Sustentabilidade

27/11/11

Relatório de Viana autoriza restrição a importados que infrinjam lei ambiental

Por Raquel Ulhôa | De Brasília

O substitutivo do senador Jorge Viana (PT-AC) ao projeto do novo Código Florestal, apresentado ontem à Comissão de Meio Ambiente (CMA) do Senado, autoriza a Câmara de Comércio Exterior (Camex) a adotar medidas de restrição à importação de produtos de origem agropecuária ou florestal de países que não seguirem normas de proteção do meio ambiente compatíveis com a legislação brasileira.

O relatório será votado amanhã na comissão – a última a deliberar sobre o Código Florestal antes do plenário. A recomendação à Camex deve ter sua constitucionalidade questionada, segundo o próprio relator, mas ele a defende. “O Brasil está cumprindo a agenda sócio-ambiental. Está na hora de começarmos a exigir do mundo, seja Europa, Estados Unidos ou Ásia, que façam pelo meio ambiente aquilo que estamos nos propondo a fazer”, disse Viana.

Viana manteve a divisão do texto entre a parte permanente, com as regras do direito ambiental para o futuro, e as disposições transitórias, com a regularização do passado – supressão irregular de vegetação em Áreas de Preservação Permanente (APP), de Reserva Legal e de uso restrito até 22 de julho de 2008 (data de publicação do segundo decreto que regulamentou as infrações contra o meio ambiente, com base na Lei 9.605/98).

Como regra permanente, a supressão de vegetação nativa em APP só pode acontecer nas hipóteses de utilidade pública, de interesse social ou de baixo impacto ambiental, definidas no próprio texto. Viana alterou a lista de atividades consideradas de interesse social, incluindo pesquisa. Nas atividades de baixo impacto, ele deixa para o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) e os conselhos estaduais a tarefa de fixar outros casos que possam justificar a retirada da vegetação.

Nas disposições transitórias, o texto determina que União, Estados e Distrito Federal implantem Programas de Regularização Ambiental (PRAs) em um ano. Acrescentou uma prorrogação pelo mesmo período. Para adesão no PRA, é condição obrigatória a inscrição no Cadastro Ambiental Rural (CAR), criado pelo projeto. A adesão ao CAR poderá ser requisitada em um ano, prorrogável por uma vez.

O substitutivo mantém o dispositivo aprovado na Câmara que autoriza nas APPs as atividades agrossilvopastoris, de ecoturismo e turismo rural em áreas rurais consolidadas até 22 de julho de 2008. Se essas atividades estiverem dentro de APPs ao longo de cursos d’água naturais, deve haver recomposição de 15 metros das faixas marginais, em caso de rios com até dez metros de largura. Nos demais, a área recomposta corresponderá à metade da largura do rio, sendo o mínimo de 30 metros e o máximo de 100 metros.

Para os imóveis rurais que tinham até quatro módulos fiscais em 22 de julho de 2008, a regra é outra: a área a ser recomposta não poderá ultrapassar o limite da Reserva Legal fixada para o imóvel (80%, 35% ou 20%, se for, respectivamente, na Amazônia, no cerrado amazônico ou no restante do país).

No caso dos imóveis que naquela data tinham entre quatro e 15 módulos fiscais, a decisão sobre os limites da recomposição pode ficar a cargo do PRA, dependendo dos conselhos estaduais de meio ambiente. Viana introduziu seção específica sobre agricultura familiar. Entre outras coisas, simplifica a inscrição no cadastro rural e o licenciamento ambiental de planos de manejo florestal.

A proteção das áreas verdes urbanas recebeu seção específica. Determina que a prefeitura assegure manutenção e implantação de áreas verdes, no mínimo de 20 metros quadrados por habitante, nas novas expansões urbanas e novos empreendimentos imobiliários. Em até dez anos o Plano Diretor do Município e as leis de zonamento e uso do solo têm de ser revistas.

O capítulo que trata dos incentivos econômicos para preservação e recuperação de áreas florestadas incorpora a possibilidade de pagamento por serviço de preservação ambiental. O texto prevê a conversão de multas para a agricultura familiar e pequenas propriedades em serviços ambientais.

