Bagaço de cana ajuda a iluminar interior do Estado
Mônica Scaramuzzo, de São Paulo
12/11/2009
O interior do Estado de São Paulo recebeu uma ajuda indireta das usinas de açúcar e álcool que fornecem energia a partir do bagaço de cana para as distribuidoras. O Estado conta com 54 usinas interligadas à rede.
“Parte dessas usinas sucroalcooleiras ajudou a mitigar o efeito do apagão no interior do Estado”, afirmou Zilmar José de Souza, assessor em bioeletricidade da União da Indústria da Cana-de-açúcar (Unica) e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV). As usinas paulistas têm, sobretudo, contratos de fornecimento com a CPFL Paulista e a Elektro.
Segundo Souza, essas 54 usinas colocam na rede energia suficiente para iluminar uma cidade de 1,4 milhão de habitantes – o equivalente a duas cidades como Ribeirão Preto, o maior polo produtor de cana no país. Boa parte destas unidades está instalada na região de Ribeirão Preto e no Oeste e Noroeste paulista.
A energia a partir da biomassa virou importante alternativa de fonte para a matriz energética do país. Mas sua representatividade ainda é pequena. “O setor sucroalcooleiro ajuda a tornar o sistema menos vulnerável”, afirmou Souza.
O potencial de fornecimento de energia a partir do bagaço das usinas de açúcar e álcool do Brasil equivale a um complexo do Madeira (um total de 6.000 MW). Mas o que é comercializado efetivamente por cerca de 88 usinas do país, de um total de 400, representa cerca de 25% desse potencial.
As usinas brasileiras chegaram a anunciar investimentos em cogeração de energia de cerca de R$ 4 bilhões nos próximos anos. No entanto, o apetite foi contido pela crise financeira pela qual essas empresas passam desde o ano passado.
Muitos grupos sucroalcooleiros firmaram contratos de longo prazo com as distribuidoras de energia. E muitas distribuidoras fecharam parcerias com usinas sucroalcooleiras para bancar os projetos de cogeração de energia no país. No leilão de reserva realizado pelo governo no ano passado, 31 usinas venderam 548 MW médios de energia a partir do bagaço (o que equivale a 1.096 MW de potência instalada, considerando que a usina produz energia somente no período de seis meses de safra).
O grupo Cosan, a maior companhia sucroalcooleira do mundo, foi um dos que mais investiu em cogeração de energia nestes três últimos anos.
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Prospeção atrai novas empresas
Do Rio
10/11/2009
Divulgação

Dominique Mauppin: “Trabalho de prospecção e promoção comercial atingirá, ao todo, mil empresas francesas em 2009, contra 200 de três anos atrás”
As perspectivas para a geração de energia alternativa têm atraído novas empresas francesas ao país. Em 2008, após um período de observação do mercado, a gigante Areva – presente em 41 países – adquiriu o controle da brasileira Koblitz, empresa de engenharia fundada em 1975 e com mais de 300 projetos de usinas de biomassa e pequenas centrais hidrelétricas (PCHs). Segundo o diretor comercial da Areva Koblitz, Romero Rêgo, a operação brasileira representa hoje 30% da receita mundial da divisão de renováveis da Areva. “Os projetos para biomassa respondem por 70% do faturamento no Brasil e continuarão a ser o carro-chefe”, informa Rêgo.
Presente na Grécia e na Guiana Francesa, a Voltalia chegou ao Brasil há três anos e quer gerar, a partir de 2013, 200 MW por meio de uma combinação de usinas eólicas e PCHs. A companhia levará ao leilão de energia eólica do governo quatro usinas no Ceará, com capacidade total de 109 MW, e planeja iniciar em 2010 a construção de duas PCHs em MG, com total de 6MW, e uma no Amapá, com 7,5 MW. “Estimamos grande potencial para o mercado brasileiro”, diz o diretor-executivo Robert Klein.
Com foco na produção de energia fotovoltaica, a ReWATT escolheu Fortaleza como sede da filial brasileira, atraída pela vocação do Estado para geração solar. “Deve ter um dos maiores rendimentos do mundo”, observa o diretor Philippe Byron, que no fim de outubro foi à Cemig conhecer a experiência da empresa em geração fotovoltaica e avaliar possibilidades de parceria. Segundo ele, a exemplo do que ocorreu em outros países, o desenvolvimento da geração solar no Brasil precisa de apoio do governo, o que levaria, entre outros benefícios, à criação de uma cadeia produtiva, com importante geração de empregos.
