planeta”, citando “um crescimento econômico a longo prazo”.
Participação minúscula. Mas um relatório lançado anteontem pelo Departamento de Comércio do país indica que os produtos e serviços ambientalmente corretos tiveram participação de 1% a 2% na economia americana em 2007. Ou seja, passaram de US$ 371 bilhões a US$ 516 bilhões. O número de empregos verdes também foi modesto: as vagas ligadas a economia verde teriam ocupado apenas 1,5% do total do setor privado. A projeção é considerada otimista, pois um outro estudo, do Pew Environmental Trust, estima essa participação em apenas 0,5%.
Quase 80% dessas vagas estariam nas áreas de conservação de energia e controle da poluição. Apenas 2% dos empregos verdes estariam no campo das energias renováveis, diz o estudo do governo.
Ainda é cedo para ter uma noção da decisão de Obama de investir cerca de US$ 90 bilhões dos US$ 787 bilhões que compuseram o pacote de estímulo à economia no ano passado, pois os censos econômicos nos Estados Unidos são feitos apenas a cada cinco anos.
Nova legislação. Na segunda-feira, os senadores democratas John Kerry e Lindsey Graham e o independente Joe Lieberman pretendem apresentar uma proposta bipartidária para uma legislação centrada em produção de energia limpa e prevenção às mudanças climáticas que inclui a criação de 2 milhões de empregos e a redução de 2 milhões de toneladas de material contaminante na natureza.
Segundo a Agência de Proteção Ambiental dos país, esse é o montante de equipamentos eletrônicos usados, que podem conter substâncias tóxicas como chumbo e mercúrio, jogados fora por ano.
No fim de semana, em Washington, o tema será lembrado em shows gratuitos de artistas como Sting. Também está previsto um discurso do reverendo Jesse Jackson, com a participação do cineasta James Cameron (Avatar) e da escritora Margaret Atwood.
CRONOLOGIA
Ações recentes
Março de 2001
Bush contra Kyoto
O então presidente dos EUA não ratifica o Protocolo
de Kyoto.
Novembro de 2007
Ação humana
Relatório do IPCC diz que ação do homem causou o
aquecimento global.
Maio de 2009
Automóveis
Obama anuncia regras mais severas para as emissões dos veículos automotores.
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Belo Monte e o futuro das energias renováveis
Após um período de carência de novos projetos, leilão da usina inicia uma nova fase na construção de hidrelétricas no Brasil
20 de abril de 2010
Nivalde J. de Castro (1) e Roberto Brandão (2) – O Estado de S.Paulo
Artigo
O leilão de Belo Monte é uma reafirmação da vocação brasileira para gerar eletricidade de fontes renováveis. Com cerca de 90% da energia elétrica produzida por centrais hidrelétricas, o Brasil faz parte de um restrito clube de países capazes de atender ao consumidor com energia de fonte renovável, energia que é mais barata e não ajuda a produzir mais efeito estufa.
Após a virtual paralisação dos estudos de inventários das bacias hidrográficas nos anos 90, o País viveu uma carência de novos projetos de hidrelétricas.
Por causa da complexidade desses projetos e da necessidade de adequar os projetos existentes às novas e necessárias exigências ambientais, o País teve dificuldade para leiloar novos aproveitamentos hidrelétricos nos últimos anos.
A consequência dessa falta de projetos e leilões de energia teve como resultado direto a contratação em 2007 e 2008 de grande número de termoelétricas, a grande maioria movida a óleo combustível.
O leilão de Belo Monte, junto com as duas usinas em construção no Rio Madeira, licitadas em 2008 e 2009, representa uma nova fase na construção de hidrelétricas no Brasil. Trata-se do avanço da fronteira elétrica para a Região Amazônica.
Essa nova etapa será intensificada com os estudos de inventários do potencial hídrico desenvolvido ao longo dos últimos anos. Eles começam a amadurecer e com isso a carência de projetos de hidrelétricas está terminando.
Em breve, novas usinas nos Rios Teles Pires, Tapajós, Tocantins e Parnaíba estarão prontas para serem leiloadas. E todas as novas usinas se parecerão um pouco com Belo Monte: são projetos pensados de forma a minimizar e mitigar o impacto ambiental, reduzindo ao máximo a área alagada e mantendo a competitividade econômica e ambiental da matriz elétrica brasileira.
O fim das usinas com grandes reservatórios pode ser considerado um avanço do ponto de vista ambiental, mas trará consequências importantes para a matriz elétrica brasileira.
Belo Monte, assim como as novas usinas da Região Norte, terá a geração concentrada no primeiro semestre, época da cheia dos rios da margem sul do Rio Amazonas. Como não haverá um reservatório capaz de regularizar as afluências ao longo do ano, será preciso lançar mão de outras usinas para garantir o abastecimento de energia durante o segundo semestre.
Haverá, portanto, necessidade crescente de geração complementar à das hidrelétricas. Mas, como o Brasil tem grande vocação para energias renováveis, isso não representa necessariamente que a matriz elétrica se tornará menos limpa.
Há outras fontes de energia renovável no Brasil que se prestam muito bem a complementar a geração hídrica nessa nova fase em que não mais serão construídos reservatórios de regularização.
Os ventos, sobretudo os da Região Nordeste, são mais intensos durante a estação seca, representando uma bem-vinda complementaridade. A bioeletricidade provocada pela queima do bagaço da cana tem a mesma característica, pois concentra a oferta de energia na época de processamento de safra, isto é, durante o período mais seco do ano.
A bioeletricidade tem outras vantagens: está próxima aos maiores centros de consumo de energia elétrica e tende a crescer muito com as perspectivas do aumento da produção de etanol.
Dessa forma, o leilão de Belo Monte representa a afirmação de uma das melhores matrizes elétricas do mundo. A construção dessa usina se dará com o máximo respeito e adequação à legislação ambiental, graças à atuação dos organismos responsáveis e da crítica dos movimentos sociais e ambientais.
Assim o Brasil se destaca no cenário energético mundial, reforçando o caráter verde de sua economia, que fica mais competitiva, em termos de matriz elétrica, em relação aos outros países.
Esta será uma característica que dará ao Brasil um diferencial no comércio internacional, que cada vez mais impõe barreiras aos produtos de origem de países com matrizes poluidoras.
(1)PROFESSOR DO INSTITUTO DE ECONOMIA DA UFRJ E COORDENADOR DO GESEL – GRUPO DE ESTUDOS DO SETOR ELÉTRICO
(2)PESQUISADOR DO GESEL-UFRJ
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