Pelo projeto, os bancos só poderão conceder crédito agrícola para proprietários de imóveis rurais que estejam inscritos no CAR e que comprovem sua regularidade, nos termos da lei. Os senadores podem apresentar emendas até hoje.

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Sustentabilidade

7/11/11

Meio ambiente influencia progresso

Países com IDH baixo são mais vulneráveis aos problemas ambientais, como poluição do ar

03 de novembro de 2011 | 3h 02

BRASÍLIA – O Estado de S.Paulo

Todo o progresso no desenvolvimento humano alcançado nas últimas décadas poderá ser perdido caso medidas de sustentabilidade ambiental não sejam colocadas em prática, afirma o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Relatório divulgado ontem calcula que, se nada for feito, o IDH em 2050 será 8% menor do que a evolução natural garantiria. No sul da Ásia e na África Subsaariana, o impacto seria ainda mais severo: o crescimento seria 12% menor do que o esperado.

Os efeitos de problemas ambientais no desenvolvimento humano ocorrem de diversas formas. Numa frente, consequências do aquecimento global, como escassez de água, levaria a um aumento significativo no preço dos alimentos no mundo. Pelos cálculos do PNUD, numa faixa que variaria entre 30% e 50%.

Os reflexos também seriam sentidos na saúde e educação. Em todas as áreas o impacto seria mais severo entre os mais pobres. Um exemplo: poluição do ar mata 11 vezes mais pessoas que vivem em países com IDH baixo do que aquelas que vivem em outros países.

Além das advertências, o relatório descreve uma série de sugestões. A começar por um “pensamento mais arrojado”, principalmente às vésperas da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20). Entre as sugestões está um imposto sobre transações monetárias para aumentar financiamento de ações que garantam um novo modelo de desenvolvimento e, principalmente estratégias de baixas emissões. Uma taxa de 0,005%, de acordo com relatório, poderia gerar receitas suplementares de US$ 40 bilhões.

Além do imposto, ele sugere parcerias público-privadas e um sistema de monitoramento das políticas. No relatório, o PNUD apresenta uma avaliação da situação ambiental de países, com taxas das emissões de gases efeito estufa per capita, poluição urbana e desflorestamento. / LÍGIA FORMENTI, LISANDRA PARAGUASSU E RAFAEL MORAES MOURA.

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Licenciamento ambiental

01 de novembro de 2011 | 3h 04

O Estado de S.Paulo

A Secretaria de Estado do Meio Ambiente e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) desenvolveram em parceria um portal por meio do qual os empreendedores poderão requerer o licenciamento ambiental para atividades de baixo impacto e acompanhar cada etapa do processo pela internet. Com essa iniciativa, o governo paulista pretende unificar, modernizar e desburocratizar o licenciamento ambiental, tradicionalmente caracterizado pela lentidão, alto custo para o contribuinte e falta de transparência. Além do portal, também entrou em operação o Sistema Integrado de Licenciamento Ambiental (SIL) que reúne num só processo todas as exigências dos órgãos estaduais e municipais conveniados. Dessa forma, o empresário terá maior facilidade para obter as autorizações exigidas para lançar um novo empreendimento ou para renovar suas licenças ambientais.

Uma série de exigências constantes de leis aprovadas nos últimos anos para assegurar a proteção ao meio ambiente tem inibido muitos empreendimentos. Sem o licenciamento, empreendedores não podem ter o Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ). No ano passado, em discurso pronunciado na região do ABC paulista, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a lentidão do governo paulista para aprovar projetos públicos, como o de urbanização de favelas, que podem ajudar a melhorar a situação das pessoas que vivem em submoradias.

Têm sido frequentes as críticas aos procedimentos de concessão das licenças ambientais, complicados pela burocracia, o que aumenta os custos e, consequentemente, contribui para reduzir a competitividade dos empreendimentos. A opinião de especialistas no assunto e as experiências de outros países apontam para a necessidade de valorização dos procedimentos técnicos e simplificação dos trâmites burocráticos. A integração das informações e exigências dos diversos órgãos governamentais, a maior transparência, a modernização das estruturas, o fortalecimento da fiscalização e a participação popular completam as medidas que podem tornar mais ágil o processo de licenciamento ambiental.