Um exemplo do possível efeito propagador mencionado por Byron é o interesse com que a Dubuit, tradicional fabricante de máquinas para serigrafia, há 45 anos no país, acompanha as discussões sobre energia solar no Brasil. Na França, desde a década de 90 a companhia fabrica máquinas para aplicação de prata nas células usadas na geração fotovoltaica. “Provavelmente, com um mercado crescendo aqui, seria estudada a possibilidade de fabricar essas máquinas no Brasil”, diz Gregory Brette, responsável de exportação e importação do Grupo Dubuit na América Latina.
Vista com menos entusiasmo por formuladores da política de energia elétrica do governo brasileiro, que por enquanto a consideram cara e aplicável apenas a fins específicos, a geração solar tem obtido crescimento relevante na França – embora represente menos de 0,5% da matriz – e em outros países do mundo. “É impressionante a quantidade de energia solar disponível e o uso que fazemos dela. É um desperdício”, comentou Jean-Luc Hognon, gerente de projetos do CEA-Liten (Laboratório de Inovação em Tecnologias de Energias Novas e Nanomateriais, ligado ao Comissariado de Energia Atômica da França), que veio ao Brasil conhecer o mercado e avaliar possibilidades de parceria. Com três principais áreas de atuação – energia solar, transportes do futuro e aplicação de nanomateriais na energia -, o Liten é um dos principais centros europeus de pesquisa em novas tecnologias na área de energia e em 2008 registrou 96 novas patentes.
Especializada em energias renováveis e monitoramento do meio ambiente, a consultoria Enviroconsult também vê espaço para bons negócios no Brasil. Segundo o diretor-geral, Olivier Decherf, a empresa negocia com o governo do Rio Grande do Sul um contrato de monitoramento da qualidade do ar em parceria com a Voltalia e apoio do governo francês. Com experiência nos Jogos Olímpicos de Pequim – onde a empresa atuou na melhoria da qualidade do ar -, o executivo quer participar do planejamento da Olimpíada do Rio de Janeiro. “Os próximos cinco, seis anos vão ser desafiadores e instigantes no Rio”, comenta.
Neste cenário movimentado, a Proparco, instituição de fomento administrada pelo governo francês em parceria com acionistas privados, chegou ao país em 2007 com o objetivo de conceder US$ 100 milhões ao ano em financiamentos para o setor privado, principalmente em projetos de energias renováveis, eficiência energética, biocombustíveis e outras áreas que promovam o desenvolvimento sustentável. “Não queremos competir com o BNDES ou com a Caixa. Temos complementaridade”, afirmou o representante da Proparco no Brasil e na América do Sul, Christophe Blanchot.
Essas e outras empresas francesas – como Converteam, Ugimag e Velcan – estiveram no Rio no fim de outubro para participar do Seminário França-Brasil de Energias Renováveis e Biocombustíveis, realizado pela Ubifrance (agência do governo francês para internacionalização das empresas), pela rede das missões econômicas do governo da França no Brasil e pela Câmara de Comércio França-Brasil.
Segundo Dominique Mauppin, representante da Ubifrance no Brasil e chefe da missão econômica de São Paulo, até o fim do ano terão sido 60 eventos com a participação de empresas francesas, entre seminários e feiras internacionais. O trabalho de prospecção e promoção atingirá, ao todo, mil empresas francesas em 2009, contra 200 de três anos atrás. De lá para cá, o número de companhias que, depois de contatadas, decidiram vir ao Brasil por pelo menos uma semana passou de 80 para 500.
“Em novembro do ano passado, para o lançamento do Ano da França no Brasil, atraímos 116 empresas francesas para uma semana e, dez meses depois, sabemos que mais de 40 delas ou abriram filial ou fizeram algum contrato no país, seja de venda ou parceria com empresa brasileira.” (D.H.)
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Fontes alternativas despertam interesse
Diogo de Hollanda, para o Valor, do Rio
10/11/2009
O tamanho do mercado, as perspectivas favoráveis para a demanda e o potencial de produção fizeram do Brasil, desde a década de 80, um destino atraente para companhias francesas de energia. Mas, agora, a necessidade de diversificação da matriz elétrica brasileira, com investimentos em energia eólica, biomassa e outras fontes alternativas e renováveis, propicia uma nova oportunidade para as empresas: trazer para o Brasil a experiência que adquiriram na França e em outros países e obter posição de destaque em um mercado promissor que está apenas dando os primeiros passos.
Com importância ampliada devido à tendência de redução da capacidade de armazenamento do parque hidrelétrico -consequência, principalmente, da impossibilidade de construir reservatórios nos novos projetos, a maioria na Região Norte -, a exploração de fontes alternativas no país ainda é ínfima diante das perspectivas apontadas por especialistas. As estimativas oficiais, consideradas conservadoras, somente o potencial para geração eólica poderia saltar dos atuais 603 megawatts (MW) para 143 mil MW – mais do que toda a capacidade instalada de energia do Brasil, de 106 mil MW. Hoje, a energia eólica participa com menos de 1% da matriz elétrica brasileira, ao passo que, na França, impulsionado pelo programa de ações para o meio ambiente do governo (Programa Grenelle), o percentual caminha para 4%.
