Emissões atmosféricas
27/06/11Brasil costura acordo para salvar Protocolo de Kyoto
Estratégia brasileira, que conta com apoio da UE, prevê negociações para prorrogar tratado, que expira em 2012
22 de junho de 2011 | 0h 00
Andrea Vialli – O Estado de S.Paulo
O Brasil costura um acordo para tentar salvar o Protocolo de Kyoto na Conferência do Clima das Nações Unidas (COP17) que será realizada em novembro em Durban, na África do Sul. A estratégia brasileira deverá ser negociar uma saída para prorrogar o acordo, que expira em 2012, em nome do bloco de países em desenvolvimento e deve contar com o apoio da União Europeia e de países como Noruega, Suíça e Nova Zelândia.
David Gray/Reuters

Poluição. A China é um dos maiores emissores de CO2
“Para os países em desenvolvimento e para o Brasil é muito importante que Kyoto não pare. A maioria dos países desenvolvidos gostaria que Kyoto acabasse e fosse negociado um outro acordo, no qual todos os países participariam como iguais”, afirmou o ministro André Aranha Corrêa do Lago, negociador do clima do Ministério de Relações Exteriores, recém-chegado da reunião preparatória para a COP17, que terminou sexta-feira em Bonn, Alemanha.
Segundo o ministro, o objetivo do grupo de países em desenvolvimento é que na reunião de Durban no fim deste ano seja aprovado o segundo período de compromisso para o Protocolo de Kyoto, que vai de 2013 a 2018. “Os países em desenvolvimento estão muito claramente tentando assegurar que o Protocolo de Kyoto tenha o seu segundo período de compromisso”, disse.
Compromissos. Firmado em 1997, o Protocolo de Kyoto prevê compromissos distintos para os países desenvolvidos – que têm metas de redução de suas emissões de gases de efeito estufa – e os países em desenvolvimento.
O primeiro período do acordo expira no final de 2012. Rússia, Japão e Canadá afirmaram que não têm interesse em entrar no segundo período do acordo – pois os maiores emissores de CO2, China e EUA, não têm metas de corte em Kyoto.
Para Lago, no entanto, a posição dos três países não representa uma ameaça à continuidade do acordo. Ele ressalta que um fator poderá ajudar a dar continuidade a Kyoto: o texto poderá ser aprovado em Durban com o voto de 153 países. O acordo de 1997 contou com o aval de 192 nações. “Já não é obrigatório que todos (os países) concordem. As regras para a entrada no segundo período de compromisso são diferentes das regras do primeiro período”, diz.
O protagonismo do Brasil em um acordo para prolongar Kyoto seria um bom cartão de visitas para o País, que sediará, no ano que vem, a Rio+20, conferência das Nações Unidas sobre desenvolvimento sustentável (leia mais nesta página). Ontem, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) sediou reunião sobre o tema com o setor produtivo, governo e ONGs. “A participação do Brasil será a de contribuir com sua própria experiência na busca por uma economia verde”, disse Nelson Pereira dos Reis, diretor do Departamento de Meio Ambiente da Fiesp.
Medição de carbono vira diferencial competitivo
Sérgio Adeodato | Para o Valor, de São Paulo
20/06/2011
Atributos como alvura, textura e resistência marcam a qualidade do papel desde que os chineses o inventaram, há quase dois milênios. De uns anos para cá, no rastro da maior consciência ambiental e das pressões do mercado, a origem a partir de fontes recicladas ou produção sustentável passou a contar no valor do produto, que agora incorpora um diferencial estratégico capaz de interferir na decisão de compra: a pegada de carbono.
“É forte a demanda externa para a iniciativa, que permite comparar produtos e embute o compromisso com a redução de emissões de gases do efeito estufa”, aponta Marina Carlini, consultora de sustentabilidade da Suzano Papel e Celulose, empresa que saiu na frente ao medir o carbono associado às diferentes linhas de papel.
A metodologia PAS 2050, desenvolvida pelo Departamento de Meio Ambiente do Reino Unido e Instituto Britânico de Padrões, tem a chancela do Carbon Trust – certificadora internacional que atesta e valida emissões.
“É um trabalho que envolve desde os insumos florestais e fabris com suas emissões até a produção, comercialização, uso pelo consumidor e disposição final do papel após o descarte, abrangendo toda a cadeia”, explica Carlini. No caso da marca mais popular da empresa, uma folha de papel sufite vendida no Brasil está associada a gases equivalentes a 6 gramas de dióxido de carbono (CO2).
Em termos comparativos, toda emissão de gases-estufa do município de São Paulo corresponderia a cerca de 2,6 trilhões de folhas. O papel exportado para a Europa tem pegada de 8,5 gramas. Para os EUA, fica em 9,5 gramas, incluindo o carbono atrelado ao transporte e ao uso na região de destino.
“O mais importante não é o número em si, mas o claro aceno para o mercado sobre o propósito de reduzir emissões, pois o Carbon Trust obrigatoriamente recalcula os dados da empresa a cada dois anos, propondo cortes gradativos”, afirma. O selo Carbon Reduction Label, que estampa o desenho de um pezinho simbolizando a “pegada”, já está nas embalagens da Suzano ao lado dos emblemas da reciclagem e da origem socioambiental. “Para uma empresa que exporta 40% da produção de papel, chegar primeiro é importante no cenário de concorrência acirrada”, atesta Adriano Canela, gerente de estratégia e marketing. “É uma questão de credibilidade”, diz o gerente, também válida para a celulose da empresa, 80% exportada. Vendida para a China, cada tonelada de celulose produzida em Mucuri (BA) “carrega” gases equivalentes a 900 quilos de CO2. Para a Europa, a pegada cai para 750 quilos.
“A gestão do carbono funciona como um raio X de todo o processo de produção e, a partir da pegada de carbono, podemos detectar pontos críticos e mapear oportunidades de redução para futuramente estabelecermos metas”, ressalta Canela. O próximo passo, segundo ele, é envo
lver no cálculo também a captura de carbono da atmosfera pelos plantios de eucalipto que alimentam as fábricas, o que depende de uma metodologia que tenha o consenso global. “Por conta da substituição de combustível fóssil na matriz energética, também olhamos para o mercado de crédito de carbono, mas é necessário aguardar as decisões dos países sobre o período posterior ao Protocolo de Kyoto, válido até 2012″, revela o gerente.
Mapas de carbono se tornaram rotina entre concorrentes, como a Fibria, que investe na medição sobre o potencial de suas florestas – inclusive as nativas. “As áreas de conservação têm grande poder de melhorar o balanço de carbono”, estima João Augusti, gerente de meio ambiente florestal. Para cada tonelada de gases emitida na produção, seis são sequestradas da atmosfera pelas árvores. A companhia segue a metodologia do GHG Protocol, que não faz cálculos sobre a matéria-prima e o uso dos produtos, restringindo-se às emissões das operações internas.
“Daremos prioridade à compra de insumos de quem estiver no mesmo processo”, revela João Augusti.