O projeto desenvolvido atualmente pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente em parceria com a Fiesp está no caminho certo. Na primeira etapa, o lançamento do portal e do Sistema Integrado de Licenciamento indica a preocupação com a unificação, modernização e desburocratização do licenciamento ambiental no Estado. Há dois anos, uma pesquisa do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp)mostrou que executivos de 80% das empresas gostariam de ser mais bem orientados nesses casos.

Já em 2009, quando a Cetesb incorporou as atividades do Departamento Estadual de Proteção a Recursos Naturais e do Departamento de Uso do Solo Metropolitano, um primeiro passo foi dado para a unificação do processo de licenciamento, pelo menos no que se refere às análises de instalações a serem erguidas em área de proteção ambiental.

Mas a remoção dos obstáculos enfrentados pelos empreendedores requer mais do que isso. Até a criação do Sistema Integrado de Licenciamento, que em breve vai se transformar numa espécie de Via Rápida da Empresa, eram necessárias incontáveis visitas, incluindo, além da Cetesb, a do Centro de Vigilância Sanitária, a da Secretaria de Estado da Saúde, o Corpo de Bombeiros, a Secretaria de Segurança e órgãos municipais. Tudo isso, agora, está integrado no caso dos licenciamentos ambientais considerados de baixo potencial poluidor (fabricação de conservas, estamparia, hotéis, entre outros).

A informatização do processo permitirá também aos profissionais da Cetesb concentrar-se mais nas atividades de fiscalização e no atendimento às demandas relativas às grandes fontes de poluição. Mais cem funcionários serão incorporados à companhia para ao mesmo tempo reforçar a vigilância e facilitar o atendimento a essa parcela dos empreendimentos e das indústrias de alto impacto.

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Sustentabilidade

24/10/11

17/10/2011

País faz mais obras, mas diminui gastos com a conservação

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CLAUDIO ANGELO

DE BRASÍLIA

O Brasil está fazendo mais obras de infraestrutura, mas está investindo menos recursos para proteger ambientes naturais impactados por elas.

A conclusão é de uma análise de economistas da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Eles calculam que a proporção do orçamento do Ministério do Meio Ambiente no bolo da infraestrutura caiu de quase 6% para 2% nos últimos oito anos.

Editoria de arte/Folhapress

Segundo Carlos Eduardo Young e André Santoro, a verba para a pasta, excluída a folha de pagamento, tem se mantido estagnada em cerca de R$ 500 milhões pelo menos desde o ano 2000.

As dotações de outras pastas, como Transporte e Cidades, porém, explodiram: a primeira viu seus recursos crescerem 257% entre 2000 e 2010; a última, 558%.

A distorção se agravou após o início do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), em 2007. “Não há nenhuma indicação de geração de recursos para o Ministério do Meio Ambiente, mesmo este sendo parte fundamental do setor”, escreve a dupla.

Mesmo quando são considerados os gastos ambientais de outros setores do governo –por exemplo, ações de despoluição da baía da Guanabara, a cargo do Ministério das Cidades-, Young e Santoro apontam estagnação: somadas, as verbas para controle e preservação ambiental do governo não chegaram a R$ 300 milhões em 2010.

O resultado, afirmam, é uma má gestão ambiental dos novos projetos. Após o PAC, a criação de novas áreas protegidas estagnou. E as que existem não encontram recursos para sua regularização fundiária –como a Folha mostrou em março, existe uma área equivalente à do Paraná em propriedades e posses privadas dentro de unidades de conservação.

“A criação de unidades de conservação depende de recursos pesados”, afirmou o secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente, Francisco Gaetani. Ele admite que o Brasil “está devendo” nesse quesito.

Gaetani afirma que para 2012 houve um “aumento substancial” dos recursos para a pasta, mas diz que dinheiro só não resolve os problemas do ministério. “Mais do que orçamento, nosso problema é de gente”, prossegue.

De acordo com Gaetani, as atribuições do ministério cresceram nos últimos anos, sem que houvesse aumento correspondente no quadro. Desde 2009 tramita na Câmara um projeto de lei para ampliação do quadro de analistas ambientais do Ibama e do Instituto Chico Mendes.