A Alstom, fabricante de equipamentos com forte presença em hidrelétricas e termelétricas, estuda construir uma fábrica especificamente para projetos de energia eólica. Segundo o vice-presidente para a área de energia da empresa, Marcos Costa, a decisão depende do anúncio de regras que deem previsibilidade para o segmento, como a fixação de um ritmo regular nos leilões de compra de energia promovidos pelo governo e a definição de uma tarifa que viabilize os investimentos.
Sem revelar o investimento, Costa destaca que uma nova fábrica teria forte potencial de geração de empregos e ter toda a cadeia produtiva instalada no Brasil. Hoje, apenas na área de energia, a Alstom emprega 2,5 mil pessoas no país. Com a inauguração, até o fim do ano, de uma unidade em Rondônia, em parceria com a Bardella, o número será próximo de 2,8 mil.
Para diversificar sua carteira de encomendas – mais de 70% composta por hidrelétricas -, a Alstom pretende assinar em 2010 os primeiros contratos de fornecimento com eólicas no Brasil. A companhia fez propostas para vários dos investidores que vão participar do leilão de compra de energia de reserva marcado para 14 de dezembro pelo governo. Presente em mais de 70 países, a multinacional começou a atuar em energia eólica em 2007, com a aquisição da Ecotècnia, empresa espanhola com mais de 20 anos no segmento.
Controlada pelo grupo GDF Suez – que, internacionalmente, tem mostrado apetite pela energia a partir dos ventos -, a Tractebel cadastrou 11 novas usinas para o leilão do governo. Juntos, os 11 projetos têm potência total de 300 MW, sete vezes a atual capacidade instalada da empresa em energia eólica, dividida em uma planta de 18 MW no Piauí e outra de 26 MW no Ceará. A companhia, maior geradora privada de energia do país, também tem duas pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) e uma usina de geração por biomassa (resíduos de madeira) no segmento que denomina energias complementares e que hoje representa apenas 2% de sua capacidade de geração, de 6.432 MW. Do restante, 18% vêm de usinas térmicas (seis unidades) e 80% de hidrelétricas (oito plantas, sem incluir os projetos em desenvolvimento, como Estreito e Jirau, por enquanto sob a estrutura da coligada GDF Suez Energy Brasil).
“Temos a diretriz de aumentar a participação das fontes complementares no nosso portfólio” diz o gerente de desenvolvimento de negócios da Tractebel, Carlos Alberto Gothe, ressaltando que a energia hidrelétrica vai continuar “por muitas décadas” como a base da matriz brasileira. Hoje, cerca de 75% da energia provê de fontes hídricas.
Em parceria com universidades, a Tractebel também desenvolve projetos piloto para outras modalidades de geração, como solar e a partir da força das ondas. No primeiro caso, a empresa instalou com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) três sistemas de geração fotovoltaica em edifícios de Florianópolis, com o objetivo de observar o rendimento e avaliar as possibilidades de aplicação. Já o projeto de energia das ondas, em parceria com a Coppe/UFRJ, prevê a geração, a partir de 2011, de 100 mil watts de eletricidade no Porto de Pecém (CE) – o suficiente para acender 1,6 mil lâmpadas comuns de 60 watts. Segundo estimativas da Coppe, o Brasil poderia atender 15% de sua demanda energética somente utilizando a força das ondas.
Outra modalidade com significativo potencial, a geração por biomassa (oriunda de matéria orgânica como cana-de-açúcar e resíduos de madeira) também atrai o interesse de companhias da França. Um dos maiores propulsores é o setor sucroalcooleiro, onde uma multinacional francesa, a Louis Dreyfus Commodities, acaba de se tornar a segunda maior empresa do ramo, ao comprar a Santelisa Vale.
Antes de 2001, quando foi adquirida pela Tereos – cooperativa que reúne 12 mil agricultores franceses e é a quarta maior produtora mundial de açúcar, álcool e produtos à base de amido -, a Açúcar Guarani só produzia energia suficiente para consumo próprio. Hoje, além de abastecer suas cinco usinas, a empresa tem capacidade excedente de 24 MW comercializada no mercado livre. Por enquanto, a venda representa apenas 2% da receita da empresa, mas, segundo Jean Claude Religieux, do conselho de administração da Guarani, pode chegar a 10% dentro de dez anos.
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