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Brasil quer que a cúpula Rio+20 fixe metas ambientais

29/08/11

Por Daniela Chiaretti

Lyrio, do MMA: “Queremos assegurar espaços para que os atores da sociedade influenciem os processos decisórios”

O governo brasileiro espera 50 mil pessoas em junho de 2012, no Rio de Janeiro, quando acontece a Rio+20, a conferência das Nações Unidas que reedita o evento de 20 anos atrás, a Rio 92, também conhecida por Eco 92. Embora o Brasil não defina a agenda do evento, discutida previamente pelos quase 200 países da ONU, os esforços, agora, são de preparar um fórum sedutor o bastante para atrair um grande número de líderes estrangeiros e mostrar algum resultado no rumo do desenvolvimento sustentável.

Além de discutir os caminhos da economia verde no mundo, é possível que o evento produza metas similares aos Objetivos do Milênio, mas que mirem 2030 e versem sobre água, energia ou inovação tecnológica, por exemplo. Outra novidade seria indicar que a referência atual de vigor econômico, o Produto Interno Bruto (PIB) deveria ser revista para contemplar aspectos sociais e ambientais. Como efeito colateral, reconhece Fernando Lyrio, assessor extraordinário para a Conferência Rio+20 do Ministério do Meio Ambiente, há também a redenção na credibilidade do sistema multilateral das Nações Unidas. “Não pode haver vencedores e perdedores em um processo como o da Rio + 20, porque corre-se o risco de gerar pouca apropriação dos resultados.”. Abaixo, trechos da entrevista que ele concedeu ao Valor:

Valor: Economia verde é o grande tema da Rio+20?

Fernando Lyrio : Há dois grandes temas para a conferência. Um deles é o da economia verde no contexto da erradicação da pobreza. O outro, a estrutura das Nações Unidas para viabilizar o desenvolvimento sustentável no mundo. É um debate sobre o que tem que ser mudado ou adaptado no nível institucional da ONU. Existe hoje uma proposta, basicamente europeia, de criação de uma agência das Nações Unidas para o Meio Ambiente, mas não há consenso.

Valor: Porque não?

Lyrio : Os europeus acham que a gestão ambiental na ONU tem que ser favorecida. Propõem transformar o PNUMA, Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, em agência.

?”A Rio+20 não é uma conferência de meio ambiente. Está em jogo um novo modelo de desenvolvimento do planeta?”

Valor: E o Brasil, o que acha?

Lyrio : O Brasil não favorece essa ideia porque entende que, sem prejuízo do reforço da gestão ambiental no âmbito da ONU, esta não é uma conferência de meio ambiente, mas de desenvolvimento sustentável. Não é só discutir a água, mas o acesso a água, a questão econômica, os múltiplos usos. É o acesso à energia, o tipo de energia, o custo. As questões têm que ser tratadas de maneira integrada, não de maneira estanque. Hoje, na ONU, há uma área de meio ambiente, outra de energia, outra de água, estes temas são tratados em diversas instâncias o que gera sobreposição de tarefas e vácuos. Falta coerência e organização.

Valor: E uma agência resolveria?

Lyrio: Não necessariamente. É como criar um ministério de desenvolvimento sustentável no Brasil. Não funciona, tem que ser transversal. Além disso, vários países não gostam da criação de uma nova agência porque seria gerar custos financeiros novos. Mas o Brasil acha que é preciso uma instância de governança politicamente qualificada e hierarquicamente elevada para orientar as diversas agências da ONU neste assunto.

Valor: O que seria?

Lyrio : As soluções não são muito claras. Pensamos em uma instância de coordenação das ações de desenvolvimento sustentável na ONU. Um dos órgãos máximos da ONU é o Conselho Econômico e Social, o Ecosoc, criado no pós-guerra. Mas o mundo mudou nestes 50 anos, temos hoje uma realidade onde os modelos de desenvolvimento pedem novos olhares. Achamos que o Ecosoc é um lugar adequado para esta instância de coordenação.

Valor: E a economia verde?

Lyrio: Este é o grande lance. Mas é um tema cuja definição e conceitos são amplos e pouco consensuais. Cada um entende diferente do outro. Pensamos em um processo de desenvolvimento que contemple a ideia de uma economia inclusiva e viável. Uma das possibilidades da Rio+20 é revisar a métrica de progresso dos países.

Valor: Porque alguns países não concordam com o termo economia verde?

Lyrio : Não é que não aceitem. Se for no contexto de sustentabilidade e erradicação da pobreza, tudo bem. O medo é que restrinja seu desenvolvimento. Aquele medo permanente de barreiras comerciais não tarifárias travestidas de condicionantes ambientais e sociais. A maior parte dos países em desenvolvimento tem muita preocupação com isso. Mas é preciso ver que a Rio+20 é uma conferência sobre desenvolvimento, sobre desenvolvimento sustentável. Os temas ambientais só vão avançar quando se tiver uma discussão ampliada. Não estamos falando de conservação ambiental mas de um processo muito maior. É sobre conceber para o Brasil e para o planeta estratégias de desenvolvimento. O que está em jogo é o modelo de desenvolvimento do planeta.

?”Um efeito colateral poderia ser redimir a credibilidade no sistema multilateral das Nações Unidas?”"

Valor: Sobre a métrica, a Rio+20 indicaria algo novo?

Lyrio : Não há tempo para fechar nada até lá. Mas poderia se reconhecer a limitação atual, que o PIB não reproduz uma medida de desenvolvimento. O PIB hoje é o principal instrumento de mensuração de progresso do planeta. Mas é, do ponto de vista do desenvolvimento sustentável, insuficiente porque mede progresso econômico única e exclusivamente. Não entra em considerações sociais, ambientais, nada disso. Há várias propostas já discutidas no passado, que tem méritos, mas que, na prática não emplacaram. O presidente Nicolas Sarkozy chamou o economista Joseph Stiglitz para fazer um trabalho nesta linha, há várias coisas em curso. O governo brasileiro tem pensado nisso, em um novo parâmetro de mensuração do progresso que leve em conta aspectos sociais, de escassez ecológica. Mas não há uma proposta formal, é apenas uma ideia que está na mesa.

Valor: Como será a agenda da Rio+20?

Lyra : A conferência em si foi convocada para os dias 4,5 e 6 de junho, quando virão os chefes de Estado. Há todo um processo preparatório internacional e nacional em curso para ela acontecer. Mas é importante saber que o fato da conferência ser no Rio dá pouca governança ao Brasil sobre a sua agenda. A Rio+20 é uma conferência da ONU, o Brasil se ofereceu para ser sede dela. A discussão da agenda, de tudo o que vai acontecer, e como, está ocorrendo em Nova York e tem que ser acordado por todos os países das Nações Unidas.

Valor: Como acontece a participação brasileira?

Lyrio : No dia 1º de novembro todos os países deverão apresentar, por escrito, suas visões e ideias para o que se quer que a Rio + 20 seja. Governo, grupos empresariais, ONGs, todos podem apresentar suas propostas. O Brasil está hoje no processo de preparação das posições brasileiras. Dentro do governo estamos começando discussões sobre contas públicas, sobre instrumentos econômicos, falando de erradicação da pobreza, de muitas coisas além da biodiversidade e mudança do clima do ponto de vista ambiental em estrito senso.

Valor: Mas como vai ser isso? Empresas têm demandas, ONGs têm demandas, todos têm as suas…

Lyrio Os diversos segmentos da sociedade fazem parte da comissão nacional e o Brasil fechará um documento que tentará refletir toda essa gama de interesses. Só que o Brasil apresentará o documento com quase 200 outros países. O secretariado da ONU irá pegar todas as propostas e transformar em um documento único, que será o documento de negociação, a base das conversas daquilo que iremos aprovar como resultado da Rio +20.

Valor: É por isso o Brasil tem pouca governança sobre a agenda?

Lyrio : Do ponto de vista formal da agenda, o Brasil tem pouca governança. Mas do ponto de vista político pode mobilizar, conscientizar, ressaltar a importância do debate. Isso tem sido feito em diversos fóruns, com a presença da presidenta Dilma Rousseff e de vários ministros. Para o Brasil é importante que esta conferência seja bem sucedida.

Valor: Mas o momento é complicado. Ela também é um balanço do que se fez, ou não se fez, nestes 20 anos, desde a Rio 92?

Lyrio : O momento, que você diz que é complicado, eu chamo de diferente. Não dá para comparar a Rio+20 com a Rio 92.

Valor: Porque não?

Lyrio : São dois momentos muito diferentes. Quando a Rio 92 aconteceu havia um movimento mundial, estava se seguindo à queda do muro de Berlim, havia uma grande abertura multilateral. Havia forte expectativa de acordos como a Convenção de Biodiversidade e a Convenção sobre Mudança do Clima serem aprovados. A Rio 92 acabou representando uma oportunidade rara, foi uma conferência muito bem sucedida.

Valor: E hoje?

Lyrio : Hoje há grandes dúvidas sobre o multilateralismo como solução, mas o Brasil acredita nele como encaminhamento dos problemas globais. Entendemos que um dos resultados que a Rio+20 deve oferecer ao mundo é uma redenção de credibilidade no sistema multilateral das Nações Unidas. Hoje vive-se uma clivagem Norte-Sul que é perversa, aquela coisa de apontar o dedo “isso é culpa dos países desenvolvidos, que não puseram dinheiro”. Esta clivagem não é construtiva e não gera consenso. E o problema dos processos da ONU é que trabalha-se por consenso e não por votação, como no Congresso Nacional. E consenso é muito difícil de se conseguir quando se trata de 200 países com realidades sociais, ambientais, políticas e econômicas muito diferentes.

Valor: O que sairá da Rio+20?

Lyrio : Como efeito colateral, redimir um pouco a credibilidade no sistema da ONU. Qualquer coisa que saia de lá tem que ser aceitável e adequado para todos os países. Não pode haver vencedores e perdedores em um processo como o da Rio + 20, porque corre-se o risco de gerar pouca apropriação dos resultados.

Valor: O que o Brasil quer?

Lyrio : Há algumas coisas na mesa. Temos hoje uma discussão, que pode avançar bastante, de a Rio+20 ter objetivos de desenvolvimento sustentável do planeta. É uma proposta da Colômbia. Da mesma maneira que tivemos os objetivos do desenvolvimento do Milênio, ter metas de desenvolvimento sustentável. É adotar um conjunto de indicadores e de metas para os próximos 20 ou 30 anos. Quais serão estes indicadores, teremos que negociar. Mas o foco do Brasil, nesta conferência, tem sido o da inclusão social e da redução da pobreza, prioridades do governo brasileiro.

Valor: O que poderiam ser?

Lyrio : Água, resíduos sólidos, instrumentos financeiros, conservação da biodiversidade, compras públicas. Poderia ser algo como adotar tanto % de energias renováveis até tal ano ou estratégias de sustentabilidade para as compras públicas.

Valor: Não seriam metas vagas…

Lyrio : Não. Por exemplo, temos conversado muito sobre compras públicas. Em todos os países do mundo, principalmente nos em desenvolvimento, o Estado é o maior comprador. Tem uma capacidade muito grande de indução, de orientação dos mercados. Se o Estado puder orientar a produção, nas rota da sustentabilidade, já é um ganho fantástico. Há indicadores sendo imaginados. Quando se fala de energia, o componente social é ter acesso à energia. É importante que toda a população do planeta tenha acesso a condições dignas de vida e isso inclui energia, água, alimentação. Mas o acesso à energia tem que ser ambientalmente adequado. Não pode então, para dar acesso a energia a todo mundo encher tudo de termoelétricas. E tem que ser viável economicamente, com escala.

Valor: O que mais a conferência pode produzir?

Lyrio : A conferência começa dia 28 de maio e dura dez dias. De 28 a 30 de maio ocorre a última das reuniões preparatórias, com os negociadores. Depois, de 31 a 3 de junho pensamos em ter oito grandes painéis, sobre temas relevantes à agenda da conferência e que informem o debate dos chefes de Estado. Vamos convidar personalidades mundiais, com relevância sobre assuntos como água, energia e outros. Esta é uma proposta brasileira. Além disso queremos pensar uma maneira que assegure maiores espaços para os atores não governamentais que cada vez tem mais influência no mundo, como o setor privado, os setores sociais, ONGs. Estamos imaginando como eles podem se fazer representar e se colocar de forma a influenciar os processos decisórios. É uma questão complexa, porque não vai se alterar o sistema das Nações Unidas, mas é algo que o Brasil quer fazer.

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